Journey
18 Dieciocho
Notas iniciais
– Eu vou vomitar.
Dean bebeu a água de uma vez só e Sam recolheu o copo depressa. Muito lenta e dramaticamente, o Winchester mais velho se ajoelhou no chão e começou a recolher as duas partes quebradas de sua guitarra. Ruby e Lucy assistiam tudo, sentados na cama. O silêncio era mortal.
– F-foi um acidente. — Sam começou, colocando a mão sobre o ombro de Dean — Eu bati ela no chão, mas não era pra quebrar de verdade. E-eles me desafiaram a... — cada vez que tentava melhorar o discurso, a situação ficava pior — Não foi por querer, quer dizer... Qual é, Dean, é só uma guitarra...
– Eu vou te consertar, vai ficar tudo bem. — Dean sussurrou para o objeto.
– Não acredito que tenha conserto. — Lucy falou — Mesmo que você consiga, o som nunca mais vai ser o mesmo.
– Eu vou precisar de uma tesoura! — Dean berrou, ignorando o fato de que Sam estava bem ao seu lado.
– Esse idiota realmente acha que vai consertar uma guitarra com uma tesoura? — Ruby revirou os olhos.
– AGORA! — Dean insistiu, dessa vez ainda mais alto, assustando não só o irmão, mas os outros também.
– Arranja uma tesoura pra ele Ruby! — Sam gritou.
Muito por conta da vida, a garota se levantou e vasculhou duas gavetas até achar uma tesourinha de unha.
– Isso aqui serve?
Dean analisou o objeto nas mãos de Ruby e largou sua guitarra de lado por um instante.
– Serve sim. — colocou os dedos nos respectivos buraquinhos e com a outra mão, puxou um bom pedaço do cabelo de Sam, que começou a espernear.
– CALMA, DEAN, NÃO FAZ ISSO, NÃO FAZ ISSO!
Ruby começou a gritar por ajuda na porta, enquanto Lucy sacou seu celular do bolso e começou a filmar. A confusão só parou quando Gabriel apareceu e deu um tapão na mão de Dean, sem se preocupar com tesoura nem nada.
– Olha aqui, seu troglodita — Gabriel disse, apontando um dedo pra cara de Dean — eu compro uma guitarra nova pra você, mas não toca no cabelo dele! Estamos entendidos?
– Ok, mas...
– Pega sua guitarra e vai embora daqui!
– Mas Ga...
– Vai embora daqui! — Gabriel gritou
Dean então pegou seus pertences e saiu, desolado, pelos corredores. Era de fato só uma guitarra, mas havia o valor sentimental, claro. Os momentos bons e os momentos ruins que passaram juntos começaram a lhe vir a mente em forma de apresentação de slides malfeita com uma música triste de fundo.
Antes que o elevador fechasse, Gabriel o alcançou.
– Deano, desculpa gritar com você... — Gabriel falou e fez uma pausa até o elevador sair daquele andar — ...mas adivinha quem tem a eterna gratidão do Sammy? Hein? Hein? Isso. Euzinho.
– Poxa, que bom pra você. Minha guitarra ainda tá quebrada.
– Para de reclamar, já disse que te dou uma nova. Mas realmente seria um pecado cortar aquele cabelo. E eu até consegui tocar nas pontinhas durante o abraço! É tão macio quanto eu sonhava.
– Eu definitivamente vou vomitar.
– Você não tá entendendo, ele realmente usou as palavras "eterna gratidão". Eu devo ser algum tipo de herói pra ele agora. Inclusive, vou te passar umas fotos minhas, caso ele queira uma, tá?
– Vamos elevador, eu não aguento mais. — Dean começou a apertar o botão de número 30 compulsivamente.
– Não se reprima, Dean. — Gabriel lhe deu um abraço — Hoje é um dia lindo e a vida voltou a ter sentido!
Quando o trigésimo andar finalmente chegou, Gabriel saiu em disparada para sabe-se lá onde. Dean foi andando calmamente até a porta laranja.
Largou os dois pedaços da guitarra dentro da bolsa em um canto. Jogou-se na cama e sentiu como se tivesse alguma coisa debaixo de si, mas era só seu telefone dentro do bolso. Sempre se esquece da existência daquele aparelho.
A bateria já estava no finalzinho e o visor anunciava 37 chamadas perdidas. Tratou de desativar o modo silencioso de uma vez e colocar a campainha no mais alto possível.
Dean não esperou nem Bobby falar o primeiro "alô".
– Desculpa, desculpa, desculpa! Tá tudo bem comigo, com o Sam. É, eu já achei o Sam, só que a gente não pode voltar logo.
– "Dean, é você? Você já tá na Califórnia? Como você chegou até aí?"
– Tio Bobby, eu tenho pouca bateria, então eu vou falar logo. O Sam vai participar de um show de talentos esse sábado e logo depois a gente volta pra casa, eu juro.
– "Você tá louco?"
– Talvez. Olha, por favor, não diga nada disso pro papai ainda.
– "Menino, eu não sei mais o que falar pro seu pai. Ele vai achar que vocês estão seguindo a turnê inteira do Metallica."
– Isso, fala isso pra ele. Fala qualquer coisa pra ele.
– "Onde vocês tão? Vocês tão comendo direito?"
– Sim, sim, estamos bem, tipo, muito bem. Você tinha que ver esse lugar, tio Bobby. Dá de dez no Kansas inteiro. Não precisa se preocupar, eu vou contar tudo — quse tudo, ele se corrigiu mentalmente — quando eu voltar.
– "Vocês não tão fazendo nada errado, estão?"
– Defina "errado", tio Bobby.
– "Algo que seu pai não deixaria você fazer."
– Esse é um conceito bem interessante — Dean não gostava de mentir. Ele não tinha matado, nem roubado. Ele só bebeu (o que não era nenhuma novidade pro seu pai), pegou o trem da meia noite (quanto a isso, o que importa é que deu tudo certo), deixou Sam beber (o que podia ser considerado problema do Sam), quase foi preso (quase) e tinha beijado um cara (não tinha a mínima ideia da opinião de seu pai em relação a isso e nenhum interesse em descobrir, pelo menos até sábado). — Mas pensando aqui rapidamente, acho que não fizemos não.
– "Olha... Promete que vocês voltam inteiros?"
– Prometo. — se despediu e desligou. Por mais que sua guitarra não estivesse inteira, ele e Sam estavam e era isso que importava. O que não quer dizer que Dean desistiu de tentar consertá-la.
Passou o dia todo fora do hotel procurando um bom luthier que pudesse juntar as duas partes, mas nenhum dos lugares que visitou lhe dava muita esperança. Dean ainda gastou algum dinheiro comprando cordas e algumas ferramentas que julgou úteis para tentar alguma coisa sozinho. Já de volta ao quarto de hotel, passou horas e horas tentando, mas nada parecia funcionar.
Desabou na cama de tanta frustração.
– É, você não é mais o mesmo, Dean. — disse para si mesmo.
Ouviu batidas na porta, mas nem se importou em levantar para ver quem era. A porta abriu-se do mesmo jeito.
– Deano, levanta! O que você ainda tá fazendo aqui?! — Gabriel excalamava, ao tentar puxar Dean pelo braço.
– Como você entrou?
– Dã, eu tenho a chave de tudo.
– E por que você bateu então?
– Por educação — cansou de puxá-lo — Anda logo, você tá atrasado, atrasadíssimo.
– Eu... Eu não vou mais. — Dean anunciou.
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