Jogos Justos
15 XIV - Trégua
Notas iniciais
Sentados à mesa de jantar, já estavam Klarion e sua turma, comendo alguns petiscos que eram colocados sempre quentes e acompanhados de bebidas, eles riam debochados quando nos avistaram e eu senti os olhos de Tuppence me fuzilarem com aquele sorriso nojento e desdentado em sua boca. Klarion sorria para mim, erguendo a taça de cristal dele com champanhe em minha direção e assentindo com a cabeça, como se isso fosse mexer comigo de alguma forma.
Obviamente, eu ignorei.
Ao seu lado estava a menina da Zona 2, amiguinha do Cameron, que sentava ao lado dela e me olhava com uma expressão entre decepção e vergonha — agora não faço idéia se a vergonha é dele por ser tão cruel e vergonha de mim, por não me juntar a ele. Eu apenas fechei minha cara para ele, mostrando meu rancor dele e dos aliados dele, por terem levado dois dos meus queridos amigos, e o quanto desgosto eu sentia por sequer pensar que nele havia um mísero resquício de humanidade.
Ele é só mais um jogador aqui.
Tuppence e Tommy sentavam do outro lado de Klarion, batendo os ombros largos e musculosos um no outro, e falando daquele jeito maldoso deles, entre eles, encarando a mim e aos meus aliados como se fossemos presas de sua caça mortífera. Eu posso jurar que avistei Tuppence abrindo e fechando o maxilar numa mordida rápida na minha direção enquanto passávamos para onde estava a enfermaria — os amiguinhos dela gargalharam menos Cameron.
–Será que eles têm vacina anti-rábica aqui? — eu perguntei para Dick, arqueando minha sobrancelha pra ela e sorrindo de leve — Esses jogos são tão inovadores que, além de no cio, a cadela é raivosa.
Ouvi Kaldur suprindo a risada, Conner dando dois leves risos, Megan tampando a boca para não fazer vexame na frente dos outros, Zatanna gargalhando com Wally e Dick quase rolando no chão. Vi Tommy Terror segurar a irmã com todas as forças na mesa, Cameron congelando os braços e as mãos dela para que ela não voasse em mim — não que a Capital fosse permitir. Eles provavelmente a matariam, porque quando a Trégua era estabelecida nos Jogos ela era completamente absoluta.
As punições para a quebra de regras durante o tratado eram severas e letais.
Mas antes de voltar meu sorriso meio satisfeito com a reação de Tuppence para frente, consegui ver Cameron sorri de canto e olhar mais relaxado para mim.
Eu o ignorei e voltei à fria e amargurada faceta minha, deparando-me com vários médicos na enfermaria que tomavam conta de alguns outros tributos perdidos que conseguiram entrar. Esses eram os tributos da zona 5, muito machucados e deitados nas macas, relaxando e sendo curados.
Olhei nas outras camas, procurando pelo topete vermelho de Roy, mas nada. Ele não havia chegado ainda e isso me preocupava, porque ele estava sozinho lá na Arena contra a tributo da Zona 12, a meta-humana que voava e soltava raios lasers pelos olhos.
Definitivamente, as coisas não estavam nada boas para o meu cunhado e eu estava ficando muito mais preocupada do que eu pudesse admitir. Meu coração estava em agonia e eu não tinha ninguém para dividir essa dor porque, bom... Todos nós ainda estávamos em luto por Babs e por Gar, Kaldur lembrava-se de Tula o tempo todo e Wally acabara de perder a tributo de sua zona. As coisas não podiam piorar comigo perdendo o controle por não ter sinal de Roy há tanto tempo.
–Ele está bem, Artemis. — senti a mal quente e negra de Kaldur tocar meu ombro, reconfortante e olhei para cima, meio assustada — Melhor do que nós estaremos amanhã quando sairmos daqui.
Isso era uma verdade.
Uma vez em trégua, com todos se aturando e respeitando a vida alheia, no final dela, era outro banho de sangue. E, dessa vez, não tinha como sair sem matar ou sem morrer — e eu tinha esse sentimento horroroso de que perderia mais alguém quando saíssemos daquela tenda.
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Foi doloroso, mas, finalmente, eu estava toda remendada. Avisarem-me que talvez meus ossos que foram trincados, quebrados, luxados, não fossem voltar ao que eram antes, que eu teria cicatrizes para o resto da minha vida e que eu devia cortar meu cabelo antes que alguém decidisse me matar com ele.
Bom, eu agradeci pelos conselhos, com a mesma cara de bunda para os médicos da Capital, e me voltei para os meus companheiros. Wally estava deitado na cama ao lado da minha e ouvindo o que médico tinha a lhe dizer, com uma cara apavorada, porém conformada. Eles conversavam baixo, mas eu pude ouvir algo a respeito das vitaminas que ele tomava de todos os dias.
Meu coração deu uma cambalhota no meu peito ao pensar que talvez ele fosse ser prejudicado pela falta delas. Entretanto, eu sabia que ele tinha trazido o restante delas. Mas, dependendo da duração dos Jogos e do quanto nos alimentávamos ou não, talvez elas não fossem durar o suficiente para mantê-lo saudável até o fim dos Jogos.
Só notei que estava encarando-o quando senti os orbes maçã verdes em mim, determinados, e sua boca se movendo muda — Tudo ficará bem...
Talvez no mundo dele. No meu, tudo estava desabando e eu sabia que eu estava me apegando demais para o meu próprio bem.
Todos nós estávamos nos recuperando, inclusive Dick que já conversava melhor com as pessoas, demonstrando que estava se fortalecendo para cumprir seu objetivo de vingar Babs como todas suas forças.
Fomos para o refeitório acompanhados pelos tributos da Zona 5 que estavam muito aterrorizados para sentarem-se lá sem apoio, já que Klarion e seus aliados faziam questão de serem completamente desagradáveis em momentos de paz como esse. Eu podia ouvir os ossos do garotinho tremer e a menina não parava de se encolher, claramente traumatizada pela crueldade daquele grupo, o mais aclamado pela Capital.
Eu fiquei chocada de uma maneira boa quando Conner andou até eles, largando a nós e a Megan para trás, e mostrou seu lado dócil, gentil e humano para aquelas crianças tão severamente impressionadas e feridas por esses jogos malditos.
Todos nós paramos para ver a cena e eu pude sentir Megan se derreter pelo moreno bombado se ajoelhando na frente do garotinho que estava chorando assustado.
–Ei, está tudo bem. — Conner pegou o menino de leve pelo braço e ele se assustou, olhando-o arredio. Superboy ergueu os braços para cima e sorriu para ele — Calma, eu não vou te machucar, ta bem? — ele olhou para a loirinha do lado do garotinho — Não quero o mal de vocês.
Zatanna parou ao meu lado e eu a vi, sorrindo agradecida para mim, me fazendo recordar de como nós havíamos nos conhecido e de como, sem querer, ficamos tão próximas assim. Minha sombra.
Ela me abraçou e eu retribuí, me sentindo bem e mal ao mesmo tempo — aquilo parecia estar escorregando pelos meus dedos e eu sabia que só estava piorando a minha situação quando algo acontecesse a ela.
–Qual é o seu nome? — Conner insistiu afagando o ombro do garotinho e ele murmurou o nome dele, que nenhum de nós ouviu, com a exceção do Superboy — Oi, Billy. Meu nome é Conner e esses são meus amigos. — ele apontou para nós — Eles não vão machucar vocês, porque são meus amigos também, ta? — Billy hesitou, por alguns instantes, mas assentiu com a cabeça depois, envergonhado por chorar e limpando as lágrimas.
–Muito obrigado... — ele falou desesperado, chorando e esfregando o rosto com a mão fechado para parar de lacrimejar, mas estava emocionado e isso me emocionou também. A menina loira ao lado dele estava chorando também — Muito obrigado mesmo, C-conner! — ele disse e o Superboy levantou-se do chão, bagunçando os cabelos do garotinho em seguida.
–Não precisa mais chorar, Billy. Está seguro agora. — ele assentiu e olhou para a moça loira, todos nós super curiosos para essa reação de Conner — Não disse o seu nome ainda.
Ela engoliu em seco, envergonhada e enxugando as lágrimas e ajeitando a roupa nova, colocando um fio de cabelo dourado insistente em cair em seu rosto bonito, já entrando em estado de desnutrição.
–Desculpe. — ela pediu, riu sem jeito e se apresentou — Meu nome é Cassie. Obrigada por isso. — ela olhou para nós e acenou encolhida ainda — Nós esquecemos como alguém pode ser gentil aqui dentro.
Pobre dessas crianças que estão sozinhas nos Jogos, lutando por sua vida com todas as forças, tornando-se o ser primitivo que a Capital nos força a ser e negando toda a humanidade que nos fora agregada antes de virmos para essa Arena maldita. Esses dois tinham passado por maus bocados o suficiente para estarem com tanto medo dos outros, de qualquer outra.
Conner sorriu para Cassie, então. Do tipo de sorriso que a Megan sorri para ele, mas que ele nunca retribuiu, porque pensávamos não ser capaz — porque pensávamos que nosso caro Conner fosse isento desse tipo de sentimento por outros, pelo menos aqui dentro. E isso foi um choque, MESMO!
Ele esticou sua mão para Cassie, corada, tentando sorrir de volta para ele, e tomou a mão enorme do rapaz mais velho, vendo a diferença de tamanho deles. Eles se cumprimentaram e eu pude ver Conner abaixar o ombro como se ela o tivesse apertado demais.
–DESCULPA! — ela gritou largando-o, e se encolhendo, com medo de machucá-lo novamente — Eu não sei controlar isso! — ela choramingou e olhou-o sacudir a mão e gargalhar.
Sim, meus caros. Conner gargalhou, do tipo de mexer os ombros e sorrir abertamente para alguém que ele havia acabado de conhecer.
Isso estava tão inesperado que eu não sabia o que dizer para quebrar esse climazinho de flerte, por causa de Megan. Mas, quando a olhei de canto, ela parecia aceitar aquilo, com um olhar um pouco triste, com a boca num sorriso ingênuo e bondoso, tipicamente Megan, e encolhida em seu mundinho, olhando para o chão agora, com lágrimas no canto dos olhos.
Por mais cruel que pareça meu pensamento, eu sei, é horrível, mas não adianta se apaixonar nos Jogos. A Capital nunca permitiria que dois saíssem daqui vivos ou qualquer coisa do tipo.
Mas, né? Agora o negócio era viver o que pudéssemos ao extremo, pois poderíamos cair mortos a qualquer instante.
–Você é forte... — Conner disse admirado e sorrindo para Cassie enquanto Billy assistia aquilo de lado — Você também é, Billy? — ele mexeu com o garotinho e Cassie sorriu para aquilo.
Billy meneou a mão para ele e Conner riu, movimentando a cabeça na nossa direção — Venham. Vou apresentá-los.
E, como se tivéssemos acabado de chegar, ele apresentou Cassie e Billy da Zona 5 para cada um de nós, e Megan foi o mais agradável possível com ambos, todos nós também fomos, obviamente. E Kaldur sorriu para Conner, mas chamou-o para uma conversa na outra extremidade da mesa enquanto nos sentávamos no meio, longe de Klarion e longe da conversa dos dois meta-humanos.
–Como estão as coisas para vocês dois? — Wally perguntou, puxando assunto e os dois meio que se encolheram, receosos e tristes em conversar. Dick bateu na cabeça de Wally.
–Quanta delicadeza a tua, Wallace... — Robin reclamou e Wally pediu desculpas — Desculpem mesmo. Deve ter sido difícil para vocês lá fora. Não tínhamos noticias de vocês desde o Banho de Sangue. — Dick disse como se tivesse um relatório completo de onde e como estava cada tributo naquela Arena.
Eu olhei-o surpresa e ele só piscou um de seus orbes azuis para mim, voltando a ser o típico Dick que eu tanto estimo, e me fazendo contente em saber que ele se recuperaria mais rápido do que eu esperava.
–Bom, nós não ficamos sozinhos por muito tempo, porque é loucura ficar nessa Arena sem aliados. — Cassie respondeu receosa e ficou cabisbaixa, voltando seus olhos azuis piscina para Wally — Jessie estava conosco até... — ela viu Billy se encolher ao seu lado e voltei minha atenção pro Cabeça de Cenoura que a olhava depressivo.
–Espero que vocês tenham conseguido agüentá-la com aquela bipolaridade dela. — ele brincou, honrando a memória da suposta amiga dele e Cassie assentiu, sorrindo pequeno para ele — Ela era ótima.
–Estávamos muito bem, nós três. — Cassie assentiu, comentando algumas passagens dos Jogos em que Jessie havia feito diferença na vida daquelas duas crianças e fazendo Wally rir, lembrando-se da pessoa que o acompanhara até aqui — Nós não estaríamos aqui se não fosse por ela.
–Pelo menos ela conseguiu o que queria. — Wally sorriu orgulhoso, e virou-se para mim, piscando um de seus orbes e me assegurando de que ele ficaria bem.
–Nós também conhecemos Roy. — Billy comentou e meus olhos dispararam na direção dele, me fazendo recordar do meu cunhado. O menino se assustou com meu olhar desesperado.
–Como ele está?! Está bem?! Está ferido?! Quando o viram pela última vez?! Ele se juntou a vocês?! Ele disse algo sobre alianças?! Ele veio para cá?! — eu me levantei da mesa, empolgada, preocupada, agoniada, precisando daquelas respostas, minha cabeça a mil com a imagem dele de fundo.
Megan me segurou para que eu não voasse naquelas crianças que não me respondiam logo, levemente puxando meu braço para que eu voltasse a me sentar, sorrindo tranquilamente para mim e afagando meu cabelo.
–Calma, Artemis. Eles vão falar o que souberem. — ela me lembrou e Billy assentiu, concordando com tudo que falávamos contanto que eles ficassem bem e vivos.
–Na verdade, — Cassie gaguejou e tomou à frente da conversa, sabendo que aquela informação era muito necessária para mim — Nós não o vimos desde o tremor que dividiu a Arena. — ela me falou e eu senti meu coração doer, meu rosto se contorceu e eu o escondi em minhas mãos, sobre a mesa, apoiada para não parecer que estava chorando por mais que fosse essa minha vontade — Ele está bem, sem machucados profundos nem ossos quebrados.
–Ele estava te procurando. — Billy me falou e eu olhei-o novamente, voltando-me para Zatanna do meu lado que afagava minhas costas juntamente com Megan, me confortando. Mas eu só queria sair dali aquele mesmo instante para procurá-lo, porque deveríamos ficar juntos nos Jogos.
–Ele decidiu não vir, Artemis. — eu olhei-a inconformada, sobrancelhas fincadas.
–Como ele decidiu não vir?! — eu soquei a mesa — Ele é louco?! — eu olhei ao meu redor, Wally estava me encarando e Dick levantou um de seus ombros, como se já esperasse aquilo.
Meu grito chamou atenção das duas extremidades da mesa, o jantar rolando, e Kaldur resolveu permitir que Conner e ele mesmo se juntassem a nós, porque, aparentemente, eu estava causando polêmica e precisava ser controlada ou algo do tipo.
–Não se altere, Artemis. Cuidado com as Elites. — Kaldur murmurou no meu ouvido, parando de pé atrás de mim e repousando uma de suas mãos em meu ombro, me segurando. Conner sentou do lado de Billy do outro lado da mesa, afagando seus cabelos novamente e assegurando seu bem estar.
Cassie continuou a falar mais tranqüila por tantas pessoas estarem lá para encobri-los caso eu não gostasse de alguma resposta: — Ele achou que seria muito perigosa a saída daqui e que iria te encontrar para não deixá-la ir.
–Ele atravessou o rasgo da Arena? — Wally perguntou e Cassie negou com a cabeça.
–Não. Ele estava convicto de que você estava desse lado e seguiu para o outro lado da Arena, o mais longe da Campina, procurando por ela.
–Que ótimo! — eu gritei ironicamente, empurrando meu prato já limpo para frente — Esse idiota tem a capacidade de pensar que eu não viria para cá procurar por ele?! Ele é uma anta mesmo! — eu xinguei, me sacudindo e tirando as mãos que me afagavam — Desculpe, mas carinho não vai me ajudar agora.
–Ele está bem. — Billy me disse e eu resisti a minha resposta rude que o deixaria chorando a noite inteira.
Engoli o sapo e me levantei da mesa, olhando para Kaldur atrás de mim, que deu um passo para o lado permitindo minha passagem para as acomodações.
Eu pude ouvir meu nome saindo da boca de alguém e as risadas do grupo de Klarion no outro lado da mesa, mas estava muito puta pra sequer ligar pro que eles estavam falando. Roy, mesmo longe e correndo risco de vida, conseguia me deixar completamente furiosa.
É possível alguém ser assim TÃO burro, meu Deus?! Ou tão teimoso?! Ele realmente acredita que eu vou evitar oportunidades de me reunir com ele, com outros, por causa do perigo? O perigo aqui está em tudo, em todos, em qualquer lugar. Ele nunca vai estar 100% seguro e ele não vai me achar nem eu vou encontrá-lo se nós dois continuarmos a andar em círculos como duas baratas tontas!
Isso não tá certo!
Agora, além de pensar em como posso ajudar o Kaldur com as estratégias do grupo, tenho que pensar em uma forma de encontrar Roy. Claro que eu devia continuar a pensar em outra maneira de me manter viva até isso acontecer.
Aquilo tudo só me deixava mais doida.
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Eu estava deitada na minha cama, estranhando o aconchegante colchão, com uma enorme dificuldade pegar no sono e ser estrangulada até a morte por Tuppence que roncava alto junto de seu querido irmão e outros que, de fato, conseguiram pegar no sono. Eu não sei bem o porquê, mas algo me dizia que eu não merecia estar deitada naquele colchão de molas e sentindo a maciez do travesseiro de pena; não merecia estar de banho tomado com meus cabelos penteados e soltos, de roupas novas e confortáveis, com um cobertor me protegendo do frio, enquanto Roy estava lá fora a minha procura e fugindo de algum tipo de ameaça a vida dele.
Mesmo eu ter dado meu máximo para chegar aqui com os outros, ainda não parecia certo para mim e isso pesava na minha consciência.
Outra coisa que me fazia permanecer acordada era a cama vazia dele ao lado da minha, a forma como todas as camas haviam sido organizadas pelas zonas de acordo com os tributos que permaneciam no Jogo. Do meu outro lado estava o velocista Cabeça de Cenoura, completamente desmaiado de sono, e seguido por Robin, seguido de Megan, que repousava tranqüila perto de Conner, que dormia de barriga para cima.
No outro sentido, Kaldur seguia deitado ao lado das crianças da zona 5, Cassie e Billy, com os gêmeos barulhentos da zona 4; depois disso a Crystal e o Cameron.
Eu tinha pena de Zatanna, tendo que dormir do lado de Klarion e sabendo do que ele era capaz. Ela devia estar morrendo de medo. Isso ou ela chorou até pegar no sono.
Tudo estava muito quieto, exatamente como um tratado de paz, um campo de concentração das crianças que a Capital enfiava aqui dentro todos os anos. Tão pacífico que me dava arrepios de cima a baixo na minha espinha. Minha intuição gritava, meu coração inquieto e minha mente a mil por hora.
Eu me virei para Wally e o vi respirar num ritmo lento e suave, seu peito inflando tão mais cheio de vida do que da última vez que parei para vê-lo repousar. Parecia que fazia semanas, mas foi há alguns dias quando ele me resgatou e pagou caro por isso. Meus olhos já acostumados com o escuro do alojamento me permitiam enxergar o rosto sardento do ruivo, vagando-os sobre o tributo da zona 8 como se ele fosse algum tipo de obra de arte – não que ele fosse tão espetacular assim! Eu só não tinha mais nada para olhar.
Vê-lo me transmitia confiança, calma. Então, não é como se eu fosse arrancar pedaço só por observá-lo dormir.
Ele estava numa posição engraçada, quase humanamente impossível, todo largado na cama, o cobertor caindo e arrastando no chão de um lado, a boca semi-aberta, os cabelos emaranhados, uma das pernas dobradas enquanto a outra pendia levemente na extremidade da cama.
Ele estava completamente sossegado, dormindo feito pedra. Eu senti minha boca se repuxar num sorriso de lado, e meus olhos rolaram para cima, meu corpo seguindo o gesto como se eu automaticamente estivesse ordenando-o a pegar no sono.
Viro-me para a cama vazia de Roy, de olhos fechados, prestes a entrar num sono mais pesado, e abro os olhos para me assegurar de que eu ainda estava nos Jogos, e quase tenho um infarto.
Do meu lado estava Cameron, deitado na cama de Roy, me observando cuidadosamente e fazendo sinal de silêncio com um de seus dedos azulados, a outra mão espalmada na minha direção pedindo para que eu me acalmasse.
Eu me emputeci, obviamente.
–O que tu ta fazendo aqui?! – sussurrei brava, quase me sentando na cama e preparando-me para gritar – Vai pra tua cama!
–Eu preciso saber como você está. – ele falou erguendo as mãos para cima de uma maneira debochada – Relaxa, não vou arriscar o meu pescoço por você de novo. – eu bufei e revirei os olhos, virando meu corpo todo de barriga para cima e cruzando os braços, ignorando-o – Afinal, não vale à pena. Você ainda prefere os fracos.
–Eu prefiro os que dão valor à vida, Cameron. – eu rebati e ele franziu o cenho – Você e seus aliados são cruéis e estão se divertindo aqui dentro.
–Os meus aliados estão fazendo o mesmo que os seus, Artemis. — ele me respondeu, frio, me julgando e quando o encarei, podia vê-lo decepcionado comigo — O que você acha que aconteceu na hora da Tempestade de Raios? — ele me questionou sarcástico. Eu dei de ombros e ele apontou para Wally sobre mim — Seus amiguinhos nos emboscaram no nosso próprio acampamento. Foi isso o que aconteceu!
Eu me calei, sabendo que eles tinham o feito de próposito. Porém, isso fora causado devido ao Banho de Sangue na Arena. Era matar ou morrer... Só que, da forma que Cameron falou, eu não sei, mexeu demais comigo e com a confiança que eu tinha nos meus aliados.
Eu me encolhi, franzindo meu cenho incomodada novamente e olhando-o nervosa.
–O que quer, Cameron?– eu perguntei novamente, arfando minhas narinas, sendo o mais rude possível para que ele fosse embora, de volta para o lado de Klarion.
–Te alertar.– seu rosto sério, olhando para os lados, vendo que as Elites não estavam nem aí para isso, somente se eu gritasse — Eu sei que eles podem ser seus aliados agora. Mas tudo muda quando a chegar o fim da segunda semana dos Jogos, Artemis. – eu engoli em seco, arrepios percorrendo meus braços pela temperatura que Cameron fazia questão de abaixar e pelas palavras dele, como se estivesse me contando uma história de terror - As Elites vão começar a interferir se pessoas morrerem e você não vai querer ser envenenada ou devorada ou soterrada ou... – ele foi citando várias formas de morrer sem ser assassinada.
Eu sentei na cama, estreitando meus olhos, tomando coragem de encarar o frio abaixo de 10º Celsius com os poderes criogênicos do meu adversário, punhos cerrados e preparados para expulsá-lo de lá.
–Então você está me dizendo que morrer pelas mãos de outra pessoa é a "melhor" forma de morrer?!– questionei e ele assentiu dando de ombros desprovidos dos estalactites, eu cruzei meus braços — Como vocês são piedosos, não? Esbanjando compaixão. – ele fechou a cara de novo.
–Artemis, eu estou falando sério. Você corre muito perigo.
–Você também corre muito perigo. Perto de todos!– eu rebati apontado para os Carreristas - Todos ali, meu caro Cameron, querem a cabeça dos outros em espetos e a tua não é exceção. Quando todos os outros morrerem, vocês voarão nos pescoços uns dos outros como o Banho de Sangue!– falei e ele engoliu em seco, movimentando sua postura — Não haverá nada que manterá todos vocês vivos!
–E o mesmo eu digo pra ti.– ele me respondeu e eu me concentrei em suas palavras, orbes gélidos nos meus impetuosos — Acha que eles vão respeitar qualquer de vocês?! Você acredita mesmo que eles vão sair andando em direções opostas, esperando para que vocês sejam mortos pelas Elites?! Eles vão matar uns aos outros também!
–Não! Você está errado.– eu o informei e voltei para a minha cama, virando de costas para ele e o enxotei.
–Você é muito teimosa pro seu próprio bem.– ele cuspiu, levantando-se da cama e ficando ali por mais algum tempo.
–Não foi embora ainda? Ou a tua covardia é só lá fora mesmo? – ele encostou em mim, me gelando.
–Não fui eu quem matou sua aliada, Artemis...– ele me avisou e eu olhei-o com puro ódio.
–Não foi você também quem impediu que acontecesse.– Cameron arfou as narinas e abaixou a face, se preparando para sair - E, Cameron...– voltou a me olhar e eu continuei convicta — O nome dela era Barbara, ela tinha doze anos e ela era minha amiga.– pude ver o pomo de adão dele pingar em sua garganta esbelta e continuei — E tenha em mente que, se você entrar no caminho para defender a sua aliada, eu vou matar você também.
Ele endireitou a postura, olhando-me por cima como se eu não fosse nada para ele, e meneou sua cabeça negativamente.
–O que te transformou nisso? – ele perguntou retoricamente, mas eu adoro responder pessoas que fazem questão de me deixar furiosa na hora em que eu ia pegar no sono.
–Você e seus aliados invadindo nosso acampamento no meio da noite, matando uma garota boa que tinha toda uma vida pela frente, com essa ideologia lúgubre de vocês.– ele saiu dali e não veio mais me perturbar.
Eu dormi em seguida, mas meus pesadelos envolviam uma guerra entre eu e meus amigos, cada um defendendo a si, e cada um deles caía morto ao meu lado, um real banho de sangue, até lasers rubros atingirem minha cabeça e eu acordar no pulo uns 20 minutos depois de sono.
Maldito Cameron! Me privou da única boa noite segura de sono que teria por causa de seu papinho rídiculo.
Filho duma p...
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Na manhã seguinte, sentamo-nos a mesa do café da manhã no refeitório, Kaldur ao meu lado enquanto todos os outros socializavam com Cassie e Billy, as mais novas aquisições dos meus aliados, que sentavam mais aliviados e mais alegres entre Conner e Megan, que havia tomado um afeto pelo menininho que tinha a mesma idade e o mesmo jeito moleque de Gar.
Eu não fui contra, porque eles me aceitaram de supetão quando o Wally foi severamente machucado pelo desabamento que a Quimera causou. Só que eu fui amarrada, passei por provações e tive que mostrar que a minha índole era boa de alguma forma para eles.
Só que tinha aquele detalhe que eles haviam notado que eu fui convidada várias vezes para me juntar à aliança de Klarion, então eu podia ser uma traidora.
Não tava nem aí pra isso, mas Kaldur estava muito preocupado e fora esse o motivo que ele se afastou de nós na janta da noite anterior para conversar com Superboy, que estava completamente mais sociável desde que aquelas duas crianças cruzaram nossos caminhos na enfermaria.
–É um grande número para conseguirmos cuidar uns dos outros. — Kaldur disse sério, segurando a caneca com café preto e olhando receoso para a mesa — Eu não sou ninguém para julgá-los e eles parecem ter sofrido muito, só que eu não faço a menor ideia como conseguiremos sair daqui todos vivos, ainda mais com eles. — ele se referia a nossa falta de conhecimento das habilidades daqueles dois. Além do fato de Conner ter exaltado a força de Cassie, não sabíamos mais nada dos tributos da zona 5. Apenas que eles eram fortes e isso não ajudava muito quando tínhamos um grupo de 8 pessoas para tirarmos vivas da Trégua — Também não posso negá-los agora que já estão se dando bem conosco.
Eu estava bem azeda aquela manhã e olhei-o irritada, porque eu também não tinha aquela resposta e ele sentiu minha frieza.
–Sinto que algo aconteceu pela noite. — ele mencionou e eu revirei meus orbes, cruzando os braços sobre a mesa e tampando minha cara com as mãos — Alguém te ameaçou?
–Não são nem loucos de fazerem isso aqui. — rebati e o moreno assentiu, mas sempre havia um suicida por aí. Bufei e comecei a falar bem baixo para ele, porque se Wally ouvisse iria fazer um auê como se eu tivesse me juntado a Cameron só por ele ter vindo falar comigo, como ele já fez algumas vezes. E eu não tava muito católica pra aturar uma crise de pelanca dele — Cameron veio conversar comigo pela madrugada. — e o líder se enrijeceu, endireitando sua postura e preparando-se para que eu continuasse a falar. Eu já esperava por essa reação — Ele veio me "alertar" que estamos quase entrando no final da segunda semana dos Jogos e que as Elites vão começar a matar tributos como moscas se pessoas não morrerem assassinadas. — Kaldur pensou nas minhas palavras e eu continuei — Ele mencionou o fato de quando chegar a hora de nos separarmos, de seguirmos caminhos diferentes, e disse que nós acabaríamos matando uns aos outros até um sobrar vivo.
Kaldur engoliu em seco e olhou-me, orbes verde-água sempre tão afetuoso e cuidadoso.
–Ele não está errado em tudo. Você sabe, não é mesmo? — eu assentiu, bebendo do meu café e comendo um pão recheado de presunto e salame enquanto a galera se atracava nas comidas mais pesadas — Isso é outra coisa que me preocupa muito. Nós nos defenderíamos e cuidaríamos uns dos outros, mas eles dois sempre foram os dois e mais alguém que morreu ou fugiu. Se algo der errado ou eles entenderem errado, não tem como saber se eles não vão quebrar o pescoço do primeiro que passar por eles.
–Kaldur, não sei se é da natureza deles. — eu o avisei, com pena daquelas crianças, que mal chegaram e já foram tão julgadas.
–As naturezas mudam aqui dentro. — eu fechei meus olhos e vi Jade no fundo de minha mente, como ela era e como ela se tornou — Mas eu prometi a Conner que daria uma chance a eles. — eu suspirei e olhei Conner sorrindo e conversando com a envergonhada e bela Cassie, que estava fazendo algumas brincadeirinhas com ele — Ele me pediu.
Eu olhei-o de soslaio, sabendo que o líder tinha um enorme coração romântico debaixo dos músculos e das guelras.
–Casais nos Jogos sempre se tornam os queridinhos. — eu o avisei e nós sorrimos pela primeira vez aquela manhã.
–Espero que eles aproveitem o tempo que lhes restam. — ele me olhou e bateu seu ombro de leve no meu, sorrindo e levando seus orbes do outro lado da mesa, me fazendo segui-los e me deparando com as maçãs verdes das íris de Wally, curioso com a nossa conversa e ficando corado quando eu notei que ele estava encarando. Eu me virei para Kaldur, arqueando uma de suas sobrancelhas e ele continuo — Todos nós temos que aproveitar.
E, dessa vez sim, eu corei tanto que me engasguei no café e tive que ir ao banheiro para não morrer sufocada na frente deles.
Depois disso andamos para o setor de armas, onde podíamos pegar tudo o que queríamos, não apenas armas, mas kits de sobrevivência, cantis com água, kits de primeiros socorros, casacos mais densos, entre todas as armas disponíveis para o Banho de Sangue que seria aquilo.
–Parece que nosso paz está chegando ao fim. — Dick me alertou, parando ao meu lado e suspirando um pouco cansado — Valeu a pena, Deusa, ter vindo aqui. — ele me disse contente, sorrindo aquele seu sorriso enorme e tipicamente Robin que Babs tanto implicava e amava. Eu pude sentir o calor de sua alegria e gratidão por aquilo e eu me sentia bem por vê-lo melhorando.
–Espero que valha a pena nossa saída... — eu murmurei de volta, tentando soar o mais animada possível para que ele não voltasse ao seu desanimo.
Só que ele sorriu mais pra mim, dando tampinhas leves em minhas costas e seguindo para a prateleira de acessórios voadores e tecnologia.
–Ah, com certeza, Artemis. Tudo valerá a pena quando sairmos. — ele me garantiu e piscou um de seus orbes azuis para mim, vestindo os óculos escuros e seguindo seu caminho.
–Ele ta alegrinho hoje né? — Wally me assustou, só pra melhor meu humor e se desculpou, ainda focado em Dick — Acha que ele viu a fada verde ou algo do tipo? — ele me questionou e eu neguei, olhando-o com muito carinho porque ele estava melhorando.
–Acho que ele está vendo que precisa aproveitar o que nos resta. — sugeri e voltei a pegar a aljava com flechas novas, super afiadas e bem mais limpas que as outras, um arco novo e maior também.
Wally continuou olhando torto para Dick, o que me chamou a atenção e eu o encarei, ele parecia bem perturbado pelo amigo estar tão empolgado logo agora.
–Eu não sei... — Wally esfregou o queixo com fios ruivos crescendo em uma barba, os óculos de proteção vermelho já em seu pescoço, a outra mão na cintura guardando algumas coisas afiadas para arremessar em seus inimigos. Do outro lado de seu corpo atlético e magro, agora, uma mochila pendendo de seu ombro com todas as vitaminas que ele precisava. Ele virou os orbes que brilhavam esmeralda para mim, preocupação transparente neles — Pra mim, ele está tramando alguma coisa.
Eu senti outro arrepio percorrer minha coluna com essa afirmação de Wally e meu coração deu uma cambalhota em meu peito.
Mal nós sabíamos que, de fato, Dick estava tramando algo e nossa paz nos seria tirado dentro de duas horas, quando acabasse a Trégua.
De fato, quando nos Jogos não se pode prever absolutamente nada, porque todos mudam e não há saída quando a mudança acontece. Tudo que era humano desaparece e todo o instinto animal, a sobrevivência, grita e consome o ser que você costumava ser.
Depois da Trégua, meus dias foram de intenso sofrimento, fugas incontáveis, ferimentos quase letais e eu pude sentir minha alma sendo corrompida pela medo que a Capital impunha a todos seus cidadãos.
Eu posso morrer agora?
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