Johnny... O bom detetive
4 Parte 02: Natureza cruel // Capítulo 02: Lembrança
A partida de futebol entre a escola anfitriã e a escola do outro bairro chegava aos seu momentos finais. Faltando pouco menos de cinco minutos para acabar o segundo tempo, o artilheiro do time, Lucas Souza, pediu um passe. O seu companheiro de time passou a bola, dando a oportunidade ao rapaz de 14 anos marcar o gol do desempate. Quem havia dado o passe foi Johnny do 3º ano — com os seus 16 anos.
O interclasse chegou ao momento decisivo. Durante dois meses as classes do fundamental ao médio competiram entre si até que o campeão fora o 2º ano. Como os melhores jogadores eram Johnny e Lucas, eles foram escalados para a competição intercolegial. A dupla já se conhecia desde o ensino fundamental, mas não se aproximava tanto.
— Acabou. — O árbitro apitou o fim da partida.
O colégio ganhou o torneio intercolegial de Fortaleza. Todos vibraram.
Lucas procurou por Johnny no ginásio, porém não o achou por ali. Foi ovacionado por colegas e professores. Minutos depois foi ao banheiro para fazer xixi quando sentiu um cheiro diferente. Aquele afrodisíaco entranhava por cima e endurecia o que havia em baixo. O moreno pensou que a sua virilha inchada era fruto da vontade de mijar. Ledo engano.
— Mas que porra é essa? — disse. Viu três rapazes do time perdedor tentando tirar as calças de Johnny enquanto ele chorava por ajuda.
— Hei... Lucas. Acorda, cabra — Johnny mexeu no moreno que dormia durante o trajeto. Ele se acordou um tanto atordoado. — Sonhando com a bezerra? Presta atenção que já estamos subindo a serra.
— Só tive um sonho nostálgico. Não queria sonhar com isso, mas não pude evitar. — Ele mexeu no celular e se preparou mentalmente para dar o fora em Silvia.
O carro subia a serra de Guaramiranga. A estrada ali fazia muitas curvas e todo o cuidado era pouco. Souza apenas observava a paisagem das montanhas verdes e da neblina que pairava. O cenário mudou completamente de sertão para um clima temperado.
— Tá nas nuvens. Ficou triste por dar o fora na moça? Fica tite não. Já estamos chegando na pousada.
A pousada ficava num lugar mais afastado da cidade em si. Guaramiranga era um município muito pequeno, com 59 km² e pouco mais de 5 mil habitantes.

O carro parou na frente de uma entrada que mais parecia um pedágio, porém apenas para identificação. Ali era o começo da propriedade da família Foster. Havia um estacionamento para carros.
— Esfriou de uma hora pra outra — falou Lucas ao sair do carro.
— Nunca veio à Guaramiranga?
— Nunca, mas já visitei Lisboa e foi o local mais frio que eu me arrisquei em ir.
— O lugar mais frio que eu já visitei foi Londres, mas Guaramiranga guarda um carinho enorme. É a minha segunda vez aqui.
Um empregado ficou encarregado de levar a bagagem para a pousada. A dupla de detetives caminhou até chegaram a um local com várias casinhas de madeira e muitas plantas. Uma passagem de madeira e cadeiras de jardim espalhadas. A pousada era um pedaço do paraíso.
— Vocês podem aguardar aqui em frente mesmo. As chaves de vocês. Cada qual terá um quarto, ou seja, cada casinha dessa é um quarto.
Ambos entraram em seus respectivos quartos. O recinto de cada casinha era aconchegante e arejado. Tudo ali era na medida certa. Eles ficaram nas suítes para solteiros. Havia até jacuzzi no banheiro.
— Nada como um bom banho, não é? — indagou Johnny.
Lucas sentiu-se sujo desde que saiu de Fortaleza. Retirou a camisa, expondo o seu tórax musculoso. Uma tatuagem saía das suas costas, ia até o pulso esquerdo. Aproveitou aquele momento sozinho para tomar uma ducha. Durante o banho ficou pensando no sonho que tivera. Aquelas lembranças eram reais, porque ocorreram na sua adolescência. A partir daquilo que se tornou de fato amigo de Johnny.
— Por que diabos eu sonhei com aquilo? — a água morna molhava o seu corpo nu e criava uma fumaça no box.
Johnny não quis tomar banho no chuveiro, optando pela banheira de hidromassagem. Ficou pelado enquanto relaxava. Aquele momento relaxante acabaria em pouco tempo quando o motorista da fazenda for buscá-los. Ultimamente os seus músculos ficaram tensos, principalmente depois de saber do julgamento do assassino em série.
— Preciso relaxar, caramba. Sem pensamentos negativos.
Uma pessoa era responsável pela pousada, além de ser contratada pela família Foster. Ligou para o quarto de Johnny. Este saiu do banheiro nu e com o seu corpo atlético à mostra. Retirou o telefone do gancho.
— Sim.
— Senhor Johnny Zawaski? Podemos nos falar? Sou Francisco Lulia, o gerente da pousada. Venha me encontrar no restaurante em vinte minutos.
Ele colocou um suéter preto, uma calça jeans e sapatênis. Lucas preferiu uma jaqueta amarela da Nike, calça de moletom e tênis. Eles foram ao restaurante que ficava próximo dali.
— Esse cara está demorando. Disse que apareceria em vinte minutos. — reclamou Johnny.
Os dois estavam à mesa.
— Que tal a gente pedir umas cervejas enquanto aguardamos? — sugeriu o moreno.
Zawaski assentiu. Enquanto isso acendeu um cigarro ali mesmo. Sem se importar muito com o que os outros hóspedes poderiam dizer. Lucas pediu para ele apagar, porém o mais velho ficou irredutível.
— Não há nada melhor do que uma cerveja com cigarro, meu amigo. Você devia parar com essa vergonha e provar um cigarrim.
— Nah! Pra que? Pro meu pulmão ficar uma droga? Não, prefiro nunca tragar um cigarro.
As cervejas chegaram e os dois beberam juntos. A demora do gerente entediou a dupla.
Para matar esse tédio, Johnny puxou o assunto do sono que Lucas teve no carro. Quis saber por curiosidade, mas o moreno afirmou categórico de que não contaria.
— Eu tenho uma leve impressão de que eu participei desse sonho. Acertei?
— Miserável.
— Ahuhauhauha. Não esqueça que eu sou detetive. Quando tento descobrir algo eu vou a fundo.
— Se bem que eu queria ir bem ao fundo de você...
— Quê?!
— Nada hehehe.
Uma pessoa grávida de oito meses apareceu. Era Francisco Lulia. Um homem grávido.
Sim, um homem grávido.
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