Jonas

4 Capítulo quarto – mudando de ares


Notas iniciais
Descrições moderadas de violência. Nada chocante, mas ainda assim...

Na noite seguinte eu despertei excepcionalmente faminto e de mau humor. Decidi me alimentar antes que ela chegasse, esperando que isso me deixasse menos ranzinza.

Me sentia, se não melhor, um pouco menos pior quando ela chegou.

— Jonas? Você está aí?

Eu estava sentado em uma das velhas cadeiras que haviam resistido aos anos.

— Estou aqui. Espere, o que tem aí dentro?

Ela atravessou a janela com uma grande sacola branca de plástico.

— Eu pensei em te levar um pouquinho mais longe dessa vez.

Levantei, desconfiado.

— O que essa mente ardilosa andou tramando, mocinha?

Seu sorriso dúbio fez um alarme disparar dentro de mim.

— Quero te levar para dar uma volta comigo na cidade.

— Fora de cogitação — decretei.

— Vamos lá, por favor…

Ela fez um pequeno biquinho enquanto seus olhos cresciam, brilhantes e pidões. Céus! As mulheres nunca mudarão?

Respirei fundo, sabendo que estava vencido mesmo antes de protestar.

— Que fique claro que eu estou sendo coagido a sair daqui, e que qualquer pescoço ferido é sua responsabilidade.

Ela sorriu e jogou a sacola plástica sobre o meu colo. Olhei para ela com evidente desdém.

— O que espera que eu faça com… isso?

— Não pode sair por aí usando roupas do século retrasado. As pessoas vão notar.

— Era só o que me faltava…

Enquanto resmungava e subia para me trocar, pude ouvi-la dizendo para que eu não demorasse. Mulheres.

E quem disse que foi fácil? Abotoar uma casaca por cima de duas blusas de linho era mais fácil do que entrar naquelas calças ridículas!

Troquei minhas calças de seda feitas sob medida por jeans padronizados; meus sapatos de couro romeno por um par de tênis all-stars brancos, e minhas blusas de linho e algodão por uma de malha branca e um moletom vermelho. Desci as escadas com a nítida sensação de que o tecido das calças queria se fundir às minhas juntas.

— Eu me sinto ridículo.

Ela simplesmente me olhava, sem falar nada.

— Preciso me trocar agora — disse, me virando em direção à escada.

— Não seja ridículo, você está lindo.

Parei e virei-me para ela, surpreso.

— Sério?

— Sim…quer dizer… ah, vai servir. Vamos.

Ela balançou a cabeça por algumas vezes enquanto ficava corada. Por Deus, ela estava corada?

— Vamos, a noite não vai durar para sempre.

Saímos pela janela aberta e descemos a pequena colina em direção à cidade. Meu coração começou a bater acelerado dentro do peito. Estaria com fome, ou seria só… ansiedade? Vampiros podem ficar ansiosos? Eu não fazia ideia.

— Acho que vou matar outro carneiro… só para garantir.

Ela reprimiu um sorriso enquanto revirava os olhos. Ainda não acreditava em mim, a pobre criança.

— Acho que você está quente o suficiente. Só não está muito corado.

— Eu volto já.

Antes que ela pudesse falar qualquer coisa, voei em direção à fazenda mais próxima, e segundos depois de me lançar sobre o gado pude sentir o sangue correndo pelo meu rosto e mãos. Quando voltei, ela estava esfregando os olhos.

— Ainda vou descobrir como você faz isso.

Encolhi os ombros, sorrindo.

— Como você realmente faz isso.

A cada noite sua incredulidade me parecia mais e mais divertida.

— Enfim, minha aparência. Melhor?

— Quase humano.

— Perfeito.

Voltamos a andar, e logo estávamos em meio às casas e comércios.

Tudo havia mudado muito desde que eu havia posto o pé ali pela última vez. Era… estranho e, ao mesmo tempo, reconfortante. Passamos por lojinhas que vendiam qualquer coisa que fosse doce e comestível. O cheiro de açúcar e melado invadia as pequenas ruas de pedra. Respirei fundo, satisfeito com a doçura do ar, quando um novo aroma, mais ácido do que o primeiro, se aproximou por trás de nós. Ciúme…

— Bela?

Virei-me em direção à voz masculina e vagamente familiar.

— Samuel?

Bela parecia tão surpresa quanto eu.

Era um dos meninos que invadiram minha casa junto com ela. Os cabelos eram castanhos, e junto com os olhos azulados combinavam bem com o porte relativamente atlético. Era dele que vinha o aroma ácido impregnando o ar. Podia ser muitas coisas: orgulho, arrogância… mas provavelmente eram ciúmes. Dá para sentir esse tipo de coisa no ar, literalmente, quando você tem os sentidos à flor da pele.

E, honestamente, quem poderia culpá-lo por sentir ciúmes dela?

— Ei, Bela!

Ele se aproximou, sorrindo, e a abraçou. Não pude deixar de notar que seu sorriso ficou um pouco mais forçado quando ele notou a minha presença, e tive que lutar contra o impulso de apresentar minhas presas a ele.

— Quem é o seu amigo?

Bela olhou para mim, e encontrou um sorriso impecável em meu rosto.

— Ah, esse é o…

— Jonas. Muito prazer — completei.

— Ele não é daqui — ela acrescentou, enquanto nos encarávamos.

— Mesmo? De onde ele é?

Ele colocou as mãos nos bolsos antes de se aproximar, estufando o peito. Inacreditável.

— De longe — eu respondi, antes que Bela pudesse dizer qualquer coisa.

— Quão longe? — Ele resmungou.

Com certeza mais longe do que você já foi, seu moleque.

— Muito longe.

Ele me encarou, e senti seu coração disparar, enquanto as narinas dilatavam. Se era sangue que ele queria…

Bela, sabiamente, decidiu intervir.

— Eu estou mostrando a cidade para ele. Depois nos falamos, pode ser?

Surpreendido com a mão dela em sem ombro, ele abriu um sorriso vacilante.

— Sim, claro. Até mais, Bela.

— Até — despediu-se ela, com um sorriso no rosto.

Viramos e seguimos nosso caminho, apesar de eu quase sentir o olhar dele queimando um alvo na minha nuca.

— O Samuel parece gostar muito de você — comentei.

— O que você quer dizer com isso? — Perguntou ela, desconfiada.

— Nada, nada. Eu só achei que ele ficou muito feliz quando te viu, e nada contente quando viu que não estava sozinha.

Ela deu de ombros, fazendo pouco caso.

— Não seja ridículo, somos apenas bons amigos.

Abri um pequeno sorriso, que chamou a atenção de algumas garotas que passavam na direção contrária. Limitei-me a olhar para frente. Afinal, os anos passam, mas certas coisas nunca mudam. Entretanto, não era nelas que meu interesse repousava.

Bela empurrou meu braço com o dela quando as meninas se afastaram.

— Olha só ele, que garanhão.

Sorri, olhando para o chão.

— Sabe, eu fui um garoto relativamente tímido quando ainda era humano.

— “Era humano” — repetiu, fazendo aspas com os dedos. — Parece que anos de vida e viagens tiraram toda a vergonha de você, não é?

Olhei para ela, e o sorriso em seu rosto era insinuante.

— O que está querendo dizer com isso?

Bela simplesmente deu de ombros, com um ar inocente.

— Nada, nada. Vamos, ainda tem muito mais para ver.

Aquela parte da cidade, em particular, tinha sido propositalmente conservada para que os visitantes tivessem uma pequena noção de como era a vida alguns anos atrás. O centro era muito mais moderno, com ruas asfaltadas, sinais de trânsito digitais e prédios altos e espelhados.

— Parece uma daquelas cidades grandes — comentei, olhando para cima.

— Uma réplica em miniatura, você quer dizer.

— Realmente acha a sua cidade pequena? — Perguntei, incrédulo.

— Claro, quem não acharia? Meu sonho é sair daqui um dia, morar na capital, ou quem sabe conhecer outros estados… talvez até viaje para fora do país.

Não pude deixar de notar o brilho que acendia seus belos olhos enquanto ela falava. Podia ouvir seu coração palpitando com a expectativa dos sonhos e planos não realizados.

Suas bochechas estavam coradas com a brisa fria que soprava, e passou pela minha cabeça que era relativamente tarde, embora o centro ainda estivesse bem movimentado.

— Você… está com frio? — Perguntei, tentando desviar meu olhar dela.

— Hum? Ah não, obrigada. Eu gosto da sensação do vento no rosto. Faz com que eu me sinta bem… livre.

Mordi o canto do lábio inferior enquanto observava uma figura tão pequena e graciosa como ela caminhar em meio àquela arquitetura moderna e opressiva, cheia de espelhos e linhas retas.

Paramos em um cruzamento, e esperamos o semáforo nos dar passagem enquanto observávamos os veículos que rodavam, guiados por motoristas completamente alheios à nossa presença e concentrados em seus caminhos. Uma alegoria da vida moderna, talvez?

— Então, tem algum destino em mente? Ou só vai me levar por aí, como um turista desavisado?

Ela refletiu por um instante, se divertindo com a possibilidade.

— Olha, até que não é uma ideia ruim. Eu poderia até bater a sua carteira, se você tivesse dinheiro. E uma carteira — disse ela, rindo.

— O dinheiro que tenho não caberia numa carteira.

Isso pareceu surpreendê-la.

— Ah, é mesmo? E quanto seria, senhor bilionário?

O sinal fechou, e voltamos a caminhar.

— Eu não diria “bilionário”, mas consegui reter parte do dinheiro que peguei do meu pai quando fugi de casa. Pude fazê-lo render um pouco, e angariei uma pequena fortuna.

— Hum, que interessante. Espera, então as lendas são reais? O que fez com esse dinheiro?

Chegamos à outra calçada, e depois de seguir em frente por alguns passos, viramos à esquerda, numa ruazinha estreita fechada para o tráfego de veículos, pavimentada com blocos de pedra suavizados ao longo dos anos por milhares de pés pacientes.

— Que lendas? — Perguntei, curioso.

— Dizem que tem um tesouro escondido dentro daquele casarão. Ninguém nunca teve coragem de ficar muito tempo lá dentro para descobrir, mas todo mundo jura que é verdade.

Sorri, pensando que eles estavam todos certos, mas jamais encontrariam um centavo.

Ao longo do caminho, vários bares e pequenos estabelecimentos abrigavam pessoas do vento e do frio, com mesinhas redondas de madeira e bancos estofados que davam um ar acolhedor e boêmio às calçadas estreitas. Pessoas de todas as maneiras se encontravam nos estabelecimentos, e embora a maioria vestisse calças e blusas de manga, alguns corajosos usavam apenas bermuda e camiseta, contando com o álcool para ficarem aquecidos; haviam também aqueles vestidos de maneira mais social, provavelmente apreciando um momento com os amigos depois de mais um dia de trabalho.

— Quanto ao dinheiro, eu não o gastei, na verdade. Quer dizer, não como era esperado que eu gastasse. Pensei em guardar para dividir com alguém especial, mas… bem, você sabe.

Ela assentiu, olhando para mim.

— Um vampiro e um tesouro escondido… acho que a minha cidade não é tão sem graça, afinal.

Ri da observação, e um momento confortável de silêncio se instalou no ar. Ela segurou meu braço com as duas mãos, seu toque suave me fazendo sorrir, e eu me peguei desejando estar sem o casaco para aproveitá-lo melhor. Talvez sem roupa alguma, explorando todos os segredos que as curvas daquele corpo teriam a oferecer…

O pensamento, súbito e lascivo, levou meu olhar para ela, que retribuiu desconfiada.

— O que foi?

— Nada — respondi, na voz mais neutra que eu consegui encontrar.

— Se você fosse humano, teria ficado vermelho de vergonha.

— Ok, culpado — respondi, com um sorriso torto.

Ela estremeceu leve, mas perceptivelmente com a brisa serena que passou entre nós. Sem pensar muito, envolvi sua pequena cintura com meu braço, e a trouxe para perto de mim.

— Acho que ainda sou capaz de aquecer alguém.

Ela sorriu e apoiou sua cabeça em meu ombro, que logo voou de volta à posição original enquanto um brilho de inspiração iluminava seu rosto.

— Já sei onde te levar. Vamos!

Ela então me puxou, incitando-me a correr também. Depois de alguns minutos, cansada, voltou a andar normalmente.

— Já desistiu?

Ela olhou para mim com uma ruga na testa, que brilhava com o esforço de segundos atrás.

— Eu sou uma adolescente sedentária. Por favor, respeite as minhas limitações.

Sorri, inclinando minha cabeça.

— Mil perdões, minha cara. Por favor, guie-nos.

Andando, seguimos até o outro extremo da cidade, parando em uma pequena praia, que estava deserta.

— O que estamos fazendo aqui?

Ela sorriu e continuou andando até sentar na areia, observando o horizonte.

— Eu sempre venho aqui quando preciso ficar sozinha ou pensar. À noite, quando não há nuvens no céu, é a coisa mais linda que há para se ver.

Eu poderia facilmente discordar daquela afirmação com ela ao meu lado, mas me limitei a olhar para frente e abrir um pequeno sorriso.

— É ainda mais lindo quando o sol nasce, mas… acho que você não poderia ver, sabe, com toda a coisa do vampirismo, e tal.

Suspirei enquanto notava o ceticismo em sua expressão. Criança teimosa!

— Você realmente não acredita em mim, não é mesmo?

Ela deu de ombros, condescendente.

— Não me leve a mal, você é convincente, mas… um vampiro escondido aqui, no meio do nada? Não faz muito sentido.

Dei uma risada curta. — Falando assim, realmente não soa muito coerente. Mas… o que você estava dizendo sobre o nascer do sol?

Se ela percebeu a mudança proposital de assunto, não comentou a respeito.

— Ah sim, é lindo aqui. Um dos meus passatempos favoritos. Adoraria que você o visse.

Sorri, saudoso de outras épocas.

— É realmente uma pena. Mas acredito em você. Sempre adorei ver o sol nascer.

— Sério?

Assenti.

— E poentes também. Acho que tenho alma de poeta. Ou tive, não sei.

— Sabe, é estranho quando faz isso.

Olhei para ela, confuso.

— Isso o quê?

— Isso… falar como se estivesse morto, ou não tivesse certeza disso. Como se fosse uma coisa.

— Mas, Bela… eu estou morto. Na melhor das hipóteses, sou alguma coisa que existe entre os estágios conhecidos como “vida” e “morte”.

Ela bufou, impaciente.

— Nunca vai cansar dessa brincadeira?

Respirei fundo. Naquele momento, não havia nada de gracioso ou divertido em sua teimosia.

— Não estou brincando, Bela. Sou um morto-vivo, essa é a verdade.

Ela parecia contrariada, mas não tocou novamente no assunto.

— Então… sobre não estar “morto” nem “vivo”… Não achou nada que elucidasse isso em suas “pesquisas”?

Dei de ombros, enquanto repassava todos aqueles anos na minha mente.

— Nada produtivo. Algumas teorias mais místicas dizem que quando somos mordidos o corpo morre, mas a mente é conectada a um tipo de força ou espírito, como queira chamar, maligno. Por isso, não podemos comer nada além de sangue, e a luz do sol é um veneno para nós.

— Acredita mesmo nisso?

— Não, sou um cético. Mas também acredito que um corpo humano que não necessita de funções básicas como respirar e produzir sangue não pode ser considerado exatamente vivo. Nem humano. Uma aberração, talvez.

Ela se aproximou de mim e encostou sua cabeça em meu ombro, entrelaçando suas mãos no meu braço.

— Você não é um monstro, Jonas. Pode achar que não é mais humano, e pode pensar ter sido uma Fera. Mas um monstro? Acho que não.

Olhei para ela, comovido. Seu ceticismo tornava sua tentativa de me consolar mais doce do que qualquer coisa. Nunca alguém havia visto a minha situação daquela maneira antes, nem mesmo eu. Aspirei o perfume de seus cabelos, certificando-me de que eles estariam para sempre na minha memória. Seu sangue ainda me chamava, mas o carinho que ela me inspirava era cada vez maior, e junto com ele crescia a certeza de que Bela era a mulher da minha vida, e alvo de uma terrível maldição. Eu temia jamais conseguir dizer o que sentia, ou pior: declarar-me e não ser correspondido. Como poderia ser cruel a vida!

Virei o rosto quando senti as lágrimas aflorarem e tentei me controlar.

— O que houve?

— Nada de mais, eu só… estou um pouco emotivo.

Ela riu, surpresa.

— Vampiros podem… chorar?

Sequei uma lágrima oportuna que teimava em descer pela minha bochecha.

— Sim, mas não é algo bonito de se ver.

— Porque não seria?

— Bem, a única coisa que flui em nós é sangue, então é tudo o que conseguimos chorar.

Ela parecia estar se divertindo.

— Essa eu só acredito vendo. Vai, olha para cá.

Seus dedos suaves exerciam sobre mim uma força que ia muito além da física. Sem resistir ao calor de seu toque, deixei que ela virasse meu rosto em sua direção, mas não havia surpresa em seu olhar. Ela limpou outra lágrima solitária que escorria do olho esquerdo.

— Uau, foi bem convincente.

Revirei os olhos.

— Criança teimosa…

Ela franziu a testa, aborrecida.

— O que eu disse sobre me chamar de criança?

Sorri, sem o menor arrependimento.

— Me desculpe. Mas isso não muda o fato de que você é teimosa. Também não muda o fato de que isso é sangue.

Suas sobrancelhas se ergueram, enquanto ela esfregava a gota entre os dedos.

— Claro que é. De qualquer jeito, não é tão ruim assim. É sério.

Olhei para o céu. A lua ainda estava no alto, mas já havia se afastado consideravelmente do centro.

— Está bem tarde, acho que você já deveria ir para casa.

— São… — ela pegou seu aparelho telefônico — uma e meia?! Como a hora passou tão rápido?

Sorri e me levantei.

— Hora de mocinhas estarem em casa. Preferencialmente em suas camas.

— Você só ganhou essa — ela disse, se levantando — porque estou cansada. E eu gosto muito de dormir.

Rimos enquanto começávamos a caminhada em direção à casa dela, no outro lado da cidade.

Estávamos em uma calçada qualquer, quando um aroma familiar foi carregado pelo vento até mim. Olhei em volta por alguns instantes, tentando identificar sua origem e, quando consegui, reprimi um sorriso que a deixou curiosa.

— O que foi?

— Nada de mais — respondi. Ela não acreditou nem por um segundo.

— Fala logo.

Olhei em volta, e quando confirmei minhas suspeitas, contei a ela.

— Tudo bem. Sabe aquele seu amigo, o Samuel?

— Samuca? Sim, o que tem ele?

— Ele estava nos seguindo.

Ela franziu as sobrancelhas, olhando para trás.

— Não é possível. Como?

— Ele vem nos seguindo pela rua de cima, acompanhando pelos cruzamentos.

— É sério?!

Seu choque era real, o que me fez rir um pouco mais.

— Mas... como você sabia? — Perguntou, procurando por ele enquanto esperávamos o sinal abrir.

— Bem, ele não é exatamente um… como se diz? Jason Bond?

— James Bond, vovô. Você precisa se atualizar urgentemente — decretou, sorrindo.

— Que seja. Enfim, ele não é nenhum espião, então foi fácil saber que ele estava na rua de cima. E, mesmo que eu não soubesse disso, sentiria aquele fedor por quilômetros.

Bela colocou a mão sobre a boca, reprimindo uma risada.

— Eu já disse a ele que aquela colônia é horrível, mas ele insiste em usar.

— Hã? Ah, se refere ao perfume? Não era dele que eu estava falando, embora também seja horrível. Me referi ao ciúme.

Isso a deixou intrigada.

— Desde quando pode farejar sentimentos?

— Sentimentos liberam hormônios. Hormônios têm aromas. E eu tenho um nariz muito bom.

— Ah claro, me esqueci. Mas… ciúme? Já disse que somos apenas amigos.

— Da próxima vez conte isso a ele — comentei.

Ela balançou a cabeça, sorrindo.

— Garotos. Mas… e essa parada de cheirar emoções? Como funciona?

Era impossível não notar a súbita mudança de assunto, mas eu dei-lhe algum crédito.

— Todas elas têm um aroma. Emoções nada mais são do que respostas hormonais e biológicas do seu corpo. Se é físico, eu posso sentir.

Ela parecia impressionada, apesar de cética.

— Uau, isso é incrível. E como é? Tipo, o cheiro de cada emoção, senhor Nariz Sobrenatural?

Ri com vontade enquanto pensava em como explicar.

— É meio difícil descrever. Os mais marcantes são amor e ciúme, definitivamente. São muito parecidos.

— Sério?

— Sim, a diferença é que, enquanto o amor tem um cheiro adocicado e meio melado, o ciúme tem um toque ácido, como… um limão, talvez.

— E o Samuel está com… muito, muito ciúme? — Ela perguntou fazendo uma careta, como se fosse levar um soco.

— Bem, se fosse para estipular uma medida, eu diria que o garoto jogou baldes daquilo no corpo.

A expressão dela mudou, e agora parecia que ia vomitar.

— E eu achando que ele já tinha superado isso…

— “Superado”? Ora, vejam só quem é a conquistadora da vez.

Ela me mostrou a língua, e depois colocou as mãos nos bolsos da calça.

— Não é como se eu gostasse de toda essa atenção, sabe. Na verdade, me deixa meio enjoada. Porque os meninos acham que precisam ficar com toda garota que é simpática com eles?

— Eu posso lhe afirmar com propriedade que, nesse quesito, nós homens evoluímos bem pouco nos duzentos anos em que eu estive por aqui.

Ela colocou as mãos no estômago fazendo uma careta que me fez rir com vontade. Então um barulho me chamou a atenção.

— Nossa, que careta feia. O que aconteceu?

— Quieta. Acho que estamos sendo seguidos.

Já havíamos passado pela parte mais movimentada do centro, e agora as ruas estavam desertas.

— Seguidos? Por quem?

Ela olhava em volta, assustada.

— Três, talvez quatro. Eu devia ter desconfiado quando começaram a nos seguir três ruas atrás.

— Mas como? Não passou ninguém por nós.

— Eles estão nos acompanhando pelas ruas paralelas.

— Como sabe disso? Não tem graça, está me assustando.

— Shiu!

Ela me encarou, revoltada.

— Não faz “shiu” para mim!

— Então fique quieta! — Murmurei. Os cheiros estavam se misturando e ficando mais próximos.

Quando chegamos a outro cruzamento, o sinal fechou e quatro garotos encapuzados viraram as esquinas à nossa esquerda e atrás de nós.

— Jonas… — Bela sussurrou.

Olhei para ela, pálida e assustada. Meu coração quebrou quando reconheci em seus olhos o mesmo medo que havia nos olhos de Elizabeth. Mas eu não deixaria que acontecesse de novo. Não poderia deixar.

Os garotos se aproximaram mais dois passos, e logo havia menos de meio metro de distância entre nós e eles. Sutis como uma bomba nuclear.

— Boa noite. O que os jovens rapazes desejam?

Eles não responderam, e eu não esperava mesmo que respondessem. Simplesmente ficaram parados, como se esperassem o sinal abrir. Mas os corações estavam disparados, e uma mistura inconfundível de suor e nervosismo se espalhou pelo ar.

Um ônibus vazio passou a toda velocidade por nós. O motorista não pareceu notar nada errado, mas não acho que ele notaria (ou se importaria) com muita coisa, de qualquer maneira. Não com aquela expressão aborrecida no rosto.

Um dos garotos, com as mãos nos bolsos, começou a ficar mais irrequieto que os demais, e seu coração disparou. Ele ia atacar.

— Não comigo aqui.

Me lancei nele, bloqueando suas mãos. Ele se debateu e ambos caímos no chão. Bela gritou. Os outros dois se lançaram para ajudar o amigo, todos portando canivetes suíços. Não poderia deixar que me cortassem, ou seria um banho de sangue. Sem exageros.

Consegui me apoderar de um deles, e apontei para o pescoço daquele que eu havia atacado primeiro. Com o canivete pressionado contra a sua pele, nos levantei, fazendo com que os outros dois se afastassem.

Mas faltava um.

— Larga ele, ou eu mato ela.

Me virei. Bela estava presa, os ombros pressionados por um dos braços do garoto, enquanto a outra mão pressionava a pequena lâmina contra seu pescoço.

Rosnei, tentando controlar minha respiração. Meu corpo implorava por ação, e minha natureza pedia sangue. Os corações disparados, é claro, não ajudavam em nada.

— Solte-a. Agora!

Por um instante ele quase cedeu. Mas logo a faca voltou à sua posição, mais apertada contra o pescoço de Bela do que antes.

— Larga o canivete! Anda!

Me afastei dois passos, liberando o garoto, que foi para trás de mim e segurou as minhas mãos, enquanto eu largava o objeto e os outros prendiam meus ombros. Idiotas! Seriam todos cadáveres em cinco minutos, se dependesse de mim.

— Solte a garota, ou eu juro que mato você. Mato todos vocês!

O menino que segurava Bela tinha um capuz que cobria parte do seu rosto, mas deixava à mostra o sorriso pegajoso que se arrastava entre os lábios.

— Você não dá as ordens aqui, playboy. A gente dá.

Ele pressionou um pouco mais a lâmina, e uma pequena gota de sangue escorreu por ela. Seu sorriso aumentou.

— Mas talvez dar ordens a ela seja mais divertido…

Sabe, por vários anos, eu sempre me considerei um cara muito pacífico.

Até aquele minuto.

Livrei as minhas mãos sem esforço algum, jogando os três rapazes no chão. Seus capuzes caíram, revelando o rosto de Samuel e outros dois garotos assustados demais para reagirem. De frente para eles, expus as minhas presas, enquanto minha garganta dava vida a um rugido selvagem e incontido.

— FORA!

Todos, com efeito, se levantaram e correram quase tão rápido quanto eu poderia. Me virei para o garoto que tinha Bela como refém.

Menos três, faltava um.

Com passos lentos e meus caninos superiores pressionados contra o lábio inferior, abri um sorriso macabro que, tinha certeza, ele não esqueceria tão cedo.

— Se não quiser descobrir a dor de ter os dedos arrancados um por um, eu sugiro que largue essa faca. Agora!

O canivete caiu no chão, mas ele ainda prendia Bela com o braço, tentando se afastar. Coragem ou burrice? Não sei dizer.

Algo dentro de mim exigia sangue. Queria morte e violência. Esse mesmo instinto deixava minha garganta em chamas, e eu podia sentir o rosnado profundo em meu peito.

— Fi-fica longe de mim! Sua aberração!

Tão rápido quanto a luz do dia iria chegar, fui para trás dele e segurei seu pescoço com uma das mãos, deixando que as minhas unhas rasgassem superficialmente sua pele.

— Você está esgotando a minha paciência. Solta a garota. — Repeti, apertando mais minha mão a cada palavra.

Sem conseguir respirar direito, e provavelmente com muitas dores no pescoço, ele deixou Bela ir. Virei-o para mim e arranquei seu capuz, revelando um menino de cabelos negros, olhos castanhos, e pálido de susto. Aproximei meu rosto do seu, e deixei que ele visse minha face distorcida pela raiva.

— Nunca mais esqueça esse rosto. Porque se chegar perto dela de novo, será a última coisa que vai ver.

— O-o que é você?!

Joguei-o no chão só para vê-lo se arrastar para trás, tentando fugir de mim. Me aproximei a passos lentos, enquanto seu pânico crescia. Agachei-me sobre ele, levantando seu corpo o suficiente apenas para que as minhas presas roçassem em seu pescoço. Podia ouvir o seu ritmo cardíaco, frenético, enquanto sua boca repetia o mesmo sussurro, quase numa prece:

— Por favor, por favor…

Meus dentes estavam coçando para rasgar as veias que tão desesperadamente pulsavam sob sua pele, mas simplesmente o joguei no chão, olhando no fundo de suas pupilas dilatadas e apreciando o pavor em seu rosto.

— Vá. Suma da minha frente!

— Você já era! Vamos te achar e te matar!

— SUMA!

Eu gritei novamente, a voz distorcida pelo grito animal que eu tantas vezes usei para reforçar o mito que eu havia criado. Ele, sabiamente, se levantou e saiu correndo.

Me levantei e olhei em volta. Estava tudo deserto, com exceção de mim, e de Bela.

Uma Bela aterrorizada, que olhava para mim com um olhar tão apavorado e frágil que parecia a ponto de quebrar.

Ver aquele olhar tão familiar, aquele medo estampado em seu rosto, medo de mim… me feriu de tantas maneiras diferentes que eu nem saberia por onde começar.

— Bela…

— Como… como fez isso?

Sua voz estava tão instável que apunhalou meu coração. Dei um passo em sua direção, mas ela recuou. Detive-me.

— Bela, por favor, tente…

— Você… rosnou.

— Sim, rosnei — respondi de forma suave, tentando parecer compreensivo.

Ela engoliu em seco algumas vezes, mas sua voz ainda parecia flutuar quando ela falou de novo.

— Pessoas normais não rosnam. Como… como você fez isso?

Meus ombros caíram, derrotados. Como fazê-la entender?

— Bela, eu não sou uma pessoa normal, eu te disse. Eu sou…

— Não diga “vampiro”. Pelo amor de Deus, não diga essa palavra outra vez!

Criança teimosa!

Tentei me aproximar, mas Bela se afastou de mim novamente. Ela estava completamente apavorada, e embora aquilo me dilacerasse por dentro, era justamente seu medo que a impedia de sair correndo.

— Bela, por favor, é isso é o que eu sou. Um morto-vivo. Uma… aberração.

Sua respiração não estava mais tão irregular, e ela havia parado de chorar. Imaginei como exatamente ela estaria racionalizando toda aquela situação.

— Vam-vampi-piros não rosnam.

— Eu sempre fui bom em imitar vozes. Quando criei o mito da fera, tive que aprender para ser mais convincente.

— Então a história da fera, suas viagens… aquela coisa sobre beber sangue…

Deixei que ela absorvesse tudo, mas logo seu coração disparou novamente.

— Você poderia ter me matado naquela noite…

Ela colocou as mãos no pescoço.

— Oh, meu Deus. Meu Deus, meu Deus…

Tentei desviar o foco da conversa, já que ela estava a um passo de ter uma crise.

— Bela… você está bem? Te machucaram?

— Como parece que eu estou!? — Ela perguntou, um tom abaixo da histeria completa. — Eu pareço bem?!

— Você parece assustada. E tudo bem, é sério.

Coloquei minhas presas de volta dentro dos lábios. Suavizei a minha expressão, e ensaiei um sorriso.

— Bela, sou eu. Jonas.

Decidi dar outro passo em sua direção. Ela sacudiu a cabeça vigorosamente, mas não recuou quando eu me aproximei.

— Aquilo… aquilo era você, não era?

— Bela, aquilo era parte de mim. Por favor, tente compreender, o garoto que você conheceu… que tem conhecido… esse sou eu.

Sua respiração se acalmou novamente. O frio da madrugada condensava o ar quente em volta do seu nariz, e ela tremia de frio e medo. Seu coração havia parado de trabalhar dobrado, mas o ritmo ainda não era o de uma pessoa normal.

— Você… você me assustou — ela murmurou, quase sem voz. Eu podia ver algo trabalhando nos seus olhos… como se ela estivesse tentando entender.

— Desculpe, me desculpe. Só não podia deixar nada acontecer com você. Eu não aguentaria passar por isso de novo.

Ela deu um tímido passo para frente. Repeti o seu gesto, torcendo para ser o mais cauteloso possível.

— De novo? — Perguntou ela, parando no meio de um passo.

— Eu não posso te… eu não posso perder mais ninguém, Bela.

Então o medo deu lugar ao entendimento em seus olhos. Ela começou a andar devagar, então correu até mim e me abraçou com força, acariciando meus cabelos.

— Desculpa, me desculpa!

Sem entender muita coisa, retribuí o gesto, e quando ela se desprendeu de mim, conseguiu me surpreender ainda mais:

— Não me passou pela cabeça… imagino o quanto você deve ter ficado assustado… não quis te magoar, eu não fazia ideia no começo…

— Magoar? A mim?

Ela continuava abalada, mas parecia ter encontrado outra coisa para focar.

— Eu vi você, Jonas. Quantas pessoas gritaram, ou tentaram te matar por isso? Quantas fugiram de medo?

— Algumas. Várias.

Não pude disfarçar a amargura em minha voz. E também a surpresa. Quando os papéis haviam se invertido?

— É o que acontece quando você vê um monstro, Bela. Você foge — respondi, me perdendo em algo que começava a surgir em seus olhos verdes.

— Não dessa vez.

Então, coroando toda a sequência de atos ilógicos e surpreendentes…

…ela me beijou.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.