Johnlocked

2 Diálogo Perdido


Notas iniciais
Oi, galerinha fantasma! Puxa, tinha esquecido como é triste e difícil conseguir um comentário aqui no Nyah T-T Bem, de qualquer forma, estou postando aqui o capítulo dois para caso um de vocês mude de ideia nesse e resolva estimular a história. Antes tarde do que nunca, né não? ^^ Aí vai! Boa leitura.

O frio da neve não se limitava à superfície de sua pele, muito menos aos pêlos claros arrepiados; o frio invadia o seu ser, como se os poros de seu corpo pudessem absorvê-lo e engoli-lo. John Watson tremia não apenas do lado externo, mas também os seus órgãos pareciam tremelicar freneticamente devido à sensação que o invadia.

Sherlock...

Sherlock...

Sherlock.

Abriu a porta de seu apartamento com a chave e não se surpreendeu com a cena subsequente: Mary, com a aparência quase tão cansada quanto a sua própria, repousava na poltrona da sala de estar. Vestia, sobre a sua camisola, um roupão de seda que lhe caía largo. Ela estava na penumbra do cômodo, que era unicamente iluminado por um singelo abajur. O relógio marcava dez horas da noite, mas devido à criança pequena que agora também ocupava aquela casa, Mary estava sempre cansada.

— John — murmurou, aflita, endireitando a coluna sobre a poltrona. A neném não estava na sala, então provavelmente dormia no berço do quarto. Sobre a mesa de centro, estava a babá eletrônica que não emitia som algum. — Conseguiu alguma coisa? — perguntou, os olhos azuis esperançosos em sua direção.

John deu um passo em direção a ela. Dois passos. Três passos. Então, suas pernas vacilaram, e ele por pouco não caiu no chão. A mulher que antes repousava sobre a poltrona precipitou-se em direção ao marido e envolveu-o com os braços, impedindo-o de cair. Ela percebera por aquele olhar que John não aguentaria por mais muito tempo.

A papelada plastificada que pendia das mãos do baixinho finalmente caiu no chão.

— John...

— Ele corre perigo... — sussurrou.

Preocupada com o que ouvia, Mary se afastou um pouco do abraço, no intuito de encarar o marido nos olhos. De que tipo de perigo estavam falando?

— O que Mycroft disse? — insistiu ela.

Apesar de olhar diretamente nos olhos de John, não era encarada de volta. As íris de tom castanho-claro direcionavam-se somente ao chão, as escleras avermelhadas pela exaustão fazendo um par perfeito com o seu semblante entristecido.

— Por que... Ele me escolheu...?

Mary não respondeu de prontidão. Permaneceu parada, ainda tentando entender a gravidade da situação, quando a lamúria se repetiu:

— Por que ele me escolheu? — exclamou John, finalmente procurando os olhos dela. — Ele poderia ter escolhido a Mycroft! Poderia ter escolhido qualquer um que soubesse ler uma mensagem codificada! Poderia ter enviado esses casos à Scotland Yard!

Aflita, a mulher também pensou por alguns segundos. Mary tinha um histórico que lhe garantia ler qualquer tipo de mensagem codificada. Com apenas alguns minutos, conseguia decifrar códigos e charadas, conseguia formular respostas ainda mais difíceis de serem lidas do que as que lhe tinham sido enviadas. No entanto, após analisar muitas e muitas vezes os casos escolhidos por Sherlock, não chegara a mensagem nenhuma. E se nem uma perita era capaz de decodificar aquilo, deveria haver um motivo: a mensagem não era para ser decodificada.

Ou então... Se apenas Mycroft era capaz de lê-la, talvez Sherlock tivesse escrito algo naqueles casos para que fosse exclusivamente lido pelo irmão, fosse por menção a fatos passados, fosse por códigos internos... Enfim. Seria impossível, até para um profissional fora da família Holmes, ler aquilo.

— Talvez ele não quisesse que você decifrasse nada, John — respondeu. Sentiu sobre si aqueles olhos tão tristes e tão confusos. — Talvez ele só quisesse que você apresentasse as soluções dos casos aos clientes.

— E por que ele mesmo não as apresenta?! — protestou, como se a mulher pudesse saber a resposta. Estava inconsolável, e aquilo podia ser facilmente lido em seu rosto. — Por que ele fica solucionando esses casos e me enviando as respostas, como se eu os tivesse resolvido?! Por que ele não aparece, Mary?! — e a cada pergunta, a sua expressão ia caindo mais e mais na exaustão. — Onde ele está...?

Percebendo que John se alterava cada vez mais, ela apenas suspirou. Queria tanto poder ajudá-lo. Queria tanto dar-lhe uma resposta convincente, ou ao menos consolá-lo. Mas a cada dia que passava, mais e mais chegava à conclusão de que aquele era um assunto somente entre aqueles dois. Somente entre Sherlock e John.

— Ele não quer te dar os créditos — murmurou a mulher, tentando encontrar algum sentido naquilo tudo. — Ele quer apresentar as respostas aos clientes sem ter que ir pessoalmente.

— Mycroft não sabe onde ele está — sussurrou o baixinho.

De súbito, os olhos azuis finalmente se arregalaram em sua direção, temerosos. Em sequência, o cenho dela se franziu, expressando confusão. De todas as informações que tinha recebido até então, aquela era a mais assustadora. Mycroft Holmes era o funcionário mais determinado e mais obsessivo de todo o governo britânico. Mesmo quando Sherlock forjara sua morte, Mycroft soubera seu paradeiro; mesmo em seus outros sumiços, mesmo em suas missões secretas, Mycroft sempre — sempre — conseguia localizá-lo de uma forma ou de outra. Se agora nem mesmo ele sabia onde estava o irmão menor... Havia realmente algo muito errado naquela situação.

Agora, John se soltara de seus braços. Naquela mesma expressão inconsolável, absorto em seus próprios pensamentos, andava de um lado para o outro na sala, cambaleando como um zumbi, murmurando palavras desconexas como um indigente.

— O que eu faço... O que eu faço...

Vê-lo daquele jeito partia o seu coração. Mary o estava perdendo. Ela o estava perdendo, e nem mesmo Rosie — a filha que completava agora dez meses — estava conseguindo alegrá-lo. Há dez meses, John Watson não dormia de preocupação, e não era devido à sua filha. Há dez meses, acordava dos cochilos rápidos por conta de pesadelos, sussurrava o nome do melhor amigo enquanto caminhava naquela casa, evitava longas consultas médicas simplesmente por não conseguir mais se concentrar em nada. E o pior de tudo, Mary não tirava a sua razão.

Queria poder ajudá-lo, mas como? Como?

— John! — exclamou subitamente, quando uma ideia cruzou sua mente.

O homem parou de caminhar e olhou-a novamente, o rosto carregando uma expressão tão confusa, que ele nem parecia mais saber onde estava. Então, ela finalmente dividiu consigo sua ideia.

— Se Sherlock está resolvendo os casos de desaparecimento... Se está consultando os jornais, seu blog e recebendo de alguma forma os correios que chegam pedindo ajuda até a sua casa... Por que você também não pede o seu auxílio?

O homem piscou, aparentemente não entendendo nada.

— Você está me dizendo para pedir a ele que volte? — retrucou, como se fosse a ideia mais absurda do mundo. — Mary, você não entende. Sherlock não é assim, ele... Ele só faz o que quer. Se quer estar desaparecido, ele vai continuar desaparecido e não há nada que eu ou você possamos fazer. Eu não posso simplesmente fazer esse pedido...

— Você não estaria fazendo um pedido — interviu ela, séria. — Você está dando a Sherlock mais um caso de desaparecimento. E se ele está tão envolvido nesse tipo de caso agora, solucionando todos os caem à sua vista, ele tem que te ajudar nesse também.

Agora, a ideia parecia estar chegando na mente de John. Com os olhos assustados em sua direção, ouviu, enquanto a mulher lhe explicava pela última vez:

— Você vai dar a Sherlock Holmes o caso do desaparecimento de Sherlock Holmes.

~

Era uma noite quase comum para o inspetor Greg Lestrade. Exausto de uma semana cheia, mas com um humor surpreendentemente bom devido aos acontecimentos mais recentes em sua vida, equilibrava duas sacolas de papel nas mãos para tentar encontrar a chave de casa que residia em seu bolso.

Lestrade nunca tivera muita companhia na vida. Era do tipo de homem que se relacionava pouco, porque o envolvimento com o trabalho não lhe dava muito tempo para pensar em amenidades. Ou ao menos não dera nos últimos anos de sua vida, porque agora algo havia mudado.

O último desaparecimento de Sherlock lhe tornara mais humano de alguma maneira. Se antes ficava dias e dias absorto apenas em seus casos ou em ajudar o amigo a resolver alguns mais complexos, a tristeza agora atingia o seu âmago, trazendo reflexões mais profundas sobre si mesmo e sobre a vida.

Estava cansado de ficar triste a cada vez que Sherlock sumia. Se sentia cansado de viver em função daqueles casos, o coração sempre na boca, as pernas sempre aceleradas, correndo de um lado e para o outro, como um rato de laboratório que se preparava para o abate. Desde o último desaparecimento daquele homem, passou a desejar algo mais em sua vida. E, nesse âmbito, surgiu Ailsa.

Ailsa era escocesa, e somente recentemente tinha se mudado para Londres. Apesar de estar em um departamento completamente diferente, ela agora também integrava a Scotland Yard, e desde que chegara, enviava olhares risonhos para si. Não era como se Lestrade tivesse certeza da reciprocidade do sentimento por parte dela — tinha os pés no chão demais para já sair se iludindo com aquele tipo de coisa -, mas aos poucos, as coisas pareciam se encaminhar. Tudo o que sabia era que costumava chegar em casa às onze da noite pelo grau de envolvimento com seus casos, mas naquele dia chegava em casa às onze da noite por outro motivo.

Tinha ficado até tarde conversando com ela. E ficara tão distraído nesse sentido, que se esquecera de que precisava passar no mercado, motivo pelo qual tivera que andar agora dez quadras atrás de uma venda aberta, já que a conveniência em frente a seu apartamento tinha fechado há muito tempo.

Agora, com duas sacolas de papel nas mãos pelas compras atrasadas no mercado e a mente borbulhando nos sinais de que Ailsa correspondia às suas expectativas, enfiava a chave do apartamento no buraco e se equilibrava para rodá-las com as compras em mãos. Aos poucos, de alguma maneira, sua vida estava se encaminhando. Pela primeira vez em muito tempo, Lestrade voltava a se sentir uma pessoa normal.

Ou não. Porque tão logo destrancou e empurrou a porta sutilmente com os pés para se deparar com a sua própria sala, o coração tornou a sair pela boca.

As compras caíram no chão. A porta bateu fortemente às suas costas. Lestrade arrancou do suporte da calça o seu revólver e o direcionou à silhueta alta e magra que tinha invadido seu apartamento na calada da noite.

Isso é uma residência privada, ponha suas mãos onde eu possa ver!— gritou, o semblante sério em direção ao invasor.

Mas foi ignorado por ele. Na verdade, passou até a ser ignorado por si mesmo, porque agora que ia se acostumando à imagem que atingia seus olhos, tudo parecia fazer sentido. Emocionado, Lestrade permitiu que suas mãos vacilassem, e também o revólver caiu perigosamente no chão, por pouco não resultando em uma catástrofe.

— S-Sher...lock?

Algo estava errado. Algo estava muito errado.

A silhueta que agora se mantinha de costas para si era realmente de Sherlock. Mas quando o amigo olhou por cima do ombro para encarar Lestrade, havia algo no seu olhar.

Mesmo quando Sherlock se passara por morto — levando para ressuscitar muito mais tempo do que levara agora em seu desaparecimento — havia ressurgido para Lestrade com o semblante de sempre: confiante, astuto, aquele olhar azulado risonho e furtivo de sempre. Mas agora, após apenas dez meses de desaparecimento absoluto e nenhum forjamento de morte, o seu olhar era... o de um homem em luto.

— Podemos pular as cerimônias? — murmurou Sherlock, cabisbaixo.

Puta que pariu. Nem mesmo a sua voz grave e sedutora parecia mais a mesma. Agora, substituída por um tom austero e deprimido, ela retratava um homem que finalmente havia explodido. E após uma explosão que Lestrade não conseguia nem imaginar qual fora, Sherlock estava em frangalhos. Em migalhas que não pareciam poder ser recolhidas.

— S-Sherlock.

Lestrade não esperou mais. Agindo por instinto mais do que qualquer coisa, deu passos certeiros em direção ao mais alto, e sem nem esperar pelo sinal permissivo, o tomou em um abraço.

Como sempre reagia quando era abraçado, Sherlock não o retribuiu. O inspetor pôde sentir que ficou incomodado com aquele toque súbito e afetuoso, mas insistiu no ato. Não queria saber se Sherlock aprovava ou não a sua atitude: o fato era que simplesmente queria abraçá-lo. E após alguns segundos de profundo constrangimento do detetive, que permaneceu imóvel frente aquilo, o inspetor finalmente se afastou.

Não disseram nada por algum tempo. Olhos negros tentavam entender os azuis, mas os azuis não lhe davam uma dica sequer. Nada. Finalmente, Sherlock lhe deu novamente as costas e tornou a encarar a janela. Um suspiro pesado deixou os seus lábios.

Estava mais magro e mais pálido que o comum. Os cabelos estavam ligeiramente mais compridos, provavelmente frutos do descuido dos últimos meses; a barba mal-feita era visível. Onde ele estivera? Por onde andara? Se não fosse pelo cheiro sutil que indicava que ele estava sim tomando banhos, poderia ser confundido com um indigente qualquer na rua.

— Sherlock... — murmurou pela última vez. Parecia que só sabia pronunciar aquele nome. Tinha tantas perguntas a fazer, tantas dúvidas a tirar, mas ainda assim... Ainda assim, não conseguia proferir nada.

— O que você faz? — sussurrou o mais alto, aqueles olhos frios e distantes fixos no vidro da janela que levava para a rua.

— Como faço... o quê? — perguntou o outro, cauteloso. Sentia que qualquer palavra errada que dirigisse ao amigo poderia ter efeitos catastróficos. E se ele desaparecesse de novo?

— Você está apaixonado, não está?

Lestrade recuou. "Apaixonado"?

Qualquer palavra que derivasse do substantivo Paixão, na boca de Sherlock, sempre estivera repleta de cinismo. Agora, pela primeira vez na vida, ele proferia uma palavra daquelas como se realmente se remetesse ao significado original da mesma.

— Eu... — tentou responder, mas a sua mente parecia tão vazia.

— Recomponha-se, Lestrade. Eu estou tentando estabelecer um diálogo aqui — interviu o outro, sério, agindo minimamente como si mesmo pela primeira vez naquela noite.

Lestrade bufou, irritado consigo mesmo. Não sabia responder aquela pergunta nem para si, como iria respondê-la para Sherlock?!

— Por que você me perguntaria algo assim? — retrucou, incomodado. Aquele homem aparecia depois de dez meses e já começava a questioná-lo?

— Você tem falado com John?

Lestrade pensou por alguns segundos antes de responder. Ora, é claro que tinha falado com Watson. E se Sherlock sequer imaginasse o estado do melhor amigo, não brincaria mais de se esconder do mundo, preocupando tão seriamente todos à sua volta.

— Sherlock, ele está... Acabado. Não está nem trabalhando direito. Tudo o que ele faz é...

— Ele tem apresentado as soluções dos casos?

O inspetor suspirou, vencido. Era possível que Sherlock somente se importasse com aqueles malditos casos?

— Sim, Sherlock — respondeu, entristecido. — Ele tem apresentado as soluções dos casos. Até quando você vai se manter desaparecido? Você tem sequer comido alguma coisa? — completou, notando o estado fragilizado do outro.

Sherlock lançou-lhe um olhar apático, antes de responder:

— Por tempo indeterminado.

— Sherlock...

— Se você o vir... — iniciou ele novamente, de forma pausada. A cada vez que o detetive referia-se a John Watson, a sua expressão facial mudava, como se uma faca estivesse sendo girada em seu peito e, mesmo assim, ele relutasse em demonstrar a dor. — Se você o vir, não diga que me encontrou.

Ei, ei, ei!— gritou Lestrade, percebendo que aquele homem alto já voltava a se encaminhar para a saída, como se o encontro tivesse terminado. — Você não pode sair assim!

A voz desdenhosa reverberou pelo ar, fazendo Lestrade parar no caminho. Sherlock permanecia de costas para si, quase alcançando a porta, quando respondeu, em tom de deboche:

— Você vai me prender?

O inspetor direcionou seu olhar ao chão. Conseguia prender bandidos de todos os tipos, interditar avenidas, estabelecimentos comerciais, bancos, conseguia até mesmo mostrar a sua autoridade com algumas das pessoas mais importantes daquele país, mas quando se tratava de Sherlock... Quando se tratava dele, Lestrade era apenas mais um. Por que sentia-se tão impotente?

Estava a um passo de perdê-lo novamente para as trevas. A um passo de ficar mais meses e meses sem saber o seu paradeiro, suspeitando de uma possível morte ou um perigo ainda maior, já que não parecia haver limites para Sherlock Holmes. Mas então, o inspetor se lembrou.

Por que Sherlock tinha ido até sua casa? Apenas para saber de John Watson? Não era possível... Não era possível, pois Sherlock poderia muito bem ir observá-lo em segredo, sem nunca ser pego por segui-lo furtivamente. Não, ele tinha ido até sua casa por algum motivo. Apenas não estava conseguindo proferi-lo, e agora, fracassando miseravelmente na missão, optava por ir embora.

Mas qual motivo? Qual?

A mente de Lestrade iluminou-se.

— Ei, Sherlock — chamou, dessa vez um pouco mais confiante. Lembrou-se da primeira pergunta que o amigo lhe direcionara ao aparecer ali. — Você quer saber sobre Ailsa?

Finalmente, as palavras pareceram surtir efeito. O detetive que caminhava paralisou, as mãos já encostadas na maçaneta que viraria para sair. Ele simplesmente congelou na posição, não prosseguindo na saída e nem se submetendo a encarar Lestrade novamente.

— Ailsa... É o nome dela? — perguntou, relutante.

Um sorriso discreto formou-se nos lábios do inspetor. Pela primeira vez na vida, tinha ganhado em algo de Sherlock. Pela primeira vez, tinha conquistado a sua atenção. Por mais que não soubesse ao certo o motivo de ter que falar de Ailsa para o homem, sabia que deveria fazê-lo. Era a única forma de mantê-lo na luz por mais tempo.

— Eu... A conheci na Scotland Yard. Nós começamos...

— Eu não me importo — cortou ele, interrompendo o outro. Em seguida, tornou a falar. — Mas como você faz... Pra ter certeza... Que ela gosta de você? — perguntou, introvertido. Parecia falar mais para dentro do que para fora, não desejando ser ouvido.

Lestrade deu de ombros, atento a cada movimento daquele homem.

— Nós... Nunca sabemos — respondeu. — Nós apenas assumimos o risco.

O detetive pareceu irritado. Virou-se em sua direção, e os olhos azuis, inchados de maneira a retratar uma pessoa que provavelmente não dormia há dias — ou meses — olharam-no com ódio.

— Eu não assumo riscos— rosnou, proferindo aquelas duas últimas palavras com asco.

— Nós não estamos falando de você. Estamos...?

Lentamente, Sherlock foi abaixando os olhos, até que os fixou no chão. E de repente, Lestrade entendeu.

O inspetor piscou. Suas pernas vacilaram um pouco. O cenho se franziu. O olhar de desconfiança instalou-se na sua expressão. Não. Não era possível que estivesse entendendo aquilo... Era?

— Oh, não... — sussurrou pra si mesmo, ainda não crendo no que ouvia. De súbito, uma vontade de rir se instalou no seu ser.

Era por isso que Sherlock tinha desaparecido por dez meses seguidos? Era por isso que estava sem coragem de aparecer para John Watson?

— Oh, Deus — repetia novamente, agora começando a rir. Não sabia se ria porque aquilo de fato era engraçado ou se era apenas de nervoso. O maldito Sherlock Holmes estava... Apaixonado pelo seu fiel melhor amigo? — Oh, Deus!

— Isso não é engraçado, Lestrade — rosnou ele, o olhar tímido e reprimido como de uma criança que sofria bullying.

— É claro que é engraçado! — prosseguia, a gargalhada de nervoso e incredulidade ainda ocupando o ar. — Você é humano afinal!
Mas conforme ia rindo, passava também a se sentir mal. Sherlock parecia tão inconsolável... Tão triste, deprimido, perdido... Aquilo talvez fosse grave.

Sherlock era do tipo que enfrentava os piores psicopatas, mas que mandava uma mensagem de "Socorro" apenas por ter que discursar em um casamento de que era padrinho. Lidava com os piores assassinos e ladrões, mas entrava em um colapso nervoso se tinha que consolar ou passar segurança emocional a alguém. Em resumo, os sentimentos eram a sua destruição. E se estava sentindo pela primeira vez na vida um sentimento intenso como aquele... Era grave. Talvez fosse grave a ponto de enlouquecê-lo, e ninguém sabia o que Sherlock seria capaz de fazer se perdesse a sua consciência.

De repente, Greg já não ria, mas o encrava com preocupação. Durante todos aqueles anos, uma parte de si suspeitara que aquilo poderia ocorrer. Mas agora, quando ocorria, parecia ser irreal demais para ser verdadeiro.

— Tem que haver... sinal... uma prova — insistia o detetive, o olhar de pânico perpassando os móveis enquanto refletia. — Tem que haver!

— Achei que você conhecesse os sinais — murmurou Lestrade. — As pupilas se dilatam, o pulso se acelera e...

— Não, não, não! — gritou Sherlock, também passando as mãos sobre o rosto, caminhando de um lado para o outro. — Isso não é suficiente... Não é suficiente!

— Não existem outros sinais.

Esses sinais não servem para nada!— rosnou, irritado. — Eles demonstram o interesse, mas e todo o resto?! Como saber se não é só um interesse físico?! — e então, parou de gritar e passou a sussurrar, o terror novamente estampando seu rosto. — Ele...

Meu Deus. Sherlock agora diferenciava interesse físico de interesse romântico? Ele realmente fazia isso? Greg passou as mãos pelo rosto, tentando absorver o que lhe era dito.

— Sherlock...

— Rosie — sussurrou o detetive para si mesmo. Já não falava com Greg, mas sozinho. Estava saindo fora de controle. — Uma filha de dez meses! — reverberou, a voz ecoando por toda a sala, o olhar ávido direcionado ao inspetor, como se fosse um psicopata prestes a lhe arrancar a cabeça.

Lestrade se encolheu um pouco, não sabendo o que fazer. O caso era muito mais grave do que tinha imaginado. Para uma pessoa comum, descobrir-se apaixonado já era difícil. Mas para Sherlock Holmes... Aquilo talvez fosse pior do que a própria morte.

— Sherlock... — reiniciou, temeroso. — Não vamos nos exaltar aqui dentro...

Eu não estou exaltado! — gritou novamente, cheio de ódio.

Eram raras as demonstrações de sentimentos por parte de Sherlock Holmes. Mas quando elas aconteciam, assustavam até mesmo o melhor inspetor da Scotland Yard.

Lestrade suspirou, tentando encontrar as palavras certas.

— Veja... Se você quiser passar uns dias aqui, Sherlock... Nós podemos pensar em uma solução juntos...

— Não há soluções — sussurrou o detetive, os olhos novamente perdidos sobre o chão da sala. A cada segundo, confirmava mais que o seu caso era perdido.

— Mas nós podemos...

— Eu perdi a mim mesmo, Greg — prosseguiu nos sussurros, conformado. O inspetor quase não pôde crer que aquele homem pronunciava seu nome corretamente ao invés de chamá-lo de "Graham". Sherlock prosseguiu: — A mente brilhante, as deduções, o raciocínio lógico... Sem eles, eu não sirvo pra mais nada.

— Sherlock...

— Eu não posso mais me concentrar. Como continuar a viver, se a única coisa que eu sei fazer, já não me serve mais?

— Mas você continua resolvendo aqueles casos...

— Casos estúpidos! — gritou novamente. — Londres é uma bomba-relógio! Você não vê? Sem mim, não há quem possa resolver os piores casos! Terroristas, psicopatas, assassinos! É uma questão de tempo até que eles percebam que eu estou fora do jogo!

E aquele era Sherlock Holmes. O maior detetive de todos os tempos, capaz de desvendar e de lidar com os maior enigmas e atrocidades das mentes criminosas. O seu fim era justamente lidar com os sentimentos que carregava dentro de si. E se a adrenalina era capaz de avivá-lo, o amor era capaz de matá-lo. Sem a sua mente brilhante, de nada servia aquele homem.

— Nós vamos encontrar uma solução — disse o outro, o fio de voz mal se fazendo ser ouvido dentro do cômodo.

Após alguns segundos imerso no profundo silêncio, Sherlock tornou a encará-lo. Agora, já não eram os olhos cheios de ira, mas sim indiferentes e apáticos. A expressão de conformismo preocupava a Lestrade mais ainda do que os surtos de ódio, se é que aquilo era possível.

— Quando tudo isso explodir, eu estarei longe daqui — sussurrou por fim. — Pelo menos, longe de mim, John estará mais seguro. E talvez — e pausou, piscando os olhos lentamente. — Se eu passar tempo suficiente longe, talvez eu recupere a sanidade.

— Não pense... Não pense em sair por essa porta...

— Adeus — interrompeu, abrindo a porta em um movimento brusco e certeiro. Dramático como apenas Sherlock Holmes conseguia ser quando desejava. — Se você o vir, esse encontro nunca aconteceu.

E assim, sem lhe dirigir qualquer outra palavra e ignorando absolutamente os gritos "Sherlock! Sherlock!" que saíam da boca do inspetor enquanto o via partir, ele desapareceu na noite. Lestrade chegou a considerar segui-lo, mas no primeiro quarteirão, Sherlock sumiu.

Sumiu, deixando-o com a mente mais perturbada do que nunca.

Meu Deus, como precisava falar com John Watson.

Notas finais
Comentários não funcionam apenas para que vocês digam suas opiniões, mas também para que mostrem ao autor que tem alguém lendo e acompanhando o trabalho dele. Se tiver lido até aqui, por favor, deixe um comentariozinho e mostre que não estou só nesse Nyah. ^^