Jonas
2 Capítulo Segundo - Pequenos Invasores
Notas iniciais
Tentei viver normalmente na casa dos meus pais, mas logo ficou evidente para mim que meu lugar não era mais entre os vivos. Eu não ia a nenhum dos eventos que minha família tradicionalmente frequentava à luz do dia, e estava ficando sem doenças para inventar. À noite, eu atraía olhares em todas as festas das quais participávamos, e logo as pessoas começaram a comentar a minha estranha e hipnótica beleza.
Inicialmente, não houve problemas; acharam que minha estranha mudança de hábitos era uma espécie de reação à morte de Elizabeth. Mas com o tempo a desconfiança aumentou, e minha tentativa de existir entre os vivos começou a ruir na noite em que eu me alimentei pela primeira vez.
Não fazia ideia de que a sede seria tão devastadora. Dias depois de voltar para casa, minha garganta parecia arder em chamas, e meu corpo estava tão fraco que eu mal conseguia me mover. Minha mãe tinha certeza que a minha debilidade era devido à recusa em comer, mas os escravos simplesmente me olhavam com o pavor de quem conhece a ameaça que os ronda.
Na fatídica noite, mal consegui levantar da cama assim que o sol se pôs. Minha garganta queimava, e todo o meu corpo parecia clamar pela morte e pelo sangue. Eu estava sentado, massageando meu pescoço em brasas, quando Ignácio entrou.
— Senhor? Me pediram para ver se o senhor já está acordado, querem trazer seu banho.
Devastado pela sede, olhei para o escravo parado diante da porta entreaberta. Levantei-me, disposto a matá-lo para dar fim àquela agonia infernal.
— Feche a porta, Ignácio.
O rapaz, um negro jovem na casa dos vinte anos, assentiu e encostou a porta, sua confusão refletida na pálida luz das velas acesas.
— O senhor está doente? Quer que eu peça para alguém chamar o doutor?
Me aproximei alguns passos, nada de ameaçador na minha postura. No entanto, acredito que meus olhos tenham entregado minhas intenções, pois o rapaz começou a suar e recuar em direção à porta.
— Senhor… está tudo bem?
Sem responder, deixei que um rosnado profundo ressoasse pela minha garganta ressecada. Ignácio, apavorado, não conseguia emitir som algum.
Levei o dedo aos lábios, pedindo silêncio.
— Não… não se mova.
Minha voz, carregada de um desejo sobrenatural e selvagem, pareceu paralisá-lo no lugar. Seu coração pulsava tanto que eu podia notar sua camisa se movendo sobre o peito.
Já podia sentir meus caninos pressionando os lábios inferiores, e abri um sorriso macabro.
Antes que qualquer outra palavra pudesse ser dita, meus dentes já estavam cravados em seu pescoço. Nossos corpos, colados, dançavam um ritmo macabro enquanto o dele cedia sob o peso do meu. Seu coração batia com desespero, e cada pulso enviava uma onda de sangue que aquecia o meu corpo sedento e aliviava a minha sede implacável. O êxtase era inexplicável. Eu diria divino, se não fosse blasfêmia.
Logo seu pulso enfraqueceu, e eu me lembrei do aviso de Fernanda. Interrompi-me, a contragosto, e descansei-o no chão. Seu corpo tentava, com pequenos espasmos, prender-se à vida que lhe escapava e agora alimentava a minha abominável eternidade.
Seus olhos, marcados pelo pavor, encararam os meus uma última vez antes que a luz os deixasse por completo. Vê-lo ali, completamente sem vida, trouxe sobre mim uma avassaladora onda de culpa. Mas eu não podia sucumbir a ela naquele momento.
Carregar o corpo para fora pela janela foi surpreendentemente fácil. Levei-o até a mata que havia próxima à nossa residência, decidido a enterrá-lo ali.
Cavei com desespero enquanto seus olhos sem vida me encaravam, acusadores.
Quando enfim a profundidade era suficiente para acomodá-lo, arrastei seu corpo para descansar naquela vala sem nome. Ao ver seu rosto pela última vez, porém, lembrei-me da luta que o pai de Elizabeth tão vigorosamente empenhava para libertar jovens como o Ignácio. Que tipo de futuro brilhante ele teria se tivesse nascido livre? Ou se tivesse sido liberto antes de… antes de…
Antes de eu matá-lo, admiti para mim mesmo, e comecei a chorar sobre o peito inerte da primeira de muitas vítimas inocentes que cruzariam meu caminho.
Quando voltei para casa, sujo de sangue e terra, alguns escravos simplesmente saíram correndo e gritando, e outros me encaravam como se vissem o diabo em pessoa. Agarrei uma mulher que estava a ponto de fugir aos berros.
— Prepare-me um banho, e se qualquer um de vocês deixar escapar uma palavra que seja, matarei a todos! Entenderam?
Apenas assentiram, apavorados demais para responder.
Algumas horas depois eu estava limpo, observando a lua da janela do meu quarto, de joelhos sobre o piso e gritando com todas as minhas forças, amaldiçoando a vida infernal à qual fora condenado.
Mas nem mesmo o medo que eu infligia em nossos escravos foi o suficiente para evitar que os rumores ganhassem volume com o passar dos meses. Os corpos sem sangue começaram a atrair atenções e vi que, finalmente, era hora de partir.
Não tive coragem de me despedir. Não parecia certo. Ou talvez eu só tenha sido muito covarde na época. Olhando para trás agora, gostaria de olhar nos olhos de minha mãe uma última vez. Creio que eles nunca descobriram o que eu havia me tornado.
Talvez tenha sido melhor assim.
Como você pode imaginar, passei os primeiros anos de minha vida à procura de uma cura para o vampirismo. Busca que, é claro, se provou infrutífera. Me aliei aos mais diversos grupos de vampiros, alguns dos quais eu desejaria nunca ter conhecido.
Já conformado com minha trágica situação de morto-vivo, empreendi uma outra busca, ainda mais longa que a primeira: uma que me levaria até o meu outro verdadeiro amor. Passei décadas agarrado à esperança de que um dia ele se mostraria para mim. Minha caçada levou-me a dançar pateticamente entre o Novo e Velho mundos, e acabei por instalar-me no Brasil. Não nas terras onde minha família morava, mas no interior, em uma fazenda bem afastada da cidade. Meus pais há muito haviam falecido, e como a minha família não deixou descendentes, seu sobrenome se perdeu pela história.
Então veio a abolição, tão sonhada pelo pai de Elizabeth. Quando meus escravos exigiram a liberdade, mandei-os embora e não me preocupei em contratar novas pessoas, deixando a casa às traças e à mercê do tempo.
Perdi o gosto pela vida e me tornei um recluso. Durante muitos anos cultivei uma lenda pelas redondezas, matando e mutilando corpos como um animal selvagem; ao mesmo tempo em que me alimentava, dava vazão ao desgosto que me devorava por dentro. Com o passar das décadas, porém, a culpa que me consumia se tornou de tal forma insuportável que parei de me alimentar de humanos. Reduzi minha dieta a míseros animais de fazenda e ratos que encontrava ocasionalmente no que havia restado da minha casa.
Assim, neste estado deplorável, achei que passaria minha triste eternidade. Por vezes pensei em me entregar ao beijo mortal do amanhecer, mas nunca tive coragem. As noites eram tão iguais que perdi a noção do tempo, e tudo se tornou um borrão cinza e sem graça.
Até que, uma noite, minha casa foi invadida por três pequenas e curiosas figuras.
Depois de tantos anos abandonada às intempéries, meu lar se tornou o protagonista de lendas e contos de terror locais, além de um lugar onde adolescentes decidiam provar sua coragem. Eles geralmente não passavam do quintal, então nunca incomodavam de fato minha rotina aborrecida. Até aquele dia em especial.
Preste atenção, porque é aqui que as coisas ficam interessantes.
Eu havia acabado de acordar, e pretendia caçar alguns animais na fazenda vizinha. Só mais um dia patético na minha vida tediosa. Estava para sair de casa, quando ouvi um barulho na sala de visitas. Achando que seria mais um rato, fui até lá. As portas foram barradas com tapumes e as janelas fechadas com tábuas, o que mergulhava o cômodo numa escuridão quase completa para mortais.
Mas havia luz naquele cômodo em particular.
Uma das janelas havia sido arrombada e, emergindo para dentro do cômodo junto com a luz do luar, três belos presentes do destino: adolescentes. Eu podia sentir os jovens corações palpitando de medo e ansiedade. Minha garganta soltou um gemido involuntário.
Por décadas não toquei em um ser humano, mas naquele momento eu me senti irremediavelmente tentado a sair de minha abstinência. Decidido, me esgueirei pela sala, tomando cuidado para não ser denunciado pelo luar.
Eu podia vê-los com perfeição no escuro, e logo constatei que se tratavam de dois meninos e uma menina. Os dois garotos eram muito parecidos; irmãos, provavelmente, usando bermudas, tênis e camisetas, com casacos amarrados em suas cinturas; já a menina era menor, com o corpo mais delicado, usando calças, tênis e uma blusa quadriculada vermelha e preta sobre outra branca, e seu coração batia mais rápido que o deles.
O cheiro do sangue me atingia como uma bala. Puxei um dos irmãos silenciosamente e, cravando minhas presas no seu pescoço, suguei avidamente cada gota de sangue que podia. Quando seu coração começou a fraquejar, larguei-o silenciosamente no canto da sala. Seu corpo fez um ruído surdo ao atingir o chão.
— Samuel? — O outro irmão perguntou. — Cadê você?
Ele e a menina pararam no meio do cômodo.
— O que houve Carlos? — Perguntou ela.
— Não sei Bela, o Samuel sumiu.
— Como assim “sumiu”? Pessoas não somem!
Sorri, satisfeito. Havia séculos eu não me divertia tanto!
Logo puxei o outro irmão e o mordi antes que pudesse gritar. Novamente, parei de beber assim que o coração começou a falhar. Por fim, sobrou somente a jovem Bela como testemunha.
Assustada, ela caminhou de volta para a janela, tentando se proteger sob o luar. Ela não poderia me ver devido à penumbra, mas imaginei que meus olhos estavam refletindo a luz porque ela olhava diretamente para mim, e simplesmente ficou lá, parada, como se soubesse qual seria o seu fim.
— Quem… quem está aí?
Sua voz trêmula denunciava o medo que sentia, e eu me deliciei com ele. Fui feito para ser temido, e me lembrei do quão boa era a sensação.
Eu estava a dois passos de me expor sob a luz e mordê-la quando vi seus olhos. Belíssimos olhos verdes em um rosto alvo, empalidecido pelo medo; abaixo deles, lábios vermelhos que tremiam, pensando talvez na possibilidade da morte.
Mas foi o seu coraçãozinho, no entanto, que me cativou. Havia uma doçura em suas batidas que eu jamais havia ouvido em toda a minha existência. O ritmo, frenético e ao mesmo tempo suave, me deixou enternecido.
Silenciosamente contornei o holofote no qual ela se abrigava e, por trás dela, aproximei-me de seu pescoço, ouvindo-a ofegar. Meus lábios roçaram sua pele, e minhas presas ansiavam rasgar aquela carne macia e fazer fluir o sangue que me chamava. Mas as batidas de seu coração novamente dispararam nos meus ouvidos, me impedindo de continuar. Como alguém tão comum poderia me fazer sentir algo tão contraditório?
Por fim, contrariado, beijei sua jugular e me afastei, sentindo minha garganta reclamar. Quando voltei a ficar diante dela, ainda oculto pelas sombras, pude ver seus olhos fechados, os músculos do rosto retesados. Então me aproximei novamente e disse ao seu ouvido:
— Saia daqui, e só volte pela manhã para buscar seus amigos.
Me afastei logo em seguida. O meu peito doía, desejando o sangue dela para mim, embora a ideia de machucá-la me enchesse de horror.
Esperei até que ela saísse correndo e depois analisei os irmãos mais atentamente. Ambos estavam bem fracos, mas ainda tinham os corações batendo. Eram resistentes.
Carreguei-os até o segundo andar, e os coloquei sobre a cama no quarto ao lado daquele que guardava o meu caixão, cuidando de seus ferimentos como pude. Não era remorso; apenas achei que era o certo a fazer.
Cobri-os e depois escrevi um bilhete, o qual dizia:
“Seus amigos estão no segundo andar, no terceiro quarto a partir das escadas.
Fera. ”
Sorri ao olhar para a assinatura. “Fera” era como os primeiros moradores da vila me chamavam, por causa das mortes que eu causava e da forma como maltratava os corpos.
Fiquei de guarda na sala de visitas, achando que talvez ela fosse aparecer novamente, mas não houve sinal de atividade pelo resto da noite. Então, deixei o bilhete sob a janela aberta, voltei para o meu caixão, oculto na parede do quarto, e dormi durante todo o dia.
Ao acordar à noite, suspirei de alívio: não havia sido descoberto. Assim que saí da parede, podia sentir nitidamente o cheiro de seres humanos no lugar. Nada muito marcante, mas indicava que estiveram ali.
Andei com mais cautela, atento a qualquer ruído incomum quando, do térreo, a mesma sinfonia cardíaca que mexera tanto comigo na noite anterior secou minha garganta.
Aproximei-me do parapeito no corredor e olhei para baixo. Tão linda quando na noite anterior, lá estava ela.
Voltei para o quarto e, tirando um lençol de cima de um grande espelho, vi meu reflexo pela primeira vez em décadas. Tinha-me esquecido de como eu era belo. Mas não estava em boas condições, apesar disso; minhas roupas eram trapos pendurados no corpo, e o meu cabelo, bem… vamos apenas dizer que estava bem ruim após mais de 50 anos sem ver nada parecido com um pente.
— Não posso deixar ela me ver assim…
Por um segundo, me perguntei o que diabos eu estava fazendo; era a primeira vez que me importava com a minha aparência em meio século, e tudo por causa de uma garota da qual eu não sabia nada? Aquilo não fazia o menor sentido! A opinião dela não deveria ter valor algum!
E, ainda assim, valia algo. A despeito de todos os argumentos racionais que pudesse criar, a opinião dela era importante para mim. Pelo menos, se tornara importante no instante em que me senti tão inadvertidamente envolto sua existência. Em que situação curiosa eu me encontrava!
Abrindo um velho armário empoeirado, peguei uma camisa branca, um par de calças pretas, sapatos de couro que um dia foram polidos, um colete e uma sobrecasaca vermelhos da cor do sangue. Não estavam exatamente perfeitos, mas também não haviam perdido a batalha contra as traças, e aquilo era o máximo que eu conseguiria.
Cinco minutos depois de começar a pentear o meu cabelo, cheguei à conclusão de que seria mais fácil cortá-lo. Mas não se preocupe: não ficarei careca pelo resto da eternidade. Não posso mudar, já que fui amaldiçoado desta forma. Então, se corto meu cabelo, ele cresce novamente até ficar do mesmo tamanho de antes. Podem imaginar a minha surpresa quando tentei cortá-lo pela primeira vez, num ataque de tristeza, décadas atrás.
Assim que terminei com a tesoura, já podia ver as mechas crescendo, e logo eu estava tão belo e irresistível como nos dias em que morei com meus pais. Plenamente satisfeito com minha aparência, desci em silêncio até a sala de visitas. Ela ainda estava lá, parada em frente à janela pela qual tinham entrado na noite anterior. Parei no último degrau da escada, a uma distância segura.
Ela usava a mesma calça da noite anterior, uma blusa branca de mangas compridas e um par de tênis brancos. O cabelo estava solto ao redor do rosto, e seu coração acelerado denunciava certo nervosismo.
— Você não deveria estar aqui. Seus amigos já foram levados — disse.
Ela procurava pela origem da voz, olhando mais ou menos na minha direção.
— Eu… eu sei. Vim aqui falar com você… “Fera”, não é?
A despeito do ritmo cardíaco, sua voz estava calma e serena. Sentindo minha garganta se fechar, exigindo sangue, eu comecei a caminhar pela sala.
— Este sou eu. Mas não vejo em que posso lhe ajudar.
Ela olhava ao redor, tentando se guiar pelo som.
— Meus avós avisaram sobre você. Falaram que você era um monstro, e que iria me matar.
O cheiro doce do seu sangue me causava uma agonia quase incontrolável. Umedeci os lábios antes de voltar a falar.
— De fato, eu poderia te matar a qualquer momento, e você nem se daria conta do que a atacou. Então porque veio aqui?
Aproximei-me em silêncio, contornando-a, e deixei meus lábios tocarem de leve sua garganta, flertando com a artéria que pulsava sob sua pele gelada. O cabelo anelado, de um castanho claro suave, tinha um perfume que lembrava muito… morangos.
Me afastei enquanto ela virava para trás, me procurando. Por Deus, vê-la frágil e indefesa daquele jeito era… delicioso.
— Você… não é um monstro. Se fosse, não teria deixado que eu salvasse meus amigos — replicou ela, se recompondo.
Um riso suave escapou dos meus lábios, e senti seu coração disparar em resposta.
— Isso não me impediria de matá-la neste momento, tola criança.
Seus dedos se abriam e fechavam, como se ela estivesse tentando se acalmar.
— Pois então me deixe ver como você é realmente. Ou está com medo de mim?
Ok, ela atingiu um ponto sensível. Fiquei com o orgulho ferido. Ridículo como certas coisas simplesmente nos tiram do eixo, não?
Parei diante dela, colocando-me sob a luz prateada do luar. Ela era quase um palmo menor do que eu. O choque em sua expressão me deixou suficientemente satisfeito, embora o cheiro do seu sangue inflasse as minhas narinas e a única coisa que me impedia de lançar-me em seu pescoço era o absoluto e inexplicável pavor que essa ideia me causava.
— Não sou eu quem deveria ter medo, criança insolente!
Alguns fios do cabelo que ainda crescia caíam no meu rosto. Ela me encarou por longos dois minutos, e disse algo que me deixou completamente estupefato:
— Você é um garoto!
Nada poderia me deixar mais desconcertado do que aquela resposta.
— O… o que você disse?!
O medo dela dava lugar a uma indignação crescente.
— Você tem o quê? 19 anos? Não é nem 10 anos mais velho do que eu, e fica me chamando de criança?
Ok, aquilo definitivamente nunca aconteceu comigo antes. Eu precisava retomar o controle da situação.
— Olhe como fala, pirralha! Eu sou o mesmo monstro que aterrorizou seus pais quando eles tinham a sua idade! Exijo respeito!
Ela cruzou os braços numa atitude, no mínimo, petulante.
— Isso é impossível.
Dei-lhe um largo sorriso, exibindo minhas presas.
— Tem certeza?
Seu rosto perdeu a cor novamente. Toquei seus lábios rosados de maneira suave com as minhas unhas, e embora seu corpo não tenha reagido, pude ouvir seu coração acelerar novamente.
Outra vez no controle da situação, andei em volta dela.
— Ainda não compreendo. Voltou aqui, sob o risco de morrer, só para me ver? Eu deveria me sentir lisonjeado.
A pobre garota engoliu em seco algumas vezes antes de responder.
— Eu… eu vim para saber… porque você não me matou.
Maldição, ela não podia simplesmente agradecer por estar viva?
— Eu… não matei ninguém. Pelo que você disse, seus amigos foram salvos.
— Samuel e Carlos estão bem, sim. Mas… porque você não me atacou também?
Respirei fundo algumas vezes. Que garota difícil.
— Porque eu não quis.
Um pequeno e insolente sorriso se insinuou em seu rosto. Inadmissível.
— Não… não quis?
— Eu… não.
Céus, como era difícil admitir alguma coisa para aquela criança!
— Eu não quis te matar. Algo em você… quer saber? Esqueça. Vá embora, e não volte mais.
Suas sobrancelhas franziram novamente, e ela voltou a cruzar os braços.
— Não pode me obrigar.
Um rosnado involuntário cresceu no fundo da minha garganta, o que a fez recuar um passo e abrir um pouco mais os olhos.
— Eu definitivamente estou começando a me arrepender de não ter lhe mordido!
Apesar do susto, ela apenas apertou mais os braços, que já estavam cruzados sobre o tronco. Inacreditável!
— A residência me pertence! A casa é minha, caso não tenha notado!
Ela deu de ombros. Deu de ombros! Para mim!
— Tecnicamente, é um terreno abandonado.
A sua expressão de despeito estava começando a me irritar. Aproximei-me devagar, levando-a para a parede ao lado do buraco na janela enquanto ela tentava se afastar, e encostei meus lábios em seu pescoço, o que a fez parar de se mexer e acelerar sua respiração. Eu podia sentir as veias sob a pele, pulsando de encontro aos meus dentes, como se clamassem pela morte. Eu ansiava extrair cada gota de seu sangue, ao mesmo tempo em que desejava não fazer mal a ela. Como uma garota poderia ser alvo ao mesmo tempo de tão intenso desejo e cuidado?
Me afastei repentinamente, sentindo meu coração dilacerado por um sentimento bizarro de proteção por ela que eu não conseguia compreender.
— Não brinque com a morte, criaturinha insensata. Vá embora!
Ela se recuperou mais rápido do que eu gostaria.
— Eu quero voltar.
— Não seja ridícula!
Ela me encarou, e em seus olhos verdes, misturado ao medo, havia determinação, um pouco de coragem e uma teimosia tão incompreensível quanto insuportável.
— Eu quero voltar — repetiu ela, obstinada.
Respirei fundo. Que estorvo!
— Se insiste mesmo nessa sandice, venha amanhã ao cair da noite. Estarei esperando-lhe. Agora vá.
— Mas…
— VÁ! — Pus minhas presas para fora, ameaçando-a.
Ela parecia assustada, o que me deixou satisfeito.
— Tudo bem, tudo bem, eu vou. Mas eu volto amanhã.
Ela virou as costas para mim e estava saindo pela janela quando eu me aproximei e sussurrei, próximo ao seu ouvido:
— Eu estou contando com isso, criança.
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