John Deere Azul
3 SILÊNCIO DOS DIAS SEGUINTES

O céu do Tennessee não mudou de cor aos poucos; ele simplesmente desabou em um tom de cinza-azulado, quase da cor de um hematoma. O vento, que antes era apenas um sopro quente, agora uivava entre os carvalhos, trazendo o cheiro de terra molhada e ozônio.
— Cal! As janelas do celeiro! — Sua mãe gritou de dentro da casa, a voz abafada pelo primeiro trovão que sacudiu as tábuas da varanda.
Caleb não respondeu, mas já estava em movimento. Ele saltou os degraus e começou a correr em direção ao grande celeiro de madeira escura, Hazel saiu da cozinha logo atrás, o rosto pálido, a camisa de flanela batendo contra o corpo conforme o vento ganhava força.
Eles entraram no celeiro no exato momento em que as nuvens se rasgaram e um trovão terrivelmente alto estrondou. O som da chuva atingindo o telhado de zinco foi como um disparo de metralhadora, ensurdecedor e absoluto.
— Ajuda aqui! — Caleb gritou, puxando a imensa porta de correr de madeira.
Hazel agarrou a outra extremidade, seus dedos pequenos sumindo na madeira bruta. Juntos, eles forçaram a porta contra o vento até que ela se fechasse com um baque que estremeceu o chão. O silêncio que se seguiu não era total, a chuva lá fora era um rugido constante, mas ali dentro, sob a luz fraca das lâmpadas de filamento, o mundo parecia ter encolhido para o espaço entre eles.
Caleb estava ofegante, o suor da tarde e a água da chuva brilhavam em seus braços largos. Ele se virou para Hazel, a desconfiança da varanda ainda queimando como brasa no fundo de seus olhos azuis.
— Hazel, o que era aquilo? — ele perguntou, a voz rouca sobrepondo-se ao som da tempestade. — "A aposta ainda está de pé". Foi o que a Chloe disse.
Hazel encostou as costas na porta fechada, seu coração batia tão forte que ela achava que Caleb podia vê-lo sob a camisa. Ela olhou para as mãos, sujas pela porta de madeira, e depois para ele.
— Elas são maldosas, Caden. Elas criam jogos porque não têm nada real na vida delas — ela começou, a voz trêmula. — Elas não entendem o que eu sinto quando estou aqui. Elas acham que tudo é um troféu ou uma piada.
— E eu sou o quê? — Caleb deu um passo à frente, ele era uma presença imensa naquele celeiro, a luz criando sombras profundas em seu rosto. — Eu sou o troféu ou a piada, Hazelnut? Porque eu ouvi o meu nome, ou pelo menos o que elas me chamavam na escola.
Hazel sentiu uma lágrima quente teimar em cair. Ela não queria que fosse assim. Ela queria que o tempo parasse no almoço, nas risadas do Vovô Earl.
— Você é a única coisa que me faz sentir que eu não estou afundando — ela sussurrou, dando um passo em direção a ele. — Aquela aposta... elas queriam que eu me aproximasse de você por um motivo idiota. Mas elas não sabem que eu já estava aqui há anos. Elas não sabem que eu te amo desde que a gente tinha doze anos e você dividiu seu lanche comigo atrás do ginásio.
Caleb parou.
O "eu te amo" atingiu-o com mais força do que qualquer trovão. Ele queria acreditar. Ele precisava acreditar. Sua insegurança, aquele garoto gordinho que sempre se achou "menos", lutava contra a imagem da garota mais bonita do mundo declarando-se para ele em um celeiro cercado pela chuva.
— Você não precisa provar nada pra elas, Hazelnut — ele disse, a voz amolecendo. — Se você me ama, manda elas pro inferno.
Hazel olhou para ele, e naquele momento, a dualidade da sua vida pesou como chumbo. Ela queria mandar o mundo pro inferno, mas ela tinha dezessete anos e o medo do ostracismo era uma prisão. No entanto, ao olhar para Caleb, para a honestidade nos olhos dele, para a força calma que ele emanava, ela tomou uma decisão desesperada. Ela ia ganhar a aposta para calar a boca delas, mas ia se entregar a ele porque era o que ela mais desejava.
Ela encurtou a distância, suas mãos pequenas e frias subiram pelo peito quente de Caleb, sentindo a batida descompassada do coração dele sob a camiseta.
— Cala a boca, Caleb Brayden — ela murmurou, puxando-o pela gola.
Quando os lábios dela tocaram os dele, Caleb esqueceu Chloe. Esqueceu as risadas no posto de gasolina. Esqueceu até da chuva. O beijo tinha gosto de torta de pêssego. Caleb a envolveu em seus braços, erguendo-a do chão como se ela não pesasse nada, e Hazel se agarrou a ele com uma força que beirava o desespero.
Eles se moveram para o feno seco, onde a luz não chegava totalmente. Ali, entre o cheiro doce do campo e o som rítmico da tempestade no telhado, Caleb e Hazel se entregaram ao que vinham reprimindo há anos. Para Caleb, foi o momento mais sagrado de sua vida. Cada toque de Hazel parecia uma promessa de que ele era suficiente, de que ele era o homem que ela escolheu.
Mas enquanto ele a abraçava na penumbra, sentindo o calor do corpo dela contra o seu, Hazel mantinha os olhos fechados, uma parte de sua mente já calculando como ela explicaria aquilo para as amigas sem perder a alma no processo e a outra realizada por finalmente tê-lo. Ela tinha o beijo. Ela tinha o vídeo — que ela gravou escondida, em um ângulo que Caleb jamais perceberia.
Ela tinha vencido a aposta. Mas o preço, ela descobriria dez anos depois, seria a única coisa que realmente importava.
⛈️
A tempestade tinha diminuído para um sussurro rítmico no telhado, e o ar dentro do celeiro estava pesado com o cheiro de chuva e feno fresco. Caleb estava deitado de lado, com o rosto apoiado na palma da mão, observando Hazel como se ela fosse um milagre que pudesse evaporar a qualquer segundo.
Ele esticou a mão e traçou a linha do ombro dela com a ponta dos dedos, um toque tão reverente que fez Hazel querer gritar.
— Eu não consigo acreditar que isso aconteceu — Caleb sussurrou todo bobo, sua voz carregada de uma paz que Hazel nunca tinha visto nele. — Eu passei tanto tempo achando que eu era invisível pra você, Hazelnut. Que eu era só o cara que consertava suas coisas.
Hazel forçou um sorriso, mas seus lábios pareciam feitos de ósmio. Ela fungou, os olhos ficando marejados. Ela se sentia nua, e não era pela falta de roupas, mas pela forma como Caleb a olhava com uma alma escancarada, sem defesas, com aqueles olhos azuis intensos pelos quais ela sempre seria apaixonada.
— Você nunca foi invisível, Caden — ela confessou, e por um segundo, a verdade foi tão forte que quase a fez confessar tudo. Quase.
Ela tateou o feno ao lado do corpo, seus dedos encontrando o metal frio do celular que ela tinha escondido sob a camisa de flanela. O aparelho vibrou silenciosamente. Uma notificação de Chloe. Hazel nem precisava ler para saber que era uma cobrança.
— Hazel? — Caleb chamou, percebendo o olhar dela se perder na penumbra. — Tá tudo bem? Você está arrependida?
Ele se sentou ao seu lado, a insegurança voltando a marcar seus olhos. O "garoto gordinho" estava pronto para se desculpar por ter sido feliz demais.
— Não! — ela respondeu rápido, segurando a mão dele. — Não, Caleb. Nunca! Jamais! É que parou de chover... eu só preciso ir pra casa ver como meus pais estão e se já descarregaram o caminhão, eu só preciso…
— Eu sei. Eu te levo. — Se prontificou, já se levantando com sua agilidade protetora.
Enquanto ele se vestia de costas para ela, Hazel pegou o telefone. Com os dedos trêmulos, ela abriu o arquivo da gravação. Estava lá. O beijo. A entrega. O melhor e o pior momento da sua vida em uma única noite. O troféu que compraria seu silêncio com Chloe, mas que custaria cada grama de paz que ela tinha no coração. Ela editou o vídeo cortando boa parte dele e enviou o arquivo para o grupo.
No segundo em que o ícone de "entregue" apareceu, Hazel sentiu algo se quebrar dentro de si. Ela não tinha apenas ganhado uma aposta; ela tinha acabado de exilar a si mesma daquele mundo de pêssegos, risadas de avô e cheiro de terra. Ela tinha acabado de se excluir da vida do rapaz que ela amava, quebrando a confiança que tinham.
Caleb se virou, estendendo a mão para ajudá-la a levantar.
Sem ao menos perceber, Hazel começou a chorar copiosamente, sua mente pesando toneladas. Caleb ficou aflito, sem entender o motivo das lágrimas, por um minuto pensou tê-la machucado.
— Hazelnut, eu te machuquei? O que houve? — A voz de Caleb era doce e preocupada, o que a fez chorar um pouco mais.
Ela respirou fundo e olhou para ele, tentando secar o rosto molhado com o dorso da mão, mas à medida que ela tentava, mais lágrimas escorriam.
— Por favor, Caden… — soluçou sôfrega. — Não esquece nunca que eu amo você, tá bom? — ela pegou a mão de Caleb e pousou entre seus seios, para que ele sentisse seu coração batendo descompassado. — Eu amo você. Eu amo você. Eu sempre vou amar você. Você me entendeu?
— Eu te amo desde os meus dez anos, Hazel Marie White — ele deu de ombros como se fosse óbvio, seus lábios sorriam. — E vou continuar amando, não importa quantos anos passem.
Hazel, ainda em lágrimas, o abraçou o mais forte que pôde, ele retribuiu com mais intensidade. Ela se aninhou nos braços dele pedindo a Deus para jamais esquecer aquele calor inebriante que ele emanava e nem a forma como ele afagava seus cabelos entre os dedos.
— A gente se vê amanhã no culto dominical? — ele perguntou, com um brilho de esperança e amor que Hazel sabia que seria o último que ela veria por muito tempo.
Ela umedeceu os lábios.
— Amanhã eu vou à cidade com meus pais. Mas pode ser na segunda-feira. Tudo bem? — ela mentiu, a voz firme por fora e em frangalhos por dentro.
— Segunda-feira. — Ele concordou contente, segurando sua cintura.
Ele insistiu em levá-la, mas ela quis ir embora sozinha.
Ela o beijou uma última vez, um beijo profundo e apaixonado, mas que tinha gosto de adeus, embora ele achasse que era de "até logo". Quando ela caminhou em direção à porta do celeiro, deixando Caleb parado na luz amarelada, Hazel soube que o Tennessee nunca mais seria verde para ela.
A partir daquela noite, tudo seria cinza.
A Partir daquela noite, não teria mais volta.
🚜🌱🐎🐂
No domingo, como de costume, mas se sentindo flutuando, Caleb se organizou cedo e foi para o culto dominical como havia combinado com Colt e Brice. Prestou atenção no sermão pregado, conversou com Deus pedindo perdão por ter cruzado a linha com Hazel antes do casamento, mas prometeu que ela seria sua esposa de qualquer jeito, só havia antecipado a lua de mel. Riu da própria ousadia, e pediu perdão novamente.
Os rapazes foram passar o resto do domingo com ele, afinal já eram da família. Colt, sempre animado contando suas peripécias no serviço e das garotas com quem saía; Brice, o mais equilibrado dos dois, contou sobre seu namoro e que estava pensando em pedir a garota em casamento o mais rápido que pudesse assim que estivesse estabilizado entre emprego e faculdade. Caleb contou as novas sobre ele e Hazel — não entrou em detalhes sobre o que tinha acontecido, contou apenas que se beijaram bastante —, sendo ovacionado por eles, que soltaram um “finalmente” muito sincero.
E o dia se seguiu com eles comendo, bebendo e conversando na varanda com vovó Earl, com o pai de Caleb e alguns funcionários da propriedade, uma reunião só de homens dividindo a rotina com a experiência.
Na segunda-feira, Caleb se permitiu dormir um pouco mais para tentar aplacar a ansiedade, mas acordou antes mesmo do despertador tocar. O sol entrava pelas frestas da cortina do seu quarto desenhando linhas douradas no assoalho de madeira. Ele se sentia invencível, incrível, maravilhoso e grande — e isso não tinha nada a ver com seu peso ou altura. O cheiro de Hazel parecia estar impregnado em seus lençóis, na sua pele, no ar que ele respirava.
Ajudou seu avô e seu pai com plantação de fumo, pelo menos com o que tinha sobrado depois daquela tempestade repentina, mas sempre olhando em direção da cerca dos White ao longe. Seu pai notou a inquietação, mas resolveu não se intrometer nos assuntos do filho. Caleb sequer conseguiu almoçar direito, impaciente com a demora do relógio. Hazel não havia enviado nenhuma mensagem, mas ele não precisava delas para saber que ela estava o aguardando ansiosa também.
Ao cair da tarde, ele se vestiu com sua melhor camisa de botões, penteou o cabelo com um cuidado que raramente tinha e desceu as escadas saltando degraus.
— Vai a algum lugar, filho? — sua mãe perguntou da cozinha, surpresa ao vê-lo tão cheiroso e arrumado.
— Vou até Franklin encontrar Brice e Colt — Ele enfiou as mãos nos bolsos frontais da calça meio sem jeito, ele detestava mentir.
— Sei… Não sabia que precisava se lamber todo para vê-los. — Sua mãe usou de tom sugestivo, já com um sorriso ladino.
Caleb bufou. As pontas das orelhas subitamente quentes sob o olhar atento que ela o lançou entre a porta da cozinha. Ele alcançou o stetson shantung no cabideiro com uma pressa que não era do seu feitio, tentando escapar do cerco de perguntas da mãe.
— É só uma bebida com os rapazes, mãe — ele murmurou, sem convencer absolutamente ninguém. — Tá legal. Eu vou passar na casa da Hazel primeiro. Ver se ela precisa de uma carona, algo assim.
Encaixou a palha clara na cabeça e puxou a aba para baixo, criando uma sombra que escondia o embaraço nos olhos. O gesto era sua forma sutil de dizer “o assunto se encerra aqui”.
— Tá okay, garanhão. — Ela se aproximou dele, ajeitando o colarinho da camisa. — Divirta-se, meu amor.
Caleb assentiu, depositou um beijo nos cabelos escuros da mãe e saiu. Pegou a caminhonete e dirigiu pela estrada de terra, assobiando uma melodia clássica de George Strait. Mas, conforme se aproximava da propriedade dos White, o assobio morreu.
O portão de madeira, que sempre ficava aberto, estava encostado. Não havia o sedã da mãe de Hazel na entrada, nem o esportivo de seu pai. Na verdade, a varanda, que costumava ter cadeiras de balanço e muitos vasos de flores, estava vazio.
Caleb estacionou e saltou, o coração começando a bater em um ritmo irregular.
— Hazel? — ele chamou, subindo os degraus.
Ele espiou pela janela da sala. Também estava vazia. Não havia tapetes, nem fotos nas paredes, apenas as marcas retangulares onde os móveis costumavam ficar. No meio da sala, uma única caixa de papelão aberta e esquecida. O silêncio daquela casa era ensurdecedor. Eles tinham ido embora? Assim, de repente? Sem um bilhete, sem uma ligação? Sem o "pode ser na segunda-feira".
Ele sacou o celular do bolso e discou o número dela e nada, sequer chamava. Caleb sentiu um frio subir pela espinha que nem o sol do Tennessee conseguiria aquecer. Voltou para a caminhonete, suas mãos tremendo no volante. Ele precisava de respostas. E só havia um lugar onde ele as encontraria: o Miller’s.
O estacionamento do posto estava cheio de jovens prontos para uma festa em plena segunda-feira ou para o rio, era comum alugar barcos para festejar na água à noite. O Jeep de Chloe estava lá, a música alta batendo contra as paredes de tijolos da loja.
Caleb desceu da caminhonete sem sequer fechar a porta, os passos ligeiros. Ele não parecia o Caleb gentil de sempre; seus olhos azuis estavam escuros, focados. Ele caminhou direto para o grupo de garotas que riam histericamente ao redor de uma mesa de metal.
— Onde ela está? — Ele perguntou, sua voz saindo mais baixa e perigosa do que ele pretendia.
As risadas pararam e Chloe virou-se lentamente, segurando um copo de café gelado. Ela olhou Caleb de cima a baixo, um sorriso de lado, afiado como a lâmina de um cutelo, cortando seu rosto.
— Ora, se não é o herói da noite — Chloe zombou, olhando para as amigas, que trocaram olhares maliciosos. — Procurando a sua Julieta, Brayden?
— Eu fui na casa dela. Está vazia. Onde os White foram?
Chloe soltou uma risada forçada.
— O pai dela conseguiu uma transferência para Nova Iorque que estava esperando há meses. Eles saíram de madrugada. No domingo. Hazel não te contou? Achei que vocês tivessem tido uma noite de... "despedidas" bem intensa.
Caleb sentiu o sangue sumir do rosto.
— Ela ia me contar hoje. A gente...
— A gente o quê, Caleb? — Chloe se levantou, aproximando-se dele. — Meu Deus, olha pra você! — Exclamou irritada. — Um gordo alto e desajeitado! Achou mesmo que ela ia querer um esquisito como você? Você não se enxerga? — As pálpebras de Caleb trepidaram, ele comprimiu os lábios.
Chloe soltou mais uma risada, revirando os olhos. Ela tirou o celular do bolso traseiro do short jeans, desbloqueou a tela com um movimento casual e continuou:
— Você realmente achou que a Hazel White, a garota que pode ter qualquer um em todo o Tennessee, ia se amarrar ao garoto que cheira a estrume de vaca, por livre e espontânea vontade? — Ela virou a tela para ele.
Caleb sentiu o estômago congelar e seu mundo girar. Era o vídeo do celeiro. A luz fraca, o som da chuva ao fundo e eles. Ele sendo vulnerável, se entregando à garota que ele amava. O ângulo era perfeito. Ela sabia exatamente o que estava fazendo.
Caleb sentiu os olhos arderem, a esclera ganhando um tom vermelho imediatamente, a mão direita começando a tremer. O peito subindo e descendo em um ritmo que ele não estava conseguindo controlar direito, se é que podia. Ele nunca imaginou ser exposto daquela maneira, ainda mais por alguém em quem confiava de olhos fechados, alguém com quem tinha compartilhado os melhores momentos de sua vida desde a infância.
Por um momento, ele quis que tudo aquilo fosse mentira e ainda estivesse deitado em sua cama na fazenda. Mas não era mentira, porque haviam se beijado e se entregado, e a prova estava ali, nas mãos da garota mais infeliz do condado. O vídeo não estava completo, terminava exatamente no momento em que Caleb tirava a camiseta. Ele fechou os olhos por um instante.
— Cinco mil dólares e um Wrangler novinho — Chloe sussurrou, a crueldade brilhando em seus olhos. — Esse foi o preço do seu "momento sagrado", Romeu. Ela cumpriu a aposta. Ganhou o prêmio e foi embora rindo da sua cara. Ela ainda disse que se precisasse te beijar mais uma vez pra ganhar o carro, ela provavelmente vomitaria.
Caleb não ouviu o resto. O som das risadas das garotas ao redor tornou-se como o som de uma faca arranhando uma superfície de vidro, distante. Ele olhou para a tela do celular mais uma vez, vendo sua própria imagem, o garoto ingênuo, o gordo idiota que acreditou no amor, e sentiu algo se quebrar irremediavelmente dentro do seu peito.
Não foi um estalo; foi um desmoronamento silencioso.
Aturdido, ele se virou sem dizer uma palavra. Ele não chorou, mesmo que quisesse muito. A dor era profunda demais para lágrimas; era uma dor que pedia por dureza, por isolamento, por mudanças. Foi uma humilhação, uma tremenda vergonha, mas não desabaria na frente delas. Enquanto caminhava de volta para a caminhonete, Caleb deixou o garoto de dezenove anos naquele estacionamento. Ele dirigiu de volta para a fazenda, passou pelo trator John Deere verde do avô imaginando quantas vezes Hazel mentiu pra ele enquanto trabalhava no carburador daquela máquina.
A partir daquele dia, Caleb não mencionou o nome dela uma vez sequer, e quando sua família mencionava, ele simplesmente saia de perto ou fingia não ouvir. Três meses após a partida dos White, ele ingressou na faculdade e se dividiu entre uma graduação em Agronomia e um técnico em Agropecuária, era o que ele realmente gostava de fazer.
Alguns meses depois, a fazenda começou a passar por problemas após seu pai ter sofrido um acidente de carro, deixando sequelas em sua perna esquerda, o que o impossibilitava do trabalho árduo na lida. Então a produção de fumo parou completamente.
Vovó Earl, após uma séria conversa com seu filho Jim, tomaram a decisão de passar as terras para o nome de Caleb. Seus tios vieram da Califórnia e assinaram os papéis necessários para que ele se tornasse o dono legal daquele lugar. Não havia ninguém melhor do que ele para herdar aquele pedacinho de paraíso.
Caleb trabalhava dia após dia, mesmo quando sentia seus ossos doerem ele não desistia. Começou a cuidar de si mesmo no processo e já não era mais motivo de piadinhas por conta do seu peso. Ano após ano ele progrediu em fazer aquela terra crescer com a ajuda da família, de alguns funcionários que permaneceram mesmo quando a situação não estava favorável, e principalmente com a ajuda de Colt e Brice, seus dois braços direitos.
As terras foram expandidas, o Ranch-Farm Brayden nasceu e Caleb Brayden agora era um homem completo e, em todas as suas vitórias, ele honrava e agradecia a Deus pelos feitos.
Era verdade que ele mascarou todo o sofrimento com o trabalho e os avanços. Mas era à noite, no silêncio de seu quarto, que ele se deixava perturbar por pensamentos. Isso aconteceu por anos, até conseguir controlá-los.
Hazel White tinha levado seu coração para Nova Iorque, pois que ficasse com ele. Ele não precisaria mais dele para o que viria a seguir.
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