Contundido e de orgulho ferido, me levantei. Sequei as lágrimas, atrapalhadamente, e, assim mesmo desci. De calça preta justa e com uma tshirt preta básica. Ao mirar o fundo da escada, vi o meu pai, que me sorriu largamente.

— Bom dia, filho! — lá proferiu ele, repleto de regozijo matinal.
— Bom dia. — respondi, inexpressivo.
— Que se passa? — ele inquiriu. Eu me afastei da sala, onde estaria a Hannah e chamei o meu pai para junto de mim.

— Ela agrediu-me de novo. — revelei, esperando alguma compreensão, que me foi logo desde o ínicio, negada.

Do nada já estava gritando comigo, com uma expressão de repulsa no rosto, o que me deixava triste. Como é que o meu próprio pai, não é capaz de acreditar em mim?

— Eu já pedi para não armar intrigas! Ela é boa pessoa. Quando é que você vai meter isso na cabeça? Meu filho, estou farto da sua falta de educação. — Ele estava gritando comigo, a modos que a Hannah ouviu e foi ter ao epícentro da repreensão.

— Então, que se está passando, Joshua? — perguntou, de voz dengosa, dirigindo-se a meu pai.

- Nada, querida. Eu revolvo isso. — ele respondeu sereno, mas logo me encarou novamente irritado.

— Agora você vai pedir desculpas. Já! — Ele me ordenou.

— Não. Jamais. Ela é uma rameira querendo roubar tudo o que você tem, até mesmo a sua dignidade! Ela não... — não me deixou terminar. Deu-me um tapa, deixando-me uma marca avermelhada no rosto. Eu não falei mais. Para quê falar, se sei que ninguém irá acreditar em mim? Desperdício de latim. Dirigi-me à porta, para ir cumprimentar o tal novo vizinho.

Meu pai vociferou algo, mas não ouvi nem quis fazer ideia sobre fosse o que fosse.

Andei até à casa de frente, em passos largos. Quando estou irritado, ninguém me apanha.

Espero que esse vizinho seja simpático.

E essa tradição de ir cumprimentar os vizinhos novos? Quem faz isso? É tão impertinente. Mas minha família quer sempre parecer bem aos olhos dos outros. Os retratos dos quadros e os retratos que os outros pintam acerca de nós, são bem diferentes da realidade. Para quê disfarçar todo o mal que a minha família produz? Estou tão farto.

Toquei à campaínha, sem qualquer ânimo.

Vi a porta abrindo e na frente dela, achou-se um homem alto, com alguns músculos delineados, cabelos loiros caídos sobre os ombros, dançado na pequena brisa calorenta que por ele passou. Seus olhos eram verdes.

— Boa tarde. — falei, mais uma vez, sem alento.

Ele se aproximou.

- Você é Jonathan Davis, o mocinho aqui da frente, certo? Sou Edward Rodgers. — ele me estendeu a mão
— Sim, sou. Bem-vindo. — exprimi quase por obrigação.
— Obrigado! Quer entrar? — ele me pareceu demasiado convidativo. Tenho receio de novas amizades. Ninguém é o que realmente aparenta ser.

— Não, obrigado. Tenho uns trabalhos para acabar. Boa tarde, vou indo. — respondi educadamente, claro, e voltei para o meu lar, amargo lar. Abri a porta e logo me encarei com Hannah. Olhei impávido para ela. São raras as alturas que me sinto mais forte; menos indefeso.

— Você quer arruinar minha vida, não é? — perguntei, nervoso.

Ela não respondeu. Parecia indiferente. Achei estranho. Deixei-a para trás e me dirigi para a sala.Estava lá meu pai... Claro, por isso ela nunca me iria responder, de forma sincera, claro.

— Então? Já foi conhecer? — meu pai me perguntou, como se há uns minutos nada tivesse acontecido.

— Fui. — respondi seco, tirando uma maçã da taça sobre a mesa.

— Ok. — se levantou. — Até logo.

— Onde você vai, pai?

— Vou com a Hannah a uma loja e vou dar as boas-vindas ao novo vizinho. Ainda fica a pensar que ninguém nessa família percebe de etiqueta. — antes de ele ter terminado a frase, perguntei, novamente desconfiado:

— Mas vocês não foram já?

— Não. Até logo, filho. — Ele saiu juntamente com Hannah.

E eu... eu dexei cair a maçã e gelei por completo. Eu pensei que já o conhecessem. Como ele sabia o meu nome?