Jonas

3 Capítulo Terceiro - Criando Laços


Assim que o sol se foi e eu despertei, tratei de me preparar para a chegada dela. Ainda não sabia o seu nome, mas ouvi seus amigos chamarem-na “Bela”. Um apelido apropriado, na verdade.

Sentei-me em uma das cadeiras, cobertas com um lençol branco empoeirado, e ela rangeu em protesto.

Eu estava impaciente, e um pouco mal-humorado. O que aquela garota poderia querer, afinal? Poupar a vida dela não uma, mas duas vezes não tinha sido o suficiente? Ela precisava aparecer aqui uma terceira vez? Tinha que ser um sinal. Talvez eu devesse mordê-la e simplesmente acabar com isso.

A ideia me causou uma onda de prazer, e também de pavor. Eu não conseguiria mordê-la, embora a possibilidade me atraísse como um ímã. O motivo, eu temia nunca saber.

Enquanto eu debatia internamente, ela chegou. Banhada pela lua cheia, a jovem Bela entrou e olhou para mim, arrastando uma das cadeiras decrépitas para o foco de luz. Dessa vez usava uma bermuda justa, acima dos joelhos, um par de tênis brancos e uma blusa de manga comprida branca estampada com pequenas flores violetas.

— Você veio, afinal — resmunguei, surpreso.

— Eu disse que viria — respondeu ela, sorrindo.

Eu não pude evitar sorrir de volta. Seus olhos verdes, destacados pelo cabelo preso atrás da cabeça, simplesmente despertavam algo em mim que parecia nunca haver sentido. Ou talvez ter sentido há muito tempo, quem sabe…

Mas eu tinha que me controlar. Não era o momento para divagações.

Pigarreei e decidi continuar a conversa:

— Eu nunca duvidei. Mas ainda me pergunto o porquê de você querer tanto vir aqui. De novo. Não tem mesmo medo de morrer?

Ela deu de ombros, displicente, embora seu coração tenha acelerado discretamente.

— Você não me matou, matou?

— Eu já disse que não matei ninguém.

— Além disso — ela continuou, me ignorando — vai ter que me explicar como fez aquilo com os meninos, e o que você fez com todo aquele sangue.

Por muito pouco meu queixo não caiu com aquela pergunta absurda.

— Como assim? Eu bebi!

Ela cruzou os braços, incrédula.

— Vai me dizer que é um vampiro?

O deboche em sua voz era inacreditável!

— Eu sou um vampiro, Bela!

Uma sobrancelha se ergueu em sua testa.

— Ah, então sabe o meu nome.

— Ouvi seu amigo dizer, na noite em que vieram aqui.

— Mas… eu ainda não sei o seu — concluiu ela, inclinando-se para frente.

— “Fera” é o suficiente — retruquei, de má vontade.

Ela reprimiu um sorriso, o que me deixou furioso. Criança teimosa!

Determinado a retomar o controle, decidi mudar o rumo da conversa.

— Bem, já que está aqui, me fale sobre você. Porque vieram aquela noite? Não têm medo deste lugar?

Ela se recostou na cadeira outra vez, e o barulho que aquela antiguidade fez deixou todos os meus músculos alertas.

— Nossos pais, nem tanto. Os mais velhos, como nossos avós, sim… mas alguns de nós, adolescentes principalmente, são um pouco mais… rebeldes, eles diriam. Além do mais, não acreditamos nessa história de lugar assombrado.

— Não acreditam… ou não acreditavam? — Perguntei, com um sorriso maldoso no rosto.

Ela sorriu corajosamente, e não ouvi seu coração vacilar daquela vez.

— Não acreditamos. Até porque, é impossível que você seja a Fera que aterrorizou meus pais anos atrás.

— Porque diz isso? Não viu o que eu fiz com seus amigos?!

Seu rosto exibia a tranquilidade de alguém que já tem respostas para todas as perguntas de uma conversa.

— Eu admito, foi estranho, e eu ainda vou descobrir como fez isso. Mas meus pais morreram quando eu era pequena. Foram mortos por uma matilha de lobos, enquanto colocavam o gado de volta no cercado.

Suspirei. Ataques de lobos eram comuns naquele lugar, alguns anos atrás. Na verdade, foi o motivo pelo qual eu decidi simular ataques de animal. Então, era muito provável que eles realmente tivessem sido mortos por lobos durante a noite. Ter que admitir aquela possibilidade, é claro, me deixou muito desgostoso. Oh, céus.

— Bem, acho que eu não fui, de fato responsável pela morte dos seus pais.

— Eu disse.

Ela parecia bem satisfeita consigo mesma.

Me levantei, com uma postura orgulhosa. Não estava disposto a perder aquela pequena disputa.

— Mas isso não muda o fato de que sou sim, a Fera que seus velhos tanto temem. Na verdade, só não matei seus amigos por sua causa.

Isso pareceu chamar sua atenção.

— Por minha causa?

— Exato. A loucura não cairia bem neste rostinho tão belo.

Ri com suavidade, e pude ver seus olhos vidrados na direção do som. Eu sabia que o som da minha voz era quase irresistível para mortais. Certas coisas nunca mudam, de fato.

Seu coração disparou ao ouvir as notas suaves, mas ela fechou a cara logo em seguida, desviando o olhar de mim. Criança teimosa.

— Que bobagem. Acha que eu sou uma criança? Eu já sei cuidar de mim, obrigada.

Eu sorri, até que algo me passou pela cabeça.

— Então, creio que você já tenha criado laços com alguém?

Ela voltou a olhar em minha direção, confusa.

— Criar… laços?

— É… creio que algum jovem rapaz já a tenha… cortejado.

Ela continuou olhando como se eu falasse grego. Frustrante.

— Por Deus, o que vocês aprendem hoje? Eu quero dizer... interesses românticos. Já teve algum?

— Ah, você quer dizer namoro? Não, nunca namorei. Mas já fiquei com um menino ou outro.

— Como assim, “ficou”? Soa tão… promíscuo. Do que se trata?

— Bem, é quando você beija outra pessoa, sabe, sem compromisso… só por beijar.

A ideia de que um homem, qualquer homem, a teria beijado ou mesmo tocado nela sem nenhum tipo de compromisso me deixou chocado. E furioso também. Foi algo tão intenso que levei dois segundos para me recompor.

— Que horror! E fazem isso sem nem ao menos se conhecer, ou ter afinidade?

— Sim, tem sido assim nos últimos… trinta anos, eu acho.

— Que tragédia! O que será dos seus filhos se continuarem assim?

Um sorriso escapou de seus lábios.

— Até eles nascerem, os tempos terão mudado. É passageiro, eu acho.

Suspirei. A humanidade só faz decair, definitivamente.

Encarei seus olhos que tentavam me distinguir da escuridão.

— Então, há algo sobre mim que você… bem… gostaria de saber?

— Hum… — ela pareceu pensar alguns segundos. — Me conte sua história. Como chegou aqui? Quer dizer, porquê vive nesse casarão abandonado?

Me pus a contar a minha história de vida para ela. Como cresci na casa dos meus pais, um pouco maior do que esta, na época em que o Brasil era pouco mais do que o Rio de Janeiro, como fui sequestrado, minha noiva morta, o encontro com a cigana e minha caminhada sem fim pela noite mundo afora, procurando pelas raízes do meu mal, e uma cura, além do meu novo verdadeiro amor.

Ela respirou fundo, como se estivesse absorvendo toda a informação.

— Então, você supostamente é um vampiro, tem mais de duzentos anos e passou toda a sua… existência procurando o amor da sua vida?

“Supostamente”. Que humilhante, cair em descrédito!

— Sim. Foi um resumo rude, mas creio que seja isso.

Se ela notou a alfinetada, ignorou.

— E você… nunca encontrou?

— Não — suspirei. Certas coisas nunca são fáceis de contar. — Por um tempo, achei que estaria entre os que eram como eu, mas nunca consegui me encaixar. Logo aprendi a viver entre os humanos, absorver suas culturas, mas viver sem poder criar raízes também se tornou insuportável. Decidi voltar para o país em que havia crescido. Espalhei a lenda da Fera para que pudesse me alimentar, mas quando os lobos se tornaram raros, tive que me retirar dentre vocês, e… aqui estou eu.

— Uau, você tem bastante história. E você… nunca sai daqui?

— Só para caçar, mas mesmo assim raramente. Aprendi a sobreviver de… ratos.

Ela ergueu uma sobrancelha e eu entendi o que ela quis dizer. Minha vida era lamentável, mas o que fazer? Tinha a estranha certeza de que o mundo lá fora estava perdido para mim.

A essa altura, a lua já havia se movido para longe da janela, enquanto o céu tingia-se de um tom púrpura muito suave. Comecei a sentir a familiar sonolência pesar em meus olhos.

— O sol logo nascerá.

Ela olhou para fora, confusa.

— Mas ainda está escuro. Devem ser umas quatro da manhã.

— Sentimos essas coisas com muita antecedência — disse, me levantando com um pouco de pressa. — Além disso, você deveria estar dormindo. Deve ter compromissos amanhã.

Ela esticou os braços para o alto, enquanto fazia uma careta.

— Que nada, estou de férias. Não preciso me preocupar em acordar cedo pelo menos até o final do mês.

Sorri, enquanto apreciava a visão daquela criaturinha teimosa.

— Acho que nos vemos amanhã, então.

Ela sorriu, satisfeita com o meu conformismo.

— Ah, com uma condição.

Eu já estava a ponto de subir as escadas quando me virei, surpreso.

— Condição?

— Chega de ficar aqui dentro. Vamos nos sentar do lado de fora, dar uma volta. Você precisa de ar fresco.

— Eu não acho que seja uma boa ideia, em definitivo.

Ela fez pouco caso das minhas ressalvas.

— Não seja tão medroso, vai ser divertido. Nos vemos amanhã.

Sem esperar pela minha resposta, Bela saiu pela janela e desapareceu. Um tanto desconcertado com o rumo que as coisas tinham tomado, subi para o meu quarto e deitei-me em meu caixão.

Na noite seguinte, ainda remoendo a nossa última conversa, desci para a sala, mas ela não estava lá.

Com uma mistura de surpresa e decepção, perguntava-me porque ela não teria vindo, quando ouvi passos e um ritmo cardíaco que já estava começando a se tornar muito familiar. O sorriso, me envergonho em dizer, veio a reboque.

— Você veio!

— Achou mesmo que eu não viria? — Perguntou ela, sorrindo e espiando pela janela. — Eu disse que ia te levar para dar uma volta.

Revirei os olhos, aborrecido.

— Você ainda mantém essa ideia fixa.

Seu sorriso aumentou.

— Claro!

Ela parecia realmente estar se divertindo com a hipótese. Sádica.

— Agora venha, vamos!

— Você… não vai entrar? — Perguntei, me aproximando com cuidado da janela.

Ela balançou a cabeça em negativa.

— Eu não vou te dar a chance de me prender aí dentro. Venha, você prometeu.

Ela estendeu a mão, como um convite.

— Eu não me recordo de tal promessa — resisti, disposto a ser tão teimoso quanto ela.

— Bem, então ok, eu vou embora — falou ela, recolhendo a mão e se afastando da abertura.

— Não! Espere!

Me precipitei pela janela, e assim que me vi do lado de fora, congelei por um instante. Bela, que usava um par de calças azuis, tênis, blusa branca e uma jaqueta jeans, era banhada pelo luar, que cobria tudo com seu manto prateado.

Eu podia sentir a brisa suave soprar entre os meus cabelos, balançando-os diante dos meus olhos.

— Viu? Não doeu.

Me arrumei como pude, passando a mão na testa e jogando os fios revoltos para trás.

— Ainda é cedo para dizer.

Ela estendeu a mão, sorrindo.

— Venha comigo.

Hesitei por um instante, tomado de súbito pela curiosidade.

— Porque está fazendo isso?

Ela parecia confusa.

— Isso o quê?

— Vir aqui todas as noites. Não pode ser pura teimosa.

Ela parecia sem graça, e hesitou algumas vezes antes de responder.

— Vir aqui foi a coisa mais interessante que aconteceu nas minhas férias. Achei que seria interessante saber mais… sobre você.

Não pude conter um sorriso. Então, ela estava interessada em mim? Era reconfortante saber que algumas coisas nunca mudam.

Seu rosto ficou vermelho, e ela pareceu perder um pouco a paciência.

— Ora, não seja tão convencido! É curiosidade, pura e simples!

— Eu jamais insinuaria outra coisa, minha cara — respondi, com o ar mais inocente que consegui fazer.

Por fim segurei sua mão, quente e convidativa, e segui-a até uma colina próxima. De lá, era possível ver a minha casa e o caminho até a cidade.

— É impressionante! A cidade cresceu tanto desde a última vez que a vi…

Bela ficou chocada com meu comentário.

— O quê? Ela é minúscula! Como pode ter sido menor do que isso?

Sorri, ainda fitando o horizonte.

— Vocês, jovens, são bem mais ambiciosos do que eu era no meu tempo.

— E quais eram suas ambições?

Dei de ombros, me sentando no chão.

— Seguir com os negócios de exportação do meu pai, casar com Elizabeth, ter uma família, filhos…

A lembrança súbita de que Elizabeth estava perdida para mim para sempre e que eu nunca mais poderia ter filhos quase arrancou lágrimas dos meus olhos.

— Está tudo bem? — Perguntou ela, diante do meu silêncio súbito.

— Sim, desculpe. Tenho o péssimo costume de ser emotivo às vezes.

Ela sentou-se ao meu lado, sorrindo.

— Não é um costume tão ruim assim.

Sorri de volta. O céu profundo e escuro atrás dela emoldurava perfeitamente o pequeno rosto, um tanto infantil, destacando seus olhos esverdeados.

— Você tem um belo sorriso.

— Hum… obrigado.

Desviei o olhar para frente, sem graça. Teria ficado corado, se já tivesse me alimentado. Assim que tomei conhecimento do fato, minha garganta se fechou.

— Preciso me alimentar — murmurei, olhando para baixo. Ia acabar matando aquela menina se continuasse a ser tão imprudente.

— Permita-me… — eu insinuei, apontando para o campo.

— Ah, sim, claro. Eu espero aqui.

Decolei em direção ao vale abaixo de nós. Dois bezerros geralmente me satisfaziam; um boi ou dois, se eu estivesse excepcionalmente nervoso. Decidi-me pelo boi. Não queria arriscar mordê-la.

O pensamento me fez rir e quase engasgar com o sangue que estava bebendo. Que vampiro, no mundo, não iria querer machucar uma menina frágil e indefesa como ela?

Eu havia enlouquecido, definitivamente.

Voltei alguns minutos depois, e encontrei uma Bela confusa.

— Como… como fez isso?

— Isso o quê?

— Ninguém conseguiria correr tão rápido.

— Um vampiro conseguiria.

Bela apenas revirou os olhos.

— Isso não pode ser possível. A falta de iluminação deve ter me pregado uma peça.

Respirei fundo, um gesto meramente simbólico apesar de eficiente.

— Você realmente é difícil de convencer, não é?

Ela assentiu, muito satisfeita consigo mesma.

— Você não faz ideia.

Me certifiquei de não ter nenhuma mancha de sangue ou algo parecido antes de sentar. Ela apontou para mim com um sorriso de vitória no rosto.

— Há! Você está corado! Vampiros não têm mais sangue fluindo pelo corpo.

Eu sorri com sua ingenuidade.

— Efeito do sangue recente. Não vai durar.

— Aham, sei. Mas cai bem em você. Sabe como é, te deixa mais… normal.

Dei um pequeno sorriso.

— Sim, eu sei. Eu quase pareço com o que eu era. Fica mais confortável também — disse, estendendo-lhe a mão.

Ela a pegou com cuidado, e entrelaçou seus dedos entre os meus. Estavam quase tão quentes quanto os dela.

Ficamos assim por algum tempo, quando eu ouvi um grunhido que me chamou a atenção. Pensei ser algum animal, mas não parecia vir de nenhum lugar em volta.

Então, com um leve sobressalto, percebi que o som vinha dela.

— Você… está com fome?

Ela parecia surpresa e envergonhada.

— Sim, um pouco. Como sabe?

Bati na minha orelha.

— Super audição?

Ela revirou os olhos. Estava começando a achar graça em sua teimosia.

Enquanto ajudava Bela a se levantar, percebi um par de olhos nos observando à distância. Estava longe demais para qualquer humano ver, mas eu conseguia distinguir com clareza aquele par de olhos vítreos, castanhos, me observando.

Como os olhos de uma boneca na escuridão.

— Que cara feia. Tudo bem? — Bela perguntou, assustada.

Tranquilizei-a e então, quando voltei meu olhar para o lugar onde a tinha visto, não havia mais nada. Eu a reconheceria em qualquer lugar, e ela sabia disso.

Mas era impossível. Ela não poderia ter me seguido tão longe, e por tanto tempo.

— Tem certeza? Você parece tenso…

Dei-lhe o meu melhor sorriso, e pude perceber pela leve alteração em seus batimentos que havia acertado em cheio.

— Sim, está tudo bem. Agora venha, vamos arrumar algo para você.

Fomos até o pomar de uma das fazendas familiares próximas dali, e peguei algumas maçãs e laranjas. A maioria dos vampiros sente nojo da comida humana, mas eu sempre a achei fascinante. Aprendi a cozinhar os mais diversos pratos das mais variadas culturas, e ficava encantado toda vez que o aroma de uma fruta fresca me vinha às narinas.

Saber, no entanto, que jamais sentiria apetite em comê-las de novo me deixava um tanto melancólico nos dias em que eu estivesse excepcionalmente emotivo.

Quando Bela finalmente parecia satisfeita, voltamos para minha casa.

— E então? Se divertiu? — Perguntou ela, espalmando as mãos na jaqueta.

— Sim, foi… estimulante — murmurei, de costas para que ela não me visse sorrindo como um idiota.

Entrei pela janela e virei-me para ela.

— O sol vai nascer em breve. Acho que você deveria voltar para casa.

Ela pegou o celular e me encarou, descrente.

— Ainda são três da manhã. O sol não nasce tão cedo. Do que está com medo?

De matar você por acidente, pensei com a garganta em chamas.

— Eu só achei que você gostaria de descansar — foi o que respondi.

Ela ergueu a sobrancelha para protestar, mas talvez seu cansaço tenha falado mais alto, pois ela bocejou logo em seguida.

— Tudo bem, você ganhou dessa vez, Fera.

Ela se virou e começou a se afastar.

— Jonas.

Bela se deteve e olhou para mim.

— O quê?

— Meu nome. É… Jonas.

Ela abriu o mais brilhante dos sorrisos, fazendo meu coração acelerar.

— Nos vemos amanhã então… Jonas.

Ouvi-la pronunciar meu nome mexeu comigo de formas que eu nem imaginei serem possíveis.

Dancei pela sala em ruínas antes de subir a escadaria, pulando sobre os degraus decrépitos, que rangiam exigindo mais cuidado. Ah, nunca havia me sentido tão feliz e completo! Era quase um sonho ter sentimentos como aquele, cálidos e reconfortantes! Seria a felicidade, enfim?

Estava tão perdido em devaneios, pensando em quando a veria de novo, que não percebi a aproximação de uma velha conhecida, que batia palmas para mim no andar de baixo.

— Quem diria, quem diria… parece que, afinal, você achou seu tão ansiado verdadeiro amor.

Me virei abruptamente, deixando meu olhar cair em direção à sala. Que visão bela e terrível! Dantesca demais para ser real.

Suas calças de couro haviam sido substituídas por jeans, igualmente justos e provocantes; sobre o torso delgado, uma blusa comprida de tecido branco. O número de pulseiras em seus pulsos havia diminuído desde a última vez que a vira. Sim, fazia muito tempo, mas eu jamais a conseguiria esquecer.

— Fernanda! O que veio fazer aqui? Como me encontrou?

Ela sorriu graciosamente, como se estivesse diante de uma criança que foi pega fazendo o que não deveria.

— Ah, eu nunca o perdi, mon cher. Achou mesmo que eu o deixaria fora da minha vista?

A verdade assentou sobre mim como um soco no estômago. Ela sempre esteve lá. Me vigiando. Seguindo os meus passos. E talvez, se certificando de que eu nunca encontrasse alguém.

— Ora, não seja ridículo! Porque eu lhe lançaria uma maldição e tentaria impedir que ela se concretizasse? Não, ficar sozinho não é bom o suficiente para você!

Me assustei. Fernanda talvez fosse melhor em ler expressões do que eu imaginei.

Pulei do segundo andar, aterrissando em frente a ela, que me olhava com um sorriso mesquinho no rosto.

— Eu juro que se tocar em um só fio de cabelo dela…

— Poupe-me das suas ameaças, meu Romeu.

Ela então se aproximou de mim, com o mesmo cheiro doce e acre que eu senti naquele primeiro dia, e que mais tarde descobri ser efeito da magia que a impregnava, e seus lábios roçavam minha orelha enquanto ela sentenciava:

— Até porque a minha intenção é fazer com que todos possam tocá-la. Menos você.

Sua gargalhada ecoou pela velha construção, e em um piscar de olhos ela havia desaparecido.

— Maldita! Sua bruxa infernal! — Gritei para a casa vazia.

Arrasado, me arrastei degraus acima em direção ao meu leito fúnebre. Por alguns fugazes e breves instantes, eu havia esquecido completamente do sortilégio que pairava sobre mim. Pensei, por preciosos segundos, que eu de fato pudesse ser feliz. Que miserável criatura eu era!

Naquele momento tomei uma decisão drástica: Não poderia me apaixonar por Bela de jeito nenhum.

O problema com esse plano, pensava eu enquanto adormecia, era que talvez já fosse tarde demais para executá-lo.