Jonas
1 Capítulo Primeiro - Um Lamentável Infortúnio
Ah, você chegou. Creio que esta seja a hora das apresentações.
Meu nome é Jonas. Jonas Albuquerque. Nasci no dia 30 de março, por volta de 1800. Minha família foi uma das poucas que vieram para cá com a família real. Tenho cabelos loiros e olhos claros, alguma coisa entre o azul e o cinza, estatura mediana, corpo delgado e um belíssimo sorriso. Sei que sou… "um pouco" mais velho do que aparento ser.
Moro em um casarão abandonado, numa fazenda situada em uma parte esquecida no Sul do país. O terreno é malcuidado, as árvores crescem descontroladamente, o mato invade todos os lugares disponíveis e a casa em si está em ruínas. É uma vida deveras tediosa. Não obstante, amo-a com todas as minhas forças. Talvez você se pergunte como é possível que eu viva tanto tempo.
Vou contar-lhes a minha história.
Mas primeiro, sente-se ao meu lado. Isso, perfeito. Agora feche os olhos e concentre-se no som da minha voz. Deixe-me levá-lo, caro ouvinte, de volta para o passado. Um passado distante, que você desconhece.
Não estamos mais sentados em cadeiras de espaldar alto, diante de uma lareira decrépita. Estamos, meu caro, em uma das muitas ruas que existiam no Rio naquela época divinal. Mocinhas em carruagens brincando com os rapazes que a pé passeavam, escravos andando pelas ruas, ambulantes vendendo quinquilharias, calçadas estreitas, prédios à moda europeia com jovens nas janelas, prisioneiras de seus desejos mais sombrios. Observe como a noite está estrelada, como a lua brilha.
Agora pare. Preste atenção na carruagem diante da porta do teatro. Dela desce uma belíssima dama. Seus olhos, cor de topázio azul, iluminam o ambiente, e seus cabelos afogueados chamam a atenção.
O nome dela é Elizabeth.
Note também o rapaz que desce logo atrás dela. Seus cabelos loiros e compridos caem ao redor do rosto, contrariando a moda da época; os olhos azuis cinzentos lhe conferem certo charme incomum, e a pele corada dá a ele um ar atraente.
Este sou eu. E Elizabeth é minha noiva.
Lembro-me desta noite como se fosse ontem. A peça foi maravilhosa, uma belíssima apresentação. Após o fim, nos dirigimos à carruagem.
Não demorou, porém, para que percebêssemos que a mesma não seguia pelo caminho habitual. Antes, levou-nos à parte mais obscura da cidade, um lugar de ladrões, mendigos e ciganos. Eu estava começando a ficar inquieto e Elizabeth, assustada. Tentando remediar a situação, inclinei-me pela janela e chamei o homem que conduzia os cavalos.
— O que há, homem? Para onde está nos levando?
Como resposta, um porrete foi arremessado contra o meu rosto, o que causou um corte na testa e uma grande dor de cabeça. Elizabeth gritou, chocada. Não demorei muito para entender o que havia ocorrido: estávamos sendo sequestrados.
Elizabeth era filha de um homem influente que buscava arduamente, mas em segredo, combater a escravidão. Mais de uma vez ele já havia sido ameaçado, mas jamais haviam ousado tocar na filha dele. Pelo menos, até aquele momento.
A carruagem parou bruscamente, e fomos puxados para fora do veículo logo em seguida. Enquanto eu era contido com as mãos atrás das costas, Elizabeth era arrastada. Seguimos um caminho enlameado e imundo até um casebre insalubre.
O lugar fedia, e não havia um único banco onde pudéssemos sentar. Fomos obrigados a nos jogar em montes de feno, e ficamos abandonados por horas à nossa própria sorte. Foi possível ver o sol nascer e morrer pelas frestas das ripas de madeira que tentavam, em vão, formar uma parede.
No final da tarde do dia seguinte, um dos homens que mantinha guarda do lado de fora se comunicou com alguém. Colei meu ouvido à porta. Ele falava algo sobre o pai dela não ter atendido ao pedido de seu chefe. Então ele deu a ordem fatal:
— Ele foi avisado. Matem os dois.
Meu coração disparou. Olhei para Elizabeth. Dúvida e medo preenchiam seus belos olhos azuis, mas havia algo por trás. Uma sombra de entendimento passeava pela sua mente, mas antes que qualquer um de nós pudesse dizer algo, eles entraram.
Foi rápido e brutal. Com os pés amarrados e mãos imobilizadas, colocaram-me de joelhos, firmando a minha cabeça na direção de Elizabeth para que eu pudesse ver claramente quando, sem piedade, rasgaram-lhe a garganta como a um animal qualquer.
Ela não desviou seu olhar do meu nem por um segundo. Enquanto o véu rubro maculava seu vestido pude ver em seus olhos a expressão do seu amor, que ela jamais poderia colocar em palavras novamente.
Ver minha noiva, a mulher que amava ali, sangrando como um porco, sem poder fazer nada me enlouqueceu. Soltei as minhas mãos e desarmei o homem que me mantinha refém, e com sua arma matei dois de seus capangas. Antes que ele pudesse se recuperar, puxei a faca que ele tinha na cintura e cortei as cordas que prendiam meus pés e fugi.
Corri como louco, sem saber para onde estava indo; aquela parte da cidade era completamente desconhecida para mim. Talvez pelo acaso, sorte, azar, ou pelos três em comum acordo, eu cheguei à casa de uma cigana. Mademoiselle Fernanda era seu nome. Deus, como fui estúpido naquela noite infernal! Mas o desespero me consumia, e nuvens escuras no céu prometiam chuva. Sem outro lugar para ir, entrei.
Tão logo atravessei a porta uma figura, sentada à mesa com um maço de cartas diante dela, se levantou com os olhos fechados.
— Oh! Oh! Quem vem lá? Sinto uma presença, uma presença muito atormentada!
Sua voz, limpa e suave, me fazia lembrar um pequeno sino de prata tocando. Os olhos eram castanhos e vítreos, como os de uma boneca; usava um espartilho preto de couro por cima de uma blusa folgada de algodão, e calças negras de veludo. Braceletes e correntes de ouro pendiam de seus braços e pescoço, e tiras de pano faziam voltas em sua cintura, dando a ela um toque sensual. Seu corpo era pequeno, e tão flexível quanto as curvas de seu espartilho davam a entender.
— Me chamo Jonas. Jonas Albuquerque.
Ela sorriu para mim, e por um momento, todo o meu sofrimento ficou suspenso no ar, como se eu estivesse prendendo a respiração. Ela me pegou pelo braço, e me fez sentar em uma cadeira de espaldar alto.
— Eu sei quem és, meu jovem. Assim como sei o que se passou com sua amada.
A dor me assolou novamente, e lágrimas rolaram pelo meu rosto. Sua mão, fria e macia como a de um cadáver que acabou de expirar, acariciou o meu rosto com uma doçura que eu não imaginava ser possível.
— Tanta dor, para um rapaz tão jovem…
Me perdi em seus olhos por um segundo, tomado pelo desespero. Eu pensava ter perdido tudo naquela noite.
— Pode me ajudar? Por favor, traga-a de volta. Podes fazê-lo?
Ela abriu um sorriso simpático e se levantou, afastando a mão do meu rosto.
— Oh, meu jovem iludido, não posso ajudar-te. Não se pode trazer alguém dos mortos. Nem mesmo seu verdadeiro amor.
Meu coração parecia dilacerar-se dentro do peito. Um trovão estourou do lado de fora, e seu clarão sinistro invadiu a sala iluminada por velas.
— Ela… era meu verdadeiro amor?
— Sim. E nunca mais encontrarás alguém novamente.
Eu me levantei, tencionando ir em direção à porta.
— Não. É impossível! Que justiça há nisso?!
Ela dançou até mim suavemente.
— Minha pobre criança, não se aflija, por favor! Eu posso lhe ajudar.
Seus olhos brilhavam com expectativa e cobiça, e eu sabia que devia sentir medo dela. No entanto, tudo o que ela me inspirava naquele momento era uma enorme curiosidade.
— Pode?
— Sim, posso. Posso acabar com essa dor. Posso trazer alegria a sua vida novamente!
— Mas, me disseste que não é possível…
— Oh, não, eu realmente não posso trazê-la de volta.
Ela envolveu um de seus braços na minha cintura, enquanto secava uma pequena lágrima do meu rosto com o polegar da mão livre.
— Mas posso fazer algo melhor. Porém, há um preço que deve ser pago.
Naquele momento, ela já me tinha por completo.
— Faria qualquer coisa.
Ela pareceu surpresa.
— Qualquer coisa?
Encarei seus olhos de boneca.
— Eu faço qualquer coisa para ser feliz. Ajuda-me, por favor!
— Acredita em vampiros, meu caro Jonas?
Não respondi à pergunta, atordoado pela súbita mudança de assunto.
— Como… como assim?
Ela ergueu as sobrancelhas, se divertindo com a minha confusão.
— Vampiros. Acredita neles?
— Não… quer dizer, creio que não. Porque acreditaria?
— Oh, é uma pena.
Sorrindo, ela se aproximou de mim, revelando suas presas, e mordeu minha jugular antes que eu pudesse fazer qualquer coisa, tirando cada gota de sangue que corria no meu corpo desesperado. Meu coração disparava, como se tivesse pressa em entregar minha vida àquela boneca amaldiçoada.
E então, já não tendo uma gota de sangue e vendo todas as cores se misturarem diante dos meus olhos, tive certeza de que aquele era o fim. Foi quando vi diante de mim um braço moreno, indo em direção à minha boca. Por impulso eu o mordi, e a vida invadiu meu corpo novamente. Por um instante, meu coração e o dela bateram no mesmo compasso macabro, como uma sinfonia, que marcava o fim de uma vida e o começo de uma nova, muito mais duradoura.
Sem forças para me manter de pé, caí no chão, sendo acometido por espasmos terríveis logo em seguida. A dor era profunda e pungente, mas me faltavam forças mesmo para gritar. Era como se cada centímetro do meu corpo lutasse contra o terrível destino que se impunha sobre mim. Desesperado, perguntava-me quanto tempo mais aquele sofrimento duraria, até que, finalmente, a dor me abandonou.
Quando enfim consegui colocar-me de pé, sentei em uma das cadeiras. Tentava assimilar tudo o que acabara de acontecer, apesar de saber que uma sina terrível havia caído sobre mim.
— O… o que aconteceu? O que fizeste comigo, bruxa?
O tom cristalino, quase angelical da minha voz me assustou. Levei a mão à garganta, onde ainda podia sentir os dois furos feitos por ela.
— Eu fiz o que lhe prometi, meu caro. Lhe dei uma chance de ser feliz. Para sempre!
Sua risada arrepiou cada pelo do meu corpo, ao mesmo tempo que despertou em mim o desejo de ouvi-la por toda a vida.
— E agora, o que acontecerá? Viverei para sempre?
— Claro, desde que observes algumas condições. Nunca ande sob a luz do sol, isso o destruirá. E jamais beba o sangue de um humano após seu coração cessar de bater. Isso o matará.
Coloquei a mão em meu peito, onde meu coração pulsava acelerado.
— Como pode meu coração ainda estar batendo?
— Ele distribui o sangue pelo nosso corpo. Por isso enfiar uma estaca no coração de um vampiro pode matá-lo, podendo ser prata, madeira ou…
— Há outros como nós?
— Sim, vários deles. Alguns até mesmo vivem em sociedade, com algumas regras que devem ser respeitadas.
Eu sentia minha capacidade de raciocinar sendo enterrada aos poucos com o resto de humanidade que havia em mim.
— Que regras?
— Vais descobrir com o tempo. Teremos bastante tempo para que aprendas tudo.
— “Teremos”? — Perguntei, sem conseguir esconder minha repulsa.
— Sim. Tu vens comigo. É claro — respondeu ela, e havia surpresa em sua voz.
— Não, eu não vou!
Ela parecia genuinamente chocada, e uma risada nervosa escapou de seus lábios.
— Olhe para ti! És ainda um cadáver! Vai levar no mínimo um dia para seu corpo terminar de morrer!
Morrer. A palavra me causou arrepios.
— Me desculpe, mas não vou contigo. Eu quero ficar aqui. Tenho família, meus pais…
Seus olhos se tornaram duros e sua postura, ameaçadora.
— Seus pais não significam mais nada para ti! Eu lhe dei o dom da vida eterna. Eu!
Levantei-me, desejando jamais ter posto os pés naquele lugar.
— Isso não lhe dá o direito de propriedade sobre mim!
Ela se aproximou de mim, com um brilho feroz nos olhos.
— Tu sabes que quer ficar comigo! Queres a mim! Posso ver em seus olhos, não ouse negar, criança ingrata!
Eu ansiava, de fato, por ela. Sentia que estaríamos ligados, não importando quantos anos se passassem. Mas, ao mesmo tempo, eu sabia que não poderia tolerar a presença dela para sempre.
— Eu não vou contigo.
— O que pretende fazer? Simplesmente andar por aí pela eternidade, errante?
— Se for preciso, sim. Ainda quero ser feliz!
Apesar de querer, sair correndo o mais rápido possível dali, algo me impelia a ficar, e ser escravizado por aquela boneca humana.
— Seja feliz comigo!
Ela segurou meu braço e, desvencilhando-me dela, me afastei correndo de costas em direção à parede. Seus passos perderam a suavidade e, apesar de continuarem graciosos, lembravam mais um animal selvagem do que uma boneca.
— Sabe, em parte, tinhas razão. Sou uma vampira, mas também conheço bruxaria.
— Sou batizado, sua cria do demônio! Feitiçarias não surtirão efeito sobre mim!
Ela sorriu para mim com desdém.
— Estás certo disso? És um morto-vivo agora!
Fiquei em silêncio. Olhei para a porta, ansiando sair. Lá fora, a chuva começava a cair com força. Fernanda andou pelo cômodo, pensativa.
— Uma praga não seria suficiente. Não, para ti, criança ingrata, que ousa me rejeitar, depois de eu lhe ter dado o presente da vida eterna… mereces algo pior.
— O que pode ser pior do que isto que me fizeste? Morte eterna! Uma vida de escuridão e noite! Odiar-te-ei por todos os dias de minha vida!
— Criança ingrata! — Então seus olhos se abriram, maliciosos. —Queres tanto seu “final feliz”? Pois bem. Encontrarás seu novo amor. Sim, eu posso vê-la em seu futuro. Mas tu não serás capaz de tocá-la, beijá-la, ou mordê-la, até que ela se apaixone verdadeiramente por ti também. E acredite, eu vou garantir que isso jamais aconteça.
Descolei da parede, voando em sua direção e jogando-nos no chão.
— Demônio! Sua criaturinha desprezível!
Ela sorriu, mostrando todos os dentes.
— Sim, mon cher, é um dom.
E, dizendo isso, ela sumiu no ar.
Desesperado, levantei-me e corri pela porta, mergulhando na chuva que caía pesada lá fora. Andei a esmo pelas ruas, procurando um lugar para ficar durante o dia.
Sem saber como, acabei encontrando o caminho de casa. O horizonte já começava a tingir-se dos tons róseos típicos da aurora e a claridade, quase inexistente, feria-me os olhos como uma faca. Uma incontrolável sonolência apossava-se dos meus membros, e cada passo era um desafio hercúleo e extenuante. Os grandes portões de metal estavam abertos, e um escravo parecia fazer vigília na varanda, segurando uma lanterna.
Veio-me a ideia de correr em direção à casa. Sentia agora um pavor instintivo, quase animalesco, da claridade que se aproximava. Talvez, se ela me atingisse antes que eu chegasse à proteção das paredes do meu lar, meu tormento acabaria e minha alma encontraria descanso ao lado da de Elizabeth.
Infelizmente, não tive tanta sorte.
Desesperado por sobreviver, empreendi minhas últimas forças numa corrida débil terreno acima até o grande casarão que se erguia diante de mim.
— Quem vem lá? — Perguntou o escravo com a lanterna.
— Sou eu, Jonas!
Foi tudo o que consegui dizer antes que o Astro-rei lançasse seus primeiros e fatídicos raios manhã adentro, despertando mais um dia e fazendo adormecer meu corpo amaldiçoado.
Meus olhos repentinamente se abriram, despertando-me para a realidade. Ergui-me, e senti o colchão afundar sob meu corpo. Estava envolto em lençóis, e um pano úmido e morno escorregou da minha testa, caindo sobre meu colo. Eu estava em meu quarto.
Eu estava em casa.
As pesadas cortinas de veludo negro estavam fechadas. Os lençóis de linho branco, imaculados, pareciam se destacar no escuro diante de meus olhos sobrenaturais. Pequenas bolhas avermelhadas brotavam nas costas da minha mão esquerda, e doíam horrivelmente ao toque.
Levantei-me, usando somente as calças do dia anterior, rasgadas e imundas, caminhei até as cortinas e as abri, uma a uma, deixando o luar pálido banhar minha tez, despertando em mim a vontade de chorar. Aquele tênue reflexo era tudo o que eu teria do sol pelo resto da vida. O dia, e tudo o que nele se desenrolava, estava perdido para mim. Para sempre.
Senti a lágrima escorrer pelo rosto, solitária, e no mesmo instante o cheiro atiçou minhas narinas. Eu pude sentir meus caninos coçando, como se crescessem. Levei a mão ao rosto, de pronto, e observei, horrorizado, o sangue gotejar dos meus dedos. Sangue! Eu chorava sangue! Que blasfêmia amaldiçoada eu havia me tornado!
Perdido eu meu próprio pavor, fui surpreendido com a porta se abrindo e uma vela solitária iluminando o caminho de alguém.
— Jonas? Meu filho, estás acordado?
— Mãe?
Estremeci com o timbre anormal da minha voz, e por um instante pensei ter visto medo nos olhos da mulher que havia me dado à luz. Sua beleza, que os anos tentavam em vão desgastar, brilhava iluminava pela luz bruxuleante da vela. A chama refletia em seus olhos trêmulos, e ela então apressou-se a acender as velas dos candelabros, inundando o cômodo com o dourado das pequenas chamas.
Ela veio em minha direção, mas houve uma alteração minúscula, perceptível apenas para mim, em seu sorriso de alívio. Eu pude ver um lampejo de dúvida voar em seus olhos, e aquilo me assustou. Porque a minha mãe teria medo de mim?
Porque qualquer um teria?
— Oh, meu filho… põe-me louca se continuas a fazer isso! Quando enfim soubemos o que tinham feito à pobre Elizabeth… que os céus tenham piedade de minha alma se algo tivesse lhe ocorrido! Porque fugistes?
Pensar em Elizabeth dilacerou meu coração com uma força que nem dez homens poderiam ter. minhas pernas fraquejaram, e senti lágrimas me subirem aos olhos. Mas me controlei, contudo; minha mãe não precisava me ver derramando lágrimas tão sombrias e macabras.
— Vou pedir que lhe preparem um banho, meu filho. Você caiu como morto aos pés do Ignácio… pensamos que não voltaria a acordar! Mas graças a Deus estás de volta, são e salvo!
Apesar do alívio, havia algo estranho na voz da pobre mulher. Ela parecia estar se esforçando muito para me olhar, como se… como se eu não fosse seu filho.
— Amanhã chamaremos o doutor Carlos para cuidar de sua mão, também. Oh, meu filho, nem imagino as maldades que lhe fizeram…
Com lágrimas nos olhos, ela me abraçou, e o cheiro do sangue em suas veias dilacerou minhas entranhas com fome e desejo. Eu podia me ver claramente enterrando meus dentes em sua carne macia, e sorvendo aquele precioso líquido, enquanto o seu perfume impregnava minhas narinas…
Retesei meu corpo, horrorizado com a ideia. Deus, o que haviam feito de mim? Em que tipo de monstro profano haviam me transformado?
Minha mãe se afastou de mim, e disse que logo voltaria com meu pai. Na ausência dela, fui atraído pelo espelho que havia próximo à minha cômoda, e imediatamente percebi o que causara tamanho estranhamento na pobre mulher.
Eu estava lindo. Na verdade, lindo demais para ser real.
As linhas do meu rosto se tornaram mais angulosas, como eu sempre desejei que fossem. Meus olhos, outrora tingidos de um azul cinzento, agora eram vítreos, como que esculpidos em alguma pedra preciosa desconhecida. Minha pele estava pálida, macia e morna; o coração pulsava rápida e constantemente no meu peito. Os dentes estavam perfeitos, com os caninos projetados. Minhas unhas, polidas, se assemelhavam ao quartzo. Os cabelos, que sempre me caíram nos ombros, agora pareciam fios de ouro presos em minha cabeça.
Meu corpo, um tanto magro na minha opinião, agora estava diabolicamente atraente. Tinha a sensação de que ninguém poderia me negar nada outra vez.
Eu havia sido feito, percebi, para atrair. Atrair e matar.
Trouxeram a tina para meu quarto, e lá eu me banhei, agradecido pela água morna. Ansioso para encontrar meu pai antes que a noite findasse por completo, sequei-me e pus roupas limpas: botas de couro, de cano alto, calças de algodão, e uma blusa de linho cujo toque na pele era suave como uma pena.
Prendia minhas madeixas atrás da cabeça quando alguém bateu à porta.
— Sim? — Perguntei, estremecendo novamente ao ouvir o timbre celestial que, naquele momento e para sempre, permearia todas as minhas palavras. Era suave e limpo, mas ao mesmo tempo forte e masculino; irresistível, enfim.
— Senhor, seu pai o aguarda na sala de jantar.
— Já estou pronto. Diga-lhe que em breve descerei.
— Sim, senhor.
Respirei fundo, um movimento que, percebi, teve um efeito unicamente psicológico, e abri a porta do quarto, atravessando o corredor a passos largos e descendo pela escadaria.
Tudo parecia tingido com uma nova camada de cor; era como realmente enxergar as cores pela primeira vez. Aqueles corredores, tapeçarias e quadros que eu tantas vezes já havia visto agora se revelavam à minha visão sobrenatural de forma completamente nova. Eu estava deslumbrado, e um sorriso preencheu meu rosto conforme andava.
Podia notar que os escravos pareciam, em igual medida, encantados e horrorizados comigo. Em alguns havia um toque de conhecimento no medo, como se identificassem em mim uma figura antiga que lhes inspirava terror.
A mesa estava posta e meus pais, assentados. Olhei para as travessas, repletas das melhores comidas que eu, outrora, devoraria com prazer. Mas minha admiração por elas, naquele momento, não era maior do que a que eu nutria por obras de arte; eu não sentia fome, e jamais sentiria outra vez. Pelo menos, não uma capaz de ser aplacada com carnes e frutas.
Meus pais se levantaram, e novamente seu sorriso esmaeceu de maneira quase imperceptível ao se aproximarem. Meu pai parecia aliviado, mas sua confusão crescia a cada instante que me observava melhor.
— Filho! Meu filho, estás de volta!
Abracei-os, sendo novamente assolado pelo cheiro do seu sangue. Minhas entranhas queimavam, e exigiam de mim violência para satisfazer sua sede. Me afastei deles, tentando manter um sorriso sereno no rosto.
— Junte-se a nós, meu filho. O jantar está na mesa.
Sentei-me, relutante.
— Eu… não estou com fome. Obrigado, mas ainda me sinto um pouco… indisposto.
Meus pais se olharam, e pareciam preocupados.
— Meu filho… o que se passou? Conte-me.
Estava tão absorto, encarando as baixelas e taças vazias diante de mim que não ouvi uma única palavra.
— O que disse, mamãe?
Seu semblante agora expressava mais preocupação do que alívio.
— Eu perguntei o que ocorreu com você, meu filho. Sabemos que vocês foram sequestrados, e que Elizabeth… oh, a pobre Elizabeth… foi morta de maneira cruel. Mas porque demorou tanto a voltar? E porque estás tão… diferente?
Meu coração gritou novamente, e eu fechei os olhos enquanto absorvia a dor. Eu percebi, então, como sentiria desesperadamente a falta da minha amada pela eternidade. Mas me controlei e, respirando fundo, respondi numa calma surpreendente até para mim:
— Não ocorreu nada além do sequestro. Eu fugi, e acabei me perdendo. Foi somente um lamentável infortúnio.
Notas finais
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