Jogos Justos

14 XIII - Contratempo


Notas iniciais
Olá....... ? Alguém ainda lê essa fic? Enfim, não vou tomar muito o tempo de vocês. Me explico nas notas finais. Sinto muito pela demora! Mas estou de volta!

Corríamos pela mata então, o mais rápido que nossas pernas permitiam e o mais longe que nossos pulmões agüentassem a queimação de tão ofegantes. Megan ia por ar, permanecendo a conexão entre nossas cabeças e checando os obstáculos pela frente; Wally dava piques a cada dez metros, tropeçando aqui e ali, mas sem ainda, de fato, ser capturado por qualquer Elite, nos informando sobre qualquer algo mais de diferente que acontecia enquanto pisávamos desastrosamente no chão sobre nós.

Todos correndo, eu podia ouvir a respiração de todos ao meu redor tão ofegantes que abafavam a minha, principalmente a de Zatanna que entrou em conflito com uma crise de tosse quando voltávamos a nos aproximar das gigantescas árvores, perto de onde Babs havia sido... Enfim. Conner agarrou-a por um braço quando eu já havia passado-a, pois ela começara a diminuir o passo, e arrastou-a com a turma, porque não deixávamos ninguém mais pra trás. Kaldur estava à frente, seguido de Dick e de mim lado a lado, eu escutando ambos os rapazes com grande dificuldade para manter o ritmo da respiração como eu.

–Galhos enormes à frente! Pulem ou escorreguem por baixo deles. Cuidado com a cabeça! – Wally alertou quando as primeiras e grossas raízes apareciam e cada um fez o que achou melhor, obviamente, com medo de sermos pegos por alguma surpresa da Capital.

Kaldur escorregava enquanto Dick pulava, eu variando bastante entre as duas escolhas, às vezes diminuindo a velocidade para sair dentre as raízes ou saltar sobre elas. Conner só escorregava com Zatanna e eu podia ouvi-lo dando uma leve bronca nela por ela não ter treinado nada de resistência quando tivera a chance.

–Por acaso você é mesmo um tributo da Zona 1? – Conner indagou bufando, cheio de ironia enquanto jogava a pequena morena sobre suas costas e acelerava atrás de nós.

Alguns 300 metros pra frente, depois de desviarmos de (quase) todas as raízes enormes – que renderam bons roxos nas minhas pernas e rasgos nas roupas de Conner – o chão começou a tremer sobre nós, tão forte que eu podia sentir meus órgãos tremendo junto.

–Uooou! – Wally voltou-se até nós dizendo que não conseguia dar dois passos sem tropeçar com aquele terremoto – Assim vão destruir a Arena...

–O que eles pretendem com isso? – Kaldur questionou olhando entre eu e Dick.

Destruir a Arena, não. Mas, talvez, nos atrasar o máximo que puderem para que algo de ruim nos aconteça antes de chegarmos ao Falcão...

–PESSOAL! – Megan gritou na conexão mental, chamando pela nossa atenção o máximo que pode, e nos dando uma baita dor de cabeça com seu berro – A terra ta se abrindo! – ela estava aterrorizada e foi se juntando a nós antes mesmo que Kaldur pudesse pensar em algo.

–Eles estão dividindo a Arena?! – Conner questionou segurando Zatanna firmemente em seu ombro ao olhar para Kaldur – Eles podem fazer isso?!

–Já estão fazendo! – Dick anunciou a ele, tentando correr na direção do rasgo na Arena.

Kaldur olhava, tentando extrair algum pensamento de mim, uma opinião, uma vidência, qualquer coisa, mas eu não sabia o que dizer. Estava muito chocada só de pensar que ficaríamos isolados dos outros tributos e isso acabaria nos levando a matarmos uns aos outros nesse pedaço da Arena.

–Pensem, pessoal, precisamos de alguma coisa! – Kaldur pressionou, seguindo Dick devagar até que todos nos juntamos a ambos.

O penhasco a nossa frente já tinha mais de 20 metros de largura e continuava a aumentar. Não cheguei perto da beira, mas pela distancia ainda não via o fundo desfiladeiro.

O chão ainda tremia e muito, Megan flutuava, pois estava ficando enjoada com a oscilação. Eu e Wally nos segurávamos na árvore enquanto Kaldur e Dick se aventuravam até a borda. Alguns pedaços de terra da superfície caiam durante o terremoto e eu fiquei incomodando-os até eles ficarem mais próximos de onde pudessem se segurar caso acontece algum deslize de terra.

–Alguma idéia, Deusa da Simpatia? – Wally me questionou abraçando o mesmo caule que eu e, apesar do sarcasmo em sua voz, eu tive sim uma idéia.

–Megan! – eu berrei e ela apareceu meio translúcida a minha frente, um pouco assustada com meu tom autoritário repentino – Precisamos de ti no ar! Faça um perímetro, voe sobre o desfiladeiro e veja, mais ou menos, quanto da Arena ficou isolada e para onde está o Falcão! – eu terminei e precisei respirar muito fundo depois. Ela assentiu determinada e sumiu, subindo e ficando invisível.

Por favor... – Wally mexeu comigo de novo e pude ver seus orbes verdes se revirando antes de voltar para Kaldur e Dick, que haviam sossegado um pouco. Eu fiz uma careta com a educação do velocista e torci o nariz.

–Além de surfista, tem mestrado em normas de etiqueta também, Wallace? – ele estreitou os orbes pra mim e ia responder, mas ouvimos Conner grunhindo atrás de nós ao largar Zatanna do meu lado.

–Calem a boca ou vou arremessá-los lá dentro! – quase latiu para nós.

Eu e Wally ficamos quietos por motivos de medo mesmo, esperando que Megan voltasse ou que o terremoto cessasse para que pudéssemos reestruturar nossa estratégia, porque o penhasco se alargava cada vez mais e, no mínimo, iríamos nos atrasar para chegar ao Desafio.

O maior medo estava nas Elites começarem a lançar insetos venenosos em nós, bichos monstruosos como a Quimera para nos devorar ou algum tipo de alucinógeno no ar para virar uns contra os outros. Essa ultima parte era a pior de todas, sem sombra de duvidas.

Zatanna se segurava em mim, como se o chão fosse abrir sobre nós a qualquer instante, mas eles não repetiriam tal momento no mesmo Jogo. Afinal de contas, eu já havia sido enterrada uma vez em menos de três dias. Eles precisavam manter a criatividade. Os críticos estavam, afinal de contas, sempre de olho nos Jogos.

–Tudo bem contigo? – eu perguntei a ela e seus orbes azuis me visaram arregalados, precisando de algum calmante – Respira fundo. Vai dar tudo certo. – não me achei muito convincente e todos acabaríamos morrendo, mas acho que ela se sentiu um pouco mais segura do que anteriormente. Pelo menos as mãos dela não marcavam mais o meu braço.

Não sei quantos minutos se passaram até o fim do terremoto. Megan chegou um pouco depois que aquilo acabou e nos informou que o desfiladeiro atravessava a Arena e estávamos na área norte dela, há uns bons quilômetros do Falcão. A parte isolada da Arena era uma grande faixa e, aparentemente, sem outros tributos além de nós mesmos.

As Elites queriam virar-nos uns contra os outros, com toda a certeza e o dia passava, o sol em seu pico e nós ainda pensando no que faríamos para chegar ao Falcão sem nos matarmos antes.

Kaldur estava com as mãos na cintura, andando de um lado para o outro, cabeça abaixada e pensando, suando muito e parecendo desidratado. Conner vigiava a outra a parte interna da floresta, sentado de pernas cruzadas no chão e atento a qualquer movimento suspeito de longa ou curta distancia – com exceção dos nossos, obviamente.

Como ele conseguia? Não faço a mínima idéia.

Zatanna estava encostada na sombra da árvore, ainda se segurando nela de alguma forma, prendendo o longo cabelo em algum tipo de rabo de cavalo, enquanto Dick se dependurava da beira do penhasco para tentar medir sua altura em metros – tecnicamente impossível. Wally também estava de pé, com os braços cruzados e fixando seus orbes na copa da árvore, planejando algo ou tentando. Eu podia ver suor escorrendo de seu maxilar com os pelos ruivos cada vez mais visíveis. Já eu estava deitada, respirando o melhor que podia, a espera de um milagre para nos ajudar a sair dali, minha roupa grudando em mim e me deixando enojada. Megan estava invisível, sentada do lado de Conner e meditando, em busca de uma solução também.

Nunca vamos sair daqui assim... Murmurei para mim mesma

–Chega, galera! – eu acordei-os quando o sol estava se pondo atrás das montanhas ao sul, batendo na terra que estava na minha roupa e tirando o cabelo do meu rosto para falar. Todos voltaram seus orbes exaustos para mim, Conner querendo me matar com aquelas irises geladas e Megan ficando visível – Precisamos chegar ao Falcão! Não podemos desistir agora. – avisei-os e me aproximei de Kaldur que parecia derrotado e desidratado – E o senhor precisa de água.

–Já tomei toda que tinha no meu cantil. – ele me alertou e eu bufei, relutante e calando a parte sã da minha mente que dizia para eu guardar aquilo para mim. Não podia demonstrar fraquezas agora que todos os super-poderosos estavam desanimados. Um de nós, no mínimo, tinha de manter a compostura – Não, Artemis. Não vou te deixar sem...

–Eu vou pegar mais assim que atravessarmos o desfiladeiro. – o interrompi antes que me arrependesse. Ele ia insistir e eu estava sem paciência – Não vamos chegar a lugar algum com o líder inconsciente, Kaldur. Bebe essa água e não me enche o saco. – engrossei a voz e larguei o cantil em suas mãos, voltando minha atenção para o resto da equipe que agora me notava – Vamos juntar nossas brilhantes mentes e sair daqui. – puxei uma flecha da minha aljava e me agachei no chão para desenhar o desfiladeiro.

Eles se aproximaram e ouvi Kaldur matar a ultima gota do meu cantil.

Não tinha mais volta agora.

–Esse daqui é o desfiladeiro, com mais de 40 metros de largura, isolando um dos rios da Arena — eu desenhei uma minhoquinha ondulada no fundo do circulo em que estávamos e depois várias bolinhas grandes – e das árvores pré-históricas. Depois dele temos a floresta convencional, com várias campinas perigosas, temos a Campina do Falcão no Centro e um Rio bem ao sul. – terminei meu reconhecimento da área, a ponta da flecha cheia de terra.

–Tem alguns lagos por aqui e por ali também, não sei ao certo sua localização. – Dick comentou, falando uma frase realmente feita pela primeira vez desde a morte de Babs. Eu assenti com a cabeça para a afirmação dele, porque nem eu tinha a exata localização geográfica do que compunha a Arena, mas já era um começo. Eu lhe dei a flecha e ele começou a desenhar – É provável que Klarion e seus amiguinhos acampem por aqui... – ele mencionou como se estivesse cuspindo veneno.

–Acredito que eles estejam a caminho da Campina do Falcão. – Kaldur avisou-o, ajoelhando ao lado do meu desenho esquemático – Se a Arena for redonda mesmo, não parece ser tão complicado assim andar por ela.

–Foquem no desfiladeiro, por favor. – Wally avisou-os e todos o encaramos um pouco bravos – Pessoal, se não conseguirmos sair daqui, qualquer plano para chegar até a Campina do Falcão será em vão. – realmente.

–Ele tem razão. – Conner concordou e nos apressou – Além de que precisamos atravessar logo, pois já está ficando muito escuro.

E era no escuro que as Elites trabalhavam. Virei-me para Zatanna que estava focada no plano.

–Nós temos que planejar já a chegada do outro lado, pois precisamos de água. – Dick discutiu, passando a flecha para Kaldur que concordou.

–Como podemos atravessar? – o líder se cobrava uma resposta, esperando de qualquer um, principalmente de si próprio. Eu estava pensando também, até que meus orbes passearam pelo nosso acampamento e pairaram sobre a maga morena a minha frente.

–Zatanna! – me empolguei e gritei seu nome, todos me olharam e ela arregalou os olhos, recuando em reflexo. Eu me recompus e continuei – Você é a única que pode nos tirar daqui. – pressionei, sem querer querendo.

–E-e-eu?! – ela gaguejou se encolhendo e procurando uma resposta de todos que, logo, tinham o mesmo brilho que eu em seus orbes – Mas o que eu posso fazer?

–Olha, — eu continuei, já que tinha começado o raciocínio – Megan não tem força suficiente para carregar todos nós, e levar um de cada vez iria usar muito da energia dela. Conner não vai conseguir saltar o desfiladeiro, por mais impulso e maior a força que suas pernas tenham, pois é muito largo. Eu não tenho poderes e, mesmo que minha flecha alcançasse o outro lado, duvido que teríamos uma corda longa e resistente o bastante para cruzarmos o desfiladeiro. – respirei um pouco e, pelo olhar de todos, não estava falando nenhum absurdo. Portanto, continuei – Dick também não pode ajudar nisso. Kaldur está desidratando e Wally não tem como nos carregar, apesar de ele poder ir sozinho.

–Precisamos da sua magia, Zatanna. – Kaldur afirmou, reagindo mais rapidamente.

Ela engoliu em seco e respirou fundo, um pouco atordoada com toda a informação.

–Nós vimos como você é forte, Zatanna. Sabemos que consegue. – Wally deu seu voto de confiança, todos dando em seguida. Eu já havia dado o meu quando sugeri seus poderes.

–O que vocês querem que eu faça? – ela perguntou receosa.

Kaldur me encarou, já que eu tinha tomado as rédeas de todo aquele planejamento. Eu sorri de lado, um pouco astuta demais para o momento.

–Uma ponte.

.

Já estava escuro e Kaldur repassava o final do plano quando chegássemos ao outro lado da Arena, todos nós estávamos nos preparando o melhor possível, pois precisávamos atravessar de todo jeito. Não havia escapatória qualquer daquele pedaço de terra e nós tínhamos que nos apressar. Zatanna se concentrava, meditando e pedindo ao Cosmos para que lhe guiasse nesse momento, que seus poderes não lhe falhassem e comprometessem a todos nós... Depois dessas revelações, Megan rompeu a conexão mental para darmos sossego a única que poderia nos tirar daqui.

Só mais dez minutos e daríamos inicio ao plano.

Wally se alongava enquanto Conner repousava, Megan vigiava e Dick afiava seus variados instrumentos voadores muito parecidos com morcegos. Kaldur estava na beira do penhasco junto comigo, analisando sua profundidade e compartilhando de um momento de calmaria antes da completa adrenalina.

–Fez muito bem agora pouco. – seus orbes verdes cristalinos me visaram com orgulho e eu aceitei o elogio, com um pouco de receio e vergonha.

–Não fiz nada demais. – realmente. Só mostrei o que todos não enxergavam por desespero.

–Eu vi como um grande ato de liderança. – ele tocou meu braço asseguradamente e eu senti a fraqueza pela desidratação dele, sua mão de pele negra tremula e fria, porém, quando olhei sua face, a mesma garra e perseverança – Se mostrou muito centrada hoje.

–Às vezes acontece. – nós rimos sutilmente e ele balançou a cabeça, abrindo um sorriso maior pra mim. Seus olhos ficaram repentinamente melancólicos.

–Você teria uma vida longa e brilhante... – ele me lembrou e eu neguei com a cabeça, voltando meus olhos para o horizonte, me lembrando da minha vida antes de me voluntariar.

–Não seria viver, Kaldur.

A conversa parou e cada um resolveu se concentrar no que faria as partes no plano. Eu respirei fundo e me ative com meus olhos de águia na beira do penhasco do outro lado, procurando por algo diferente do vento nas árvores e tudo aquilo. A temperatura havia baixado desde que a noite havia caído e nenhuma baixa fora anunciada. Com aquele desfiladeiro, parecia que um ar condicionado fora ligado dentro da arena e como tudo estava gelado, ventando e cortando a minha pele exposta com a temperatura.

Me fez lembrar as noites frias no deserto da Zona 7, do meu pai, de Jade, do brilho das faíscas saindo da fogueira já apagada sendo a única fonte de calor. Dos suspiros do vento entre algumas dunas... Uma nostalgia tão gostosa que eu pensei estar lá, anos atrás, com eles.

E quando eu me sinto a salvo, essa Arena me força a realidade de volta a mim.

Antes do fim dos dez minutos, Megan alertou algo estranho acontecendo há uns 100 metros adentro da linda das árvores gigantes. Podia ser qualquer coisa que nos mataria, e com certeza mataria alguém. Não podíamos mais ficar e Zatanna teve que ir sem estar 100% preparada.

Ia ter que servir.

Posicionamos-nos em torno de Zatanna, que estava aproximadamente um metro e meio da beira do penhasco. Virados para as arvores do nosso lado estávamos eu, Conner e Kaldur, dando a retaguarda para a nossa saída dali. Ajudando-a com o penhasco, Dick e Wally enquanto Megan vistoriava do meio do desfiladeiro adiante, pronta pra avisar se teríamos problemas ou não.

Ouvimos um rugido muito alto que fez com que pássaros voassem de todas as arvores, completamente aterrorizados, e o som era muito jurássico para nos sentirmos seguros com algo.

–Ta na hora. – eu avisei Zatanna preparando uma flecha com meu arco, enquanto Conner e Kaldur preparavam suas poses de luta.

As palavras de trás pra frente eram ditas e os olhos de Zatanna brilhavam enquanto ela conjurava a ponte, fazendo o chão sobre nós tremer levemente e todo seu corpo pequeno estava tenso, irradiando mana e pedindo a mãe natureza para nos dar o que precisássemos para escapar de seja qual criatura estivesse vindo para nós.

Ouvi um som meio-humano vindo de Wally e senti como se nosso pedaço de terra houvesse atirado algo grande e cumprido para o outro lado. Isso abalou nossas poses, mas conseguimos nos manter de pé. Meus olhos cinza, acredito que todos os outros olhos também, voltaram-se para a fundação da ponte de galhos e terra, além de alguns pedregulhos.

E tinha chegado ao outro lado, mas precisava ser estruturada para manter-se de pé e agüentar a todos nós, então não estava pronta ainda.

Porém, se continuasse nesse ritmo, logo mais estaríamos do outro lado da Arena e continuando o jogo, mostrando a Capital quem realmente somos.

O ruído jurássico soou mais uma vez, despertando nossa curiosidade, menos a de Zatanna que tinha se entregado de mente e corpo para a magia. O chão tremia com espaços de alguns segundos entre cada impacto e aquilo, definitivamente, não era nenhum bom sinal.

–Essa porra é um dinossauro... – Conner falou muito irritado e eu engoli em seco.

–Como eles conseguiram um dinossauro? – eu questionei sussurrando, como se isso fosse impedir a criatura de chegar até nós.

–Eles são a Capital. Eles conseguem tudo o que eles querem! – Wally disse com absoluta convicção em sua voz e eu tive que concordar.

Dessa vez, eles tinham se superado.

A ponte estava sendo firmada e, quando Dick começou a atravessá-la, para testar sua firmeza, Zatanna desmaiada e sendo acudida por Megan, além de arrastá-la para o outro lado, o novo animal de estimação das Elites surgiu esmagando as raízes das árvores e empurrando-as para fora de seu caminho. Uns 10 metros de peso pesado, escamas e braços curtos, com patas enormes e um focinho do tamanho de um quarto. Dentes afiados com a mesma altura de Dick e eu podia ver a raiva que o animal estava, enquanto ele babava e fungava, grunhindo e rugindo depois, procurando pelo calor humano que ali estava.

Se ficássemos parados talvez nos safaríamos, mas Dick já havia corrido e isso despertou a atenção do Tiranossauro Rex a nossa frente. O bicho correu atrás de nós e não podíamos deixá-lo subir na ponte ou já era nossa travessia.

Espalhamos-nos, eu e Conner pra um lado enquanto Wally e Kaldur tentavam distrair o jurássico. Eu atirava flechas aonde eu achava que conseguiria perfurar sua pele resistente, mas foi quase em vão. Kaldur o atraía com o brilho de suas tatuagens e sua magia, chicoteando o bicho e tentando machucá-lo, com pena, para tirá-lo de lá. Wally, bom... Ele tentou correr até a cabeça do tiranossauro e furar seus olhos, mas a pele do dinossauro era escorregadia e, se não fosse pelo soco de direita do Conner bem no focinho do animal, o velocista teria sido devorado tão rapidamente que não teríamos nem tempo para chorar por ele.

Mas admito que meu coração deu uma cambalhota quando Wally estava tremulo ao meu lado.

–VAMOS, PESSOAL! TEMOS QUE CORRER! – Megan gritava do meio da ponte, nos chamando a atenção. Mas não podíamos deixar aquelas toneladas todas sobre a nossa travessia ou nenhum de nós conseguiria chegar ao outro lado sem o som de um canhão tocar antes disso – NÃO VÃO CONSEGUIR LUTAR CONTRA ISSO!

–Megan tem razão! – Kaldur nos falou olhando para mim e Wally enquanto Conner fazia bastante prejuízo no focinho do dinossauro – Precisamos ir! – Ele me empurrou gentilmente a frente e Wally em seguida – Conner, vamos!

Só que Conner ficou segurando o dinossauro um bom tempo para Kaldur nos empurrar na ponte. Eu e Wally estávamos pensando ainda se iríamos para dentro ou não, porém as coisas começaram a acontecer muito rapidamente logo em seguida.

O dinossauro se mexeu tanto e debateu tanto com Conner em seu nariz, que, depois de uma pausa de alguns longos segundos, fazendo-nos pensar que havia se cansado, ele arremessou Conner no desfiladeiro e só ouvimos um grunhido do nosso amigo.

Ficamos atônitos enquanto o tiranossauro continuava a rugir e bufar na direção da ponte, Kaldur ainda brilhando e eu estava horrorizada.

–CONNER! – Megan esperneou do outro lado da Arena, preocupada, porém ela não se moveu, pois o dinossauro ainda estava ali e não tínhamos muita saída a não ser fugir dele.

–VÃO! – o líder berrou para mim e Wally, criando uma leve barreira de sua magia cintilante e correndo atrás de nós. A barreira não durou três segundos.

Só que eu travei na ponte, olhos tentando achar Conner no fundo do desfiladeiro, tentando ouvi-lo no meio ensurdecedor dos rugidos do dinossauro e os berros dos meus aliados.

Não pode ser que perdemos mais um... Eu me segurava no leve corrimão que seguia a ponte e respirava ofegante, sentindo as lágrimas se juntarem nos meus olhos. Estávamos quase no meio da ponte quando isso aconteceu e eu não me mexia. O dinossauro se aproximando.

–VEM ARTEMIS! – dessa vez o grito veio de Dick e a fundação da ponte começou a tremer com o peso do jurássico apertando o passo para nos pegar.

Quando dei por mim, senti as mãos fortes de Kaldur me segurando pelos meus braços e me erguendo. Depois fui largada nos braços finos e fortes de Wally, que virou minha cabeça na direção do peito dele para eu não sufocar, mas as coisas estavam passando muito rápido para eu dar conta do raciocínio – não fui nem capaz de ouvir a voz preocupada de Wally comigo enquanto ele me ajeitava em seus braços antes de correr comigo até o outro lado.

Eu estava pirando, levemente. Quase ouvi o som de um canhão olhando fixamente para o desfiladeiro a nossa frente assim que o ruivo me colocou no chão. Ele era um super poderoso! Super forte! Não podia morrer de uma queda do nada...

Quer dizer, ele podia morrer. Ele podia estar com todos os ossos do corpo dele quebrados e agonizando até a hora de sua morte, porque ele era muito forte. Ou, talvez, ele nem tivera aterrizado ainda por conta da incomensurável profundidade do penhasco. O canhão já podia ter soado, mas eu estava tão atonita que não o ouvi.

Dick estralou os dedos na minha face e eu arregalei meus olhos, voltando-os cheios de lágrimas para o moreno baixinho de orbes azul turquesa. Ele afagou minhas costas e falou qualquer coisa para Wally, que verificava com seus óculos sensores de longe o local onde Conner estava do penhasco. Megan se preparava à beira dele para ir a busca do super poderoso.

Quando voltei minha atenção para a ponte, que ainda tremia, Kaldur parou em terra firme, terminando sua corrida com o Tiranossauro Rex um pouco atrás de si, e ergueu suas armas, brilhando suas tatuagens na pele negra e dando toda sua força, seu mana, para dar um jeito de se livrar do bicho. Então, na ponta das armas cujo efeito era cintilante, duas gigantescas laminas que foram mergulhadas no solo, entre a ponte e a terra firme, com tamanha força que começamos a sentir que a ponte já não iria suportar mais o animal pré-histórico.

O Rex apressou seu passo, mas a ponte foi ruindo e tombando conforme o peso dele, a corrida o havia aproximado de onde estávamos, mas ele não conseguiu chegar a tempo. Kaldur salvou o dia e o dinossauro teve sua queda quilométrica no desfiladeiro, bem próximo de nos ter alcançado.

Kaldur foi outro cujas pernas bambearem e o levaram ao chão assim que os grunhidos de medo do dinossauro iam sumindo ao fundo. Estávamos seguros, por enquanto, e havíamos atravessado...

Conner! Lembrei-me e, assim que veio o musculoso na minha mente e eu acordando, Megan mergulhou no desfiladeiro em busca dele, sozinha, e preparada para trazê-lo a nós, fosse o que fosse.

Zatanna estava encostada a árvore, rosto acabado e corpo dormente. Energias esgotadas depois de ter se esforçado tanto para criar uma obra prima que durara tão pouco tempo. O céu escuro estava nublado sobre nós e começamos a sentir os pingos grossos da chuva, mas não tínhamos para onde correr enquanto Megan não retornasse com nosso fiel vigilante. Eu olhei a minha volta, o cheiro de chuva no meu nariz misturando todo o verde das gramas, o marrom dos caules das árvores, e cinza do clima, me levando até a noite em que Jade fora morta. Estava só pensando nisso, só em mais uma perda, em mais um luto e outro motivo para enfraquecer ainda mais a mente de todos aqui, principalmente com um tributo tão forte como Conner.

Até que fiz meus olhos vagarem nos meus aliados, que estavam tão mal quanto eu. Podia ver Dick se encolhendo ao lado da ponte, olhando para baixo e se segurando para não começar a chorar em desespero, também em luto pela morte de Barbara na noite anterior. Seu corpo miúdo sujo, desnutrido, cheio de arranhões e hematomas que podiam ser vistos até do escuro. Seu cabelo enlameado e a postura nada parecida com a do tributo confiante e sorridente da Zona 9 que ele era – mas, até aí, aquilo tudo poderia ser encenação como sempre nos mandávamos fazer.

Vi Kaldur com sua pele morena se misturando a paisagem lamacenta, deitado no chão e lutando para não desmaiar por ter gasto o tanto de energia e estar desidratado. A chuva não ajudava tanto, mas ele podia beber algumas gotas ali e aqui com a boca aberta. Ele se forçava a manter os brilhantes orbes cristalinos abertos, porém ele não conseguiu. Apagou logo menos, seus olhos fechados e o brilho de suas tatuagens não mais aparecia. Era mais um corpo desgastado no escuro.

Ao seu lado, como se estivesse protegendo a todos nos, de pé com os óculos de proteção posicionados em seu rosto, estava Wally. Tentando manter a pose ereta, porem muito dolorido de ser tão arremessado pelo dinossauro, além de ele ter me carregado até aqui pois não consegui funcionar depois que vi Conner caindo no fundo do penhasco. Porque eu estava esperando pela morte dele embaixo dos nossos narizes e não conseguia pensar em mais nada do que mais uma alma pra carregar em meus pesadelos.

Eu senti uma lágrima quente escorrer pela minha face, limpando um pouco da sujeira que predominava. Eu me encolhi, logo, e só senti o velocista se aproximando de mim, aparentemente preocupado. Eu o encarei um pouco receosa, com medo de mostrar a ele e a Dick as minhas fraquezas bem ali, na frente deles, porque eles não precisavam aturar todos os meus dramas e nem precisavam me carregar com eles.

Eu podia me virar sozinha.

–Está machucada? – Wally me perguntou se agachando do meu lado e tocando meu braço que doía mais levemente. Eu neguei com a cabeça, forçando meus olhos para o chão porque não o queria em minha cabeça novamente – Tem certeza? – eu assenti e ele continuou ali. Dessa vez, senti um tom mais autoritário vindo dele e havia um tiquinho de preocupação – Artemis olhe para mim.

Eu me neguei e senti meu rosto se contorcer, doer e meu queixo formigar porque estava com vontade de chorar. Megan não voltava com Conner e o sentimento de que ele estava severamente machucado não saía de mim. Não podia mostrar a Wally que eu estava tão abalada por conta disso. Devia manter a minha compostura, segurar a onda – senão, seria melhor eu trabalhar sozinha do que sempre ferrar meu emocional com aliados que morreriam a qualquer instante.

Ou eu podia acabar com o Jogo sozinha, me jogar do penhasco e fim... Bem tentador...

–Olhe pra mim! – Wally me sacudiu e eu saí da minha cabeça, sentindo meu rosto quente porque já haviam escorrido várias lagrimas – Não vai acontecer de novo... – acho que ele se referia a mais uma morte. Eu olhei-o meio incrédula e tentando me soltar de suas mãos firmes. Ele não deixou – Não vamos perdê-lo agora. – ele afirmou novamente com aquelas irises de maçã verde, tão brilhantes, tristes e determinadas nas minhas cor de chumbo, tão escuras quanto aquela noite.

Eu balancei a cabeça e senti minha voz completamente frágil quando o respondi, tentando ser o mais firme possível: — Mas vamos perdê-lo um dia. – e Wally sentiu a tristeza e a profundeza em minha voz – E não poderemos fazer nada quanto a isso.

O ruivo não rebateu nem comentou, preferiu o silêncio das gotas da chuva preencher nossos ouvidos numa semi-calmante cantiga. Ele se ajoelhou e sentou-se do meu lado, encostando seu ombro, com o casaco bem sujo de lama e galhos por ser arremessado pelo dinossauro há pouco, no meu e ficou me aquecendo dessa forma, porque ele consegue ser extremamente quente devido ao metabolismo dele. Muito quente mesmo.

Esse movimento dele me surpreendeu bastante, principalmente depois de eu ter importunado-o ontem após a morte da Tributo de sua zona. Eu realmente esperava que ele fosse ficar tempos se dirigir a palavra a mim ou até mesmo cortar relações comigo, como eu pretendia fazer assim que encontrasse Roy naquela Arena maldita.

Porém, Wally é diferente de mim e está se mostrando um ser admirável. Apesar de idiota e isso não o ajuda em nada, admirável.

Pude me recompor com ele ali, do meu lado, apoiando as minhas dores. Não era justo, porque ele sempre sabia de quase todas as minhas enquanto eu não conseguia dar qualquer tipo de segurança, estabilidade para ele. Obviamente no sentido de aliados, amigos, porque não seriamos mais nada mesmo.

A Capital não permitiria.

Megan surgiu com Conner uma meia hora depois e descobrimos que a demora para trazê-lo foi devido ao peso do garoto poderoso. Nossa querida marciana não agüentava com ele e teve que aprimorar suas técnicas para trazê-lo até nós e fazendo-o flutuar. Wally repreendeu-a levemente tomando o papel de líder por alguns instantes enquanto Kaldur continuava descansando, pois ela poderia ter nos informado por telepatia ou algo do tipo, e eu pude ver o rubor nas maçãs do rosto verde da marciana por aquilo. Ela continuou sorrindo aliviada para ele e agradeceu por todos nós estarmos bem e a salvo.

Eu me aproximei do menino musculoso que estava deitado no chão, dormindo, coisa que eu nunca tinha visto-o fazer, e o peitoral dele inflava, com sua roupa toda rasgada e ele todo sujo, sem qualquer ferimento, sem arranhão. Ele tinha batido muito forte com a cabeça e estava descansando – se tivesse sido eu, um canhão já haveria disparado há muito tempo.

A sensação de alívio foi me preenchendo e me reconfortando. Todos estavam vivos, bem na medida do possível, e estariam preparados pra seguir o plano assim que recuperassem suas energias. Eu poderia tentar descansar então, já que aquele calor confortável de Wally não me deixava mover um músculo a não ser minhas têmporas, que se fechavam lentamente porque eu ainda recusava a dormir enquanto todos os outros estavam tão acabados. Eu poderia me oferecer pra ficar de vigília, pela moral e bons costumes, mas o velocista que se encostava em mim não deixou.

Wally me arrastou com ele até o caule de uma árvore, a chuva cessando aos poucos, e eu mole o suficiente para me deixar ser levada por ele. Meu orgulho severamente ferido e eu muito cansada para pensar nele. Senti um braço quente e confortável se estender atrás de meu pescoço, me aconchegando ali, e eu mal conseguia distinguir as vozes de Dick, Megan e Wally, porque eu tava tão cansada e aquele calor me embalava como fazia tempos que não me sentia assim.

Sentia-me segura.

E tudo, logo mais, escureceu e eu dormi, sem sonhos, sem pesadelos, só um bom tempo de descanso merecido.

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Eu prefiro não comentar o fato de quando eu acordei e Wally estava me olhando, como se fosse me matar em 3 segundos ou qualquer outra intenção. Foi muito constrangedor.

Porém, assim que Kaldur estava melhor e Conner se mexendo, Zatanna com parte de suas forças recuperadas e Dick um pouco mais sociável, aceleramos nosso passo de volta ao rumo, com alterações no plano devido estarmos exaustos demais e com pouco tempo para chegarmos à Campina.

Não íamos parar para água mais, arriscaríamos o que tínhamos para podermos nos recuperar por pouco que fosse. E chegaríamos à Campina para a trégua e repousaríamos.

Por mais incrível que pareça, o caminho até a Campina do Falcão não teve desafios ou perigos impossíveis de lidar ou que nos atrasassem muito mais. A caminhada demorou, muito, em parte por estarmos cansados de correr e em parte por ser estupidamente distante de onde estávamos, mas valeu à pena cada bolha que nasceu em meu pé.

E, nos escorando uns nos outros, conseguimos chegar no local marcado, que tinham o Falcão cromado envolto de gramíneas brancas sobre ele, um banquete que podia ser visto há cerca de 30 metros de distância, alojamentos num canto, enfermaria de outro e arsenal de armas.

Entretanto, nós não fomos os primeiros a chegar.

Notas finais
Wow, que loucura! Dois anos sem postar... Caramba... Não tenho nada a declarar, a não ser que a vida interveio com essa fic. Mas ela está de volta. Não vou prometer que vou atualizar sempre, mas estou bem empolgada com ela, principalmente desde que comecei a trabalhar e estudar e todas as coisas juntas. Mas vamos nos entender. Realmente espero que tenham gostado do capítulo, mais está aguardando! :3 Obrigada pelo carinho até hoje e vamos continuar com isso!