Johnny... O bom detetive
89 Parte 07: Zawaski // Capítulo 11: A bebida das visões
O ritual para tratar dos ferimentos de Hugo iniciou logo após alguns membros da aldeia chegarem com as plantas medicinais. Eram folhas com uma substância parecida com a babosa e que possuía efeitos anestésicos. Basicamente era uma planta venenosa.
Após benzer o paciente, Ubiratan esmagou as folhas num tipo de pilão do tamanho de um balde. Saiu uma seiva pegajosa, que era o veneno da planta. Os ajudantes do pajé ajudaram Hugo a se levantar.
— Essa medicina fará com que a sua dor diminua muito. Começar um tratamento... bom para saúde de Yancy.
— Essa perna tá me matando.
Ubiratan pegou um palito afiado feito de espinho de uma planta, queimou e perfurou em vários pontos na perna. O homem sentiu uma dor quase insuportável a cada furo. Com um pedaço de madeira passou a seiva venenosa em cada furo a fim de fazer a substância penetrar nas feridas. Em poucos segundos, Hugo sentiu tontura e náuseas.
— Irapuã, fique com Yancy. Você terá que lavá-lo na bacia já que ele não poderá ir ao rio.
— Sim, pajé.
O veneno entrou por todo o corpo de Hugo. Seus sentidos estavam completamente desordenados. Ele passou mal e vomitou no chão. Alguns índios colocaram-no numa bacia e jogaram água. Irapuã esfregava o homem com um sabão comprado na cidade.
Por fim, Hugo desmaiou. Os índios colocaram-no dentro de uma rede na oca. Ele ficaria assim por pelo menos dois dias inteiros.
...
Na agência, os detetives começaram a pegar mais trabalhos. Em pouco tempo quase todos conseguiram casos, exceto Johnny e Lucas. Este não conseguiu na agência, mas aceitou ajudar Júlia a fim de investigar o sumiço de Hugo.
Selma viu o seu chefe cabisbaixo em sua mesa. Ela entrou na sala.
— Vejo que ficar sem o Lucas está deixando um vazio em seu coraçãozinho. Eu também sinto saudade dele.
— Não posso fazer nada. Ele é um detetive de todos os modos. Mamãe simplesmente não tomou jeito e pediu para ele investigar o acidente do meu pai.
— Nem vou te perguntar o motivo de você não ir com ele. Sei que está ressentido com o seu pai. Mas é o seu pai no fim das contas.
Johnny suspirou e pediu para a secretária voltar ao trabalho. Não estava disposto a falar de Hugo e da partida de Lucas ao norte brasileiro. Quando soube da viagem, quis contestar, mas assentiu. O moreno era um detetive também e a sua mãe a cliente.
No fim do dia, foi o último a sair da agência com Selma.
— Estou cansada. Houve tanto trabalho. Você deve descansar.
— Obrigado pela consideração. Se quiser, vá. Fecharei a agência.
Dez minutos depois, Johnny caminhou para o seu carro quando viu Paulo parado ali perto. O detetive parou por alguns segundos, lamentando a aparição do homem.
— Pode me dá licença?
— Desculpa. Não quero te incomodar. Eu passei no banco aqui perto e lembrei que você trabalha aqui.
— Já me viu. Agora vaza.
O alfa ficou na frente dele, impedindo a sua entrada no carro. A atitude enojou o ômega.
— Por que sempre tenta correr de mim assim?
— E vocé? Por que sempre tenta me seguir? Eu já te rechacei antes. O que mais quer de mim?
Paulo se aproximou.
— Quero que avancemos um passo a mais. Por que essa é a segunda vez que nos encontramos e nunca vejo o seu parceiro?
A conversa fiada de Paulo deixou Johnny ainda mais impaciente. Era quase 7 da noite, estava cansado e preocupado com Lucas. Ficar perto do Paulo era muito desconfortável.
— Senhor empresário, vá para um clube noturno na Beira-Mar. Posso te passar o endereço. Lá é ambiente ideal para homens como você.
— Eu definitivamente não preciso dessas coisas.
— Sorte a sua. — Johnny entrou no carro, manobrou e saiu imediatamente dali.
Paulo voltou para o seu carro e pediu ao motorista seguir Johnny. Minutos depois, viu o prédio em que ele vivia.
— Ele sempre vive um padrão de luxo. Não é de se estranhar vindo de um herdeiro bilionário.
Por ora, o alfa saiu dali antes de chamar atenção desnecessária.
Em casa, Johnny tomou banho, relaxou, preparou o jantar e foi assistir a um filme. Todas essas coisas pela primeira vez desde que Lucas viajara pela manhã a Manaus.
O celular tocou. Era o alfa do outro lado da linha. Ambos namoraram pelo celular.
— Sinto saudade. Nunca pensei que uma simples viagem de trabalho me deixaria assim. Nem quando eu era casado.
— Eu sei que sente e fico feliz. Mas não mais do que eu. Ainda estou no começo das investigação e posso garantir que em poucos dias descobrirei o paradeiro do seu pai.
— Por favor, Lucas. Não quero saber nada disso. Tudo relacionado ao Hugo não é do meu interesse. Quero apenas saber da gente. Como é Manaus?
— Nunca veio?
— A única cidade do norte que visitei foi Belém.
Conversa vai, conversa vem. Após a ligação, Johnny se deitou na cama e pensou seriamente em dizer toda a verdade para Lucas. Não queria se tornar vítima de chantagem da ex-mulher. Lembrou quando saiu da clínica ginecológica após a explicação do aborto. Pensou em Lucas e tudo que passaram. desde aquele dia ficou convicto de ter o bebê.
...
Dois dias após a sua chegada na aldeia, Hugo acordou. A sua cabeça estava enfaixada e a perna esquerda com dois pedaços de madeira paralelos e amarrados com cordas, servindo como um tipo de gesso. Não doía como antes.
— Não se mova muito, Yancy. Precisa de mais um tempo para melhorar. Sou o cacique Txana.
— Desculpa por dar-lhe trabalho. Não me lembro de nada antes do meu acidente. Mas estou vivo graças àquele rapaz que me salvou.
— Xingô? Ele é o melhor de nossos guerreiros. O filho do sol. Você teve muita sorte ao topar com ele.
Um batuque soou dentro da oca. Hugo ficou curioso com aquilo. Era um som tipicamente indígena.
— O que é tudo isso?
— Um ritual nosso que o xamã está presidindo.
— Ritual?
— Um ritual religioso. A bebida das visões. Ayahuasca. Quer ver?
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