John Deere Azul

2 ÚNICO LUGAR NO MUNDO



O sol ainda não tinha força suficiente para queimar a névoa que se agarrava às depressões do terreno quando Caleb começou seu trabalho. O orvalho de julho no Tennessee não era apenas umidade; era uma manta pesada que ensopava as botas e deixava o metal das ferramentas com um toque gelado e escorregadio.

Ele estava no limite da propriedade, onde a cerca de arame farpado se encontrava com a mata fechada de carvalhos. O som rítmico do batedor de estacas era o único barulho que competia com o despertar dos pássaros. Ele usava toda a força do tronco, seus braços largos subindo e descendo, cravando os mourões de madeira tratada no solo que o calcário tornava teimoso.

— Se você continuar com essa pressa, vai atravessar o centro da Terra antes do meio-dia.

Caleb parou o batedor no ar. Ele não precisava olhar para saber que ela estava lá. Ele respirou fundo, o ar fresco da manhã enchendo seus pulmões, e se virou.

Hazel estava encostada no tronco de uma tulipeira, usando um macacão jeans surrado por cima de uma camiseta de flanela verde musgo. O cabelo estava preso em duas tranças despojadas e ela carregava um balde de metal com grampos de cerca e um martelo de orelha. Não havia rímel, nem a máscara de "capitã" da noite anterior. Ali, sob a luz filtrada pelas folhas, ela parecia parte da paisagem.

— O velho quer isso pronto antes do calor de rachar começar — Caleb respondeu, limpando o suor da testa com as costas da mão suja de terra. — Achei que você fosse dormir até tarde depois da "noite agitada" na cidade.

Hazel caminhou até ele, ignorando a pontada de sarcasmo. Ela deixou o balde no chão com um baque metálico e pegou o rolo de arame galvanizado.

— Eu disse que vinha, não disse? — Ela olhou para ele, um olhar firme. — Segura a ponta aí, Caden. Vamos fazer isso direito.

Pelos próximos cinquenta minutos, eles trabalharam em um silêncio que só anos de convivência poderiam criar. Ele esticava o arame com uma alavanca de metal, enquanto ela, com a precisão de quem já tinha feito aquilo mil vezes com ele, posicionava o grampo e dava as marteladas certeiras.

— Lembra daquela vez que o seu avô nos pegou tentando "consertar" o galinheiro com fita isolante e chiclete? — Hazel perguntou de repente, um sorriso de lado iluminando seu rosto enquanto ela batia o último grampo da seção.

Caleb soltou uma risada rápida, a primeira do dia.

— Eu tinha nove anos, Hazel. E você jurou que o chiclete ia segurar a porta se a gente mastigasse por tempo suficiente.

— E segurou! — ela rebateu, limpando uma gota de suor do nariz com o ombro. — Pelo menos até o primeiro galo decidir que queria sair. O vovô Earl riu tanto que quase engasgou com o tabaco.

Caleb parou por um segundo, observando-a. O clima entre eles tinha mudado. A barreira invisível do posto de gasolina tinha derretido com o esforço físico e a familiaridade da terra.

— Hazel? — ele chamou, a voz baixa.

— Hum? — ela estava concentrada em desenrolar a próxima seção de arame, os dedos ágeis por dentro da luva de couro.

— Por que você gosta tanto de vir pra cá? Digo, você podia estar em qualquer lugar. Na piscina do clube em Franklin com suas amigas ou em Nashville fazendo compras.

Hazel parou o que estava fazendo. Ela olhou para o arame em suas mãos, depois para a imensidão verde da fazenda e depois para os olhos azuis intensos dele. Ela se sentia preciosa quando ele a olhava daquela maneira.

— Porque aqui eu não preciso ser um projeto, Caleb — sua voz soou pequena, mas carregada de uma verdade pesada. — Na escola, na cidade, até na minha casa... parece que eu sou uma peça de porcelana que todo mundo fica polindo pra ver se brilha mais. Mas aqui... — ela olhou diretamente nos olhos dele, e ele sentiu o chão sumir por um segundo — ... aqui eu posso ser o arame farpado. Eu posso ser bruta, posso suar, posso errar. E você nunca me olha como se eu estivesse decepcionando alguém.

Ela deu um passo à frente, diminuindo o espaço entre eles. O cheiro de metal e mato úmido era forte, mas o de baunilha dela ainda estava lá, persistente.

— Você é o único lugar no mundo onde eu não sinto que estou atuando, Caden.

Caleb sentiu um calor subir pelo pescoço que não tinha nada a ver com o sol. Ele queria dizer que, para ele, ela era a coisa mais preciosa daquele condado, estivesse de vestido de seda ou de macacão sujo. Ele queria abraçá-la e beijá-la, dizer que ela era tudo. Mas ele apenas assentiu, apertando o cabo da alavanca.

— Então é melhor a gente terminar essa cerca — ele falou com um meio sorriso que Hazel retribuiu de imediato. — Se a gente demorar muito, o seu "lugar seguro" vai ser invadido por um bando de vacas fugitivas.

Hazel soltou uma risada clara que ecoou entre os carvalhos, e voltou ao trabalho com a energia renovada. Naquele momento, sob o céu límpido do Tennessee, a aposta das amigas dela parecia algo impossível, uma história de outro mundo que jamais poderia tocar a pureza do que eles estavam construindo ali.


—


O sol já tinha subido o suficiente para transformar a umidade da manhã em um mormaço que pesava nos ombros, quando o som de um sino de metal — o velho sinal de "hora do rancho" da Vovó Esther — ecoou pela colina.

— Se a gente não chegar na mesa em dois minutos, o meu pai vai comer a minha parte do purê de batata — Caleb avisou, guardando o batedor de estacas na caçamba da caminhonete.

Hazel limpou as mãos no macacão, deixando duas manchas escuras de terra no jeans.

— Seu pai? Eu estou mais preocupada com o seu avô. O Capitão Earl não brinca em serviço quando o assunto é frango frito.

Eles subiram na caminhonete. Caleb dirigiu por um curto trajeto até olhar em direção a propriedade dos White, ele cerrou os olhos para tentar focalizar melhor e, mesmo ao longe, percebeu a movimentação e que havia um caminhão parado lá. Ele parou o carro abruptamente e encarou Hazel, que o olhava assustada.

— Por que tem um caminhão na sua casa? — ele questionou de cenho franzido.

Hazel o encarou por um instante sem saber o que responder. Ela não podia falar o que estava acontecendo, ele não a entenderia. Ela abriu a boca algumas vezes sem dizer algo ao certo. Caleb tirou as mãos do volante e passou pelo rosto.

— Papai comprou algumas coisas, acredito que estejam fazendo a entrega.

— E precisava desse suspense todo? — Ele ergueu a sobrancelha.

— Eu estava tentando lembrar… — ela sorriu amarelo, encolhendo os ombros.

Caleb dirigiu em silêncio até a casa principal, uma construção enorme de madeira branca com uma varanda que abraçava toda a fachada. Assim que estacionaram, o som da porta de tela, aquele "pá" seco, anunciou que a casa estava cheia.

A cozinha da Vovó Esther cheirava a Céu: gordura de bacon, milho cozido e o aroma doce de biscoitos de canela recém-saídos do forno. No entanto, estavam todos um tanto estranhos, Caleb percebeu, mas, para mudar o clima, vovô Earl tossiu.

— Olha só o que o gato trouxe pra casa! — Jim, o pai de Caleb, exclamou da cabeceira da mesa. Ele era uma versão mais velha e "curada" pelo sol do filho, com o mesmo brilho brando nos olhos. — Cal, você tá mais sujo que pau de galinheiro, meu filho. E Elle... como você aguenta esse brutamontes a manhã inteira sem ganhar um adicional de insalubridade?

— É pura caridade, Sr. Brayden — Hazel respondeu com uma piscadela, deslizando para a cadeira ao lado de Sarah, a mãe de Caleb. — Alguém tem que garantir que ele não pregue os próprios dedos na cerca.

— Senta logo, Cal! — ordenou o Vovô Earl, já empunhando o garfo como se fosse uma arma de guerra. — Seus tios ligaram da Califórnia. Disseram que estão comendo "salada orgânica" no almoço. Coitados... perdi o controle daqueles meninos quando eles cruzaram a divisa do condado.

A mesa era uma confusão barulhenta de travessas passando de mão em mão. Sarah serviu uma concha generosa de molho gravy no prato de Caleb.

— Coma, querido. Você está crescendo — ela sorriu, apertando a bochecha dele.

— Mãe! Eu tenho dezenove anos, não nove — Caleb resmungou, ficando vermelho, o que só serviu para atiçar o resto da família.

— Dezenove anos e ainda dorme com a luz do corredor acesa se o filme for de terror — Earl comentou, mastigando um pedaço de milho. — Lembra daquela vez, Jim? O Cal tinha doze anos e achou que tinha um fantasma no celeiro. Era só o velho cavalo Toby mastigando uma maçã!

— Eu não achei que era um fantasma! — Caleb tentou se defender, mas a risada de Hazel já tinha explodido ao seu lado.

— Ele veio correndo pra varanda gritando que o "ceifador" estava no feno! — Jim completou, batendo na mesa de tanto rir. — Ele quase derrubou a porta de tela.

— Elle, você devia ter visto a cara dele — Sarah acrescentou, rindo suavemente enquanto servia mais chá gelado. — Ele estava tão pálido que a gente conseguia ver as veias.

Caleb escondeu o rosto no copo de chá, mas não conseguia evitar o meio sorriso. A vergonha era suportável porque o ambiente era quente, real e cheio de amor. Hazel estava inclinada sobre a mesa, rindo tanto que seus olhos castanhos brilhavam, totalmente integrada àquela bagunça. Ela parecia mais em casa ali do que em qualquer foto de anuário escolar.

— Bom — Hazel disse, recuperando o fôlego e pegando mais um milho — se o Ceifador aparecer hoje no celeiro, eu prometo que protejo ele. Mas vou cobrar em pêssegos.

— Negócio fechado — Earl sentenciou. — Agora, Cal, trate de comer esse quiabo frito. Você precisa de sustento pra aguentar a Hazel. Ela fala mais que rádio de caminhoneiro.

O almoço seguiu assim, entre histórias de infância embaraçosas, discussões sobre o preço do gado e planos para o rodeio local. Caleb sentia o calor da perna de Hazel encostando na sua por baixo da mesa — um contato casual, talvez acidental, mas que o fazia sentir que aquele era o melhor dia da sua vida.

Ninguém ali falava de "status"ou de quem era mais popular. Eram apenas os Brayden e a garota White, como sempre foi e como Caleb, ingenuamente, achava que sempre seria.



🚜🌱🐎🐂



O calor da tarde pesava sobre a varanda, e o som dos pratos sendo lavados na cozinha por Sarah e Esther servia como um pano de fundo doméstico e reconfortante. Caleb e Hazel estavam sentados nos degraus, dividindo um último pedaço de torta de pêssego diretamente da fôrma.

A paz, no entanto, foi interrompida pelo zumbido insistente do celular de Hazel. O aparelho, jogado casualmente sobre a madeira seca da varanda, vibrou com uma sequência de notificações que pareciam bicar o silêncio.

Caleb notou a mudança imediata na postura dela. Hazel não apenas pegou o telefone; ela se encolheu levemente, como se estivesse tentando esconder a tela dele.

— É a Chloe? — Ele perguntou, tentando manter o tom leve, mas sentindo uma fisgada de ansiedade.

— É o grupo — Hazel respondeu rápido, os dedos voando sobre o teclado. — Elas estão no lago do Condado de DeKalb. Alugaram um barco e disseram que a água estava ótima e que o "pessoal de Nashville" trouxe um som novo.

Ela bloqueou a tela e olhou para o horizonte, onde as nuvens começavam a se amontoar, pesadas e escuras. O ar estava mudando. O vento trazia aquele cheiro característico que precede uma tempestade de verão no Tennessee.

— Você quer ir? — O peito de Caleb apertou. Ele sabia que "o pessoal de Nashville" significava garotos sarados com carros velozes e camisas de linho, gente que não tinha terra sob as unhas.

Hazel suspirou, passando a mão pelo cabelo.

— Elas estão sendo... persistentes, Caden. Dizem que eu sumi. Chloe postou uma foto da minha caminhonete ontem no posto e as meninas estão fazendo piada, dizendo que eu virei "nativa".

Ela forçou um riso, mas não havia alegria nele. O telefone vibrou novamente. Desta vez, um vídeo começou a tocar antes mesmo de ela silenciar. Caleb captou um vislumbre: luzes coloridas, música alta e o rosto de Chloe rindo com um copo vermelho na mão.

"Hazel, cadê você? A aposta ainda tá de pé ou você amarelou? O relógio tá correndo, Barbie do Campo!" — a voz de Chloe saiu distorcida pelo alto-falante antes de Hazel abafar o som.

O silêncio que se seguiu foi denso. Caleb olhou para Hazel, as sobrancelhas franzidas.

— Aposta? Que aposta, Hazel?

Hazel sentiu o sangue fugir do rosto. Ela deu um sorriso rápido, nervoso, e se levantou, limpando o jeans.

— Nada, Caleb. Coisa de menina bêbada no sol. Elas apostaram quem conseguia ficar mais tempo sem checar o Instagram ou algo idiota assim. Você sabe como elas são.

— Você pareceu estranha agora — ele insistiu, levantando-se também. Ele era muito maior que ela, uma presença sólida que geralmente a acalmava, mas agora parecia pressioná-la.

— Eu só estou cansada de ser cobrada, só isso — ela disse, e desta vez havia uma ponta de irritação na voz, uma barreira que ela erguia sempre que se sentia encurralada entre os seus dois mundos. — Eu vou levar essas coisas pra sua avó. A chuva vai cair logo. É melhor a gente guardar as ferramentas antes que o celeiro vire um rio.

Ela pegou a fôrma de torta e entrou na casa sem olhar para trás. A porta de tela bateu com um som que, para Caleb, soou como um aviso.

Ele ficou parado na varanda, observando o primeiro clarão de um relâmpago distante. O celular dela tinha aberto uma fresta em um mundo que ele não entendia, e pela primeira vez naquele dia de trégua, Caleb sentiu que a grama sob seus pés não era tão firme quanto imaginava. Lá dentro, Hazel estava encostada na pia, a respiração pesada se misturava a sua vontade de chorar, o coração batendo na garganta. Ela olhou para a tela do celular. Uma nova mensagem de Chloe brilhava:

Hazel fechou os olhos. Ela amava o Caleb. Ela odiava aquele lugar, mas amava o que sentia quando estava com ele. Só que, aos dezessete anos de idade, o medo de ser a "piada do vestiário" era uma força da natureza tão implacável quanto a tempestade que começava a desabar sobre o vale.