Jogos Justos

12 XI - Família


Notas iniciais
Só digo uma coisa: preparem-se para cenas fortes em todos os sentidos.
Boa leitura! :/

Fazia tempo que eu não tinha dormido com tamanha paz. Sim. Sentindo-me em paz como se nada de ruim nunca tivesse acontecido e eu tinha voltado a ser uma criança antes de Jade ter ido aos Jogos, quando eu, ela e Roy corríamos do meu pai para não levarmos uma bronca – tirando o fato que a fuga era por medo da surra – e a minha mãe assava doces vietnamitas quando ela achava os ingredientes no mercado e trocava por algumas latas de carne seca somente para nós; Quando acendíamos velas no meu quarto a noite e fazíamos sombras de animais nas paredes, conversávamos até meu pai entrar brigando com a gente e líamos Alice no País das Maravilhas várias e várias vezes até cairmos de sono.

Quando eu era feliz e dormir me trazia sonhos, não pesadelos.

Quando eu despertei, estava sozinha na cabana e a escuridão do lado de fora da tenda só não era completa pela luz que tremeluzia no pano bege pertencente a fogueira que os aliados tinham construído. Um silêncio abominável se não pelo uivar dos ventos e o farfalhar das folhas umas nas outras. Sentei-me no tronco forrado com o saco de dormir e esfreguei meus olhos, bocejando e espreguiçando-me. Passei minhas mãos nos meus cabelos, na esperança de arrumá-las e tirar aquele emaranhando de muitos dias – se não semanas – que o impregnavam. Choquei-me quando finalmente os senti soltos, limpos e penteados sobre os meus ombros.

Megan e era obvio que fora ela quem me escovara. Ela deve ter me dado um banho também, do jeito que ela é cuidadosa e carinhosa. Não creio que Babs me trataria feito um bebê se não houvesse plena necessidade, mas ela deve ter vindo aqui chegar minhas feridas por ela ser curiosa do jeito dela.

Eu tinha deixado as minhas mochilas no buraco com a quimera – quer dizer, o Wally deixou. Então já era o meu saco de dormir e o meu cantil, as cordas e a minha faca. Eu era oficialmente a inútil, pelo menos até eu ter tempo de reinvidicar uma arma só minha. Mas Kaldur não me presentearia algo assim tão rapidamente, não sem uma prova completa de quem eu sou pra ele.

Sim, eu salvei a vida dele, ajudei a Megan e falei a verdade sobre Wally, mas não muda o fato de estarmos num Jogo que, por mais que eles sejam um time nesse instante, terão que se matar sem tempo num futuro que bate a porta. Eu posso querer matá-los nesse mesmo instante, eu posso mudar de idéia num piscar de olhos e acredito que ele me compare muito com a minha irmã – Jade não teve nunca nenhum aliado e quando eles tentavam se aliar a ela, ela rasgava suas gargantas.

Além disso, não o culpo. Faria o mesmo se estivesse no lugar dele, depois de tudo o que passou com Tula e depois de tudo o que passou contra Klarion – não que eu tenha assistido a toda a luta dele contra o menino-bruxo, mas o pouco foi o bastante para explicar que todo o ensinamento que teve não fora de nada.

Resolvi que queria esticar as pernas e comer alguma coisa, pois meu estomago já estava dando um nó depois de tanto tempo se me alimentar. Sabe lá Deus se eu conseguiria chegar até o meio da tenda ou se eu cairia de fraqueza antes. Calcei as botas que estavam ao lado da cama e estendi a minha mão para pegar o meu prendedor de cabelo no tronco cortado onde Kaldur se sentara para costurar minhas feridas – falando nelas, eu também as chequei. Eu não estava mais sentindo tanta dor assim, mas estava claro que os pontos continuavam lá.

Fiz um coque bagunçado e me ergui, sentindo a gravidade me puxar, mas fui teimosa e me mantive em pé. A visão meio turva e as mãos procurando apoio ou equilíbrio, mas meu orgulho era maior que aquilo. Eu tinha que chegar até a entrada da cabana, pelo menos.

Assim que passei pelo pano a primeira coisa que vi foi o garoto da Zona Doze... Quero dizer, Conner, parado em frente a minha barraca, sua face escura e o brilho da camiseta preta remendada dele em seus ombros e em suas costas, vindas da fonte quente. Seus braços cruzados e as sobrancelhas fincadas, com os olhos azuis gélidos estreitados, fazendo aquela careta que faria um mosquito enfartar.

-Por que não está deitada? – ele me intimou e eu ergui as mãos, me rendendo.

-Eu vim em paz. – o avisei antes que ele me batesse logo ali. Se possível ele estreitou ainda mais os olhos – Eu sei que não sou hospede de vocês e vocês já fizeram muito por mim, mas será que não teria alguma coisa pra comer? – ele arqueou uma das sobrancelhas e soltou os braços, me fazendo soltar os meus também.

Eu vi os orbes revirando-se e sua expressão se tornando aquela de uma pessoa irritada, mas domada – será que me compreendem? Ele se virou de costas e sinalizou para que eu o seguisse.

Obviamente, eu obedeci, sem contrariar o cara mais forte, mais bonito, porém mais medonho de toda essa edição dos Jogos. Ele apontou para um tronco deitado em frente à fogueira e me mandou sentar ali, esperando por ele. Aproveitei para esquentar as minhas mãos. Ele seguiu para um canto da raiz da árvore, onde também havia uma barraquinha. No caminho que ele fazia, olhava para os lados, de vigia – eu nem perguntei, pois era claro que aquele era o turno dele. Não havia mais ninguém a vista. Somente mais outras duas barrancas. Creio eu que as meninas dormiam juntas e os outros dois meninos dividiam as outras duas barracas – a que eu estava também devia ter alguma utilidade, mas como eu era a intrusa, ninguém deveria querer dormir comigo.

Ouvi os passos do rabugento na minha direção e ergui o rosto pra encontrar Conner com comida enlatada e um cantil cheio d’água. A primeira coisa que eu fiz foi me entupir de água. Conner sentou do outro lado da fogueira, olhando pra minha cara e me estudando. Já a lata de comida eu tive que estender pra ele abrir pra mim, pois eu não tinha nenhum abridor.

Nem sei por que fiquei espantada quando ele mordeu o canto da lata e a outra ponta levantou que como se estivesse mexendo em um interruptor. Ele puxou com o dedo a tampa da lata e arrancou o metal, amassando-o que nem papel na mão. Depois me olhou, me passando a lata, eu agradecendo.

-Melhor comer tudo, porque não dá pra guardar depois. – ó, caro Conner. Minha fome não é de deixar restos, pode acreditar.

Eu fiquei meio constrangida por Conner ficar me encarando enquanto eu comia, mas logo perdi o pudor metendo a mão dentro da lata e colocando a comida sem gosto na boca. Sinceramente, eu só senti a satisfação de comer e aquilo estava bom demais. Não esperava nenhum Buffet a moda Capital naquele inferno – se bem que Cameron e Klarion deveriam jantar a luz de velas com direito a caviar e champanhe.

No final, só me faltava lamber a lata e ainda me doeu quando Conner arrancou o objeto da minha mão e jogou na fogueira.

-Vai se cortar. – ele me alertou e eu cruzei os braços, o cantil de água vazio ao meu lado.

Por mais que Conner estivesse de vigia ele não tirava os olhos dele de mim e isso é muito desconfortável. Tente ficar sozinha com uma pessoa que não para de te olhar nem se você a encara. Pois é, Conner não tem problemas nenhum em ser encarado de volta e ele também não tem problemas em ficarem horas sem piscar aqueles olhos claros dele.

-Não que eu vá fazer qualquer coisa que faça você me matar, mas você não devia ficar de vigia ao redor do acampamento também? – eu não consigo deixar minha língua parada.

Ela coça!

-Eu estou. Só não preciso olhar pra vigiar. – eu o olhei confusa e ele entendeu, portanto nem esperou que eu perguntasse – Meus sentidos são bem demarcados. Eu escuto bem, eu enxergo bem, eu sinto bem.

-Você ta bem. Entendi. – o parei antes que ele começasse a citar tudo nele.

Sinto que o deixei ofendido, mas não vou ficar de tralalá com ele. Não agora depois de perder Gar. Era ruim demais ter que dar de cara com a Megan e pensar em perdê-la, além de Roy claro. Não quero me apegar a mais ninguém, não quero.

Eu simplesmente não posso.

-Você tem tomado conta de Megan? – eu perguntei como se não tivéssemos nenhum outro assunto.

Conner ficou surpreso com a minha pergunta, mas ele não é bem o homem de respostas complexas e dinâmicas. Ele é mais para aquelas que são monossilábicas e somente fez que sim.

-Ta certo. – murmurei pra mim mesma.

-Eu vou te amarrar agora. – ele falou na maior calma que eu levei um tempo bem longo pra engolir.

-Como é que é? – franzi o cenho e ele bufou.

-Eu vou te amarrar. – repetiu, curto e grosso, se levantando com toda aquela massa muscular e surgindo com uma corda detrás de seu tronco. Eu tentei fazer alguma coisa, mas ele já tinha chegado – É melhor pra você nem pensar em fugir. Sinceramente... – ele reclamou e me puxou pelo braço, com força e sem se importar se estava me machucando ou não.

Nota: eu adquiri um novo roxo. Ele me sentou de costas pra raiz da árvore e me amarrou, bem rápido. Com um nó bem forte que a corda quase queimou a minha pele. Eu choraminguei e ele pediu desculpas, pois não estava acostumado a dar nós. Eu apenas fechei a cara para aquele grandão babaca.

Imagina só! Prender-me?! Por motivo nenhum?!

-Por quê? – eu questionei e ele me olhou por cima de um ombro protuberante.

-Precaução. Eu tenho que vigiar e você é uma distração. – ele me alertou e eu estreitei meus olhos – Não se preocupe, não vou fazer nada com você. Kaldur apenas pediu pra que você fosse amarrada assim que estivesse bem, então...

-Então você me mimou e depois me esfaqueou pelas costas. – ele se virou pra mim, bem irritado com o que eu tinha dito.

Ótimo. Agora eu tinha mais um inimigo naquela joça.

-Se eu quisesse te esfaquear, já o teria feito, não acha? – perguntou e eu fiquei chocada com a resposta.

Conner é do tipo inteligente, quieto e assustador. Tudo nele te atrai e te repele ao mesmo tempo. Ele é a contradição ambulante! Sabe aqueles bichos de pelúcias enormes que ocupam uma cama de solteiro sozinho, é ele, mas ao mesmo tempo em que são lindos e parecem ser macios de abraçar, te dão o maior cagaço com aqueles olhos grandes e aquele tamanho todo.

Sem falar na força da criança, né, minha gente? Conner quando andava fazia um buraco no chão e eu notei a grama afundada com seu pezinho tamanho 49.

É. Ta fácil pra ninguém.

Agora era hora de esperar Kaldur se manifestar.

Será que Roy havia entrado em contato com eles? Logo Roy, que ansiava pra ser aliado de Kaldur, não estava ali pra relaxar aquela saia justa que eu me encontrava. Se bem que Roy sendo do jeito que é era bem provável que nós acabássemos brigando e ele iria relembrar a todos o fato que Cameron havia me pedido pra ser aliada dele e de Klarion.

Aí sim eu estava ferrada!

Algumas horas se passaram, eu fiquei olhando as faíscas brilharem na noite subindo e vi Conner parado como uma estatua, vigiando. Ele estava de costas pra mim, mas estava ligado em tudo, pois até mesmo quando eu encostei a minha cabeça de leve na parede ele se mexeu bem rápido e de leve – ele notou que era eu por isso nem se manifestou para fazer qualquer coisa que o fosse desviar seu foco.

Eu bocejei e o sono começou a me preencher até que o sol começou a raiar e se manifestar no chão embaixo da árvore enorme. Conner olhou para a direção da luz e resmungou qualquer coisa, voltando-se para mim e me olhando como se esperasse algum comentário meu. Ele se virou de costas novamente, sua roupa toda rasgada, eu vendo a pele branca como neve. Ele não estava sujo, mas aposto que não havia qualquer outra vestimenta para os outros como Megan conseguia para ela – ela me disse que usava seus poderes para se vestir, portanto ela nunca teria problema com isso.

Conner finalmente demonstrou um sinal de fraqueza — ou seria tédio? – e estendeu os braços musculosos enormes para cima, espreguiçando-se e bufando. Alongou-se e foi até uma das barracas, anunciando a todos que eles tinham que levantar.

O primeiro a sair da barraca foi Dick, com seus cabelos negros bagunçados e seus olhos azuis claros sendo machucados pelos raios do sol, a roupa toda amassada e a cara de sono. Ele me viu e encolheu o pescoço entre os ombros, franzindo o rosto, depois arqueando uma sobrancelha como se me perguntasse por que raios eu estava amarrada. Eu respondi com os meus ombros. Ele também deu de ombros e levantou as duas mãos, me mandando esperar, seguiu para o lugar onde Conner tinha ido buscar a comida pra mim durante a noite e começou a lavar o rosto.

Conner saiu da cabana e foi até a cabana do lado, chamando as meninas para que acordassem. Saiu de lá meio vermelho e eu sorri para aquilo. Ele notou e estreitou seus olhos pra mim, me ameaçando por dentro. Eu mostrei meus dentes no meu riso. Ele continuou pra outra barraca e olhou de fora mesmo, fechando bem o pano pra que a luz não entrasse ali – provavelmente a cabana na qual Wally estava.

Mas ele não estava bem? Por que ele não vai levantar?!

Assim que Kaldur saiu da cabana onde Dick estava, fechando o colete vermelho se mangas e fazendo uma cara de que não teve uma noite muito boa, ele deu um sinal para Conner que apenas concordou.

-Obrigado pela vigia. – Kaldur agradeceu quando o aliado cruzou seu caminho.

-Dispunha. – Conner rebateu e tocou de leve o ombro de Kaldur, sendo retribuindo a afeição. Conner me lançou um olhar antes de entrar de vez na cabana – Bom dia.

-Bom dia. – desejei.

Dick tinha uma garrafa de água nas mãos uma fatia de pão na boca, chegando perto da fogueira e chutando uma das madeiras para diminuir o fogo e a fumaça. Ele estava com o tênis preto dele, a calça jeans bem escura bem rasgada e o casaco negro sobre a camiseta vermelha desbotada. Agora que tinha se higienizado parecia menos sonolento, ainda assim olheiras sob seus olhos. Ele sentou-se no tronco de frente pra mim e bebericou de sua água, engolindo duramente o liquido.

-Bom dia. – finalmente e eu retribui, com uma expressão cansada – Noite difícil?

-Não tanto. Até que foi divertido ter Conner como companhia, tirando a parte que ele me amarrou e ficou sentado de costas pra mim até agora. – Dick repuxou um sorriso antes de levantar a garrafa de água.

-Agradeça por ele não ter te arremessado aí assim que acordou. Ele tem um temperamento bem difícil.

-E Wally? Ele está bem? O que houve? – Dick largou a comida no banco e estendeu os braços na minha direção, as mãos espalmadas.

-Calma aí! Uma pergunta de cada vez. Não vai tirar o pai da forca. – eu corei – Não se preocupe, ele só está muito exausto. Vocês dois estavam, aliás. Como ele precisa de vitaminas por causa do metabolismo extremamente rápido, ele está bem mais exausto. Porém as feridas dele já fecharam, está até roncando. – eu senti um peso a menos sobre meus ombros e Dick notou meu alivio – Relaxe. Quando o seu namorado abrir os olhos, ele vai ser capaz de comer o equivalente a um exército.

Eu senti um calor no meu rosto. Que filho de uma...

-Ele não é meu namorado! – eu respondi com raiva e constrangida.

-Pois ele ficou murmurando o seu nome enquanto a Babs o remendava, dormindo. – como é que é?! Meus olhos estão arregalados e eu engoli em seco. Dick mostrou seu sorriso sacana pra mim e eu quis deixá-lo banguela pra ver se ficava menos malandro, mas não iria dar certo.

-Ele não...

Eu fui interrompida no meio de um comentário bem típico e teimoso meu. Kaldur interveio, parando bem entre nós e agachando até que seu rosto estivesse no mesmo nível que o meu.

-Podemos conversar agora? – eu pisquei meus olhos algumas vezes, surpresa e respondi com meus ombros – Obrigado. – ele respondeu como sempre muito formal, e muito sombrio.

Kaldur sentou-se a minha frente, com as pernas cruzadas e as costas eretas. Dick fez uma careta e largou a garrafa de água no banco, andando até que estivesse em pé ao lado de seu aliado. Eu segurei um bufar e me preparei para responder fosse lá o que viessem me perguntar.

-Você pode me soltar pelo menos? – eu perguntei meu rosto bem sério – É bem mais confortável. – avisei-o e Kaldur examinou-me por um segundo e Dick olhou-o inconformado.

-Até mais alguém chegar pra ficar de olho em você... – ele foi interrompido quando Babs estava atrás dele, fazendo uma careta.

-Pode soltar ela. Eu já estou aqui. – a ruiva estava com os cabelos ondulados em torno de seu rosto e seu pescoço, a roupa preta destacava a blusa amarela que havia sido cortada até fazer um decote diferente. Ela me piscou um de seus orbes anis assim que Kaldur abaixou o olhar e permitiu que Robin cortasse a corda.

Eu me senti bem enfim. Pelo menos não me sentia mais como uma prisioneira – por mais que eu fosse.

-Muito obrigada. – agradeci com minha voz limpa. Kaldur não estava para brincadeiras.

-Artemis, correto? – Kaldur questionou sua voz grossa e alta. Eu assenti – Sinto muito pela forma que estava sendo tratada, mas na situação em que estamos, onde estamos, é melhor ficarmos de olhos bem abertos.

-Não que eu tenha outra escolha, né? – dei de ombros e encolhi os joelhos, devagar para que Kaldur não achasse que eu fosse bater em alguém. Mesmo assim ele parou de falar para examinar cada movimento eu.

Senti Babs revirar os olhos e Dick fez uma careta revoltada.

-Todos têm várias escolhas, Artemis. Basta tomarmos uma e a mais cabível, pro seu bem, é ficar aqui e nos responder. – ele parou por um momento – Isto é, se você se importa pro seu bem.

-Claro. – decidi que seria melhor não contrariar.

-De qualquer forma, é muito curioso você estar no mesmo lugar onde estávamos durante o... – ele foi meio hesitante e então continuou, como se estivesse esperando que Babs ou Dick viessem a falar alguma coisa – A tempestade de raios. – então o olhar sugestivo dele estava de volta e eu arqueei uma de minhas sobrancelhas – Eu sei que você estava com Megan e Gar antes, alguns dias atrás, num bosque que foi incendiado e por isso vocês se separaram. Mas com uma arena tão grande, coincidência é uma coisa muito difícil de se acreditar. – eu arfei as narinas quando ele deu uma pausa. Assim que ele abriu a boca eu o interrompi:

-Kaldur, sem rodeios. Pergunte logo o que tem que perguntar. – avisei-o e ele pareceu irritado com a minha rigidez, mas colocou sua máscara de líder e foi direto ao objetivo.

-Você estava com o grupo de Klarion? – seus orbes prateados não fraquejavam a encarar os meus e eu senti um fogo arder em mim. Ele esperava qualquer sinal de mentira, mas eu não ia mentir, pois não havia necessidade.

-Não.

Ele me examinou por alguns instantes e continuou ali, sem piscar. Eu arfei minhas narinas, mostrando quão nervosa eu estava.

-Se já acabaram, eu quer tomar café da manhã. – Babs avisou e Kaldur negou com a cabeça.

-Artemis, já passou pela sua cabeça que não tem como você ficar vacilando de grupo em grupo. – eu franzi as sobrancelhas – Wally viu Cameron te carregando depois do tumulto no Banho de Sangue. – o nome soava bem mais sofrido em sua linguagem formal e voz rigorosa do que na minha cabeça – Depois de alguns dias você se junta e Megan, se separa novamente, e aí surge durante a tempestade. Então some de novo e surge com um Wally terrivelmente ferido.

-O que eu posso dizer? Eu tendo a acidentalmente me separar das pessoas. – eu praticamente cuspi as palavras com sarcasmo, por mais verdadeiro que isso fosse.

-Você também se separou “acidentalmente” de Cameron? – Ah! Finalmente, ele fez a pergunta que não queria calar!

Eu lutei contra uma vontade absurda de chutar o rosto bonito do moreno loiro.

-Não. Não foi acidentalmente e não vou mentir pra você, falando que fui eu que dei as costas. – admiti e senti o olhar de Dick um pouco abalado, mas continuei sem dar brechas – Sinceramente, depois que você deve sua vida a alguém fica difícil dizer não a uma pessoa quando se está no lugar onde estamos; e, querendo ou não, ele me tirou do banho de sangue onde eu acabaria morrendo, propositalmente ou não. – Kaldur não desviou seus olhos de mim, prestando atenção as minhas palavras e eu também pensava muito na escolha delas antes de falar deliberadamente. Nesse momento, Kaldur não estava esperando uma mentira, ele estava esperando a manifestação de uma fraqueza e eu não podia esconder as minhas milhares de um meta-humano como ele – Ele me ajudou e me ofereceu aliados. – Babs arqueou uma sobrancelha quando eu passei meu olhar entre eles – Só que os aliados dele não seriam necessariamente aliados meus e eu não escolheria um lugar como esse. Não quando sozinha eu estaria bem melhor.

-Mas você acabou se deparando com Megan e Gar... – Kaldur disse momentaneamente.

-Sim, eles vieram até mim e eu os aceitei, porque eles me passaram uma coisa que fazia muito tempo que eu não sentia em alguém, ta legal?! – gritei e Kaldur não tremeu nenhum instante – E me provaram isso quando me acharam naquela bagunça que você não consegue chamar de confronto! – apontando para trás como se fosse aquela direção. Eu senti raiva me consumir por inteiro e meus olhos estavam doendo porque eu não queria fechá-los. Caso contrário, eu começaria a chorar em memória do meu querido amigo – Me defenderam e me ajudaram, sem falar que por minha causa, Gar morreu! O que mais você precisa saber?!

Acho que o surpreendi com a minha demonstração de sentimentos e vi Dick mudar o peso de seu corpo em seus pés, se balançando. Babs também não estava muito bem depois daquilo, mas continuou ao lado de Kaldur que continuou me analisando, tentando entender o que passava em minha cabeça... Provavelmente. Ainda não sou Megan para ler a mente dos outros.

Não sabia que estava ofegante até sentir meu coração pular entre minhas costelas.

Kaldur finalmente piscou e se levantou, falando que Dick e Babs podiam ir. Ele me estendeu a mão para me ajudar a levantar, mas eu me arrastei pela árvore até estar com meu peso sobre meus pés. Ele coletou sua mão e fechou os punhos cerrados na lateral de seu corpo, ombros pra trás, costas eretas, nariz no alto – sem saber, estava me posicionando igual a ele.

Eu fiquei esperando que ele apenas saísse andando, como todos os outros faziam quando eram contrariados por mim. Porém, Kaldur não era como todos os outros. Ele gostava da honra e parecia se orgulhar de como ela se encaixava nele perfeitamente – eu costumava ser assim também, até pouco tempo atrás.

-Não espere que eu te peça desculpas por hoje. – eu cruzei meus braços.

-Com o que? Sua consciência por acaso está pesada? – rebati ignorante.

-Não se engane, pois não é por sua causa. – senti minhas bochechas arderem. Por mais que ele dissesse isso, eu senti que tinha um pouquinho de mim ali, daí eu não recuei.

Caso contrário já teria me retirado.

-Numa pessoa tão sincera e honesta como você, Kaldur... – ele me encarou estreitando os olhos com um ar de: “Quem você pensa que é pra me julgar?” Eu não pisquei para aquele avisou prévio dele. Se ele fosse estourar, pelo menos eu veria um pouco mais de humanidade nesse poderoso ser – Não é acho certo enganar a si mesmo.

-Não estou enganando a mim mesmo, senhorita. – ele rebateu me atropelando. Aí está o humano que eu ansiava conhecer – Só estou considerando o fato de manter-me são até o meu destino. – ele vagou um pouco o olhar, virando-se de lado para ir como se estivesse terminado de falar.

-Só vai continuar com a cabeça no lugar se estourar de vez em quando, senhor. – senti o olhar dele mais agudo com a minha provocação – O que tem a perder se estourar aqui? – ele voltou a me encarar frontalmente, com uma expressão de confusão como se eu fosse completamente louca. Provavelmente estou mesmo – Kaldur... – eu falei sem rispidez e ele enrijeceu seu corpo, minha cara se tornou mais suave, pois o que eu dizia era quase a certeza absoluta – Pelo menos temos uma coisa em comum. – ele arqueou uma de suas sobrancelhas – A gente não se engana com nossas chances nesses Jogos.

Seus orbes se arregalaram e depois relaxaram as sobrancelhas numa expressão de dor e solidão, seu olhar longínquo me lembrou ao olhar de Roy. Eu relaxei meus ombros e olhei pro chão de terra e mato, pensando no que mais comentar com o líder que supostamente não deveria ter fraquezas.

Eu levantei meus olhos cinza para os prateados dele que já estavam em mim e a cara de tristeza foi coberta pela de liderança e frieza – aquela que todo mundo usa nos Jogos.

-Artemis, por mais que eu tenha uma divida vital contigo por ter salvado a minha vida no Banho de Sangue, não pense que me conhece muito mais. – eu franzi a sobrancelha para a sua resposta, me lembrando do banho de sangue.

Ele não tem divida comigo.

-Não se lembra? – ele questionou meio de lado, preparando-se para sair da minha presença – Quando você matou a tributo da zona dez pra me salvar.

-Eu me lembro bem, Kaldur. – ressaltei levantando as minhas sobrancelhas num gesto para que ele entendesse ao que me referia, a morte da menina que me assombrava nos meus pesadelos – Só não lembro a parte de você ter divida comigo. Você me salvou do outro tributo...

Aí eu vi o fogo arder gelado atrás daqueles orbes maravilhosamente sombrios. Senti arrepios na minha pele quando ele usou sua voz cheia de farpas, sem paixão qualquer, completamente diferente daquela que ele usava quando estava perto da menina dos cabelos vermelhos e curtos, de olhos turquesa e de sorriso humilde.

-Não se iluda Artemis. – ele me avisou, dando de costas e olhando para mim sobre um de seus ombros – Eu não te salvei em momento algum naquele instante. – e então finalmente saiu andando, na direção da fogueira tirando o excesso de lenha para que o fogo diminuísse o fogo, em seguida anunciando a Babs que ele ia procurar dar uma volta ao redor.

Apesar de Dick começar a falar que ele ia junto, Babs o puxou pela gola do casaco e fez um barulho para que ele se silenciasse.

Como eu sou idiota! Pensei finalmente, batendo minha cabeça na madeira atrás de mim É claro que ele não matou o monstro da zona dez pra me salvar! Ele o matou pra vingar Tula.

-Eu sou a pessoa mais insensível do mundo! – grunhi olhando para cima como se estivesse esperando alguém concordar comigo.

-Há controvérsias. – a voz suave de Megan soou atrás de mim e eu me virei assusta, surpresa pela ruiva já estar ali.

Ela me estendeu a água e eu tomei. Sabe lá Deus quando eu vou ter mordomia assim de novo nesses Jogos.

Megan me encarou com sobrancelhas tristes, um sorriso repleto de compaixão. Ela já tinha lido meus pensamentos pelo visto.

-Como foi o interrogatório? – provavelmente Megan passara por isso.

-Horrível. – respondi sem perder o ritmo.

-Encare pelo lado positivo, — seu braço cumprido abraçou-me suavemente pelos ombros e me arrastou na direção de três cabeças sentadas ao redor da fogueira. A outra eu não via há tempos, mas me concentrei no que Megan tinha para me dizer primeiramente – você acaba de se tornar oficialmente nossa aliada. – eu retribuí seu entusiasmo com um resmungar e ouvi Megan rir baixo – Essa é a minha Artemis. – eu não pude negar o meu sorriso pra aquele seu comentário.

Por acaso a terceira cabeça que eu não tinha visto ainda hoje era da bela novinha de cabelos negros como a noite, de olhos azuis e densos como o mar de Metrópoles – o único mar que eu vi na minha vida, ta?! – e o doce sorriso que incorporava sua figura baixa.

Zatanna estava bem, graças a Deus! Um mal a menos. Claro, não estava bem completamente, com seus arranhões no rosto e olheiras sobre os belos olhos, mas, ainda assim, continuava a garota linda que me seguia durante as aulas.

Eu estava prestes a berrar Sombra quando me lembrei que o criador deste apelido não estava por lá, para que meu alivio fosse completo.

Roy ainda não tinha dado sinal de vida desde que o vi pela ultima vez correndo do banho de sangue. Nos primeiros dias, ele não estava nas listas de baixas, mas eu fiquei muito tempo debaixo da terra pra saber se eu o tinha perdido ou não.

Uma angustia pesou dentro do meu peito e Zatanna compreendeu, segurando a minha mão, já que eu tinha sentado ao seu lado, olhando-me e me encorajando a falar. Mas como eu não entendi de inicio, estreitei meus olhos para seus gestos e ela começou a ficar agoniada, virando-se para Dick e estapeando o ombro dele para que ele a representasse.

-Ela não fala? – questionei olhando entre o grupo, esperando respostas.

Babs foi a primeira a minha responder, quase como sempre: — Ela não pode falar agora, porque ela está conjurando um feitiço para nos manter nossos rastros fora do alcance de Klarion.

Caramba! É mesmo. Zatanna é uma maga e eu fui capaz de esquecer o show dela e do Klarion outro dia durante o treinamento. Mas ficar sem falar por causa disso é meio barra pesada...

-Diga, Artemis. O que houve? – Dick questionou, finalmente entendendo o que Zatanna queria me perguntar.

-Er... – eu corei meio envergonhada de mostrar a eles completamente lúcida que eu me importava com as pessoas. Quando eu estava cega de raiva, discutindo com Kaldur, ou em desespero, eu costumo nem sentir que me abro. Mas agora, todos os quatro pares de olhos sobre mim, não havia outra reação além da vergonha – Vocês têm, por acaso, noticias do menino da minha Zona? – olhei para o chão, desviando dos olhos azuis de tons distintos e dos âmbares de Megan, me furando como balas de fuzil.

-Ninguém morreu desde a Tempestade de Raios. – Dick falou meio hesitante, sabendo o quanto aquele titulo levava dor a Megan e a mim – Mas se ele realmente está bem, aí já é uma pergunta muito difícil de responder.

-Quem sabe, mais pra frente, eu consiga captar a mente dele, né? – Megan falou para mim, tentando me animar, mas eu só ficava mais e mais preocupada com aquele estúpido moleque de topete.

Eu assenti, sem prestar muita atenção ao que eles começaram a falar depois.

Se ao menos eu conseguisse saber onde ele estava, se eu menos eu pudesse vê-lo, eu me sentiria melhor... Na realidade, não ficaria melhor não. A dor da perda de Jade em mim, nesse lugar, era muita, mas se eu cruzasse o caminho de Roy eu não seria capaz de aprisioná-la ao ver sua face sombria e triste. Roy não era fácil de se abrir, mas ninguém consegue se fechar por completo aqui dentro. Kaldur não conseguiu, nem Cameron – Roy não seria aquele que teria esse triunfo, essa glória!

Ou seria uma derrota?

Eu já não sei mais de nada. Tudo que passa pela minha cabeça é aquele olhar alarmado que me enviou quando eu mostrei que eu iria ao banho de sangue, sim, e não havia nada que ele pudesse fazer pra mudar minha cabeça. Ainda assim ele foi capaz de chamar por mim, tentando cuidar de mim como ele fazia antigamente para impressionar Jade – agora, eu sabia que era muito mais verdadeiro do que como era antes.

Eu encolhi meus joelhos até meu peito, escondendo meu rosto no escuro que se fazia entre o meu abdômen e minhas coxas. Procurando conforto, procurando abrigo dos olhares a minha volta, procurando alguma coisa que, infelizmente, não estava na companhia daquelas pessoas ali, por melhores que elas fossem pra mim.

Ainda bem que eles me ignoraram naquele momento em que estávamos sentados, continuando as suas conversas paralelas e tentando serem o mais gentis comigo o possível. Todos eles estavam experimentando coisas que eu já havia sentido há muito tempo atrás e ninguém iria conseguir palavras suficientes para me fazer mudar de posição.

Simplesmente, não dava pra conversar agora, não como se estivéssemos numa praça, rindo e falando de coisas comuns ainda – não pra mim, não pra eles.

.

Quando Kaldur voltou, ele tinha uma caça sobre seus braços e olhos vermelhos. Sobre um braço, um veado lindo que tinha uma feição calma em seu rosto animalesco; sobre o outro, um improvisado de galhos que traziam ervas, folhas e frutas comíveis para todos. Dick agradeceu o companheiro, tapeando seu ombro tatuado e musculoso gentilmente e ajudando-o com o peso, trazendo o veado para a fogueira que Zatanna começou a preparar com suas mãos e sua boca fechada; Megan e Zatanna seguiram para ajudar Kaldur com as frutas, folhas e ervas e eu não sabia o que fazer.

Senti-me a maior intrusa num grupo fechado.

Eu pensei por um instante, me abstendo daquelas pessoas para achar alguma coisa que fosse ser de utilidade, mas logo Conner estava saindo da cabana e agradecendo a ao moreno líder pela caça, dizendo que ia patrulhar ao redor.

Lerda idiota! Reprimi-me mordendo meu punho. Então realizando que Kaldur não me deixaria patrulhar a área nesse instante: primeira razão que eu ainda estava sob vigia deles, por mais que Megan e os outros gostassem de mim, estamos num lugar onde se vacilar; morre. A segunda razão eram minhas feridas ainda não recuperadas.

Eu não era uma aberração da natureza com o Cabeça de Cenoura!

Kaldur virou-se para mim, olhos cansados e ombros pesados. Ele falou que ia checar Wally e perguntou se eu queria ir junto, como se nada tivesse acontecido.

Por um breve momento eu pensei em vestir a teimosa Artemis e falar que não, pois tinha coisas melhores pra fazer. Mas a dura realidade é que eu estava mais inútil do que minha mãe subindo solitária a ladeira da nossa rua em sua cadeira de rodas – por maior o esforço, ela sempre perderia a força e relaxaria a roda, rolando de volta para o começo da rampa curva e completamente inacessível.

Assenti e o segui, a cabana encostada e na sombra para não acordar o rapaz cansado. Kaldur segurou o pano da entrada da tenda, sendo o típico cavalheiro que sempre era e gesticulando para que eu entrasse primeiro.

Quando pisei em sua sombra aconchegante fui capaz de ver o menino de cabelo laranja desgrenhado largado no tronco coberto com sacos de dormir. Ele estava espalhado na final cama improvisada, um pé pra fora dela e os braços jogados para cima. A boca aberta e os olhos relaxadas, um ronco baixo vinha dele.

Em supri uma risada. Eu não sabia que ele era do tipo que dormia como se estivesse na própria casa, por mais esperado que fosse.

Ouvi Kaldur bufar em repreensão para a posição do paciente, passando por mim e colocando com leveza a perna de Wally sobre o tronco, como se fosse o pai dele. Abaixou os braços dele numa posição mais confortável e o velocista se mexeu, coçando o pescoço.

Meu coração pulou no meu peito e por um instante pensei que o babaca fosse acordar, mas ele acabou se virando de lado em nossa direção e voltando a roncar. Eu fiquei vermelha de raiva então e cruzei os braços, em negação.

Garoto estúpido! Murmurei e Kaldur virou-se para mim, falando para que eu sentasse.

Porém, ele me fez sentar ao lado de Wally como ele tinha sentado ao meu lado durante a noite passada. Que mania esse povo tem de relacionar esse moleque comigo! A gente não tem nada haver, raios!

Eu sentei, de bico, mas sentei. Pelo menos eu enfrentava meus obstáculos. Kaldur ficou me encarando por certo tempo, me deixando meio desconfortável devido às circunstâncias.

-Desculpa. – eu pedi, descobrindo o porquê do meu desconforto, lembrando-me de hoje mais cedo. Querendo ou não, eu trouxe para ele a pior das dores.

Ele ficou surpreso pelo meu pedido, pelo menos demonstrou que era inesperado quando eu respondi seu olhar. Ele piscou algumas vezes para aquilo, pensando e relaxando os olhos cansados, vermelhos, até que, finalmente, ele fez algum sinal de que estava realmente pensando no que eu havia dito a ele.

-Não tenho nada contra você, Artemis. Eu já te perdoei faz tempo. – se fosse outra pessoa diria que perdão é um termo meio pesado, mas Kaldur era um rapaz formal que não tinha costume de falar sério com palavras pobres de significado, por mais que desculpa tenha sua lista de significados.

Pelo menos eu o entendia, e isso já era o suficiente.

Um silêncio voltou a pairar entre eu e o líder, Kaldur com seus olhos em mim, meus olhos nas sardas do ruivo chato que havia me abandonado com aquela quimera dos infernos. Só Deus sabe quanto raiva eu sinto dele nesse momento! Só por Deus que eu não quebro a cara dele enquanto ele dorme – ou eu não esteja fazendo isso porque vai ser mais gostoso quando ele estiver acordado...?

-É engraçado, não é? – Kaldur me chamou a atenção e eu o olhei, curiosa – Como surge. – eu arqueei uma sobrancelha mostrando que eu ainda não tinha entendido o que ele queria dizer. Então eu vi um sorriso doce, mas triste pairar em seus lábios escuros e carnudos – Infelizmente, você só consegue reconhecer quando está em uma situação difícil pra te dar um choque da dura realidade. – eu franzi ainda mais o cenho, completamente confusa, então eu vi quando Kaldur deixou um lágrima escorrer pelo canto de seus olhos metálicos – Perdão por ter visto isso. – ele fungou, esfregando as costas de uma mão no nariz e passando a outra pelos olhos, limpando-os.

-Imagina. – eu respondi, olhando para Wally novamente.

Ouvi uma risada suave de Kaldur e o encarei, meio surpresa por aquilo. Ele estava sorrindo pra mim.

-O que? – nem notei a rispidez na minha voz.

-Você ainda não sabe, não é mesmo? – eu arqueei uma sobrancelha, questionando-o, mas ele negou com a cabeça e apoiou-se no joelho, se levantando de onde estava – Deixa pra lá. Eu vou lá fora, mas pode ficar se quiser. – eu assenti e agradeci a ele.

Antes de Kaldur sair da tenda ele voltou a falar comigo: — Só mais uma coisa. – eu o olhei novamente e ele falou sério, de novo, com a máscara de mármore duro e frio – Você pretende se juntar a nós?

Eu pisquei por alguns segundos, pensando no que responder.

-Eu não sei o que responder. – Kaldur assentiu com a cabeça, me vendo lutar com todos os meus pensamentos.

-Artemis, não tenha pressa. – ele fez aquele seu olhar de alguém que se importa – Quando tiver de ser, será. – eu engoli em seco, corando com a sua seriedade e como ele podia ser tão encorajador ao mesmo tempo em que me passava segurança e compaixão com seus olhos prateados.

Será que eu sobreviveria nesses Jogos me apegando a mais alguém?

Não, acho que não. Já é bem difícil sozinha.

-Art... – eu ouvi um ronronar vindo de Wally e me virei para sua figura de boca aberto, sobrancelhas franzidas – Arty... – eu arqueei levantei as sobrancelhas, surpresa e comecei a corar. Eu cheguei mais perto só para ter certeza se era aquilo mesmo que ele estava falando... Se ele estava, realmente, murmurando o meu nome – Artemis...

Meu frio na minha barriga me casou falta de ar e taquicardia. Eu estava com calor e não consegui me mexer por mais ou menos cinco minutos até que o garoto dormindo a minha frente repetiu meu nome mais uma vez. Depois outra, mais outra e mais outra.

Sem nem pensar no que estava fazendo apenas senti que haviam fios de cabelos ruivo meio encaracolados invadindo o espaço entre os meus dedos, conforme minha mão afagava sua cabeça. Eu arregalei meus olhos para a minha reação e coletei minha mão com vontade própria de volta para o meu colo, prendendo-a com a outra. Minhas bochechas ardendo como se eu estivesse sobre o sol da Zona Sete – estava doendo, mas, ao mesmo tempo, era reconfortante.

Meu coração não parava de martelar dentro do meu peito e piorou ainda mais quando eu ouvi meu nome vindo do ruivo novamente, ele se mexendo com agonia, inquieto. Eu não sabia o que fazer.

O que você faz se uma pessoa que está supostamente repousado e se recuperando de ferimentos chama o seu nome como se estivesse clamando pela sua presença?! Será que alguma boa alma pode me responder?!

Mas antes que eu pudesse tomar partido sobre meus próprios movimentos, minha mão estava segurando a de Wally, minha palma sentindo as milhares de sardinhas presentes até mesmo nas digitais do ruivo. Eu engoli em seco, ficando meio surda com aquilo, meu cérebro estava quase dormente.

Wally não largava mais a minha mão e eu não sabia mais se queria que ele a largasse.

-Que raios... – murmurei, escondendo minha cara atrás de uma mão como se alguém pudesse me ver (várias pessoas me viam, na realidade, mas eu não iria agüentar de vergonha se lembrasse disso naquela hora!)

Mas quando espiei entre meus dedos vi que um sorriso bobo estava na cara do idiota sonolento e ele tinha parado de se mexer. Eu soltei um ar que não tinha notado que estava segurando e deixou um sorriso escapar junto com o suspiro – que LOGO sumiu quando me dei conta! Ta legal?!

Eu não sou dessas que sorri a toa por qualquer babaca que faz uma gracinha!

.

Eu comecei a sentir fome quando o sol voltou a se por – acreditem, quando você come pouco, você se sente faminto, e devia ser assim que um ser humano comum como eu deveria se sentir. Porem, eu não sei. Eu me esqueci completamente do mundo a minha volta quando dei a mão para Wally. Mal senti o tempo passar. Parecia que eu tinha dormido o tempo todo, por mais que eu soubesse que eu estava bem acordada.

Eu olhei o ruivo de olhos esmeraldas fechado, ainda dormido. Corei um pouco e me mexi, puxando minha mão da dele devagar e suavemente, forçando lentamente para que ele me soltasse.

Quando eu comecei a puxar meus dedos pela mão dele que estava suada, ele me puxou para ele e eu quase caí em cima dele. Eu fiquei quieta pra não acordá-lo, mas eu realmente só não tinha caído ainda porque me apoiara com a outra mão na árvore atrás de Wally.

Assim que olhei para baixo para puxar minha mão de novo, senti o bafo quente e o calor vindo do rosto dele, muito... MUITO perto de mim!

Antes que eu tivesse alguma reação, os olhos verdes se abriram lentamente, mas não deu tempo pra eu me puxar dali, e aí, finalmente, as múltiplas expressões na cara do ruivo eram tão hilárias que eu poderia me jogar no chão e rolar de tanto rir. Isto é, se eu não estivesse tão constrangida quanto ele.

Seu rosto começou a ficar vermelho e vermelho e suas sobrancelhas laranja foram levantadas com tamanha força que eu podia ver principio de rugas em sua testa; seus olhos de maça verde quase saltando das orbitas e a boca dele não se decidia se ficava aberta ou se ficava fechada.

Assim que eu notei que o aperto dele na minha mão se ficara mais forte, eu franzi o cenho, tentando disfarçar a raiva.

-O QUE É QUE VOCÊ TA FAZENDO?! – o ruivo gritou, sua voz rouca por não ter tomado água desde então.

-VOCÊ ME AGARROU! – me defendi e ele nem notou.

-PARA DE ME ASSEDIAR! – ele gritou, suas sobrancelhas estavam traindo ele.

-Te assediar?! Quem ta me assediando aqui é você que não me largou até agora! – rebati, muito brava.

-O que está acontecendo?! – Kaldur entrou me vendo debruçada sobre Wally – O que houve Artemis?

Eu tirei um tempo para olhar o moreno de canto de olho enquanto o Wally continuava a gritar coisas sem sentido, como se eu fosse a tarada que estava tentando beijar ele e tudo e tal. Eu simplesmente puxei meu braço pra cima com força e mostrei a ele quem realmente estava assediando quem.

Kaldur assentiu e eu fiquei mais tranqüila, Wally ainda me apertando.

-TA LEGAL! – eu gritei pro idiota e os olhos de maçã verde voltaram pra mim – Agora, me solta! Wally me largou e eu me joguei pra trás, ficando de pé vermelha e com raiva.

-COMO É QUE VOCÊS ME DEIXAM SOZINHO COM ESSA LOUCA?! – eu revirei meus olhos e fui em direção a saída da barraca, chamando Wally de ingrato, mas o caminho tinha sido barrado por Dick e Babs, Zatanna e Megan tentando entrar ao mesmo tempo no lugar apertado.

Eu pedi licença enquanto eles brigavam e passei.

-ESPERA AÍ! VAI DEIXAR ELA SAIR ASSIM, SEM PEDIR DESCULPAS?! VOLTA JÁ AQUI! ARTEMIS! – eu o ignorei e Dick não parava de rir – CALA A BOCA, SUA HIENA MAL CARATER!

Vi Conner se debruçando em uma árvore, me encarando como se eu fosse a estranha.

-Nem começa. – o avisei, marchando em direção a fogueira que tinha no banco um travessa de madeira com alguns pedaços de carne de veado e alguns vegetais torrados no fogo.

Comecei a comer sem nem pensar.

De repente eles se dispersaram da barraca, Megan vindo corando atrás de Artemis cheia de perguntas.

-O que aconteceu? – ela questionou, chocada.

-O babaca acordou.

-Babaca é você! – Wally a chamou, vindo quase correndo atrás deles depois que Babs tinha enfiado uma garrafa de água na boca dele.

A garrafa foi esvaziada antes mesmo de eu vê-la, só pra vocês terem mais ou menos a noção de como a criança estava nervosa.

-Eu sabia que você não resistiria aos meus charmes, mas eu estava repousando, Artemis.

Eu lhe enviei o olhar mais ceco possível, cego de raiva e Wally parou, engolindo em seco, com medo que eu fosse quebrar a cara dele. Eu apenas arqueei uma de minhas sobrancelhas e lhe respondi indiferente, voltando a comer minha carne de veado em paz.

-Nos seus sonhos, Cabeça de Cenoura. – eu só ouvi Dick rindo, Wally fazendo barulhos desumanos, Kaldur tentando acalmá-los e Babs brigando com o babaca por ele estar se esforçando demais.

Zatanna parou ao meu lado, não podendo rir, apenas sorrindo pra mim e acarinhando meu ombro. Eu pisquei um de meus olhos pra ela, deixando-a saber que eu estava bem – pelo menos para não perturbá-la enquanto ela fazia o feitiço que nos manteria encobertos sobre o radar de Klarion.

Megan fez uma bandeja de madeira que parecia bem pesada flutuar até o tronco do outro lado da fogueira. Ela parecia ser muito pesada, pois estava cheia de carne cortada e alguns vegetais também. Ela deu a ordem do babaca se sentar para comer e Wally bufou, obedecendo.

Sua roupa toda rasgada, mostrando a pele levemente bronzeada do ruivo; os machucados dele não existiam mais e ele parecia estar saudável, apesar de eu não ter gastado muito do meu tempo apreciando a comida para analisar o babaca.

Ele praticamente engoliu a madeira depois que eu tinha terminado de comer, agradecendo por ter, finalmente, se alimentado. A noite já estava ali, o céu encoberto de nuvens. Iria chover de novo e eu não tenho boas memórias da ultima chuva.

Voltei para debaixo da Árvore e Conner também, avisando que teríamos trovoadas portes e que era melhor cavar buracos em torno do acampamento para que a chuva não molhasse as barracas e a fogueira.

Enquanto eles discutiam a respeito do que fazer, Babs me chamou para o “depósito” de comida – um cantinho na raiz da árvore onde eles estavam guardando as coisas importantes.

-Como você é praticamente nossa aliada... – a ruiva começou, sorrindo de forma malandra pra mim – Vamos precisar te manter armada, por motivos óbvios.

-Espera aí, Babs. – eu chamei sua atenção e ela me olhou, pelo ombro pequeno, agachada enfiando a mão no buraco pra pegar alguma coisa – Eu não sou aliada a vocês. Não é justo que eu tenha essas coisas quando eu nem sei se... – ela me interrompeu, me ignorando e voltando a pegar as coisas.

-Deixa de ser cabeça dura por um instante, vai. – ela me despachou como se eu não tivesse feito nada – Simplesmente aceite o presente e não diga nada.

-Como assim? – Babs finalmente achou o que procurava e se estendeu, escondendo os objetos nas costas. Ela sorriu para mim, pedindo para que eu adivinhasse e eu arregalei meus olhos, deixando o meu queixo cair – Não! Absolutamente, não. Eu não posso aceitar!

-Toma. – ela me estendeu, me tentando, com o arco de cromo e a aljava prateada pesada de flechas de todos os tipos e formatos.

Eu provavelmente estava babando, pois eu vi o sorriso de Babs se tornar de gozação.

-Você ta tirando com a minha cara?! – o arco e flecha do banho de sangue era deles! Como é que eles conseguiram?! – Como...?!

-A gente ensinou aqueles aliados de Klarion a não subestimar os desprovidos de poderes. – ela começou a rir genuinamente com a lembrança e eu ainda estava muito surpresa por eles terem aquilo – Vamos logo! Pega isso daqui antes que eu largue no chão e o suje.

-Tem certeza? Ninguém vai falar nada?! – eu olhei em volta, esperando Kaldur ter alguma subjeção ou até mesmo Conner. Qualquer um me negar aquilo, eu iria rejeitar a oferta.

-Claro que não. Nós chegamos a um consenso de que você é a pessoa mais habilidosa entre nós a usar isto daqui. Acredite em mim, — ela gargalhou antes de contar a história – Quando eu tentei usar, Dick quase perdeu um pedaço da orelha. Então...

-Muito obrigada! – eu gritei, puxando os objetos das mãos dela e praticamente a abraçando em seguida.

-Sem problemas. Use-o bem! – ela me alarmou e arqueou uma de suas sobrancelhas – Por mais tentador que seja, não atire no Wally. – e eu não consegui prender a risada.

Quem eram essas pessoas me ajudando, curando as minhas feridas, me dando comida e ainda me presenteado com coisas que salvarão a minha vida no futuro?! Quem eram esses?! Por que eles estavam entrando tão fundo assim na minha cabeça logo agora?!

Eles vão acabar me matando, pensei meio amargurada enquanto passava a alça de couro preto da aljava pela minha cabeça e por meu ombro, o arco de cromo pesado como aqueles da demonstração aos patrocinadores – entretanto, o peso ideal pra mim.

Babs passou por mim, acarinhando o meu ombro e voltando para a estratégia contra a chuva dos aliados dela. Eu olhei para aquele grupo e os vi tão ligados uns aos outros, Wally sendo provocado por Dick; Megan ajudando Zatanna a recolher o lixo espalhado e jogando fora na fogueira; Babs falando algo trivial sobre o acampamento para Kaldur e Conner que estava parado com seus braços cruzados sobre o peito. Wally de repente falou alguma coisa e todo mundo começou a rir, Kaldur revirou os olhos mais foi traído por seus lábios que repuxaram para o lado e Conner sorriu rápido, de uma forma sinistra, mas sincera.

Eles eram família e eu já não sabia mais o que eu estava fazendo ali.

BOOM!

Eu tremi e joguei minhas costas contra a madeira atrás de mim, todo mundo olhando para os lados, procurando a fonte do barulho. Dentro de mim, uma memória horrível que sempre me retornava quando eu ouvia aquilo e todos finalmente lembraram onde estávamos.

-Meu Deus. – Zatanna falou, perdendo a concentração, assustada. Eu me juntei a eles, depois de acalmar um coração em pedaços.

-Faça seu caminho em paz. – Kaldur murmurou pra ninguém em particular e Megan estava se concentrando pra não chorar.

Babs e Dick se entreolharam receosos, mas Conner não estava muito preocupado a não ser por olhar ao redor do acampamento, buscando por problemas.

Assim que meus olhos pararam nos de maçã verde e eles estavam voltados para os meus, esperando que eu fizesse alguma coisa. Wally parecia estar em dor.

Roy! De repente ele surgiu na minha mente e eu comecei a olhar ao meu redor, vendo os rostos deles me encararem, eu me mexendo sem saber aonde ir. Fui até um lado, mas depois fui ao outro, e parecia uma barata tonta. Roy! Ele era a única coisa que enchia a minha cabeça, então.

-Artemis... – Kaldur se aproximou de mim, mas eu não parecia vê-lo – Artemis. – ele me chamou de novo, eu não estava nem aí.

-Roy... – murmurei, minha respiração ofegante – Roy. Roy! – gritei e Kaldur me segurou pelos meus braços, me prendendo parada.

-Olha pra mim! – ele mandou na sua voz rígida e eu encarei os olhos prateados escurecidos e brilhando a chama alaranjada da fogueira – A gente vai achar ele. – eu senti aquilo uma promessa.

Eu assenti a cabeça e engoli em seco, contorcendo meu rosto e mordendo meu lábio inferior pra me manter focada, mas eu não podia perder o Roy. Ele não, não depois de todas as pessoas que ela tinha perdido; depois de Jade, de Tula e de Gar. Ele não!

Eu senti minhas mãos subindo e passando entre os fios de meus cabelos, com vontade de puxá-los da minha cabeça, o nó se desfazendo e soltando-o. Nem notei quando Megan flutuou até mim e me segurou ao seu lado.

-Tudo vai fica bem. – fiquei surpresa em notar que essa voz viera de Conner e ele não estava prestando atenção.

Eu olhei para o grupo que tinha feições de empatia para com a minha pessoa, esperando eu me desfazer naquele mesmo instante. Entretanto, antes mesmo que eu tivesse a oportunidade, uma lança de gelo atravessou o perímetro do nosso acampamento, atingindo a lateral da cabeça de Conner e o derrubando no chão.

Raios cor-de-rosa tilintaram entre Babs e Dick e Zatanna, que pularam para trás, sendo atingidos por pouco nos ombros e nas pernas. Zatanna choramingou, mas se levantou. Dick e Babs também, mas logo outras lanças de gelo e outros ataques – até mesmo pedras começaram a atravessar nosso acampamento.

Assim que Megan me soltou para entrar na luta ou fazer um campo de força para nos defender, eu saquei uma flecha e procurei alguém para atirar, algum tributo. A ponta da minha flecha era quase cheia de adornos, mas pontuda e não poderia ser puxada sem causar um rompimento de muitos tendões e muitas fibras que não teriam jeito de serem postas no lugar.

Os raios cor-de-rosa foram na direção de Wally que se desviou para a minha lateral, mas a minha boa mira captou exatamente da onde que eles vinham sibilando e eu vi, há uns bons 30 metros de distância a menina de cabelos rosa e olhos medonhos que tinham quase tirado a minha vida.

Essa não tem jeito. E quando ela deu um passo pra frente, melhorando minha visão, eu preparei a flecha no arco, sua ponta tortuosa para matar. Eu não conseguia ver o pescoço dela, mas eu sabia onde estava debaixo do casaco de gola alta.

Quando ela soltou mais um raio, minha flecha rasgou o ar e em um piscar de olhos atravessou o pescoço dela.

Não foi na hora que o canhão soou, mas foi rápido o suficiente para alertar a todos que mais um havia morrido e que essa morte pesava sobre meu ombro – mais uma.

Quando voltei para a vida real, a fogueira fora atingida por alguma coisa e um incêndio começou a se propagar, novamente. Me virei para Megan, mas ela estava em lugar nenhum a ser avistada – pelo menos não estava sendo atacada. Conner pegou Tommy Terror pelo pescoço e o arrastou pelo chão até que ele tivesse cavado a fossa que Conner queria em volta do nosso acampamento.

Dick e Babs haviam sumido, provavelmente trabalhando das sombras como faziam, procurando um alvo maior como a Tuppence e a Crystal. Mas Klarion estava vindo com seu gato pintado pra cima de Zatanna enquanto Kaldur e Wally trabalhavam juntos para derrotar Cameron.

Saquei outra flecha e mirei em Klarion, ele vestia o terno limpo de risca de giz, a cara deformada e o sorriso maligno. O gato caminhando um pouco atrás dele.

-Nos encontramos de novo, conterrânea. – ele falou pra Zatanna e ela tremeu, erguendo os braços e conjurando um feitiço para levá-lo longe dali.

Klarion nem tremeu quando a bola branca encostou em seu terno. Ele continuou andando até ter a menina em suas mãos. Eu não sabia o que fazer.

-ARTEMIS! – eu me virei para Wally, atrás de mim, e o vi grudado nas costas de Cameron enquanto Kaldur quebrava o queixo de estalactite do meta-humano – O GATO!

Eu não precisava de mais nenhuma dica e minha flecha cantou no ar até que, por um triz, não pegou o gato no coração. A calda do bicho fora atingida, porém, e ele pulou, assustado e com dor. Klarion soltou Zatanna na hora e se voltou para seu animal, preocupado e pegando-o no colo.

-Teekle! – ele berrou e virou-se com ódio na direção da flecha, me vendo – VOCÊ! VAI MORRER!

Mas ele não podia fazer nada contra mim agora, pois Megan tinha chutado a cara dele agora e estava seriamente empolgada em lutar contra ele.

-Marciana nojenta! Como ousa?! – Klarion conjurou alguma coisa que começou a pegar fogo na capa de Megan, deixando-a zonza e derrubando-a no chão.

Klarion avisou a seus companheiros que ele estava indo embora, e agarrou o animal, saindo correndo.

-VACA! – a voz de Tuppence sou atrás de mim e eu me virei de costas, vendo a menina monstruosa correr em minha direção com uma pedra em seus braços.

Ela de repente parou e arremessou o objeto, eu não sabia para onde correr, pois a pedra era realmente enorme.

-DEUSA! – eu sabia que tinha me chamado e vi Babs se jogando na minha frente pra me empurrar. Ela não teve tempo de sair da frente da pedra arremessada com tamanha força em sua direção.

-BABS! – eu gritei esparramada do chão, vendo a minha aliada ser atirada colocada a pedra que não parou seu percurso até rolar pelo chão pegando fogo atingir a raiz da árvore.

Eu corri na direção dela, mais rápido do que minhas pernas poderiam me levar. No caminho, o rastro de sangue que escorria e a pedra cor de chumbo enlameada e completamente cheia de sangue. Quando eu me aproximei, tentando pegar por Babs vi a sua mão dar sinal de onde ela estava. Seu rosto estava colado na pedra e amassado, apenas um de seus olhos azuis eu podia ver. Lágrimas entraram no meu caminho, mas ela apenas arqueou uma das sobrancelhas que eu ainda conseguia ver. Ela parecia um lençol entre dois colchões – ah, se aquela pedra fosse macia como um colchão. Seus cabelos ruivos enlameados e cheios de sangue.

Ela ainda estava viva.

-SOCORRO! ALGUÉM! – eu pedi, me aproximando dela, mas ninguém poderia vir agora – Babs... Babs! – ela fechou o olho rapidamente como se estivesse falando que estava tudo bem. A pedra a estava imprensando contra o caule rígido da raiz. Sua mão se mexeu, pedindo pela minha e eu a apertei, clamando por um Deus que não iria me ajudar naquela altura.

Babs me deu seu ultimo olhar com aquele seu olhos azul, eu não sei o que ela quis dizer com aquilo, mas o aperto da mão dela tão leve na minha me fez sentir uma coisa que eu não sentia fazia tempo – coragem.

Finalmente a dor dela tinha cessado e ela o fechou, lágrimas rolaram do meu rosto e eu não estava mais naquele ambiente de luta. Estava apenas no meu mundo, em luto.

BOOM!

Notas finais
Baixas:

Zona 3 Jinx

Zona 9 Barbara Gordon/ Babs

Tributo ainda não reconhecido que também faleceu será postado somente quando Artemis descobrir.
-x-
O que acharam? Perdão por não ter respondidos os reviews ainda, é que eu meio que não tive tempo essa semana porque estou fazendo mil coisas ao mesmo tempo, mas aqui está meu capítulo, postado em uma semana!
Me digam o que acham que eu respondo sem rodeios. :3
Beijos e deem review!
Até semana que veem!