Jogos Vorazes: Atlas
2 Ato 1 - Acordada

ACORDADA
“Tudo o que vemos agora, é uma sombra projetada daquilo que nos é invisível.”
– Martin Luther King.
Eu me lembro…
Eu me lembro…
Está tudo tão escuro… eu mal consigo enxergar alguma coisa. Eu sinto frio. Sinto-o como se navalhas penetrassem minha pele, e algo se esvaísse de mim. Eu posso sentir meu sangue fluir para fora do meu corpo. Uma poça quente se forma ao meu redor.
Eu me lembro…
Eu acho que me lembro como vim parar aqui. São poucas imagens, pouquíssimas lembranças que mostram quem eu sou, e o que aconteceu.
Mas eu tenho certeza de uma coisa: Eu sou humana. Sexo feminino. E só.
Eu me lembro…
Eu me lembro…
Do que aprendi no colégio. Do que ouvi e vi na TV. Está tudo tão nítido agora… é como se eu voltasse no tempo…
Eu posso ver. Eu me lembro quando os Estados Unidos se tornou colônia da Inglaterra…
Quando George Washington e Thomas Jefferson assinaram a Declaração de Independência junto com outros revolucionários. Eu estava lá. Eu me lembro..
Quando a Escravidão era algo normal e comprada.
Quando aconteceu a Guerra Civil Americana.
Eu estava lá. Eu me lembro dos Sulistas e os Nortistas. Irmãos, matando irmãos.
Quando aconteceu a Revolução Industrial.
Eu me lembro da vida pacata que as pessoas levaram após inúmeras guerras sangrentas.
Então ouve a Primeira Guerra Mundial
Eu me lembro que estávamos errados. Não tínhamos nada a ver com aquilo, mas, mesmo assim, enviávamos soldados para as trincheiras. Eu estava lá também. Eu me lembro.
E então, a fumaça abaixou, e deixamos os mortos enterraram os mortos.
Mas a guerra ainda não tinha totalmente acabado. Fora apenas… um intervalo. Para só “beber uma água”.
E a Segunda Guerra Mundial começou.
Ainda ouço os gritos das crianças. Os telegramas de soldados perdidos em combate. Da pena que senti das esposas daqueles soldados…
Eu me lembro…
Eu me lembro…
De Abraham Lincoln sendo alvejado no Teatro. Como sua morte provocou quase outra rebelião.
Anos depois…
Nazismo. Hitler.
E também bem mais tarde, um atirador de elite acertando a cabeça de Kennedy com uma arma durante um desfile no seu carro presidencial. E a marca do carro se chamava “Lincoln”.
Eu me lembro…
Eu me lembro…
O breve e terrível momento que aqueles aviões terroristas atingiram as Torres Gêmeas em 11 de Setembro.
Também das mortes das guerras na Palestina e Iraque começaram anos depois por causa do Islamismo. Eu me lembro. Eu também estava lá. As guerras realmente nunca acabaram…
E então, meu país entrou no Século 20…
Século 21.
Eu só consigo me lembrar das guerras, do que o povo sofreu, dos campos de concentração. E da Ditadura e da represália. O som terrível de uma criança chorando e pessoas sendo trucidadas vivas nas ruas.
E então… quando o mundo achou que o planeta não poderia mergulhar no pior causado pela própria humanidade…
As calotas polares derreteram. O apocalipse aconteceu. As florestas arderam. A água ficou escassa.
Os continentes se separaram.
E então…
Um novo país renasceu das cinzas.
Panem.
Eu não consigo me mexer ou abrir os olhos, eu não sei se estou morta. Não me lembro do meu nome. Apenas dos fatos de tudo aconteceu em tudo, menos comigo mesma.
E então, meus pés rasparam contra o que parece ser um solo rochoso e minhas mãos roçaram contra duas paredes, uma de cada lado. Devo estar presa aqui dentro a muito tempo, abandonada, anos ou séculos quem sabe. Morta, mas sem permissão de morrer. Viva, mas totalmente morta. Um cheiro de terra e floras invade meus sentidos. Estaria então eu sendo enterrada viva e olhando acima do fundo da cova? Esse pensamento terrível me atinge como uma bala, e na mesma hora, um medo mais antigo que toda terra me domina, arrancando-me o ar dos pulmões.
Será que já estavam toda a população do mundo reunida para o meu funeral, sem saberem que eu continuo viva?
O pânico foi passageiro. Era o fim e eu estava me desfazendo. Com relutância, me entreguei a esse desfecho, cruzando meus braços sobre o peito. A intensidade da luz era tão insuportável que eu estava sendo obrigada a dar as costas a ela.
O êxtase era aterrorizante e arrebatador. Eu estava sendo lançada em direção ao fogo das chamas vorazes e então cegada pela…
… Luz do sol?
Era mesmo a luz do sol!? Como poderia ser? Qualquer clareza de pensamento que eu tivesse alcançado desapareceu em uma onda de sobrecarga dos sentidos. Eu tinha fechado meus olhos, para dormir talvez, mas a luminosidade distante aquece minhas bochechas, e espanta quase imediatamente aquele frio que estava sentindo antes…
Por alguns instantes, eu me entreguei. Então, como o amanhecer eminente, a impossibilidade daquela situação destruiu meu desvaneio, interrompendo de vez meu sono.
Aonde eu estava? Como tinha chegado ali?
Sinto um par de mãos apalparem todo meu corpo. Mesmo desacordada e pálida, suando até a morte sinto uma picada incômoda no meu braço e minha cabeça urrar. O perfuramento é angustiante e a dor me faz gritar, gemer e grunhir, e começo a me debater e me livrar daquelas mãos às cegas. Eu ouço várias vozes agora.
Uma força que não sei de aonde vem me possui e então soco alguma coisa. Um rosto. Assim que abro minhas pálpebras para ver o que atingi, meus olhos ardem e fico cega. Como se eu não abrisse eles por muito tempo! Vejo… vejo uma pessoa tentando agarrar o primeiro móvel que vê pela frente para não cair dura no cão, e então a dor da picada se torna ainda mais torturante, e a sensação que tenho é de um prego sendo enfiado na minha veia.
Posso sentir escorrendo, mas não vejo sangue em parte alguma em mim. Minhas pernas voam pelos rostos que aparecem ao meu redor do nada, e só então percebo que estou rodeada de enfermeiros. Eles tentam me prender na maca com correias, mas não conseguem. Minhas unhas ainda livres, de modo que meu instinto é acionado, e começo a atacar qualquer coisa que vejo pela frente.
Um bestante! Cravo as minhas unhas no rosto de uma das enfermeiras que tentam me conter, de cabelos prateados, justamente no momento que estava tentando enfiar o soro pelo tudo da minha veia esquerda, eu estou muito perceptível. Eu ainda estou gritando, e o som que sai da minha boca parece ser de um animal. A mulher ferida desaba no meu colo, apertando ainda meus pulsos, sem conseguir me soltar.
Ela deixa algumas gotas de sangue do seu rosto rasgado cair em mim. A ouço gritar e outras pessoas correrem ao meu redor novamente, como vultos.
Eu estou verdadeiramente chorando agora. Eu só consigo ter capacidade de fazer isso, e sentir uma dor angustiante alcançar até meus ossos.
Por que isso? Por que agora?
Dou um grito mais alto e então começo me sentir sufocada, só então percebo que estou com um tubo de oxigênio dentro da minha boca o tempo todo, entrando na garganta, me incapacitando até de respirar. Eu não estava gritando de verdade. Estou me sufocando aos poucos. Sinto agora minhas mãos e pernas, braços e mãos sendo contidos e esmagados pela força de vários enfermeiros que tentam conter a raiva. Arranhões e sangue também escorrem dos seus rostos, pouco mas ainda está visível.
Aquela cena que estou poderia muito bem ser confundida com a de um exorcismo.
Eu me vejo em um quarto de Hospital agora destruída pela confusão. Eu quero sair deste lugar… eu preciso fugir… eu tenho que me lembrar…
Hospital não! Eu odeio Hospital! Tudo que tenha haver com cirurgias, sangue frio, cadáveres de necrotério com papéis de óbito e desespero de pessoas doentes. Bisturis. Facas. Agulhas. Pus. Dor… quero ir embora, quero ser liberta!
Quero ir para a floresta.
Aquela mesma enfermeira de cabelos prateados rosna para mim e se movimenta com cautela sem soltar meus pulsos em busca de algo. Meus olhos voltam a ficar lacrados com a escuridão, e eu não tenho coragem de ver nem ao menos do que era fará comigo. Outra picada acerta meu braço esquerdo, me fazendo soltar outro e pior grito animalesco que é abafado pelo terrível tubo preso na minha boca. Caio feito pedra novamente sobre a maca. A oportunidade perfeita para aqueles enfermeiros me amarrarem nas correias.
— NÃO! NÃO PODEM ME FAZER DORMIR DE NOVO! — Grito. — EU VOU MORRER! ESTOU MORRENDO! NÃO POSSO TER A VISÃO DELA MORRENDO COMIGO DE NOVO!
Eu juro que não sei de onde vem essas palavras, nem ao menos o sentido delas. Mas ainda estou gritando. Repetindo a frase. Repetindo, repetindo… mas estou todos me ignorando. Os meus berros parecem durar uma eternidade; ecoando sem destino pelo quarto.
Debato-me com muito mais força, minha raiva só faz toda a violência se repetir sem parar não importa quantas pessoas chamem socorro para me conter, acrescentando agora somente que acabei de chutar o maxilar de um médico que segurava minha panturrilha. Eu assisto-o pelo quanto dos olhos encharcados de lágrimas salgadas ele cair desmaiado no chão, com a boca sangrando.
Um gemido é liberado do corredor do quarto. Eu reconheço essa voz.
Ele tenta gritar algo para os enfermeiros e médicos ali ocupados comigo, mas é ignorado. Ele fala algo muito rápido para algum segurança que o impede de entrar, usando sua persuasão. Ele consegue. A pessoa entra correndo ofegante no na minha direção, driblando os enfermeiros, se jogando na maca e agarrando meus ombros, enquanto continuo a ter espasmos violentos sem parar.
Está tudo girando, girando, colorido…
Sinto a mão dele grande e quente sobre meu rosto, tentando conter o fogo terrível que está me devorando por dentro, que é na verdade, eu sei mesmo incapaz de processar algo lógico que é minha única forma de não cair e desmaiar, mergulhando de novo no pesadelo da minha morte da forma mais brutal que minha mente conseguir projetar.
E daqueles que eu amo. Eu não consigo me lembrar… não consigo me lembrar deles…
A garotinha loira de tranças…
Não vou suportar ter a visão dela morrendo novamente…
A mão da pessoa agora percorre meu braço até agarrar meus dedos gélicos e tremidos. Tento socá-lo, chutá-lo, unhá-lo, mas por mais que eu tente usar a força para e feri-lo e afastar ele de mim, ele não ousa me soltar. Ele me empurra com força na maca. Meus espasmos pioram e eu dou outro grito de lamento animalesco. Meu pescoço está erguido para cima, com os lábios quebradiços se debatendo naquele tubo e não consigo me controlar mais.
— Meu Deus! Tirem o maldito cano respiratório da garganta dela! Ela vai morrer sufocada! — Ouço ele dizer, desesperado, pela primeira vez.
Alguma coisa é puxada de dentro de mim pela boca, tocando no céu dela, e eu sinto que vou vomitar enquanto berro. A ânsia de vômito sobe até a garganta, e eu despejo algo pela boca e volto a tremer. Sinto uma mistura de alívio e ardência ao mesmo tempo, e agora posso ouvir meus gritos de verdade agora.
O ar livre entra queimando nas minhas narinas, de modo que apenas, mesmo sem poder ver, permito as lágrimas grossas caírem seguidas e seguidas vezes dos meus olhos. Estou chorando descontrolavelmente, porque eu sei que apenas o simples toque da sua pele sobre a minha me tranquilizará ao ponto de me fazer dormecer e morrer.
E isso é a última coisa que eu quero. Tento lutar para não me render aos seus braços. Ele volta a se aproximar do meu rosto, eu sinto um hálito quente. Como último esforço, tento com um fio de força que me resta empurrá-lo para longe, mas o máximo que consigo, é agarrar o colarinho da camisa suja com algo visgoso, enquanto grito frases desconexas. Abrindo e fechando a boca.
Abrindo e fechando a boca. Abrindo e fechando a boca. Abrindo e fechando a boca…
— Katniss! Katniss! Me escuta, olha para mim… — Não reconheço esse nome que ele está chamando, nunca ouvi esse nome antes. Faço negativamente com a cabeça sem parar de chorar, sentindo as lágrimas salgadas e o suor caírem e queimarem meus olhos — Por favor, precisa confiar em mim. Eles só vão te botar pra dormir, tudo bem? — Eu volto a forçar a cabeça negativamente, mas rápido, gemendo… — Vai acabar tudo bem, eu juro! Confie. Confie em mim, por favor.
Sinto a pessoa me abraçar. Com muita força, quase que fico detida de respirar direito novamente, e nem os enfermeiros conseguem me libertar do seu aperto, mesmo o puxando-o. Seus braços são muito fortes.
Quando ouço algo quebrar de novo naquele lugar, sinto que quero parar de sentir dor e de me debater para dizer algo para ele.
Ah, seu calor é tão gostoso… quero me prender a ele e ao mesmo tempo fugir para longe. Ele volta a tocar meu rosto, irradiando seu calor de ambas palmas em toda minha face.
— Por… por favor… — Abro meus olhos devagar, já não me contorcendo ou tremendo violentamente mais… eu estou me acalmando. — Não… me deixe… sozinha… aqui…
— Katniss… — Há uma ponta de dúvida em sua voz. Eu mal o conheço, e já estou agarrada em seu braço, suplicando para que ele me puxe de volta para a superfície.
Acho que são meus instintos.
Seu braço se afrouxa, e o vejo disperso nos pensamentos, e ele então se afasta lentamente de mim. Mas ainda ele não ousa largar minha mão. Não consigo enxergar seu rosto. Está… tudo tão borrado. Meus dedos estão desesperadamente agarrados aos dele com força. Então ouço a enfermeira ferida de cabelos de prata agradecer a ele por ter me distraído tempo o suficiente para terminar de enviar a anestesia sonífera dentro da minha veia. Nenhuma dor. Apenas lágrimas.
— Fica comigo — Suplico, para ninguém especialmente.
Está tudo voltando a ser engulido pela escuridão a minha volta. Então sinto seus lábios colarem no meu ouvido e ele responder:
— Sempre — E então tudo se escurece.
[…]
Três meses depois
… Luz do Sol?
Eu sentia novamente a luz do sol. Mas desta vez, ela parecia diferente, mais fraca e suave.
Sinto uma velha sensação de acordar sentindo que estou caindo, sobressaltada. Sinto-me tonta, mas isso não me faz ficar com menos vontade de querer abrir os olhos. Demoro um tempo para tomar coragem e faço uma careta causada pela luz sobre mim, me cegando por alguns segundos quando abro as pálpebras. Rolo os olhos. Não consigo ver aonde estou.
É estranho. Não me lembro de nada. Apenas de um ataque.
Até parece que acabei que acordar de um pesadelo horrível. Mexo os lábios, e não sinto minha boca. Tento tragar o ar com algumas golfadas, mas então percebo que há pequenos tubinhos verdes que enxergo borrado abaixo do meu nariz entrando nele, preso com adesivos, eu não sei. Eu quase engasgo com a própria saliva ao perceber que estou sozinha e perdida deitada ali, e começo a tatear de forma desesperadora pela cama, sentindo um fino lençol sobre mim.
Quando olho ao redor, só enxergo o branco, claro e limpo, preso em quatro paredes. Só então percebo que a “luz do sol” era na verdade, a luz de uma lampada branca. Aos poucos, meus ouvidos são ativados, e ouço o murmurinho baixo e distante de pessoas conversando, de passos e de rodas sobre piso. Rodinhas enferrujadas de uma maca sendo empurrada em um ponto distante até o som desaparecer. Então, tudo fica apenas silencioso, quando o único barulho é o da minha respiração e bipes fracos soando freneticamente de algum ponto daquele quarto.
Aquela luz branca ainda me machuca. Pisco um pouco e sinto minha garganta terrivelmente seca. Alguma coisa eles me deram enquanto apaguei totalmente, pois estou me sentindo agora esquisitamente melhor e mais calma. Como uma leve pluma. Eu sei que eles me drogaram, isso faz todo o sentido. Então, me sentindo inútil, começo a encarar a porta do quarto, tentando me concentrar pela primeira vez em uma vida passada que mal me lembro agora ao acordar.
Não sei porque agi tão violentamente da última vez que acordei. Para ser sincera, nem ao menos me lembro quando e como acordei. Só me lembro que não conseguia parar de gritar devido ao fogo que queimava minha cabeça de forma insuportável. Acho que qualquer ser humano teria agido como eu se estivesse passando por aquele sofrimento.
Mas minha cabeça não queima mais.
Involuntariamente, eu suspiro e acabo tossindo. Ouço os bipes baixinhos acelerarem, e isso volta a me deixar um pouco nervosa. Volto a arranhar o lençol de novo, mas quando puxo meu pulso esquerdo, a sinto sendo segurada por algo. Remexo-me um pouco até conseguir virar o pescoço e então consigo ver o que é.
Há outra mão segurando a minha.
Uma pessoa – um garoto – está sentada em uma cadeira ao lado da minha cama. Franzo as sobrancelhas, tentando me lembrar, mas não consigo reconhecer quem é. A pessoa abre os olhos enfim e se assusta ao me pegar de olhos abertos; encarando-o. Ele parece feliz por causa disso, porque em seguida sorri um pouco. Alguns fios de cabelo castanho emaranhados caem sobre seus olhos cinzentos, quando ele se curva na minha cama.
Ele aperta minha mão bem forte, que agora está fechada em um punho.
— Catnip — Ele diz. — Meu Deus. Você acordou. Enfim, acordou. — Ele sussurra, passando a mão livre nos meus cabelos delicadamente. — Nos sentimos… tanto, tanto a sua falta…
Eu retiro minha mão lentamente do aperto dele, a afastando de mim. Pouso-a sobre a barriga. O sorriso dele começa a se desfazer aos poucos.
Permaneço calada, tentando compreender. Não consigo me lembrar, quem quer que seja ele. Catnip? Esse é me nome? O outro ser, que aplacou minha fúria quando acordei na primeira vez me chamava de “Katniss”. Então, qual é meu nome? Qual é minha idade? Foi a mesma pessoa que está aqui do meu lado antes? “Nos sentimos sua falta”? Que “nos”?Eu não consigo pensar direito, minha cabeça está totalmente varrida em branco. Nem mesmo uma lembrança. Eu nem mesmo me lembro como vim parar em um Hospital.
Como o garoto se limita a apenas suspirar nem me pergunta nada, estreito os olhos, esperando. Mas ele não se move, me estudando com o olhar. Ele não está me reconhecendo? Acho que é justo, porque eu também não estou reconhecendo ele.
Enfim, abro a boca e digo algo. Algo com gosto de bile desce em forma de saliva até a língua, e o gosto não é nada agradável. Como se um morto estivesse reacordando e abrindo a boca. Talvez eu seja isso mesmo.
— Quem é você? — Finalmente, pergunto. Minha voz está muito rouca.
O garoto parece confuso agora e afasta a mão de onde estava a minha, assim como eu fiz.
— Katniss, sou eu, Gale. Gale Hawthorne, consegue se lembrar? — Ele pergunta, e eu faço negativamente com a cabeça; sem movê-la muito do travesseiro.
Eu devo ter feito algo de errado, porque uma expressão de terror se estampa no seu rosto assim que paro de mover a cabeça. Ele então volta a se sentar na cadeira, encarando o chão.
— Ei — Digo. — Aonde eu estou? Isto aqui é um Hospital? — Pergunto, e ele apenas move a cabeça afirmativamente de maneira lenta. — Em que cidade estou? — Digo, e então começo a fazer uma varredura com os olhos pelo local pela primeira vez. Alguns móveis brancos e um jarro de flores estão em um canto perto da porta. Tem balões aqui. E buquês de flores. Várias. Estão aos montes, em toda parte.
Nunca me senti tão assustada agora.
— O que é isso tudo?
— Flores. Você costumava gostar de receber elas. Eu trazia todas as semanas para seu quarto depois que ficou instalada aqui após o acidente. Bem, melhorava o odor ruim que Hospital que está impregnado aqui. — Ele diz, estreitando um pouco os olhos para mim. Ele parece ainda mais nervoso agora.
Fixo meus olhos nos buquês e cestas com laços coloridos. Tem um ao lado direito da minha cama, com algumas poucas pétalas caídas no encosto. Algumas estão até secas. Os buquês não eram trocados com frequência, deixando emurcharem por conta própria aqui, e tudo só acumulava. Não quero nem imaginar o odor de rosas muchas juntas em cima de mim. Fechos meus olhos, rápido e volto a me concentrar no que o garoto disse.
— Espera… acidente? Que acidente? Como vim parar aqui, e porque tem tubos no meu nariz? — Digo, trincando os dentes. Então aquele terrível barulhinho de bipes soando na maldita máquina aumenta de velocidade, me irritando de verdade. — Ah, por favor, desliga essa coisa. Esse barulho está me incomodando. — Peço, remexendo a cabeça de novo.
Gale assente mas parece não saber o que fazer, então ele se levanta, contorna minha cama e toca em algo que parece ser uma caixa. Ouço seus dedos tatearem as costas dela até o volume abaixar misteriosamente. Eu me sinto mais tranquila agora sem os bipes. Mesmo eles não tendo desaparecendo, eles controlam seu próprio ritmo, diminuindo de velocidade novamente. Gale puxa outra cadeira agora que está do meu lado direito, e tira um balão do meu campo de visão.
— Eu… eu queria te contar. Na verdade, preciso te contar tanta coisa — Ele diz, suspirando pesadamente. Não estou entendendo, então franzo as sobrancelhas do mesmo modo que ele fez antes. Gale me encara e parece entender o que estou pensando, então começa a explicar: — É complicado. Os seus médicos disseram… eles disseram que teria possibilidade de ter perdido parte da memória, mas a gente não acreditou. Fizeram vários Raios-X do seu cérebro. Você deveria ao menos, se lembrar quem sou eu e de outras coisas básicas.
O fato de imaginar que médicos estariam batendo chapas da minha cabeça faz com o que eu estremeça. Mas isso não respondeu minha pergunta.
— Então, me explique. Quer algo básico? Tudo bem. Quem sou eu? — Pergunto.
— Katniss, saiba que isso não é tão fácil. Vai demorar um pouco, para você se lembrar… se lembrar da vida. Disseram que você teve sequelas graves…
— Apenas responda. — Digo, me sentindo irritada, ameaçando me levantar. Ele parece estar se esforçando, mas está sendo apenas inútil.
— Estou tentando, eu juro! — Ele diz.
— Se esforce mais então. — Digo. — Você não respondeu direito, nenhuma das minhas perguntas.
Gale me encara como se estivesse sendo obrigado a dar a notícia da morte de alguém. Não sei se isso me assusta. Não sei se o que virá é bom ou não. Então, volto a fechar os olhos voltando ao meu próprio mundo invisível sem lembranças. Quando reabro, Gale está segurando minha mão novamente. Sinto-me desconfortável por ele tentar me tocar de novo, mas desta vez não o afasto.
— Por favor, desculpe. Desculpe-me … eu… sinto muito… — Ele diz. — Bom… começou quando nós estávamos voltando do Festival. Você… você saiu de um dos brinquedos e então começou a dizer que estava enjoada… sentindo tonturas… e queria ir para casa. — Ele conta, correndo com as palavras e corado. — Nós entramos no meu carro, você ficou em silêncio. Não parecia você mesma, e estava ficando preocupado. Era tarde da noite, e as estradas Apalaches estavam desertas…
Gale então finge tossir, me dando um tempo para processar tudo o que ele está me narrando.
— O que aconteceu comigo?
Ele prefere me ignorar e continua a falar.
— Eu tinha torcido o tornozelo alguns dias antes daquilo, sabe? Eu estava usando muletas. — Quase de imediato, ergo meu olhar pelo quarto novamente para achá-las, mas não vejo muletas em lugar nenhum. — Já sarei. Não foi nada. — Em seguida, ele volta a suspirar. — Bom… minha perna doía muito quando eu a forçava, até mesmo para pisar em um pedal. Então quando abri a porta do carro, você virou para mim e sussurrou “deixe que eu dirijo”. Aquela altura, eu não podia protestar em nada, você parecia… diferente… — Sinto que meu rosto está ainda mais fechado. Mas continuo ouvindo atentamente Gale sem dar um pio. — Então, você pegou no volante e dirigiu. Você… estava indo bem. Eu me sentei no banco de trás, e tentei puxar um assunto, mas você parecia concentrada demais na estrada escura. Séria demais. Não estava te reconhecendo.
Ele continua: — Então… já estávamos dentro da floresta. Não tinha luzes, postes, viaturas de patrulhas… apenas eu e você, e um carro indo à 160 quilômetros por hora. O carro estava acelerando demais, você apertava cada vez mais o pedal do acelerador. Eu estava ficando com medo, e tentava gritar para você desacelerar. Mas você… parecia não me ouvir. Eu pedir o controle — Gale narra como se já tivesse repetido isso várias e várias vezes em um interrogatório. —, e então… você começou a chorar.
— C-chorar…?! — Digo, e minha voz sai novamente rouca e abafada.
— É — Ele diz. — A soluçar descontrolavelmente. Você começou a bater a cabeça no volante. Eu comecei a ficar com raiva, achei que você estivesse tirando com a minha cara, mas aí então…
— O quê?! O que aconteceu comigo? — Pergunto novamente, desesperada. Eu juro que posso ouvir os bipes novamente ganhando volume.
Gale suspira novamente e esfrega os cabelos. Ele me encara então.
— Eu não sei. Eu não sei até hoje. Nós começamos a brigar. Só que… você começou a gritar! Berrar, como se estivesse assistindo a um filme de terror na cabeça. Você parecia realmente… estar sentindo dor! Então agarrei seu ombro. Você largou o volante e tampou os ouvidos assustada. Parecia que você estava sentindo uma queimação de dentro para fora, você gritava “está queimando! Está queimando!” e “Não! Snow! Não!”. — Gale comenta. Abro um pouco a boca para dizer algo, mas ele me interrompe — Foi em um piscar de olhos: Katniss. Você bateu o carro.
Volto a piscar, tentando me lembrar disso – ou de qualquer outra coisa – mas não me lembro de nada. Não me lembro de nenhum carro. De nenhuma estada deserta à noite. De eu dirigir. De nenhuma queimação.
De nenhum tal Snow.
Toco levemente minha cabeça. O que está acontecendo comigo? Eu não deveria me lembrar de algo assim? E se isso for mentira? A possibilidade disso não passa. Porque então esse garoto mentiria para mim?
Abaixo meu braço, perplexa e desorientada.
— Katniss, o acidente foi… horrível. Eu ainda me lembro do carro capotando, girando e girando no ar conosco dentro. Dos vidros estilhaçando, e… das ferragens me deixando preso ali dentro por horas de cabeça para baixo. Eu não via você em lugar nenhum, meu cinto de segurança estava emperrado. Eu me lembro também de… — Ele diz, um pouco seco. — Achar meu celular e ligar para o 911 Emergencial. Depois disso, eu sentia sangue saindo de mim. Eu via pingando do acento do carro, se misturando a gasolina… e das luzes do farol da polícia. Eu simplesmente, apaguei. Quando eu acordei, eu… — Gale novamente volta ao semblante nervoso. — Eu estava em uma maca. Estavam alguns enfermeiros me amarrando e me empurrando para a Ambulância. Tinham me enfaixado, minhas roupas estavam rasgadas. E então… eu procurei você. Olhei para todos os lados. Perguntei, eu gritei seu nome. Mas eu não te achava. Quando acordei de novo, estava em um quarto como esse.
Ele continua a falar: — Eu fiquei internado duas semanas. Sarei rápido, meus ferimentos não foram graves. Mas então minha mãe e meus amigos foram me visitar, mas em vez de ficarem felizes por eu acordar, eles… tinham lágrimas no rosto. Um amigo, Thom, ele virou… para mim e disse “cara, fica calmo. Não se desespere, precisamos te contar algo muito ruim.” Eu, é claro, me apavorei. Perguntei por você. Como ninguém respondeu, eu gritei. E então… minha mãe ligou a TV e me mostrou o jornal daquele dia após o acidente.
Eu quero interrompê-lo, eu não estou entendendo nada. Não consigo acompanhá-lo. Não sei porque, sinto uma ânsia novamente de querer vomitar, mas me contenho. E então puxo por conta própria meus lençóis, e me sento na beirada da cama. Eu estou apenas com uma camiseta fina pálida, deixando as minhas pernas de fora. Minha pele… é tão branca… então como será meu rosto? Não tenho tempo para perguntar isso, porque logo Gale se senta ao meu lado. Eu voltei a chorar.
— Era você. Você estava estampada na capa do Jornal do The Guardian. Era fotos do carro estilhaçado, completamente destruído. Eu dentro de uma Ambulância, inconsciente, e você…
— Eu? — Pergunto. A tensão irá me matar, eu quero me lembrar disso tudo que ele está me contando. — O que aconteceu comigo? O que houve?
Então ouvimos alguém bater na porta. Um senhor vestido de jaleco branco um pouco amassado, com fios brancos na cabeça e óculos finos sobre o nariz achatado aparece na porta, abrindo-a. Ele se sente desconfortável, mas pigarreira e Gale e eu o olhamos. Ele está com uma prancheta na mão. Meu prontuário, eu suponho. Ele se aproxima de mim sentada e toca no meu ombro.
— Oi, Katniss. — Ele diz com um leve sorriso. — Se lembra de mim?
— Não. — Digo a verdade. Ele franze os lábios e assente a cabeça, como se já esperasse isso. Em seguida, volta-se para o garoto do meu lado.
— Senhor Hawthorne. Preciso dar uma palavrinha com o senhor, poderia se afastar um pouco da paciente e me acompanhar? — Ele diz, mas Gale não responde imediatamente. Ele apenas me olha pedindo permissão. Como não faço nada, ele apenas se levanta e enfia as mãos no bolso, seguindo o médico para porta. Pela primeira vez, vejo o que ele está vestindo. Uma calça jeans e um casaco azul acinzentado simples, sem atrativos. Quando a porta se fecha, vejo o doutor fechar também as persianas do vidro da porta.
Eles não querem me contar como vim parar aqui, sem lembranças, sem saber como eu sou. Estão escondendo algo importante de mim.
Começo a ouvir o murmurinho da conversa dos dois detrás da porta, e ouço palavras como “sinto muito”, “culpa”, “violenta” e “falta de memória”. Eu quero ir ouvir, mas me sinto obrigada a permanecer parada. Encaro o chão, e em seguida, a mesinha ao lado da minha cama.
Há um prato retangular de plástico com comida. Eu não tinha percebido ela ali, com uma fumaça de comida quente saindo do pote coberto pelo papel alumínio. Uma garrafa d'água, um copo de suco, legumes, algumas frutas. No prato branco no centro, pedaços de franco assado e batatas com ervas. Eu salivo ao ter a visão daquilo, e praticamente ataco minha refeição. Deve ser a primeira coisa que como de verdade a muito tempo, penso. Quando termino, sinto urgentemente que preciso de mais.
Meus pés tocam pela primeira vez aquele chão gelado. Sinto o piso sobre minha pele, e estico os dedos dos pés, me deliciando. Então caminho pelo quarto para explorá-lo. A sensação de andar é muito boa. Um dos balões voaram para o teto, e eu jogo um dos buques de rosas do Gale na lata do lixo. Dou meia-volta, e então me deparo com algo na parede.
Um espelho.
Eu estou me vendo pela primeira vez. Não reconheço o rosto, mas sei que é meu. Um rosto oval, minha pele é morena, apesar de ter a visto muito branca quando me sentei na cama. Meus olhos são um tipo de azul desfocado, cinzentos. Eu tenho um nariz fino, um pouco grandinho demais. Meus dedos penteiam meus cabelos, eles são longos e castanhos. Eu não posso dizer que sou bonita em si, mas tenho uma expressão forte. Eu sorrio para meu reflexo, e boto uma mecha de cabelo para trás da orelha.
Então, resolvo voltar para a cama. Mas percebo que Gale deixou algo em cima dela antes de sair.
Uma edição de Jornal ainda envolta em plástico está pousada nos lençóis. Olho de relance para porta. Com as persianas fechadas, sei que não serei pega, apesar de eu não saber se isso é proibido. Agora, não acho que Gale deixou isso de propósito. Ele deve ter esquecido, lendo ele enquanto estava desacordada.
Abro o jornal e fico horrorizada. Aquele leve sorriso que dei para meu reflexo se desmancha e cada foto que vejo impressa aqui.
Fotos de uma estrada coberta de pedaços de carro. Uma lataria amassada em um canto, e rios de gasolina vazando da carcaça de um carro amassado azul escuro. Uma das pisca alertas ainda estava acessa. Observo algumas pessoas nas fotos com luvas ao redor, e outras normais atrás de fleches e fitas amarelas de “não ultrapasse” da polícia. E então, fixo meus olhos na foto maior, embaixo do título.
“ADOLESCENTES SÃO ENCONTRADOS INCONCIENTES EM ACIDENTE FATAL DE CARRO”.
Na foto, está um corpo imóvel, coberto por um pano cinza, usando um vestido laranja claro, deitado com os braços sobre a barriga. Os olhos do corpo estão lacrados, e ele está completamente sujo de sangue escuro. Uma grande poça está vazando do seu lado, e carro, quando o rosto, a cabeça, o cabelo, o vestido, e a estrada onde aconteceu o acidente está manchada com seu sangue.
O corpo sou eu.
“Katniss Everdeen, Id.16 e seu namorado, Gale Hawthorne, Id. 17, foram encontrados na estrada Apalaches ontem de madrugada, por volta das 2:04 da manhã, na estrada de saída do acesso da Casa Branca, em Capitol Hill, Washington. Testemunhas afirmam terem visto os dois jovens saindo do Festival do Amanhã, realizada na Casa Branca ontem à noite; em comemoração e despedida do último ano de mandado do presidente Barack Obama, e pareciam estar bêbados, mas isso ainda não foi confirmado.
Segundo relatos de Gale, o sobrevivente do acidente, eles estariam saindo da festa pois a namorada estava passando mal, e dirigia acelerando demais, largando o volante em seguida. Suspeitas apontam que Katniss provocou intencionalmente o acidente, e agora sua família está sendo culpada pelos atos de crime doloso, quando há intenção de matar. A família e amigos negam essa possibilidade. (…) “Katniss amava muito o namorado, estavam sempre juntos e felizes. Isso é impossível. É impossível que ela teria tentado matá-lo e se matar junto” relata Marbleize Everdeen, mãe da acusada e vítima, que é secretária do assessor Seneca Crane no nosso Congresso.
Katniss não sobreviveu a batida, e morreu no local pela perda de sangue e o grave ferimento na cabeça (…).”
Eu morri?
Abaixo a folha do jornal, e de repente, perco o ar. Eu morri? Eu deveria estar morta? Como sobrevivi então? Volto a tocar minha cabeça, e está latejando aos poucos. Não consigo processar as informações, estou com raiva. Não consigo me lembrar de nada.... não consigo me lembrar de nada.
Deixo uma lágrima cair do meu rosto e ela pousa na foto do jornal, exatamente onde está meu corpo ensanguentado ao lado das faixas da polícia. Eu me sinto pior. Trinco os dentes, e sinto meu rosto queimado, e então rasgo o jornal ao meio, o arremessando no chão. Volto a pisar no chão em seguida, me levantando da cama.
Viro a cabeça, e me encaro novamente no espelho. Eu estou selvagem. Eu não sou quem eu sou.
Eu me lembro…
Eu me lembro…
Eu sobrevivi a um acidente terrível. E estou aqui agora. Preciso me obrigar agora a me lembrar da minha antiga vida antes da morte, ou será que este corpo não me pertence, e sou uma hospedeira de outro corpo, que morreu e se alojou aqui dentro?
Katniss. Está na hora de se levantar.
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