Johnny... O bom detetive
95 Parte 07: Zawaski // Capítulo 17: Contexto de um passado conturbado
Ver o seu sogro naquele estado foi chocante para Lucas. O homem sempre altivo, frio e perverso, e muitas vezes cruel parecia mais um simples aldeão. Sua roupa era esfarrapada, sua pele sempre branca estava bronzeada, sua careca sempre brilhante agora era tomada por cabelos ao redor e o seu rosto bem cuidado estava com uma barba relativamente curta. Percebeu que Hugo estava assustado, que não esperava vê-lo como um dos agentes salvadores.
O cacique apresentou Yancy e perguntou se era ele que bucavam. Todos assentiram. O simples fato do empresário estar vivo era praticamente um milagre.
Ocorreu os preparativos para a partda de Hugo da aldeia. Foram dias que ele nunca esquecerá.
Os índios correram para ver a despedida de Yancy da aldeia. Foi um momento de muita comoção. Xingô cumprimentou o forasteiro, Anahy e Irapuã fizeram o mesmo. Inclusive Hugo disse que também tinha um filho da lua para cuidar. Ubiratan abraçou-o e por fim o cacique.
— Aqui. Tome isto — Txana entregou um colar com sementes de coloração marrom. Lembrava um colar de pérolas. O pingente era um canino de uma onça. — Isso tá na minha família há muito tempo. Quando se sentir angustiado, coloque no pescoço.
— Obrigado, amigo.
Os dois se abraçaram. Era a hora da partida. Hugo olhou pela última vez para os índios e sinalizou um tchau com as mãos.
Horas depois ele foi levado para o hospital de Manaus e ser tratado da perna. Ficou deitado numa maca enquanto tomava soro na veia. O médico falou que o jeito primitivo dos índios ajudou a não infeccionar o ferimento, mas o osso seguia fraturado e precisava de uma cirurgia.
Enquanto isso, a informação da sobrevivência de Hugo vazou para a imprensa.
O Lucas ligou para Júlia a fim de dar a notícia em primeira mão. Sem ter a quem recorrer, ela pediu ao moreno para continuar no Amazonas até ela chegar.
— A senhora conversou com o Johnny?
— Esqueça, querido. Ele sequer quer ver o pai. Eu também ainda estou muito chateada, mas ainda somos casados e não posso esquecê-lo do dia para a noite.
Lucas também falou sobre a cirurgia na perna dele. Júlia ficou preocupada, mas acalmou-se quando falou com o médico.
A cirurgia durou algumas horas e pinos de platina foram colocados. Quando ele abriu os olhos, já estava na sala de tratamento intensivo, e Lucas estava sentado ao seu lado. Ainda enfraquecido por causa da cirurgia, segurou no braço do moreno.
— O que o senhor quer?
— Por favor, me ouça.
Lucas quis se levantar e ignorar os delírios do sogro, mas ele não teve coragem. Falou que somente por Júlia era que estava lá. Hugo entendeu que o rapaz não gostava dele por causa dos encontros fatídicos anteriores.
— A sua esposa logo virá, senhor.
— Só me ouça. Depois você pode ir.
Lucas voltou a sentar.
— Eu fiz coisas cruéis no passado e me arrependo. Não precisa acreditar em mim, não acreditar na minha transformação. Algo mudou em mim desde o acidente. Eu quase morri. Fui salvo por aqueles índios. À primeira vista são pessoas simples, ignorantes, paupérrimas, porém entre eles possui amor. Esse amor que eu nunca entendi que existia. Não quero que isso seja motivo de desculpas para explicar o meu comportamento vil diante dos outros, mas tudo isso começou quando eu era criança.
— Do que o senhor fala?
— Falo de uma tragédia que ocorreu durante a minha infância. Meus pais eram duas pessoas alfas. Papai e mamãe eram felizes e me conceberam. No entanto, quando completei sete anos algo mudou. Meu pai conheceu uma mulher ômega, apaixonou-se e disse que era a sua parceira predestinada. Mamãe ficou chocada. Papai chegou ao cúmulo de levar a amante para casa. Logo houve o divórcio. Não entendia o motivo da separação, e fui morar com ela na minha nova casa. De certo modo éramos felizes, criávamos um cachorro labrador e tocávamos a vida. Mas houve um dia em que eu voltei da escola e vi carros da polícia e da ambulância na frente da minha casa. Havia um incêndio. Minha mãe e meu cachorro morreram. Descobri anos depois que ladrões entraram na casa, fizeram-na de refém e puseram fogo. Nunca eles foram achados. Eu sempre pus a culpa no meu pai, porque sabia que mamãe atrapalhava a vida dele. Infelizmente fui morar com eles e fui estudar fora do país. Lá me interessei e me apaixonei por um rapaz ômega, e logo depois de meses de namoro ele me traiu. Passei a odiar todos os ômegas. Virei um omegafóbico de primeira. Para mim eles eram sinônimos de destruição de lares e imoralidade. Depois envelheci, meu pai morreu, herdei quase tudo, me casei, tive apenas um filho. Quando Johnny despertou o seu ciclo como ômega naquele banheiro onde você o salvou, meu mundo caiu. Senti raiva, ódio, desprezo, nojo e olhei o meu próprio filho como um inimigo em potencial. Anos de sofrimento me transformaram no homem que foi o meu pai. Isso continuaria se não fosse pelo acidente e por eu ter conhecido a aldeia. Eu vi um ômega dar à luz e era algo totalmente oposto aos meus preconceitos. Eu quero ter uma chance para reconquistar o amor do meu filho. Por favor, ajude-me.
— Não sei, senhor Hugo. Isso é meio repentino. O senhor fez tanto mal ao seu filho que uma reconciliação é quase impossível.
— Eu sei. Por isso que pretendo trabalhar com paciência até conseguir o meu objetivo.
...
Na casa de repouso, Francisco ligou para Johnny. Não segurou o choro. O detetive pediu para ele se acalmar, mas o mais velho não escutava.
— Prometo que estarei aí inda hoje.
Assim que viu o carro de Zawaski sair da garagem do subsolo, Paulo se meteu na frente do automóvel.
— Tá maluco?
— Por favor. Apenas me ouça!
— Tenho compromisso. Ouvi-lo seria uma perda de tempo.
— É sobre a sua ex-esposa. Ela está tramando algo.
Johnny relutou no começo, mas permitiu que Paulo entrasse no veículo e contasse tudo o que sabia.
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