Johnny... O bom detetive

34 Parte 04: Predestinados // Capítulo 05: Sem escrúpulos


Em poucas horas a vida de Lucas Souza mudou drasticamento do vinho para o vinagre. Desde cedo não entendeu o próprio corpo. A febre inexplicável, as atitudes impulsivas que culminaram no sexo na fábrica, a humilhação que sofreu na clínica e a sua ida para a delegacia de crimes sexuais. Tudo isso em menos de 12 horas. Um revés.

O delegado Marcelo recolheu o revólver e os documentos dele. Pediu para que fizesse um depoimento.

— Senhor delegado, não foi bem assim. Eu entrei no cio de maneira suspeita pois não era para eu estar no meu ciclo de calor.

— Qual o intervalo do seu ciclo e quanto tempo dura normalmente?

— Eu tenho ele de três em três meses e dura de dois a quatro dias. A última vez que eu tive durou um dia e meio por causa dos supressores.

— Entendo. Eu olhando o seu histórico civil pude notar que nunca foi casado. Um alfa dominante sem parceiro definitivo com certeza já teve muitos relacionamentos. Talvez o seu senso de parceria sexual fez com que desviasse a sua forma de ver o seu amigo, que é ômega, e assim tê-lo como um outro parceiro sexual, apesar de tomá-lo à força.

O moreno balançou a cabeça negativamente. Afirmou nunca ter visto Johnny sem respeito. Entretanto, não negou que sempre foi apaixonado, apesar desse amor ser unilateral. Explicou que sentia apreço pela esposa dele, portanto nunca em estado de normalidade tentou fazê-lo parceiro.

Depois de muitos minutos depondo ao delegado, Lucas foi encaminhado para uma cela da delegacia. Marcelo explicou que o rapaz ficará detido até que a investigação terminasse. A polícia civil falará com o médico sobre a condição da possível vítima e depois ouvir a possível vítima quando acordar. Também disse que ele também sairia se Hugo Zawaski tirar a queixa.

— Merda. — Ficou no canto da cela, sentado numa cama e com as duas mãos escondendo o rosto.

Ainda na clínica, o médico responsável soube que a família do paciente pediu para tirá-lo dali e mandá-lo para casa. Ele foi contra, haja vista era contraproducente um paciente, supostamente vítima de estupro e inconsciente, ser manejado de um estabelecimento médico. As petições desse médico foram em vão.

— Eu sou o doutor Túlio Amaral, médico da família Zawaski. Venho para tomar toda a responsabilidade de levar o paciente para a casa da família. Lá ele terá todo o conforto para se recuperar e estará ao lado dos parentes e conhecidos. — Disse o idoso para a diretora.

Ela permitiu levar Johnny para a sua casa com a condição de informar sobre o seu estado de saúde. Túlio assinou um termo de responsabilidade e deu sinal verde para tirar o rapaz da clínica.

Hugo segurou o filho no braço pela primeira vez desde os dez anos do rapaz. Júlia acompanhou-os até o carro do esposo. O motorista abriu a porta.

— Dê-me a chave do seu carro. Você acompanha ele e eu dirijo atrás.

— Tudo bem.

A matriarca segurou o filho no banco traseiro enquanto Hugo pegou o seu carro. Bia explicou que passaria em casa para tomar um banho e depois visitaria o marido na mansão.

Durante o trajeto, Júlia demonstrou tristeza ao ouvir palavras tão cruéis do esposo. Seguiu-o até a recepção da clínica e escutou a conversa dele com Lucas. Esperará a chance do próprio filho dizer a verdade.

...

Enquanto isso, no condomínio na periferia, uma vizinha varria a frente da casa quando viu a porta do apartamento ao lado aberta. Estranhou e foi verificar. Levou um susto ao ver Camila deitada no chão. Imediatamente ela acordou a moça.

— O que aconteceu, menina? Que raios houve para eu te encontrar assim?

— Quem é?

— Sou eu, Fátima. Você ficou desmaiada a noite toda?

A moça levou um susto ao perceber que dormira no chão da sala. Cambaleando e ainda com sono, pediu para sentar no sofá.

— Pode me dar água? Estou com muita sede.

— Menina que furacão é esse? As coisas tão todas reviradas.

Camila foi para a cozinha verificar o que a outra disse. Muitos utensilios fora do lugar. Sua última recordação era da ex-patroa da sua mãe.

...

O portão branco da mansão abriu automaticamente para o lado, possibilitando a entrada dos dois carros. Os veículos pararam na frente da residência.

A mansão Zawaski ficava no bairro Dunas em Fortaleza e possuía uma área do tamanho de dois quarteirões inteiros. Dentro dos limites havia piscina, quadra de tênis, um heliponto, uma área de descanso com um jardim. A casa era branca, moderna, com vidraças enormes. Coqueiros enfeitavam a mansão.

Mais uma vez Hugo levou Johnny nos braços. Os empregados deram as boas vindas ao jovem desacordado. A governanta acompanhou os patrões ao andar superior e mostrou o quarto arrumado.

— Antes de sair daqui, ele vivia nesse quarto. — Hugo deitou o filho na espaçosa cama.

— Querido, deixe que eu me encarrego disso. Pode tomar um descanso.

— Certo. Vou ao meu escritório trabalhar um pouco.

Júlia abriu as cortinas e pediu para a governanta esperar pelo doutor Túlio na sala.

Johnny continuou dormindo profundamente.

Na delegacia, o delegado Marcelo recebeu a visita de Bia. Ela fez questão de conversar com ele para fazer uma petição.

— Preciso de pelo menos cinco minutos sozinha com ele, delegado. Por favor.

— Tudo bem, eu deixarei dessa vez. Cinco minutos.

O policial levou a mulher para a cela onde Lucas estava e depois saiu.

— Como vai, Lucas?

— Bia? O que faz aqui?

— Vim te visitar. Parece que as coisas não foram nada boas para você.

— Não sei o que faz aqui. Você mesma disse que nunca gostou de mim, lembra? — Lucas cruzou os braços ainda sentado.

— E ainda continuo. Só vim para confirmar uma coisa de ti.

O moreno levantou a sobrancelha de curiosidade.

— Vai começar outra vez com isso? Apenas saiba que sou inocente. Não fiz por querer. Meu corpo ficou estranho. Não era o meu ciclo normal.

— Acredito em você. Fui eu.

— O que disse?

— Eu. Lembra do uísque que eu te dei? Tava batizado com Vaxenyr.