Johnlocked
3 O Fantasma de Baker Street
Notas iniciais
"Todas as emoções, e essa em particular, eram detestáveis à sua mente fria, precisa, mas admiravelmente equilibrada. Ele era [...] a mais perfeita e observadora máquina de raciocinar que o mundo já viu; como amante, porém, teria metido os pés pelas mãos. Nunca falou das paixões mais ternas senão com certa zombaria e um sorriso de desdém. Para o homem de raciocínio treinado, [...] admitir tais interferências em seu temperamento sensível, sutilmente equilibrado, era introduzir um fator de perturbação capaz de abalar todos os seus julgamentos".**
Capaz de abalar todos os seus julgamentos.
~
Dez meses...
Dez meses...
Dez meses.
O progresso de toda uma vida perdido tão rápido, como uma fina areia que agora lhe escorría por entre as mãos. Tentava, de todas as maneiras possíveis, recuperar a sua habilidade de dedução, mas nem sequer conseguia adivinhar onde Raz estivera na última noite.
Reparava nos trajes. Reparava no rosto, na poeira de suas mãos, nas pequenas marcas do rosto. Mas ainda assim... Era inútil. Quanto mais tentava reparar em detalhes, mais a imagem de John lhe atordoava.
Seringas espalhadas no chão. Olhos castanho-claros que o encaravam com desapontamento. Mãos que se abriam e fechavam em sinal de nervosismo. Estava perdendo novamente a consciência. Estava perdendo-a e, cedo ou tarde, iria parar em um hospício.
Mycroft iria visitá-lo? Alguém no mundo iria visitá-lo?
Se tivesse uma crise de pânico como aquela no meio da rua, talvez acabasse por cometer um crime. Então, todos eles diriam "Eu sabia. É isso que sociopatas fazem quando se entendiam. Matam pessoas". Mas Sherlock não estaria entediado. Estaria em uma profunda crise de pânico enquanto um bebê chorava às suas costas.
Rosie.
~
De súbito, um barulho o fez pular de susto, despertando-o dos seus devaneios. Sherlock abriu os olhos, a luz local por pouco não o cegando devido ao tempo que permanecera enclausurado dentro de si. Piscou com força, tentando recuperar a visão. Mesmo enxergando apenas borrões, empurrou a seringa para baixo da cama. Tanto quanto ela, estava no chão.
— Ei, Sherlock! — gritou a voz de Raz do lado de fora. Ela batia brutalmente na porta.
— Oh, Deus... — lamentou-se, passando a mão miseravelmente pelo rosto, a voz embargada pela substância que ainda corria em seu sangue. — O que é? — rosnou, encarando a porta. Raz sabia muito bem que a porta daquele maldito cortiço nem tinha tranca, por que não abri-la de uma vez só?
Pensou. Talvez o pobre grafiteiro tivesse medo de encontrá-lo fazendo algo assustador ali dentro.
— Sherlock — disse o garoto, finalmente abrindo a porta e postando-se frente a si. Apesar de Raz não ser muito alto, havia uma grande diferença de alturas entre eles, porque Sherlock ainda estava jogado no chão como uma ameba. — Achei que você deveria ver isso.
O detetive estreitou um pouco os olhos em direção ao garoto e percebeu que Raz trazia três diferentes jornais em mãos. Mais casos?
Raz nada mais era do que um grafiteiro de rua e um fiel parceiro de Sherlock em horas de emergência. Além dele, o detetive conhecia muitas outras pessoas que vagavam por aquelas ruas sem serem notadas, a maior parte composta por indigentes ou artistas a quem ninguém dava atenção. Se não fosse por Raz e por todos esses outros contatos, que eram seus olhos na cidade de Londres, não seria tão fácil mandar e receber mensagens por todos os lados.
— Seis novos casos, Sherlock — explicou ele.
Seis? Da noite para o dia? Ou toda a cidade resolvera desaparecer do dia para a noite, ou alguma coisa estava muito errada ali. Usando uma força que não sabia ter dentro de si — e com toda a dificuldade do mundo — Sherlock apoiou-se no chão para então sentar sobre ele, não mais estando na sua posição fetal das últimas horas. Estendeu a mão em direção ao garoto, que despejou os três diferentes jornais de uma só vez entre os seus dedos.
Os olhos azuis, frios como duas lâminas que acabavam de ser afiadas — e mesmo nas atuais condições daquela hora da manhã — corriam freneticamente pelos jornais, captando cada palavra dos anúncios de casos. Havia uma similaridade absurda entre os seis novos casos que Raz trazia. E, conforme lia aquilo, Sherlock sentiu uma pontada dentro de seu peito, como se agora realmente tivesse desenvolvido sentimentos que lhe doíam.
"Por favor, encontre-o. Sociopatia altamente funcional perdido no Reino Unido".
"Detetive desaparecido deixa todos preocupados".
"O apelo de um amigo fiel aos ouvidos de Londres".
"Salve-o de si mesmo. Detetive desiste da função e Londres está perdida".
"O caso Watson de desaparecimento".
"O fantasma de Baker Street".
Os olhos azuis foram retirados dos jornais e se perderam sobre o chão do quarto. Sherlock passou mais uma vez a mão pelo rosto, dessa vez tentando se conformar do que agora lia.
— John... — a palavra escapou seus lábios em sussurro sôfrego.
John era tão brilhante. Conhecia-o tão bem, que tinha conseguido colocá-lo em um dilema. Resolver todos os crimes de desaparecimento que caíam aos seus olhos e ajudá-lo na tarefa de encontrar Sherlock Holmes, ou quebrar o padrão de solucionar todos os crimes de desaparecimento, optando por filtrá-los conforme sua preferência?
Ora, o detetive passava agora a ser John Watson, e o psicopata a enviar mensagens codificadas passava a ser Sherlock Holmes.
Um sorriso fraco estampou seus lábios, mas o sentimento de dor não melhorava; na verdade, piorava. Se ao menos John soubesse os maus bocados em que tinha se enfiado por causa de si... Se ele ao menos tivesse ideia da crise existencial e de identidade em que tinha colocado-o por ter percebido o desenvolver de sentimentos por outra pessoa...
— E então? — proferiu Raz, chamando sua atenção novamente para o mundo. — Você resolveu algum caso nesta noite? Quer que eu entregue a resposta na casa dele?
— Três — respondeu o detetive. — Ele já apresentou aos clientes a solução dos de ontem?
Raz deu de ombros, antes de responder:
— Se ele continuar seguindo o padrão de se encontrar com os clientes antes de ir para o consultório, deve estar fazendo isso agora. A não ser que tenha perdido a hora. Vou descobrir — concluiu, precipitando-se para a porta.
— Não. Espere — interviu o detetive. — Tenho algo pra você levar a ele.
Dessa vez, Sherlock insistiu na ação: ergueu-se do chão. Os casos que chegavam pelo jornal muitas vezes não era suficientes para fazê-lo levantar-se em meio a uma alucinação como aquela; por vezes, nem mesmo a sirene da polícia, nem mesmo os clientes batendo na porta, nem mesmo as ligações de Mycroft nos quatro diferentes celulares que tinha arrumado. Mas John Watson era motivo suficiente para fazê-lo se levantar, mesmo que aquilo lhe custasse toda a energia física e mental de que dispunha.
Desde o início, sentira algo por ele. Desde o princípio, John tornara-se o seu ponto fraco, mesmo que naquela época não soubesse ainda o que isso significava. Agora, percebia que era muito mais grave do que havia imaginado. Os grandes psicólogos daqueles tempo diziam que a chegada de um bebê na família sempre era motivo para deixar as pessoas mais reflexivas e dispostas e uma ressignificação de valores em suas vidas, e apesar de ser uma informação inútil a ponto de Sherlock quase tê-la deletado, sabia que ela ainda estava em algum lugar de seu palácio mental. Só não imaginava que a chegada de Rosie no mundo seria responsável por mexer com a sua cabeça a ponto de nem mais saber quem era.
Agora, enquanto escrevia um bilhete em letra corrida, percebia. Tudo sempre fora por causa de John Watson. Os casos lhe excitavam, mas aquelas noites sem dormir, aquela preocupação latente, os devaneios no meio do dia, o incômodo típico que se apoderava de seu corpo quando percebia que desejava o contato físico, mesmo nunca tendo gostado de se aproximar de ninguém...
De súbito, era como se não se conhecesse mais. Era como se não soubesse mais nada de si mesmo.
— Sherlock? — perguntou o garoto ao fundo.
Mais uma vez, Sherlock despertou dos devaneios. Encarou o bilhete sobre a mesa e se deu conta de que já havia terminado a sua mensagem. Dobrou-o sem se preocupar com as digitais espalhadas pelo papel. Também não se dera ao trabalho de forçar outra caligrafia; afinal, John já saberia que o bilhete provinha de sua pessoa, então para que perder aquele tipo de tempo?
Por fim, estendeu a mensagem dobrada em direção ao garoto.
— Entregue isso a ele.
~
John Watson ouvia as sirenes se distanciando do posto da Scotland Yard e passava as mãos pelo rosto repetidas vezes, nervoso. Acabava de apresentar uma nova solução de caso para os policiais que saiam a toda velocidade para o paradeiro de uma vítima sequestrada. Apesar de ser um caso um pouco mais complexo do que os desaparecimentos comuns — por ser um sequestro — Sherlock deveria tê-lo resolvido em poucas horas, porque não se tratava de um psicopata inteligente, muito menos de um paradeiro difícil de ser alcançado.
— Desculpe — disse a sargento Donovan ao ver a sua expressão de frustração. — Precisamos de você aqui, John. Se o maluco tentar te enviar mais alguma mensagem que solucione outro caso... Ou se ele tentar aparecer e estiver também em algum tipo de perigo... Precisamos de você por perto.
John estava farto daquilo. Simplesmente farto!
Além de não poder ir com a polícia às cenas do crime — o que pelo menos diminuiria um pouco da sua ansiedade, já que teria sua pequena dose de adrenalina mensal -, também estava retido ali dentro, sem ter para onde ir.
— Eu preciso ir para o consultório — rosnou, irritado.
Estava cansado daqueles jogos de Sherlock. Estava cansado daquele detetive egocêntrico estragando sua vida, fazendo-o perder consultas e noites em claro apenas para ter o bel-prazer de manipular toda a rotina de Londres. Se aqueles malditos casos eram tão importantes, por que ele não aparecia?!
As mãos trêmulas foram passadas pelo seu próprio anúncio de jornal, que repousava sobre a mesa. Ele dizia:
"Por favor, encontre-o. Sociopata altamente funcional perdido no Reino Unido".
Se ao menos aquelas palavras escritas pudessem retratar um mínimo de seu sentimento naquele instante...
Desde a primeira vez que vira Sherlock naquele laboratório, sua vida mudara. Pela primeira vez em muito tempo, era como se John finalmente tivesse obtido um sentido para a vida. E era triste assumir, especialmente porque tinha guardado aquela verdade a sete chaves dentro de seu peito, mas... O novo motivo para viver não se restringia apenas na solução de crimes, na correria pelas ruas da cidade, na adrenalina em não saber o dia de amanhã... Não.
O novo motivo envolvia algo muito maior, muito mais complexo e muito mais assombroso: ele. Sherlock. De alguma maneira, a sua motivação para viver estava ligada a ele. À forma como deitava no sofá e pedia para John digitar mensagens em seu celular; à forma como corria para salvar ou alertar o baixinho a cada vez que alguém importante estava em perigo; à forma como o olhava com aquele sorriso de canto, os olhos falando tanto e ao mesmo tempo tão pouco, como se apenas aparentassem ser rasos por guardar uma profundidade infinda.
— Sherlock... — sussurrou, passando as mãos pelo seu próprio anúncio. — Por que você faz isso...?
Porém, desde a primeira vez que o vira, não nutrira esperança alguma. Afinal, Sherlock era um sociopata mais frio que uma pedra, mais duro do que uma estátua, simplesmente blindado, simplesmente impenetrável. Portanto, tentara seguir sua vida de todas as maneiras possíveis. E conseguira. Conseguira! Ou, ao menos, era o que tentava convencer a si mesmo... Porque quando Sherlock quebrava qualquer padrão de comportamento, voltava à mente de John a lembrança dolorosa de que, mesmo aparentando ser nada, ele era tudo. Seu tudo. Uma lembrança dolorida demais para ficar nutrindo por dez meses...
Ah, como seria mais fácil apenas ficar em sua nova rotina de casado.
— John Watson? — chamou uma voz conhecida às suas costas.
John imediatamente despertou dos seus pensamentos e voltou à realidade: ainda estava na delegacia da Scotland Yard, detido por ser a única pessoa capaz de solucionar crimes naquela cidade — ou apresentar respostas para os mesmos que, na verdade, nem eram suas. A pessoa que o chamava era Greg Lestrade, e o simples fato de ver um rosto conhecido o fez se sentir um pouco melhor.
— Greg — cumprimentou com a cabeça, esboçando um pequeno sorriso em sua direção. Então, reparou: Greg Lestrade estava com a expressão extremamente grave em sua direção. Mais grave que o comum. Em sua mão, havia um pequeno papel dobrado.
— Acho que preciso conversar com você.
John piscou, não entendendo muito do que se tratava. Não era possível que fosse Sherlock, era? Afinal, Sherlock nem mesmo costumava se lembrar do primeiro nome de Greg, muito menos iria escolhê-lo para ser porta-voz de uma mensagem sua. A não ser, é claro... Que realmente estivesse desesperado.
— Podemos ir lá fora? — sugeriu Lestrade.
Saíram no frio da manhã. A parte detrás da delegacia era um pouco mais calma e silenciosa que o restante. Mas apesar do silêncio que supostamente deveria acalmá-lo — e com o qual definitivamente não estava acostumado — John sentia-se cada vez mais ansioso pela forma como Greg se apresentava. Os olhos negros do inspetor corriam pela rua, como se buscassem as palavras a serem usadas naquele momento. Ele assentia com a cabeça, como se estivesse autorizando a si mesmo para tratar daquele assunto, mas as palavras teimavam em não sair.
— Então? — insistiu o médico, já visivelmente incomodado. Agora, não tinha mais dúvidas: com certeza, era uma notícia de Sherlock.
— Então, eu... Tive notícias dele.
Mesmo já sabendo o que esperar, John ficou sem reação por alguns minutos. Como sempre fazia quando estava nervoso, abriu e fechou as mãos algumas vezes. Sherlock tinha se apresentado a Greg, mas não a si. Por quê? Por quê?
Engoliu a dor e assentiu com a cabeça, permitindo que apenas um suspiro deixasse seus lábios. Dez meses. Dez meses!
Quando tivesse notícias de Sherlock, pensou que ficaria interrogando sobre o que ele falara. Pensou que interrogaria o mensageiro sobre onde havia sido aquele encontro, qual era a mensagem portada, o que ele queria com tudo aquilo...
Mas tudo o que saiu da sua boca, em um fio de voz e rápido como um reflexo, foi:
— Como... ele... está?
Greg pareceu comovido com aquela pergunta. E se havia sido difícil entrar naquele assunto, ele agora desabava no mesmo, como se tivesse esperado por séculos para desabafar.
— John, ele está acabado. A barba mal-feita... aqueles olhos vermelhos...
— Oh, não — cortou o médico, negando com a cabeça e fechando os olhos com força. De repente, não queria mais saber como ele estava. Não queria manter aquela imagem de Sherlock acabado, sozinho, precisando de ajuda e mesmo assim não se mostrando a si. Devia ter caído novamente nas drogas. — Não... não me diga...
— John...
Agora, o doutor sentia a raiva voltando a correr pelas suas veias. Tantas pessoas preocupadas com Sherlock, e ele apenas se drogando como um egoísta, se isolando como se não tivesse responsabilidades naquele mundo, achando-se no direito de enviar mensagens codificadas q Mycroft e um maldito mensageiro a seu melhor amigo!
As palavras agora saíam cuspidas de sua boca, como se estivesse prestes a matar uma pessoa. Mesmo assim, John sussurrava.
— Ele não teve sequer... a decência... de aparecer para mim.
— John... — insistia o inspetor, suspirando.
— Sequer a decência! — gritou o baixinho, encarando o mais alto com ódio, como se a culpa fosse toda sua. — Você quer saber? Eu não me importo mais com esses casos! Se Sherlock quer resolver esses desaparecimentos, ele que mande mensagens para a polícia! Eu estou farto de ter que passar por isso, Greg! Não quero saber dessas malditas mensagens, diga a ele! Diga isso a ele! — rosnou, dando as costas e se precipitando para o afastamento da delegacia.
Mas enquanto batia os pés no chão para ir embora, algo o impediu de prosseguir. Pois ao invés de permanecer em silêncio ou de tentar impedi-lo de partir, tudo o que Greg fez foi murmurar as palavras:
— John, eu sinto muito.
Watson não deu mais nem um passo sequer. Greg... sentia muito? Aquilo começava a ficar com um tom realmente estranho. Não era algo usual a sair da boca do inspetor, por mais que Greg fosse um tanto emocional às vezes. Ele prosseguiu a falar, parecendo cada vez mais incerto das palavras que lhe saíam dos lábios.
— Nós deveríamos ter percebido... Que isso aconteceria algum dia. Mas depois de todos esses anos...
John sentiu-se tremer. Virou-se novamente de frente para tentar entender o que aquele homem lhe dizia.
— ... Eu deveria ter percebido, mas você fazia tão bem a ele... Vocês estavam tão bem juntos, como dois melhores amigos... E você sabe, nós talvez sejamos idiotas por isso, mas nos importamos com Sherlock...
— Nós somos melhores amigos — interviu John, olhando-o com desconfiança. Por mais que o cérebro se recusasse a entender aquilo, seu corpo parecia já ter entendido, pois todos os órgãos tremiam. Tremiam de medo. De nervoso. De ansiedade.
— Não, John... — sussurrou o homem, olhando-o no fundo dos olhos. — Sherlock se apaixonou por você.
Vento. Frio. Olhos que se abaixavam, se perdendo em algum ponto do asfalto.
Pés que recuavam.
Era verdade? Não... Não podia ser verdade.
O esboço de um sorriso se formou em algum ponto de seu rosto, mas não era um sorriso de felicidade. Era um sorriso de deboche. De deboche, pois Watson sabia que aquilo não passava de uma brincadeira de mau gosto.
Riu um pouco, nervoso.
— M-Muito engraçado — respondeu, tornando a abrir e fechar as mãos. Mas Greg não estava rindo. Ele não estava rindo.
— John, ele está perdido.
O baixinho ergueu um dedo à sua frente, em um gesto para que o homem se calasse. Ainda ria de si mesmo. Ria de raiva e de tensão, negando com a cabeça. A risada parecia afastar um pouco a dor, mas apenas fazia aumentá-la. Lágrimas se formavam no canto dos olhos, mas John se recusava a derramá-las.
— Depois de todos esses anos... — sussurrava para si mesmo, ainda negando. Negando. — Todos esses anos...
— Ele não tem a ilusão de que isso possa dar certo — interviu Greg, ainda muito sério.
Watson parou de rir e o encarou com tristeza. Apenas o olhar mais triste que o inspetor já recebera em sua vida. O peito do baixinho parecia estar sendo rasgado por dentro, como se tivesse tido agora uma notícia pior do que a morte.
E sim, era pior do que a morte.
Porque desde a primeira vez, John o amara. Desde a primeira vez, aquela admiração cega, o amor platônico, o medo da rejeição por um sociopata que não tinha sentimentos... Todo aquele trabalho para reconstruir a sua vida... Um apartamento longe de Baker Street, uma mulher que tentava amar todos os dias, uma filha de dez meses que tinha para criar... Tudo para se afastar emocionalmente dele. Tudo para enterrar mais e mais aquele sentimento dentro de si, e agora...
Sherlock brincava consigo. Sim, só podia ser uma brincadeira! Depois de todos aqueles anos, ele resolvia se apaixonar, ora, era só o que faltava! Resolvia se apaixonar da mesma maneira que resolvia injetar aquelas drogas dentro de si e sumir por dez meses, porque não se responsabilizava por absolutamente nada em sua vida!
Não, John não cairia naquela. Sherlock poderia ter descoberto seu sentimento e resolvido caçoar de si, mas John não cairia naquela. Não poderia cair naquela... Poderia?
— Ele entende que a sua vida se encaminhou, John — explicava o inspetor. Doía-lhe ver John naquele estado, mas não tanto quanto lhe doera ver Sherlock. — Mary, Rosie... Um consultório médico que está indo bem... — e pausou, antes de completar: — Sherlock fez um juramento como padrinho do seu casamento. Ele não vai quebrar esses votos.
— Desde quando...? — sussurrou o médico, os olhos ainda perdidos no asfalto. — Desde quando...?
Greg suspirou, antes de responder:
— Eu acho que... Desde sempre. Mas desde que Rosie nasceu, ele está diferente. Talvez... Tenha percebido coisas que antes não percebia.
Por alguns segundos, ninguém falou mais nada. John ainda negava com aquele olhar embebido em lágrimas de raiva, os pensamentos sobrepondo-se uns aos outros, como se tentasse encontrar outra resposta para aquilo.
Amava Sherlock mais do que amava a si mesmo, mas aquilo também gerava ódio dentro de si. Ódio, porque além de não ter sentimentos humanos, aquele maldito detetive ainda caçoava dos seus.
E se, na última das hipóteses, aquilo fosse verdade... John seria capaz de abrir mão de tudo e trocar sua vida feliz pela instabilidade de um louco como aquele?! Romper um casamento, causar aquela dor em sua Mary, assumir para si mesmo um sentimento tão constrangedor com relação a uma pessoa tão narcisista, tão egoísta, tão psicótica...
Quanto mais pensava, mais lhe doía. Não, não podia ser verdade. Depois de tantos anos dando seu melhor para esconder aquilo dentro de si, Sherlock vinha e destruía todo o seu progresso em segundos. Em uma fração de segundos. E para quê?! E se fosse mais um dos seus malditos experimentos com relação aos sentimentos humanos?!
Jamais poderia confiar naquilo. Jamais poderia acreditar nele... Nem mesmo em si mesmo... Jamais se perdoaria por abrir mão de tudo por ele, e no fim descobrir que tudo não passava de uma farsa... De um engano, uma suposição errada...
— John — chamou novamente o inspetor. — Sei que isso pode ser difícil pra você... Mas saiba que nada vai mudar em sua vida. É por isso que Sherlock se afastou. Ele crê que vai conseguir esconder isso dentro de si. Mas pelo menos... — e sua voz ia sumindo, como se inspetor tivesse vergonha de fazer aquele pedido. — Pelo menos esteja lá para ele. Apenas mostre que você se importa, mesmo que seja como amigo. Se para uma pessoa normal já é difícil perceber isso, para Sherlock... Isso está sendo a sua destruição.
— O-onde... — e pausou, trêmulo.
John não conseguiu concluir a frase de primeira, porque respirar parecia ser difícil demais. Por mais que o cérebro trabalhasse para negar aquilo tudo, o seu coração congelado ia batendo mais e mais forte, considerando minimamente a possibilidade daquilo ser real.
— Onde... ele... está...?
Greg estendeu-lhe finalmente o pequeno pedaço de papel que tinha dobrado em mãos.
— Eu não faço ideia. Mas mais um dos indigentes trouxe uma mensagem para você hoje. Eu não a abri. Tenho certeza que deve ser uma pista do seu paradeiro ou algo do tipo. Você fez aqueles anúncios no jornal, não fez?
John assentiu com a cabeça. Seguindo a sugestão de Mary, tinha anunciado o desaparecimento de seu melhor amigo em três diferentes jornais, apenas para que aquele apelo chegasse a Sherlock e ele o ajudasse a solucionar seu próprio caso.
— Deve ser por isso que ele resolveu ajudar então — concluiu Lestrade. — Pegue e leia o papel, John. Essa mensagem... É só para você.
As mãos trêmulas estenderam-se em sua direção e pegaram a mensagem dobrada. John estava a um passo de explodir. A um passo de se afogar naquele misto de sentimentos ali mesmo, mas precisava pelo menos tirar a prova. Pelo menos correr um último risco para ouvir aquelas explicações da boca de Sherlock e talvez, com muita sorte, deduzir se eram reais ou não.
As últimas palavras que ouviu da boca de Greg foram:
— Mesmo que isso não dê em nada, por favor, faça alguma coisa. Você tem que salvá-lo.
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