Jogos Justos

13 XII - Alerta


Notas iniciais
Só vim aqui dizer pra vocês que me perdoem por ter demorada um pouco mais para postar o novo capítulo, mas eu tive alguns contratempos durante as férias que me prenderam e eles tem nomes de musicais.
Em especial, o Fandom de Les Misèrables e RENT! Então, me perdoem... :3
Mas, de qualquer forma, aproveitem. Bastante ANGST aqui! XD
Boa Leitura! :D

Tuppence foi embora depois que matou Barbara, rindo alto do meu desespero.

-Essa noite você sofre, vaca. – e a voz ríspida dela percorreu a noite enquanto ela sinalizou para os outros do time que era hora de ir embora.

Eu limpei o meu rosto com as minhas mãos, procurando por alguém que precisasse de ajuda, mas logo todos já tinham ido da mesma forma como vieram – nas sombras. Meus olhos vasculharam pelos outros, porém os únicos que continuavam por perto eram Zatanna e Megan, enquanto os meninos tentaram achar o esconderijo fixo de Klarion e sua escória.

A ruiva de pele verde estava desmaiada ao lado da cabana de remédios e Zatanna controlou o fogo até que, finalmente, restou a fogueira original. Zatanna correu até mim, seus olhos azuis não tinham captado a cena ainda até que ela notou meu rosto e o sangue esfregado na minha cara.

Não. Ela não disse nada, ela tentou, mas não conseguiu. Eu não me mexi, pois não queria que a doce Zatanna visse a cena atrás de nós até que a curiosidade da morena falou num tom mais alto e ela me desviou, indo correndo para a cena do crime. Eu não me mexi mais quando eu a ouvi ir ao chão, sua voz tremula abafada entre soluços e um choro que não parou mais. Eu senti lágrimas escorrerem pelo meu rosto, e o ergui, olhando lá pra cima.

-Se existe algum Deus aí, – eu murmurei – o Senhor é muito cruel.

A voz alta de Wally ecoava, ele vinha marcando o caminho de volta e quando avistou o acampamento sem o fogo correu na minha direção. Eu cambaleei com o vento que quase me levou, porém eu me estabilizei com a mão coberta pela luva do velocista. Ele me puxou, mas eu não o olhei.

-Ei! – eu continuei olhando para frente e ele pisou no meu caminho, prendendo seus olhos verdes nos meus – Você se machucou? – eu balancei a cabeça e ele franziu o cenho — O que foi? Artemis, você está me assustando. – ele murmurou e eu olhei pro chão, uma lágrima rolando e nesse gesto eu senti a mão de Wally enrijecer no meu ombro.

Ele viu Zatanna no chão, chorando e a pedra esmagando alguém que costumava ser muito boa pra muita gente aqui. E eu não podia dizer mais nada naquele instante. Eu estava guardando as minhas energias para quando Dick chegasse, perguntando o que aconteceu e porque eu não fiz nada.

Não, eu não olhei para Wally quando a mão dele saiu do meu ombro relutante, ouvindo o estalo dela em sua coxa e o vulto negro e vermelho passando por mim antes que eu pudesse piscar. Eu não me mexi quando o ouvi murmurando alguma coisa para Zatanna e ela não respondendo – eu não me mexi porque eu não iria conseguir explicar pro Dick quando ele chegasse.

-Como eles chegaram aqui? – a voz do menino sorridente estava meio abalada, meio vacilante, mas ele não sabia ainda o que tinha acontecido.

Ele e Kaldur vinham devagar atrás de Conner que pulou a vala que ele mesmo tinha feito com o corpo enorme e musculoso de Tommy Terror. Os olhos gélidos do moreno de pele pálida me encararam, seus ombros enrijecidos me olhavam curiosos, porém compreensivo. Pelo jeito ele já sabia o que tinha acontecido – ele tinha visto de longe. Ele não poderia ter vindo ajuda de qualquer forma, mas, mesmo assim, eu senti uma lágrima rolar pela minha bochecha e vi uma lágrima também rolar do canto escuro da face do moreno da Zona Doze.

-Eu vou colocar a Megan na cabana e vou ficar de vigília. Avisa o Kaldur? – ele me perguntou e eu senti sua mão grande no meu ombro me afagar bem levemente, como se ele estivesse com medo de me quebrar.

Eu assenti e ele me confortou rapidamente, antes de olhar atrás de mim e visualizar o estrago. Ele respirou fundo e olhou para o chão, me largando e seguindo para o outro lado do acampamento.

-Ficamos distraídos. Isso não pode acontecer mais, Robin. – a voz grossa e baixa do líder era a de um rapaz cansado e alerta.

Eu me virei na direção dos dois, vi Dick pulando de uma forma acrobática da vala a uns bons metros de mim. E lá estavam eles, com o peso no ombro que esperava ser retirado após uma boa notícia, pelo menos a menor pior. Eu senti meu lábio tremer e meu queixo doer com a careta que eu fazia, minha mão livre cobrindo minha boca pra tentar não alertá-los antes da hora. É muito egoísmo estar mais triste que eles sendo que mal passei tempo o suficiente com a Babs para isso...

-Nós temos um tempo para desmontar acampamento e seguir na direção oposta. Acho que tem uma caverna pra lá... – Dick continuou a falar, montando suas estratégias, mas Kaldur o parou quando me viu.

Os olhos prateados arregalando-se rapidamente até que eles se estreitaram e me analisaram. Eu tremi e vi o rosto de Dick vacilar do lado sombrio.

-O que houve? – Kaldur questionou e eu abri a boca para responder, mas saiu um meio soluço e uma meia palavra.

-Eu... Tuppence... Babs... – eu esfreguei meu rosto quando vi o moreno novinho mudar o peso de seus pés e parar, como se estivesse vendo um fantasma. Kaldur deu um passo para o lado, vendo atrás de mim – Eu tentei... Eu não sabia o que... Fazer! Ela... Ela...

-Cadê a Babs, Artemis?! – Dick perguntou, seus olhos azuis arregalados as sobrancelhas fincando um pouco. Eu balancei a cabeça e olhei para o chão – Não... – sua voz estava calma, mas quando eu olhei novamente para o baixinho ele estava a minha frente, fazendo questão de encarar nos meus olhos cinza. As suas olheiras pareciam afundar mais e seus olhos estavam tão sem brilho que eu não consegui segurar os pingos que caíam do canto de meus olhos – Artemis, onde está a Bar... – e então as sobrancelhas de ébano relaxaram vendo a minha expressão, até que elas estavam completamente puxadas para cima mostrando rugas na testa daquela criança e lágrimas começaram a se formar na pálpebra de baixo do moreno – Não...

-Eu sinto muito – eu mexi meus lábios e escondi minha cara em minhas mãos, a presença de Kaldur não estava mais ali e eu senti meus joelhos se abrindo, dando passagem pro meu corpo cair no chão.

Eu olhei para a terra embaixo de mim e os pés pequenos de Dick se mexeram no chão a minha frente, movendo dali até que ele estivesse em frente a cena. Eu me abstive desse momento por alguns segundos, ouvindo Wally murmurar qualquer coisa para acalmar Zatanna e vendo a sombra de Conner subindo a árvore.

-Barbara... – a voz baixa de Kaldur conseguiu ecoar entre as paredes e o vácuo de nosso acampamento. O tom grave e mórbido do luto.

-Babs... – já essa voz era diferente. Era o mesmo tom do menino que vivia sorrindo, só que não sorriria mais daquele jeito quente como era de costume.

Eu engoli em seco, sabendo bem que não acabaria por ali.

-NÃO! – passos nervosos cada vez mais rápido e mais longe de mim.

-Wally, pára ele! – Kaldur mandou e um vento ocorreu.

-Cara...

-Sai da frente! – POW! Um murro e eu tive que virar meu tronco para encontrar Wally com metade da cara roxa depois de um soco, mas ele não tinha deixado Richard continuar seu caminho até a pedra que não parava o sangue de escorrer do cadáver de Barbara – ME DEIXA!

-Não! – Wally não gritou, mas falou numa firmeza que deixou o baixinho recuar por instinto e relaxar nos braços do tributo ruivo. Eu vi o rosto de Wally, apesar de roxo pelo recente soco, ele tinha seus olhos bem vermelhos e tinha lágrimas no canto deles.

Kaldur estava do lado de Zatanna que desmaiou depois daquela demonstração de virilidade, deitando a cabeça dela no chão com cuidado e andando até os dois, segurando Dick pelo ombro e tentando fazê-lo olhar em sua face negra.

-Me solta! – Dick grunhiu, quase mordendo Kaldur, mas o moreno nem vacilou seu aperto.

-Robin. – a voz grave do líder chamou a atenção de Dick que o olhou, as lágrimas limpando a poeira de seu rosto imundo – Grave bem as minhas palavras. – Nós vamos pegar quem fez isso com a Barbara e nós vamos fazer justiça. – Kaldur terminou, mas ele não precisou questionar se Robin tinha entendido ou não, pois assim que Kaldur terminou de falar Dick se largou nos braços de Wally esperando até que o ruivo o deixasse ir.

Mas Wally só deixou o companheiro ir quando Dick tinha retribuído o abraço, gritando e grunhindo em dor. Wally também estava muito triste e ele matinha o mais baixinho em seus braços até que Dick foi indo, se esgotando de tanto gritar e chorar.

Kaldur já tinha carregado Zatanna até a barraca das meninas com Megan e eu ainda estava no chão. Conner foi chamado para ajudar o moreno a agrupar as coisas importantes quando para quando fossemos deixar acampamento pela manhã.

Eu só entendi que era hora de fazer alguma coisa quando vi um pára-quedas branco com o número 7 em verde musgo descendo a minha frente, uma caixinha sendo carregando. Eu arregalei meus olhos, completamente atordoada e esfregando-os até que me tocasse de que aquilo era real.

Se não fosse pela dor da terra roçando nas minhas vistas, pois eu sou lesada e me esqueci que estava com as mãos no chão, aquilo seria considerado um sonho para mim. Há males que vem para o bem.

Agarrei a caixinha lentamente e soltei do pára-quedas, rasgando o fio que a segurava. Abri com muita delicadeza e vi um papel, só que não consegui ler por estar muito escuro. Então, com todas as minhas forças que ainda estavam em faze de regeneração, me arrestei perto da fogueira e as letras começaram a aparecer.

-Parece que não somos todos nós que fomos esquecidos por nossos patrocinadores. – Wally murmurou enquanto passava com Dick jogado em suas costas para deixá-lo em na cabana dele.

Por reflexo eu quase engoli o papel de susto, mas eu não faria isso sem antes ler. Além de que Kaldur estava por perto e Conner também – que já tinha lido a minha carta, provavelmente. Sabe lá Deus o que aquilo seria.

Eu voltei meus olhos para o papel que estava dobrado, branco, e o abri, vendo uma letra em forma e vermelha berrante. Claramente um aviso.

CUIDADO! DESAFIO A FRENTE – OLIVER.Desafio? Como assim? No final do papel, escrito a mão de ultima hora, com uma letra muito bonita e em cinza claro para não ser notado quando fosse enviado...

-O que tá escrito? – a voz de Wally soou do meu lado novamente, como se ele estivesse bem em cima de mim, tentando ler. Só que eu já tinha retraído o papel pro meu peito, como se tivesse mais algum calor vindo de Oliver ou Dinah.

Eles estão de olho em mim.

-Desafio a frente. – repeti. Olhando para Kaldur que parava por alguns instantes a minha frente.

Kaldur assentiu, pensando um pouco no que fazer e me dando tempo o suficiente para falar com Wally.

-Para de bisbilhotar nas minhas coisas. – mandei e os olhos verdes de maçã estavam em mim, tão inchados quantos os meus.

-Desculpe. Eu me empolguei. Achei que fossemos amigos. – ele rebateu bem seco e eu fiquei sem resposta para aquilo.

Ele saiu andando antes mesmo que eu tivesse pensando em dizer desculpas para ele. Ele seguiu para ajudar Conner com alguns mantimentos e as armas que eles haviam pegado, além de remédios e afins.

-Artemis. – a voz de Kaldur me tirou de meus devaneios e tirou, graças a Deus, os meus olhos das costas de Wally. Voltei para os orbes prateados de Kaldur e ele continuou olhar extremamente sério – O que acha que devemos fazer?

-Além de sair daqui? – foi automático. Nem pisquei pra responder, só me arrependi de não ter pensando antes e mordi minha língua.

-Vamos sair antes do amanhecer, não se preocupe. – Kaldur me entendia bem, de qualquer forma. Ele era um bom entendedor e sabia o quanto eu estava abalada – Sobre o desafio.

Eu parei para pensar. Desafios nesses Jogos não significavam coisas boas – pelo menos não durante o desafio, porque nossa habilidade de sobrevivência dos mais fortes era testada além do extremo. Inclusive muitas pessoas mostravam quem realmente eram durante os Desafios e isso deixava muitos mortos no caminho.

Eu balancei a visão de Babs morrendo na minha frente e a de Gar, tentando me focar somente no que interessava. Kaldur ainda estava esperando a minha resposta, muito pacientemente.

Mas, pensando bem, depois que alguém passava pelo Desafio, os tributos acabavam recebendo armas, tratamento médico e até uma boa noite de sono depois de um banquete de rei. O único problema era que teria de dividir a noite com os inimigos se eles tivessem conseguido chegar até o lugar determinado do Desafio.

Uma faca de dois gumes que causaria tantas feridas quanto remendos. O que fazer não pode ser decidido por mim.

Porém, quando voltei a Kaldur, seus ombros cansados, as olheiras sobre seus olhos, a preocupação por uma coisa que não valia mais a pena fez algo arder dentro de mim de uma forma positiva. Kaldur tinha perdido tudo, todas as pessoas que o tinham feito feliz, tinha perdido até Barbara nesse meio tempo, mas, mesmo assim, depois de ver Tula sendo tirada dele daquela forma, ele continua lutando. Não por ele, mas pelos outros e até mesmo por mim.

-É a nossa deixa. – o avisei e Kaldur assentiu, como se tivesse deixado mil toneladas escorregar de suas costas e até o barulho de seus pés ecoando entre o acampamento sendo desmontado era mais surdo.

E a minha deixa, naquele instante, era ajudar os meninos a desmontarmos as coisas para partirmos do tumulo de Babs – se ficássemos muito mais tempo ali, o corpo dela apodreceria e o cheiro atrairia o pior tipo de animais para nos atrapalhar, além de nos matar. Fora isso, os manipuladores tinham que levar o corpo dela dali para que a família dele pudesse enterrá-la decentemente em casa.

O sangue dela ainda estava roçando em minhas narinas e eu senti vontade de vomitar, mas não o fiz porque outra pessoa me veio à mente com aquilo.

Eu estava tão atordoada pela notícia do desafio e por Wally ter me atrapalhado no fluxo do meu raciocínio que eu nem consegui ler o que estava escrito de improviso no rodapé do papel: “Roy está vivo. – Dinah.

Roy. Senti mil borboletas no meu estomago e senti meu coração inflar de calor. Então Roy estava vivo, pelo menos isso. O bem-estar dele é outra questão, mas ele estava vivo, e eu não pude deixar as lágrimas de alívio rolar silenciosas pela minha face.

As controlei mais que imediatamente com outra vontade de viver, com uma vontade de continuar – afinal de contas, eu ainda tinha que encontrar Roy nesses Jogos ou eu não me chamo Artemis Crock.

Definitivamente não estarei em paz se morrer antes de encontrar com aquele topetudo mala sem alça.

.

Quando o sol estava em seu pico, nós já estávamos há uns bons quilômetros da onde foi nosso acampamento, tomando cuidado por onde passávamos e evitando campinas abertas, por ser motivo óbvio de ficarmos sem cobertura ou proteção. E nós ainda tínhamos o problema de ter os aliados de Klarion na nossa cola o que não era nada bom pra gente.

Richard ainda não estava bem, nenhum de nós. Ele se arrastava entre Zatanna, que conjurava alguns feitiços que apagava nossos rastros num volume minúsculo sendo silenciado pelo vento nas folhas das árvores e alguns animais dando, e eu. Wally ia à frente, carregando algumas coisas e dando um pico até onde ele achava seguro ir, dava uma olhada, voltava e relatava onde devíamos ir ou não enquanto Kaldur vinha atrás de Megan ajudando Conner a carregar as coisas mais pesadas. A marciana ficou andando, apesar de saber que flutuar era a coisa mais comum para ela e ela se cansava mais assim.

Como havia chovido muito durante a madrugada, o chão continuava escorregadio e praticamente inundado, mas o sol estava encoberto e a temperatura amena. Não estávamos morrendo por enquanto, não por fora, pelo menos.

Apesar de nossa caminhada ter levado a tarde inteira e nós não termos parado para caçar ou para almoçar, pois Kaldur havia tomado a brilhante idéia de que quando montássemos acampamento teríamos tudo o que precisássemos e poderíamos dormir uma noite mais sossegada do que a anterior, não tivemos grandes emoções. Só aquela remanescente dor de Babs.

Antes que deixássemos o acampamento de vez, apesar de uma cena horrível de se ver, nos juntamos em torno do cadáver de Barbara, vendo o sangue seco e a pedra estável na árvore. Wally fora buscar algumas flores e Megan tirou seu tempo para chorar, pois ela não sabia o que tinha acontecido até que acordou no nascer do sol. O Cabeça de Cenoura distribuiu as flores para todos nós e esperou que Kaldur começasse a dizer alguma coisa para que o silêncio não fosse muito mais insuportável do que estava, além disso, Dick não iria suportar aquilo por muito tempo – diga-se de passagem, eu também não iria.

-Acho que dizer que não passamos a nossa vida inteira juntos não é lá uma coisa original como Barbara gostava o que não deixa de ser um fato. – Kaldur deu início ao discurso - Entretanto, depois que se chega aqui, aonde chegamos, onde estamos, é fato alegar que viver uma semana aqui é como viver uma vida inteira. Nascemos de novo tantas vezes, sendo salvos uns pelos outros, que dizer que não a conhecemos suficientemente é um absurdo.ele não tirou os olhos da pedra nenhum instante e eu não tirei os olhos dele, mas pude ouvir o choro de Megan ficar mais alto e o de Zatanna tambémPodemos não ter conhecido a Barbara Gordon da Zona Nove, como era a vida dela anteriormente a esses Jogos, mas conhecemos a verdadeira Barbara Gordon, a tributo da Zona Nove, que lutou com astucia e honra todos os dias por uma vida, um futuro que ela acreditava valer a pena.nesse momento, eu tentei engolir o choro. Ele deu alguns passos a frente e tocou levemente a pedra, sorrindo de canto e aliviando o duro olha de tristeza em seus olhos prateados – Nos veremos novamente, minha amiga. Faça seu caminho em paz.

Ele largou a flor em cima da pedra e recuou, cruzando as mãos nas costas. Em seguida foi Zatanna quem largou a margarida amarela, com olhos inchados e nariz vermelho, os cabelos negros soltos e voando em sua cara. Ela era bem pequena, mas conseguiu colocar a flor apoiando-se na ponta dos pés. Ela murmurou alguma coisa e agradeceu por Barbara tê-la ajudado nesse meio tempo que ficaram juntas; em seguida Megan largou a flor receosamente, largando uma mão pesada sobre a pedra como se não quisesse sair dali. Conner aproximou-se da marciana e tocou seu ombro, despertando-a e fazendo-a olhá-lo assustada, mesmo que as sobrancelhas do grandalhão musculoso nunca estiveram tão relaxadas. Ele largou a flor dele ao lado da de Megan e sinalizou com a cabeça para que os dois recuassem, porém a mão dele continuou sobre o ombro da ruiva pelo resto do funeral.

Wally perguntou se eu queria ir à frente, mas eu acenei com a cabeça, não estando pronta para me despedir ainda. Apesar de ele parecer meio aborrecido comigo, ele simplesmente assentiu e foi largar a sua flor, acariciando a pedra e tentando olhar para o resto de Barbara.

-Você ta melhor que nós, morceguinho. – apesar do sorriso amargurado no rosto dele, era bem claro que ele também estava tão ruim quanto eu. Ele tinha ficado mais tempo com ela.

Eu fui em seguida, pois Dick ainda não tinha se movido de seu lugar desde o começo das despedidas. Cada passo me lembrava do funeral de Jade e isso não era bom, pois aquilo não podia nem ser comparado. Entretanto, estando onde eu estava, não havia pensamentos concretos sobre nada. Tudo se misturava em minha cabeça e eu pensei estar ficando louca por uma fração de tempo – se não fosse pela mão de Wally nas minhas costas, me incentivando a fazer algo, eu teria continuado apenas encarando aquela cena horrenda.

O que eu ia dizer para ela? O que?! “Obrigada por salvar, mas agora você está morta e eu estou pirando”?! Eu não sabia, eu não sei, não vou nunca saber o que dizer numa situação dessas. Eu não era assim tão próxima dela. A única coisa que ela tinha feito por mim foi salvar a minha vida e me dar uma proteção que eu seria grata até meu último suspiro, pois eu não sou nada sem um arco e flecha. Mas Babs era mais do que isso, ela era muito mais do que apenas uma pessoa com um coração aberto nos Jogos Justos!

-Não tem por onde começar a lista de agradecimentos que eu tenho a te prestar, Barbara. – eu falei, um pouco seca, tentando controlar a rouquidão nascendo na minha garganta – Eu podia começar pelo apelido, mas aí eu não me lembro como eu consegui ele. – eu me lembrava sim, mas um favor para todos nós era procurar ser breve por mais que fosse excessivamente emocionante – Babs, onde quer que esteja, espero que esteja bem. Vamos nos encontrar em breve. – e engoli em seco, dando alguns passos para trás e sendo trazida por Wally.

Dick respirou fundo, o nariz rubro e os olhos inchados que não cessavam uma lágrima sequer, o azul completamente destacado em sua cara deprimida. Luto era pouco para descrever o estado de Richard Grayson, Robin, naquele momento. Eu senti uma tristeza me tomando por vê-lo daquela forma, mas me contive pois não ia dar pra só continuar chorando naquele jogo.

Quando se joga os Jogos Justos ou você ganha ou você morre; não existe meio termo. Todos sabem disso desde criança. Robin sabia disso também, mas ele não mostrava nem ao menos ter esperado ver sua amiga falecer – quem sabe ele esperava do fundo do coração que houvesse uma chance para ambos...

Quem sabe?

-Barbara nunca me deixava escapar com nada. – Robin começou, seus olhos fixos na pedra a nossa frente, seus ombros tremendo e os lábios numa linha fina. Ele nem tentava esconder seu estado emocional. Não o culpo – Não havia um único momento que eu chegava a dizer alguma coisa ridiculamente óbvia e ela me respondia com sua mente dez anos luz mais rápida que a minha. – tinha um orgulho na voz dele – E ela sabia as circunstancias quando viemos pra cá. – o tom sombrio voltou – Só que ela devia ter me esperado ir primeiro... – ele abaixou a cabeça, respirando fundo em um soluço que ninguém esperava em seu discurso – Eu não vou dizer que se eu pudesse, eu mudaria de lugar com ela, porque ela está bem melhor agora... – e aquelas palavras doíam em todos nós, muito mesmo – Sua morte não será em vão! – não será, Robin! Não mesmo. Não permitirei.

O resto eu não me recordo muito bem, pois ele se ajoelhou em frente a pedra e encostou-se nela com cuidado, chorando um pouco e dizendo algumas coisas ininteligíveis para nós – com a exceção de Conner que fez uma cara de frustração depois de ouvir as palavras do aliado.

Quem sabe um dia ele não chegue a contar para nós, né?

E então partimos, deixando o local para que os manipuladores pudessem levá-la para sua família, finalmente.

.

Nós chegamos numa pequena lagoa quando o sol se punha no oeste, as nuvens se dispersando para que logo os anúncios das mortes da noite passada fossem esclarecidas – pelo menos eu não tinha mais que me preocupar em ver o rosto de Roy naquela noite.

Dessa vez o acampamento não foi lá tão bem estruturada como o outro, Kaldur lamentou e bufou algumas vezes ordenando a todos nós que buscássemos uma ordem para estabelecer cada coisa em seu lugar, porém cada um tinha suas prioridades e todos estavam muito cansados da caminhada.

-Meus amigos... – Kaldur disse depois de quebrar a cabeça, parando ao meu lado com uma cara extremamente cansada – Só puxem os sacos de dormir e peguem a comida enlatada. Vamos acender uma fogueira e veremos o que faremos amanhã, combinado? – todos agradeceram e o líder largou as coisas que carregava atrás dele.

Aliás, todos nós apenas nos jogamos no chão em círculo e Zatanna conjurou uma fogueira no nosso meio, na temperatura certa e com a luminosidade certa para não chamarmos muito a atenção já que não estávamos lá num lugar muito escondido.

A lagoa atrás de nós e metade do grupo foi até ela, tomar água e levar o rosto – estávamos todos muito cansados para tomarmos turnos até que todos tivessem tomado banho. Eu, Kaldur, Zatanna e Megan fomos os primeiros e eu coloquei minha cabeça dentro da água por motivos, tirando aquele sebo do meu cabelo, pensando claramente em cortá-lo.

-Vai se matar assim. – eu escutei com a cabeça sobre a água e quando virei para o lado, meus olhos arregalados e assustados, eu vi o prateado dos olhos de Kaldur e um sorriso humilde em seus lábios.

Desnecessário dizer que me engasguei.

-Eu falei. – ele me segurou antes que eu me derrubasse na água.

-O que foi?! – Megan já tinha flutuado ao meu lado, extremamente preocupada quase começando a me levitar.

-Tem que tomar cuidado, Artemis. Vai acabar matando a gente de susto. – Zatanna se manifestou depois que eu já estava erguida, com meu cabelo loiro todo jogado na minha clara, sua voz doce e cansada, um pouco menos triste, era música para meus ouvidos, apesar da minha situação atual.

Eu ainda estava expelindo água doce pelo nariz.

-Como fez aquilo?! – gritei para Kaldur, apontando para a água com meu cabelo no nosso meio.

-Eu sou descendente de Atlântida. – deu de ombros, molhando um pouco mais seu corpo na beira da lagoa. As meninas já tinham se afastado um pouco e eu sentia a minha calça molhada até os joelhos – Mas essa água doce não é lá muito boa pra mim.

Eu estava pensando em alguma resposta do tipo: “Não dê de ombros como ser um descendente de Atlântida fosse à coisa mais comum no mundo!”, mas pra ele era e isso seria quase um insulto para o formal Kaldur, meio-peixe.

Porém, eu fiz uma piadinha sem querer.

-É melhor do que a água com cloro da piscina do treinamento. – apesar daquilo, Kaldur riu sinceramente e eu me permiti sorrir, pois eu nunca tinha ouvido uma gargalhada saindo do cara mais sério, depois de Conner, nessa edição dos Jogos.

Ele me olhou com um sorriso ainda nas bochechas de covinhas, fazendo suas tatuagens brilharem então e fazendo a água de meu cabelo movê-lo da nossa frente, e penteando-o. Eu levei outro susto, mas deixei que ele me ajeitasse – eu devia estar deplorável.

Então ele puxou tudo pra trás e prendeu com um rabo de cavalo no topo da minha cabeça, puxando toda a água e deixando-o seco e limpo pela primeira vez em um bom tempo.

-Assim fica melhor, não é mesmo? – e eu sorri agradecida.

-Muito obrigada! – eu pedi, pisando na areia da lagoa, vendo Wally sinalizando para que eu voltasse e eles pudessem vir – Não sabe o quanto isso foi bom pra mim.

-Sem problemas. Perdoe-me se eu te insultei. – eu neguei com a cabeça com uma expressão como se ele estivesse dizendo a coisa mais absurda do mundo – É que esse seu cabelo me lembra da minha mãe. – e eu sorri meio surpresa com aquela colocação.

-Sério? – ele assentiu e eu deitei a cabeça de lado, cruzando os braços por causa do vento e ignorando um Wally reclamão atrás de mim – Sua mãe também tem cabelos cumpridos?

-Sim, e loiros, só que os dela são bem cacheados. – ele ressaltou sentando-se na água e relaxando. Ele parecia melancólico – Eu costumava ajudá-la a fazer os cachos quando eu era pequeno, só para passar mais tempo com ela. Era muito divertido. – ele admitiu, um fantasma de um passado bom no rosto dele.

-Minha mãe nunca teve um cabelão cumprido pra eu ficar horas penteando. – eu admiti, lembrando-me e senti o olhar de Kaldur no meu rosto. Eu estava olhando para cima, esperando o céu ficar todo escuro para que os anúncios das baixas fossem passando – A temperatura da nossa zona meio que repele esse negócio de cabelos cumpridos...

-Mas seus cabelos são muito longos. – Kaldur disse naquele tom de voz de porque raios você é tão diferente.

-É que eu sou rebelde. – eu o olhei e pisquei um de meus olhos. Ele riu e parou de brilhar suas tatuagens, esfregando um pouco de água em suas mãos e em sua nuca.

-Eu nem tinha notado. – eu ri com aquilo.

-Será que vocês dois querem parar de tititi egoísta aí e deixar os outros pobres e cansados aliados beberem água?! – eu e Kaldur nos viramos para ver um Wally bem irritado.

-Certamente. – Kaldur se ergueu e se secou com seu poder, eu comecei a andar de volta para o acampamento.

-Já que você pediu com tamanha educação. – murmurei revoltada, passando por Wally sem olhá-lo no rosto.

-Falou então, Deusa da Simpatia. – e eu fechei o rosto depois de ouvir sua voz seca com relação a mim.

Qual é a desse bipolar?! O que ele ganha me tratando mal?!

Dick se levantou para ir tomar água, mas ele não parecia querer se mexer muito de seu saco de dormir. Todos nós estávamos exaustos.

Quando nos reunimos para jantar, Conner sugeriu que ele ficasse de vigia durante algumas horas, mas eu notei o quão ele estava desgastado de empacotar e carregar as coisas – até os super-humanos tinham que descansar de vez em quando, né?

Fiquei com dó e falei que eu ia ficar de olho.

-Tem certeza, Artemis? – Kaldur perguntou preocupado, sentado ao meu lado e ao lado de Dick, ele segurava uma latinha de algum vegetal enlatado e uma colher dentro dela. Seu saco de dormir sobre ele como todos os outros – Você não dormiu desde a madrugada de ontem.

-É. Melhor você dormir. Eu posso ficar acordado mais algumas horas. – Conner respondeu meio grosso, mas eu tentei não me irritar com aquilo.

-Você ficou acordado a noite inteira também, sem falar que lutou pesado durante a madrugada, empacotou e carregou todo nosso acampamento até agora. – disse todos os motivos para, no mínimo, não deixá-lo de vigia – Não estou duvidando da sua capacidade, mas vai acabar tendo um colapso por mais poderoso que você seja, Conner.

-Artemis está certa, Conner. – Megan estava ao lado dele, colocando uma mão verde no ombro dele com um sorriso triste e exausto na face – Você deveria descansar.

-Se estão com medo de que eu vá me distrair de novo e outro ataque aconteça... – ele dizia aquilo de forma rude, porém ofendida.

Wally não o deixou terminar seu argumento.

-Não foi culpa sua, Conner. – sua voz sempre feliz respondeu o musculoso com um tom mortalmente sério, o brilho das maçãs verde não vacilaram em demonstrar seus sentimentos – Não foi culpa de ninguém aqui. – e os olhos do ruivo sardento foram na direção de Robin que se encolhia quieto, sem olhar para qualquer um de nós.

Ele mal tinha tocado na janta.

-Wally está com a razão. – Kaldur pesou o comentário do ruivo e encarou cada um de nós seriamente – Todos nós fomos surpreendidos ontem e foi uma fatalidade.

E veio a minha mente a voz do Gladiador Dourado, narrador dos Jogos, dizendo para todos os telespectadores que o que havia acontecido com a minha irmã fora a pior das fatalidades.

Eu me encolhi e neguei com a cabeça, tentando afastar a imagem. Eu me abstive daquela conversa por algum tempo, então, pois não saía mais da minha cabeça a cena, os momentos anteriores e os momentos posteriores – e o rosto de Roy quando apareceu no enterro de Jade.

-As baixas. – Zatanna interrompeu a discussão entre Kaldur, Conner e Wally apontando com seu dedo branco e magro para o céu escuro sobre nós, somente com as estrelas e a imagem enorme holográfica bem ao norte de onde estávamos.

Meu coração palpitou em meu peito mesmo sabendo que Roy estava vivo, mas só de saber que eu fui a causa de um daqueles canhões explodirem me dava enjôo e eu larguei a lata de comida bem longe do meu saco de dormir.

E em ordem crescente de zonas, a primeira imagem que apareceu foi de Jinx, com seus cabelos curtos e arrepiados nas pontas de cor de rosa, a pele cálida e os olhos do mesmo tom do cabelo com o rosto indiferente que usava até mesmo arrogante se pensar. E eu lembrei a flecha atravessando o pescoço dela...

Senti os olhos de Zatanna em mim quando eu olhei para baixo engolindo qualquer coisa rebuliço que causava no meu organismo – ainda bem que eu consegui empurrá-lo para baixo, respirando fundo pelo nariz.

Então, a Zona Nove mostrou a garota linda de cabelos vermelhos e orbes anis, com um sorriso maroto de tirar o fôlego de qualquer um e mostrando aquele ar de malandragem muito parecido com o de Robin – que não a olhava nesse instante, focado demais com as faíscas dançando entorno da fogueira para não chorar como faziam os outros aliados dele.

Eu balancei a minha cabeça e prometi para mim mesma que a próxima vez que eu só voltaria a chorar pela Barbara quando eu tivesse vingado a morte dela. Então, engoli o choro e voltei a ver o seu rosto sibilando no céu até mostrar a próxima zona.

E aí quem balançou a cabeça desacreditado foi Wally, com os olhos de maçã verde quase saltando das orbitas e choque em sua face sardenta lendo o número de sua zona e, em seguida, aparecendo a imagem da garota que veio com ele – loira de olhos claros e face séria, o inverso de Wally se possível, mas ela também tinha a mesma velocidade dele.

-Jesse... – Wally murmurou mordendo o lábio inferior e eu senti o meu coração palpitar com aquilo. Kaldur se esticou até o ruivo e tentou tocar seu joelho, em conforto e seus olhos muito tristes, como de todos nós, porém o Kid Idiota se levantou, empurrando a afeição de Kaldur.

Ele contorceu a face e deu de costas para nós, cambaleando em direção ao lago enquanto o anúncio das baixas estavam passando e o líder suspirou sabendo como lidar com a situação.

Eu estava indignada então eu olhei para as costas tremendo do velocista se ajoelhando no lago, soluçando solitário, chocada pela forma com que ele tinha tratado o querido moreno de coração mole. Então meus olhos vagaram para o resto das faces das pessoas que estavam aqui comigo – e eu senti um nó na minha garganta se forma com tanta infelicidade descrita na face desses seres.

Kaldur pela primeira vez não me olhava nos olhos, juntando os dedos sobre seu colo e viajando em seus pensamentos tranqüilos, sem Tula; Dick parou de ver as faíscas e voltou-se para as costas de Wally, arrependimento em sua face ao mesmo tempo em que melancolia voltava e o fazia deitar-se em seu saco de dormi, sem Barbara; Zatanna fungou um pouco solitária e agarrou seus joelhos, sem saber como é se sentir assim já que seu parceiro de Zona havia tentado matá-la tantas vezes; Megan cobria a face com as mãos verdes tremendo, as pernas juntas ao lado de seu corpo sentado e curvado, sem Gar; e Conner passou a mão pelo cabelo, olhando ao longe com sua aparência escultural, irritada e confusa, triste, procurando por alguma pessoa. Algum tempo depois ele deixou de procurar e apoiou os cotovelos nos joelhos, mirando o chão no meio de suas pernas e respirando fundo, sem a garota poderosa da zona dele.

Eu não tinha Roy também, mas ele estava vivo e eu sabia disso muito bem – aí Jade veio à tona em minha mente e eu praticamente a chutei de volta para a escuridão de meus pensamentos, não querendo me desfazer em lágrimas salgadas como anteriormente naquela caverna com o Kid Estúpido.

Falando nele, o Cabeça de Cenoura começou a gritar e jogar água em tudo, grunhindo e esperneando para um Deus cruel que não tem piedade de crianças como nós – de gente como a gente, presa nessa jaula onde a única saída é a sobrevivência do mais apto.

Eu neguei com a cabeça, incomodada com os gritos do ruivo, lembrando-me de quando Jade havia morrido e o meu pai arrebentou a mão na parede de tijolos mofados, quase levando a casa abaixo – minha mãe deve que atropelá-lo com sua cadeira de rodas ou ele acabaria sendo preso pelo barulho.

Eu apenas chorava em frente a televisão, com olhos arregalados e boca aberta, sem saber o que fazer pelo resto da minha vida sem a minha irmã.

Eu nem prestei atenção a um Kaldur hesitante quando eu me soltei do meu saco de dormir e marchei até a beira da água, sabendo que todos estavam me mandando voltar e quase senti Megan me parando com seu poder da mente. Entretanto, eu estava cega por alguma coisa que eu não sabia o que me pertencia até chegar no moleque choroso, encharcado, destruindo as plantas e sentando-se na água numa posição muito similar da de Conner.

Eu só não sabia o que dizer na hora que parei ao seu lado e fui avistada por aqueles penosos orbes verdes, me entristecendo sobre a luz das estrelas.

-O que?! – ele praticamente berrou para mim e eu senti uma veia na minha cabeça latejar.

-Não vai adiantar nada você ficar esperneando e...

-Eu estou em LUTO, Artemis! Será que é tão difícil entender?! – eu podia ver seus lábios tremendo e eu sei o quanto eu lutava pra não dar um nó em sua garganta.

Só que eu não sabia o que fazer.

-Jesse morreu! – e a boca dele se contorceu de novo, fazendo-o voltar seu rosto para baixo e sua voz amolecer – A Barbara morreu! O Gar morreu!

-Todos vão morrer Wally! – CALA A BOCA, SUA ESTÚPIDA! Eu gritei pra mim mesma, mas não conseguia sair dali. Eu não podia ficar sentada, assistindo o garoto que iluminava uma cidade inteira com o sorriso desolado dessa maneira.

Eu não podia, ta?! Eu não sei por quê!

-EU SEI! – e num piscar ele estava de pé, perto de mim, com a face centímetros da minha e me empurrando para trás com o seu encarar perturbador e mareado em lágrimas, eu dava uma passo para trás e ele dava um pra frente. Suas palavras cuspiam raiva e sua boca expressava-a bem – EU SEI QUE TODOS VÃO MORRER! EU ESTOU VENDO ISSO! – e outra lágrima escorreu, se misturando com o rosto encharcado – SÓ QUE NÃO ERA REAL ATÉ AGORA! – e ele parou de andar para cima de mim com seu ameaçador calor, apertando os punhos e voltando a cabeça para baixo, fechando os olhos com força. A voz tremula e engasgada fez uma lágrima escapar do meu controle – Eu não estava vivendo isso daqui até... – e veio um soluço, ele apertou o próprio pescoço como se fosse adiantar alguma coisa – Até agora! – e sua voz saiu num grunhido, rouca e se arrastando, dolorida – Eu não quero ser forte agora, Artemis! – ele murmurou e meu coração pulou no meu peito, minhas sobrancelhas se juntando em vergonha e luto – E eu também não quero... – aí os olhos dele vieram a minha face para me quebrar – Falar com você...

-Por quê?! – eu não pude impedir minha língua nervosa mais uma vez e a feição de inconformado que Wally me respondeu foi de deixar qualquer pessoa na merda – Por que não falar?! Onde isso vai te levar gritando e chutando as plantas como se elas tivessem alguma culpa?! – Wally balançou a cabeça e me deu as costas. E, eu sei que eu sou uma idiota, mas eu corri até ele e o fiz me olhar nos olhos – Você sabe bem quem fez isso com a Jesse!

-E isso não muda nada! – ele me rebateu com entre um grunhido e um assobio, se aproximando de mim com desdém escrito em suas atitudes – Não muda nada, Artemis! Não se engane com a idéia estúpida de vocês em vingar a morte da Barbara! – e agora tinha um dedo bronzeado na ponta do meu nariz, na intenção de me empurrar para trás. Porém eu travei meus pés no chão e deixei apenas que Wally se mexesse como quisesse, quase juntando sua testa a minha enquanto ofendia o único principio que manteria todos sãos naquele grupo. Senti minhas sobrancelhas fincarem no ato – Não vai tornar a morte dela menos em vão ou de qualquer outro pessoa aqui! Muito menos a morte de Jess!

-Se ela era tão importante assim para você, então, por que não correu atrás dela quando teve a chance?! – Espera aí! Que tom ciumento é esse, sua louca?! Para com isso já! Mas por que eu não escutava a minha mente antes de desenrolar a minha língua?! – Por que não se juntou a ela no Banho de Sangue?!

E aí ele parou de vir pra cima de mim, continuando bem perto, com as mesmas lágrimas salgadas se misturando a água doce que pingava de seu corpo cansado. Eu podia ver as olheiras sobre a pele avermelhada de seus olhos deprimidos, um pouco chocados e incompreendidos. Ele recuou a mão e seus ombros caíram pesados, ainda mais altos que os meus.

Os orbes de maçã verde perdendo o brilho jovial pela tristeza e fixos no cinza chumbo que reinava no meu desde ontem à noite, a última vez que eu vi o meu reflexo em algum lugar. Eu senti meu coração disparar de novo e minha mão suar.

Wally lambeu os lábios, engolindo qualquer coisa em seguida respirando tão fundo que eu podia sentir o ar quente vindo dele – como é que ele ainda estava molhado se o corpo dele era praticamente um ferro de passar ambulante?!

-É verdade, Artemis. – e eu franzi o cenho, receosa pelo tom cínico que ele usou – Ela realmente não podia ser tão importante assim pra mim. – e ele encolheu os ombros, num gesto que me deu vê-lo fazendo nessas horas. Uma careta de nojo enquanto ele dava um passo para trás – Jesse nem era tão importante assim pra mim, não é mesmo? – e aí podia ver seus olhos verdes jorrando veneno – Assim como Roy não é importante pra você.

Eu trinquei meu maxilar, arfando as narinas.

-Ta pisando no lugar errado, velocista... – grunhi e ele deu de ombros de novo, gesticulando com a mesma cara de luto de antes.

-Se ele fosse assim tão importante como você diz ser, Artemis, ou como você o trata... – eu ouvi ciúmes dele? Não estou entendo mais nada – Já tinha dado um jeito de encontrá-lo faz tempo!

-Eu estou procurando Roy desde que eu acordei sozinha com aquele desgraçado do Cameron quando você não me resgatou! – rebati, quase enfiando o meu dedo na cara dele e sentindo o olhar da equipe em nossa discussão.

-Não que eu tenha tentado! – ele rebateu do mesmo jeito agressivo que eu.

-Não foi o suficiente!

-É, Artemis! Não foi! Obrigado por lembrar! – ele cuspiu para o lado e eu me foquei na nossa discussão em vez de reclamar da sua falta de modos, mais uma vez.

-Não adianta ficar frustrado depois de não ter feito nada! – agora eu estava sendo apenas má.

-EU NÃO FIZ NADA MESMO!

-EU SEI QUE NÃO!

-EU TINHA ACHADO ALIADOS PARA MIM QUANDO VOCÊ TINHA O FREEZER AMBULANTE E O BRUXINHO COLORIDO PRA TE DAR SUPORTE!

-EU NUNCA TIVE SUPORTE DELES, SEU IDIOTA!

-E COMO EU IA SABER DISSO?! – ta. Eu não sabia como responder isso e me deixou em desvantagem quando ele deu um passo à frente, mais perto me fazendo engolir em seco meu pensamento lento – Me diz, Artemis! Como eu ia saber que você não tinha ficado com o Boneco de Neve depois de ser salva com tanto heroísmo durante o Banho de Sangue?!

-Não que você tenha procurado saber.

-O que?! – e eu dei um passo pra frente, grunhindo, sem saber quais seriam as minhas próximas palavras; Mas quer saber do que mais?

Foda-se! O pau da barraca já foi chutado faz tempo mesmo. Saber o que falar agora não vai mudar nada.

-Eu procurei Megan e Gar desde que nos separamos e eu continuo procurando Roy até agora! – e eu vi o rosto dele perdendo todo aquele ódio, aquela ira de alguns minutos atrás, entendendo bem as minhas palavras. Elas soavam tão... Magoadas. Eram pra elas saírem dessa forma? – Eu procurei saber deles! – apontei para mim, revoltada – Você esqueceu-se de mim depois que Cameron te fez cair.

-Eu não me esqueci de você em minuto algum. – não sei como não engasguei com a resposta dele. O rosto sincero, de olhos profundos e mareados, nariz vermelho e maxilar trincado. Eu podia ver um rubor leve nascendo ou era apenas a cor natural de sua pele... Eu não sabia mais de nada. Eu só sabia que eu estava parcialmente surda pela bateria que meu coração soava, e eu fiquei sem respirar.

Aquilo era tão absurdo. Como que chegamos a esse ponto da conversa que me deixa dessa forma, suando frio e de joelhos tremendo, com o meu rosto queimando e mostrando quão confusa eu estou.

E ele continuou falando.

-Eu não me esqueci de você, Artemis. – era mais surreal a segunda vez – Não sei o que aquele babaca te disse, — e ele deu uma pausa antes de continuar, respirando fundo e tremendo os lábios no movimento – Mas eu não fiquei quieto um minuto depois que ele desapareceu com você. – meu coração estava indo parar na minha boca – Tudo passou na minha cabeça até que Megan surgiu com Gar e falou que vocês tinham se conhecido, que eram aliados. – e minha garganta fechou de vez, meu respirar pesado elevava o meu peito e Wally se aproximava ainda mais, se possível. Eu senti os olhos curiosos em nós, mas não consegui me focar por muito tempo neles, pois meu rosto se ergueu para me prender no olhar deprimido do ruivo – E você sumiu de novo, depois apareceu toda machucada dentro de um buraco! – ele demonstrava dor quando lembrava daquilo – E quase morreu também por minha causa.

Ele escondeu o rosto de mim, dando um passo para trás e depois outro, eu não consegui falar nada nem me mexer. Quando eu vi a cabeça laranja se erguendo, ele estava limpando mais lágrimas teimosas que escorriam seu rosto sardento.

-Eu sou um completo idiota. – e, com isso, ele deu de costas e guardou as mãos nos bolsos do casaco de alguém, indo se perder na mata.

Eu fiquei paralisada por um bom tempo até ouvir Kaldur mandar a Megan disfarçada atrás de Wally enquanto Conner vinha até mim e colocava um casaco de couro nos meus ombros, me trazendo pra fogueira devagar. Eu senti o nó se desfazer da minha garganta e um meio soluço veio junto com a minha pergunta.

-O que vamos fazer? – e Kaldur olhou para mim, tentando me reconfortar.

-Nós vamos esperar.

-Ele vai se perder! – eu disse rangendo os dentes e a mão quente do moreno pegou a minha.

-Não, Artemis. Não vai se perder. – e um fantasma de um sorriso dançou pelo rosto de Kaldur – Wally é explosivo, mas não é sem noção.

-Não faz sentido o que acabou de dizer! – e Kaldur arqueou as sobrancelhas, fazendo uma careta para seu anuncio.

-Eu realmente preciso dormir. – ele murmurou e eu quase ri, apertando a sua mão de volta e fazendo-o sorrir – Ele sabe o que faz, Artemis. Não se preocupe.

-É fácil falar. – e aí ele tinha mais outra expressiva careta.

-Com certeza é mais fácil falar.

.

A noite voou e Wally voltou com a Megan pela manhã, eles tinham patrulhado o acampamento a noite toda, conversando pela conexão telepática da marciana – ela me explicou quando se deitou ao lado de Zatanna para dormir. Conner ainda estava acordado, mas logo se juntou a nós duas para descansar um pouco enquanto Kaldur partilhava algumas informações sobre esse tal Desafio para Wally.

Ele me olhava de vez em quando, eu, por mais exausta, não conseguiria dormir sem saber que tudo estava bem na medida do possível – e, por algum motivo, aquelas encaradas que seus orbes maçã verde me deram um sentimento momentâneo de que as coisas não iriam mudar entre nós por hora.

Até que um aviso dos manipuladores acordou a todos os tributos na Arena, com a voz mecânica anunciando uma oportunidade de vingança.

-Em dois dias, a Arena entrará em Estado de Desafio e todos os tributos são convidados a participar. – Kaldur olhou para mim, acenando com a cabeça e eu respondi no mesmo ritmo – O objetivo é chegar vivo a Campina do Falcão, com ou sem aliados. A recompensa será grandiosa e lhes será servido um banquete em conjunto com ajuda médica e abrigo para a noite. Uma noite apenas de trégua Oficial na Campina e aquele que romper a trégua será punido severamente. A Campina do Falcão aceitará os tributos até o pôr-do-sol, somente. – e repetiu o anúncio inteiro assim que todos nós já estávamos de pé, num circulo, até mesmo Dick, encarando um ao outro.

-E agora? – o moreno baixinho perguntou menos deprimido do que antes e muito mais nervoso.

Kaldur olhou entre todos nós, respirando fundo e claramente com medo como todos nós.

-Nós podemos ir para o Desafiou ou podemos ficar por aqui.

Apesar dos entreolhares, no momento em que eu voltei a olhar Kaldur e ele tinha chegado à cara de todos da nossa equipe, o líder já tinha a sua resposta.

-Larguem tudo o que puderem. – Kaldur comandou, massageando o pescoço cansado – Nós estaremos lá antes do pôr-do-sol em dois dias.

Sua convicção alcançou aos telespectadores da Capital e os de nossas casas também. Afinal de contas, não viemos aqui para brincar.

Notas finais
Só me deem o review de vocês porque eu preciso de incentivo, seus lindos! ♥
Amo vocês! Obrigada por serem perfeitos e até o Mais!
Beijinhos! ♥