Jogos Justos

5 IV - Magia Negra


Notas iniciais
Faz tempo que eu não passo por aqui, né gente?? Eu sei que eu andei longe, acho que faz um mês.
Peço perdão. Eu falei que ia fazer dessa fic minha prioridade, mas eu meio que tenho que passar de ano da faculdade agora. Então, me perdoem se eu demorar outra mês pra postar outro capítulo.
Entretanto, eu tenho certeza que vou me empenhar nela durante Dezembro e Janeiro, pretendo postar sempre que der. :3
Boa Leitura! ;)

Não aproveitei muito da noite passada, já que estava morta de cansaço e precisava de um bom descanso. Tudo que eu me lembrava dos aposentos da nossa Zona era que eles ocupavam duzentos metros quadrados sozinhos, então eu não faço nem idéia da soma junto com os outros andares acima e abaixo de nós.

Como Dinah tinha prometido, nossa vista para o mar era inevitável e maravilhosa. O pouco que vi depois de acordar com aquela janela de vidro em camadas me mostrava me deixou sem palavras. Pena que eu não poderia admirar um pouco mais porque logo Helena entrou no meu quarto jogando um uniforme preto com alguns detalhes em verde sobre a minha cama, fazendo caras e bocas desprezíveis para, julga eu, o design dele.

-Vista isso. – ela falava contrariada.

-Que bicho te mordeu? – eu não sou muito daquelas que fala quando está muito cedo, mas aquela vista do mar da minha janela foi o bastante para acalmar o meu humor.

Passei a mão sobre a roupa, sentindo o tecido elástico e resistente, pegando-o e preparando para me despir. Ela já tinha me visto nua mesmo. Eu queria apenas ser um mosquinha para saber como é que ela havia convencido Roy a se trocar na frente dela noite passada...

-Eu meio que tenho que obedecer às ordens da Capital, então eles meio que me forçaram a te fazer esse uniforme ridículo. Todo mundo vai usar igual. Isso me irrita. – eu voltei para ela seus cabelos negros brilhantes estavam puxados num rabo de cavalo, deixando somente mechas longas nas laterais de seu rosto. Seus olhos azuis já maquiados e quase o mesmo tipo de roupa extravagante de ontem. Ela deu de ombros preparando-se para sair – Pelo menos eu consegui costurar alguma coisinha pra deixar você mais glamorosa. – e de repente a voz animada dela havia voltado.

Eu sorri para as mudanças humorísticas dela e comecei a me vestir, temendo o que vinha pela frente.

.

Oliver nos deu algumas dicas durante o café da manhã, mandando-nos prestar atenção nos instrutores e fazer bonito para os patrocinadores que estariam nos analisando de uma das varandas de frente para nossa área de treinamento. Dinah nos mandou ter educação e alertou-nos das broncas que levaríamos se começássemos a discutir com outros tributos durante as aulas, já que ficaríamos uma semana inteira com eles, tendo as mesmas aulas e almoçando juntos numa mesma mesa; Helena nos incentivou a destruir essas roupas horrorosas de treinamento para que ela pudesse fazer reais obras de arte para que nós vestíssemos.

Isso já se torna tortura, mas tudo bem. Temos que aceitar uma hora ou outra.

Roy e eu fomos levados até a sala de treinamento por três guardas em branco, com as caras cobertas pela máscara pesada e as armas de fogo em mãos. Não sabíamos bem o porquê de tanta proteção – até sabíamos, mas só não sentíamos tanta necessidade depois da ficha ter caído ontem durante o desfile. E, ao chegar lá, nos deparamos com doze tributos já presentes, chegávamos à ordem crescente, eles vestindo o mesmo material bizarro com algumas exceções de cores e números representando a Zona de cada um deles.

Claro que o cara da Zona 2 estava lá para me aborrecer, os olhos azuis quase brancos me irritando tentando me fazer ficar desconcentrada enquanto brigávamos mentalmente. A garota simplesmente sentava polindo suas unhas pontudas em sua roupa; os queridinhos da Capital sentavam afastados um do outro na arquibancada, o menino sorrindo animadamente e aterrorizantemente para os patrocinadores que chegavam um a um enquanto a garota estava nervosa, escondendo seu rosto das pessoas. Eu senti pena dela, mas provavelmente era só atuação – quem é da Capital tem a maior chance de sair vivo daquela arena dos infernos do que qualquer outro daqui. Ela era uma vencedora com 99,9 % das probabilidades de ser vitoriosa e eu tenho o resto da conta do meu lado – não muito favorável, né?

Eu lembrei-me dos rostos familiares que encarei como a garota loira simpática e o menininho contente da Zona 5 que conversavam num tom estridente, talvez eles já tivessem se tornado amigos. Ela cruzou meu olhar e acenou para mim, eu assenti com a cabeça e Roy me cutucou com o cotovelo pra seguirmos para o outro lado da sala (ele não gostou muito da idéia de socializarmos por aí e ele tem razão. Amigos nesse jogo significa morte na certa. Eu posso viver mais se ficar sozinha, pelo menos); os estranhos da Zona 3, a garota de cabelo rosa e o anão esquisito, me encarando feio. Nem dei muita bola para eles, sentando-me do lado de Roy.

-Dá pra você parar de encarar as pessoas? – eu o ouvi reclamar trincando os dentes do meu lado, seus olhos em mim. Eu arquei uma de minhas sobrancelhas.

-Eu estou estudando os adversários, gênio. Se você não consegue diferenciar encrenqueiros de estrategistas está ferrado. – eu o alertei voltando a ver os rostos distintos ali.

Com os murmúrios irritantes de Roy, continuei meu objetivo de reconhecimento e segui para o irmão e irmã gêmeos da Zona 4, ficando extremamente chocada com a presença deles. Eles eram altos, fortes e musculosos – a garota nem tanto, mas o cara parecia um armário ambulante. O garoto usava o cabelo raspado com duas listras que davam a volta, mostrando seu coro cabeludo, um pouco acima d linha da sobrancelha. Ele tinha essa linha preta debaixo de seus olhos azuis que contrastava com o loiro de seus cabelos e um sorriso tenebroso. Os braços enormes e as pernas grossas, aquela roupa de treinamento mostrava bem quem as pessoas eram; A garota tinha as feições do irmão, só que femininas e lábios vermelhos cor de sangue, olhos contornados por preto e as sobrancelhas negras, mostrando que ela estava nem aí para as aparências. O penteado lembrava ao do irmão, só que ela tinha apenas as laterais da cabeça raspadas com as duas listras dando a volta e um topete alto que ligava a um rabo de cavalo loiro, mas não tão cumprido (nem vou comparar com os meus porque é sacanagem). Suas orelhas furadas e com brincos diferentes prateados, em volta de seu pescoço uma coleira semelhante à de seu irmão e com espinhos.

Lembrancinha de casa, talvez?

Da Zona 6, perto da lagoa artificial, os dois tributos sentavam calados e mexendo na água, criando ondas com seus toques. A garota era ruiva, com um cabelo puxado mais para o coral do que para o vermelho em si, bem curtos e lisos; olhos verdes-água, sardas espalhas por suas bochechas. Realmente linda, sua pele bronzeada fazia jus a Zona litorânea e a leveza dos movimentos dela encantava o parceiro que não era nem de longe pior que era. Se possível, ele era um dos rapazes mais bonitos que eu já vira na minha vida: orbes prateados serenos, cabelos loiros ralos e a pele negra contrastando com todos esses detalhes. Ele sorria para a garota, como se eles estivessem conversando por telepatia, mas ele também tinha esse ar preocupado em sua volta.

Acho que ele notou que eu o estava admirando, pois se virou na direção minha e de Roy e me fez engolir em seco, enviando-nos um olhar duro antes de um cumprimento com a cabeça.

Nós respondemos porque acho que até Roy admirou o casal ao longe, chocado com eles.

-E aquele lance sobre encarar as pessoas, linguarudo? – eu o provoquei e ele cotovelou minhas costelas me calando, mas não sem um sorriso em meus lábios deixando-o corado.

Aos poucos os restantes tributos chegavam e eu fui olhando-os, claro, porque não tinha nada melhor pra fazer. Da Oitava Zona um garoto de cabelo ruivo, um tom bem alaranjado, e repleto de sardas revirava a sala de treinamento perplexo, íris esmeraldas cintilavam quando eram atingidas pelos raios do sol e pele levemente bronzeada. A Zona 8 atingia, felizmente, a área litorânea então tinha uma boa chance do garoto ter vindo de lá também, mas ele tinha toda essa euforia e ansiedade exalando dele. Um pouco mais baixo que Roy, mas tinha músculos e pernas longas, definidas, atlético. Bonito, eu diria.

Só não notei quando ele devolveu o meu olhar, sorrindo abertamente para mim e eu meio que engasguei com aqueles dentes brancos dele, limpando minha garganta e tentando entender porque aquele tipo de sorriso... Um sorriso sincero?

A garota era loira, de olhos azuis, e tinha todo esse ar de superioridade em torno de si; alta e atlética também, só que bem mais magra que qualquer outra por aqui. Eu sabia que as outras zonas eram mais mal tratadas, mas a oitava ainda fazia parte das de situação mediana. Então eu chutava ela ser anoréxica mesmo.

Ela me mandou uma careta, como se já tivesse escolhido não gostar de mim, socando o garoto nas costas e apressando-o na direção da arquibancada e brigando com ele. Ele tinha um ar cômico ao seu redor, reclamando pelo tapa e discutindo os motivos por ela ter feito isso.

-Que dupla... – e Roy me deu outra cotovelada – Será que dá pra você parar de me bater antes do treinamento?! – eu soquei sua barriga e ele se contorceu.

-Para de ficar falando por aí o que você acha das outras pessoas, sua anta! Vai atrair inimigos...

-E daí? A gente vai morrer mesmo. – eu dei de ombros e voltei a ver os próximos tributos a entrarem.

Da Zona Nove, em nossa direção, caminhavam duas crianças (mesmo!) lado a lado. Um garoto baixinho, de, mais ou menos, 13 anos, de cabelos ébanos e olhos azuis claros, pele branca e um sorriso malicioso nos lábios. Ombros largos para um menino, mas magro e com cara de quem já sofrera bastante com aqueles olheiras. Mesmo assim, ele parecia manter a confiança junto da menina de cabelos vermelhos chamativos, encaracolando na ponta do rabo de cavalo, orbes azuis escuros e secura em sua face. Ela contrastava com o garoto, mas respondia aos comentários dele mesmo assim. Um pouco mais alta que ele e magra assim como ele.

Os dois sentaram-se do nosso lado e Roy se levantou, me chamando para ir com ele como se os dois tivessem alguma doença contagiosa. Eu franzi o cenho e puxei meu braço do aperto dele.

-Você pode ir se quiser. – eu faço minhas escolhas, gritei para ele dentro de minha cabeça e estreitando meus olhos conforme ele tentava me provocar mais e mais.

Ele grunhiu e me chamou de idiota, mas foi embora na direção da arquibancada, sentando solitário no topo dela e me fuzilando de longe. Eu nem movi um músculo enquanto ouvia a risada meio sinistra do garoto animado ao meu lado.

-Ele supera. – o garoto comentou e quando eu me viro ele está sentado bem no lugar de Roy, sorrindo maliciosamente para mim e tentando se amigável.

Eu franzi meu cenho e recuei relutante para a direção oposta, assentindo com a cabeça lentamente e tentando não deixar a impressão desse menino me confundir. A garota balançou a cabeça e se esticou até o braço dele, chamando-o pelo nome e dando uma bronca nele:

-Vai assustar a menina. – ele ficou quieto com isso em seguida e eu dei de ombros, voltando a minha posição anterior e vendo uma dupla estranha entrando na sala de treinamento.

Da Zona 10, já começando de forma péssima, uma cara magrelo e uma menina magrela igual a ele, ruivos, mas com um penteado de cabelo bem esquisito contendo um rabo de cavalo de fiapos. A garota tinha uma tatuagem do lado direito da cabeça onde deveria ter cabelos e o garoto ria maldosamente com ela.

Eles pareciam ter passado fome à vida inteira deles e eu não duvidava nada que fosse verdade, mas só o fato de vê-los entrando tão secamente naquele lugar já me deixou de estomago virado. Mais dois que eu não gostei na minha lista – pelo menos havia vários quem eu havia achado legal também, mas as aparências sempre enganam (só espero que o meu instinto não esteja tirando uma com a minha cara agora que estou nesse jogo de vida ou morte).

As crianças verdes da Décima Primeira Zona adentraram envergonhados a sala, tentando esconder suas faces olhando para o chão. O menino parecia bem assustado e bem mais novo que o garoto sentado ao meu lado, mas ele devia ter no mínimo doze para estar ali então não podia fazer nada para defendê-lo. Ele era bem diferente, com cabelos verdes escuros, olhos verdes claros e pele um tom de verde que pendia entre os dois tons, magro e baixo como uma criança comum. Ele devia ter sofrido muito em sua casa já; Já a menina tinha um pouco mais que a minha idade, cabelos alaranjados e orbes âmbares, sardas espalhadas sobre a pele bem destacadas e lábios levemente avermelhados, uma franja segurada por uma faixa vermelha e os restantes dos cabelos soltos. Ela parecia ser saudável, apesar dos pesares. Ela passou por mim com a face baixa e seguiu com o menino agarrado a ela até outro canto da sala, de botânica, explicando alguma coisa para ele que o fazia assentir adormecidamente para ela.

Certo, eles tinham passado no meu conceito. Agora, só faltavam os dois últimos tributos da zona mais pobre de toda a Nação da Luz que entraria logo em seguida, me deixando bem curiosa.

Se bem que eu já tinha um palpite quem seriam quando realizei que o cara muito bonito de olhos azuis gelados e cabelos negros não estava lá ainda, e quando o vi fiquei bem fascinada.

Helena não iria gostar nada de saber que o estilista dos tributos da Zona 12 era bem mais ousado que ela para fazer do uniforme de treinamento deles branco, destacando-os completamente do restante de nós. Não que fosse precisar muito disso mesmo, porque aquela dupla era muito bonita mesmo.

O garoto caminhou com seu par de ombros definidos lado a lado com a garota de cabelos dourados na altura dos ombros, olhos do mesmo tom gelado e claro como os dele e uma pele tão clara quanto à dos dois sentados ao meu lado. Os dois tinham a mesma estatura, apesar do garoto ser bem musculoso e atlético, desfilando em sua glória meio rebelde – apesar de ele continuar com aquela face de mal, ele era muito lindo mesmo. A menina estava assustada, mas era tão bonita quanto ele. Ela vestia tão bem aquele uniforme branco que eu senti uma pontada de inveja quando a vi desfilando lindamente por ali, olhando inocentemente ao seu redor e admirando os maquinários de exercício da Capital. De todos os outros, eles estavam mais distante de tudo isso e eles deviam saber bem como sobreviver naquela arena.

A maioria dos tributos da Zona 12 morria na mão de outros tributos no meio do caminho por não ter aproveitado a oportunidade das aulas de aprender a se virar. Entretanto, algo me dizia que esse não seria o caso deles esse ano e que eu não teria muita sorte se acabasse esbarrando no tributo muito bonito.

Quem sabe se fossemos de um mundo paralelo nosso encontro fosse de outra forma, certo?

-Atenção. – o alto falante se manifestou e todos nós olhamos ao redor até nossos olhos pararem no centro da sala onde um homem usando um tapa-olho sobre a vista direito e com todos os cabelos de seu corpo grisalho, uma barbicha volumosa e cabelos penteados para trás nos encarava. Corpo esculpido e bem exibido num uniforme similar ao nosso cuja única diferença era as escamas azuis que cobriam seus antebraços e seu abdômen, cinto combinando com as luvas e botas laranja e o resto de preto. Cores estranhas para um cara estranho.

Mas, bem... A Capital era reconhecida por ter esse gosto excêntrico em cores...

Quando mirei rapidamente a varanda com os patrocinadores fiquei chocada por até eles terem se calado. Vai ver que é agora que eles começam a analisar suas escolhas e apostas.

O homem de cabelo branco deu um sinal meio ameaçador com seu olho azul e gesticulando, forçando-nos a formarmos uma meia circunferência a uns bons metros dele, facilitando qualquer coisa que ele viria a falar. A frieza tão palpável que duvido a lâmina mais afiada de uma faca poder cortá-la.

-Hoje iniciamos a semana preparatória dos Jogos. Vocês têm exatos sete dias para desenvolverem suas habilidades, absorver informações e dominarem técnicas de sobrevivência. – ele deu uma pausa dramática para que nós absolvêssemos a informação e virou-se de costas para mim, dando dois passos mais próximos dos tributos – Regras são estabelecidas aqui dentro, crianças, — seu dedo apontava para cada um dos tributos, ele voltava na nossa direção, olhar de juiz – Para serem cumpridas. Quando entrarem na Arena, poderão fazer como bem quiserem. Então, obedeçam. – e seu dedo, claro, tinha que parar em mim.

Eu estreitei meus olhos quando ele demorou muito para ajeitar sua postura, voltando a caminhar na direção dos restantes tributos – Não é permitido brigas, terem muito tempo para isso na arena; serão proibidos aqueles que não estiverem com esses uniformes ridículos que estão usando de entrar aqui. Não os esqueçam em seus aposentos; não cheguem atrasados em hipótese alguma ou perderão as aulas de botânica e anatomia, além de sua entrada ser autorizada apenas depois do horário do almoço. Um dia desperdiçado equivale um dia mais perto da morte na Arena, fedelhos. Não me obriguem a ser repetitivo. – terminando de encarar o garoto musculoso no final do nosso meio circulo, ele virou suas costas para nós e voltou para seu lugar de começo.

-Agora às dicas. – parou as mãos na cintura e marchou de um lado ao outro enquanto falava – Apesar de não serem obrigatórias, as aulas de sobrevivência são essenciais. Eu não vou dizer que qualquer um pode segurar uma espada, porque não é todo animal aqui que tem essa capacidade, mas infecção mata tão rápido quanto um punhal no coração. Hipotermia, desidratação, desnutrição e queimaduras. Se não quiserem desperdiçar seu precioso restante tempo de vida, pelo menos aprendam a caçar. – ele parou no centro novamente, olhando para nós como se estivesse esperando alguma coisa. Ninguém se manifestou – Passarão o almoço no refeitório, dividindo uma mesa com seus adversários. Não façam guerra de comida, porque vão se arrepender quando estiverem comendo casca de árvore para sobreviver. Uma hora de almoço; quando não estiverem em aulas obrigatórias, poderão treinar sozinhos ou com os instrutores de cada dia. Eles estão aqui para ensinar, então exijam informações e aprendizado. – depois de todo esse bafafá, o homem de cabelos brancos mostrou um sorriso bem sinistro e cruzou os braços fortes sobre o peito, jogando o cabelo branco para trás – Eu sou Slade Wilson, serei o encarregado de vocês. Espero só que me divirtam.

Acho que ele já estava se divertindo desde o momento em que pisou aqui.

.

Sendo o primeiro dia de treinamento, até que ocorreu tudo bem. Tivemos as aulas teóricas de anatomia e botânica, algo que eu nunca achei que fosse saber na minha vida (eu também nunca queria saber dos Jogos Justos, de vir pra cá e afins, mas a vida é uma caixinha de surpresas), mas era meio sinistro, pelo menos em anatomia – os professores explicaram pontos vitais e como detectar algumas doenças.

Eu, que fui picada por uma cobra no deserto quando pequena, achei aquilo muito interessante e se estivesse mais cedo na minha vida teria evita muitos problemas. Roy sentava-se ao meu lado, pra variar, com remorso de ter se afastado antes da explicação do Slade. Aliás, ele continuava ali, de espreita.

Depois foi o almoço num salão ao lado da área de treinamento, a mesa única e grande que dividiríamos e a comida posta em bandejas de preta estrategicamente colocadas no centro, parecia que tudo era cromado – as cadeiras, as mesas, os talheres, até o fogo sobre a comida quente tinha um brilho prateado! Vai entender né?

Os guardas ficam na sala junto conosco e alguns dos professores também, mas, no geral, somos livres para sentar e falar sobre o que quisermos. Achei até interessante quando ouvi risadas vindo dos tributos das zonas mais ricas, interagindo numa das extremidades da mesa.

-Esse povo não presta. – Roy murmurou do meu lado, pra variar. Ele só fala comigo – Eles estão prestes a pôr a vida em jogo, mas ainda conseguem gargalhar. Que ridículo.

-Você sabe porque eles estão rindo. – eu o encarei de soslaio e ele me respondeu arqueando a sobrancelha, desentendido do que eu dizia – Bem, eles foram treinados desde o útero para lutas, então eles têm essa confiança.

-Vão perder. – devo admitir que a cara de Roy fosse bem sombria quando voltei minha face para a dele, seus olhos azuis secos e opacos mirando em sua refeição.

Eu meio que perdi a vontade de responder alguma coisa que fosse provocá-lo, porque além do que ele ter acabado de dizer ser algo bem forte era também algo que eu gostaria de acreditar. Sair daquele lugar vivo é nosso objetivo agora, para todos que estão aqui. Todos têm famílias nos esperando em casa, pessoas que se importam com nós que vão sofrer tanto quanto nós quando nos virem desnutridos e sendo atacados pelos outros. Jade me fez sentir tanta dor quanto ela se+9ntiu quando ela estava nos Jogos e eu nem quero pensar nas coisas que devem estar passando na cabeça da minha mãe nesse instante.

As crianças da Zona 9 sentaram-se a nossa frente, falando entre si e, de vez em quando, enquanto a ruiva falava, o garotinho sorridente olhava para mim e para Roy que não dizíamos mais nada, apenas pegando os aperitivos dispostos à mesa.

Não sei, realmente, se ele falou comigo nem se falou algo sobre mim ou Roy, fiquei atônita e Roy é ignorante, seja lá quem estiver à frente dele – não tenho nenhuma memória dele abaixando a cabeça para os guardas lá de nosso distrito; Eu só sei que teve uma hora que a comida não tinha mais gosto e tudo em minha volta não importava.

Eu só me lembrava de Jade e acho que o ruivo do meu lado percebeu, porque assim que voltou seus olhos azuis tristes para mim, chamou minha atenção:

-Vamos. – ele me cutucou com o cotovelo e eu olhei-o meio atordoada – O intervalo está acabando. – eu assenti, mas continuei meio distraída. Ele bufou e me segurou pelo cotovelo, ajudando-me a levantar e me puxando pelo caminho – Vem logo, garota.

.

O teto retrátil do salão de treinamento estava aberto quando voltamos para lá, exibindo o maravilhoso céu azul e a brisa fresca da Capital. Eu meio que fiquei perdida por ver tal beleza, os pássaros coloridos voando ao redor dali, mas ainda sim nunca pousavam nas arquibancadas posicionadas junto às paredes do lugar enorme. A piscina brilhava enquanto os tributos da Zona 6 mostravam o show de natação deles para alguns instrutores seja lá qual os poderes eles tinham – só se eles eram meio peixes, porque eles ficara dando voltas e voltas naquela piscina sem respirar uma vez se quer, competindo.

Eu e Roy já estávamos no campo de arco e flecha, nos vestindo e nos preparando para atirar uma flecha de cada vez – e até a flecha era completamente cromada. Eu posicionei o meu braço reto, paralelo ao meu peito, queixo erguido e ambos os olhos abertos, assim como o meu pai tinha me ensinado.

-Garotinha, veja Jade! – a mão pesada nos meus ombros fraquinhos, queimados do sol quente, me fazendo gemer de dor. Meus olhos cansados e suor caindo neles, ardendo-os mais ainda.

E lá estava ela, minha irmã, com 10 anos, segurando o arco e flecha, contrabandeado por meu pai. Seu cabelo volumoso negro mais curto preso num rabo de cavalo, olhos amendoados abertos e prontos para tudo. Seu alvo não se tratava mais de um cacto ao longe, mas sim uma ave solitária procurando água.

-Olhos abertos, Artemis. – meu pai me ressaltou e a única coisa que eu vi após minha irmã largar a flecha veloz foi o pássaro aterrissando brutamente no chão de areia do deserto.

-É assim que se faz maninha. – ela voltou-se para mim e sorriu astutamente, como ela sempre fazia. Entretanto, ainda havia inocência em seu olhar.

Olhos abertos... Lembrei a mim mesma antes de pousar o penacho da extremidade sem ponta da flecha em minha boca. E, por um instante, eu estava de volta àquele momento no deserto em que eu tinha me posicionado para atirar no cacto intacto a 20 jardas de distância. Perto, ainda sim, longe o suficiente para alguém como eu, sem treino.

Eu ainda tinha que fingir ser quem eu não era.

Assim que eu soltei, a flecha zuniu no ar, cortando-o enquanto fazia seu trajeto até a área em torno do centro. Eu respirei fundo, claramente enferrujada, chateada por não ter acertado o centro como eu fazia de costume, porém, quando me virei para permitir Roy de atirar, ele estava sorrindo para mim.

Minhas bochechas arderam e eu estreitei meus olhos, colocando as costas das minhas mãos na cintura – Ta rindo de mim é?! Duvido você fazer melhor, topetinho!

Ele balançou a cabeça, mas o sorriso não sumiu mesmo assim. Ele não disse nada quando parou mirando no alvo ao lado do que eu havia escolhido. Antes de atirar a flecha, numa postura bem parecida com a minha, Roy olhou para mim, ainda sorrindo, e disse algo, mas eu só consegui ler seus lábios porque, de repente, tinha alguém gritando nas lutas do tatame no centro da quadra: — Você parece com ela. – e, para bom entendedor, meia palavra basta.

Esse cara parece ler minha mente, que horror!

Devo admitir que eu gostei de saber que sou parecida com a Jade. Ele me fez sorrir pequeno e me incentivou a voltar a atirar flechas.

Claro que o treino não foi só isso, nós tínhamos que treinar resistência dentre tantos outros tipos de coisas que tínhamos que aprender. Depois de lá, nós nos posicionamos na trilha de corrida, porque precisamos daquilo – sem falar que ela era composta por diversos obstáculos, relevos e buracos mais uma parede de escalada no fim. Interessante e divertida, se isso daqui não representasse um perigo iminente na minha próxima semana – se é que eu fosse sobreviver aos primeiros minutos dos jogos.

Eu me coloquei em uma das largadas e Roy estava do meu lado, também posicionado. Nós contamos até 3, mas, de repente, algo passando correndo extremamente rápido do nosso lado e chamando a nossa atenção, fazendo Roy cair no chão, devo ressaltar!

-Como vocês são moles! – e então ele já se misturava com os detalhes em vermelho e amarelo em sua roupa escura.

Eu arregalei meus olhos e me voltei para Roy que xingava o corredor até a décima geração dele, com dificuldades de se levantar. Eu dei de ombros e fechei os punhos, dobrando meus braços e disparando a maior velocidade que meus pés podiam alcançar.

-Devagar... – o garoto falou quando passou por mim de novo.

Eu bufei e me forcei mais, deparando-me com o primeiro obstáculo, algo parecido com um tronco de árvore. Um pouco alto, mas com meu impulso eu já tinha passado por ele. Aí que as coisas pioraram, porque o chão já não era mais de concreto como da pista antes do tronco, mas lamacento com pedrinhas e mata grudando na sola do meu tênis e me atrasando um pouco. Quando voltei minha face para frente, arbustos do meu tamanho me forçando a abaixar a cabeça pra não ficar decapitada e tudo ficou mais difícil porque um buraco surgiu do meio do nada e eu quase caí, já vendo meu pé se torcendo nesse caminho – pense num buraco profundo e largo. É... Desse tipo.

Entretanto, quando dei por mim senti mãos sobre minhas coxas e minhas costas, me carregando e parando um pouco mais a frente do buraco. Eu estava prestes a agradecer o gesto quando me virei para ver o corredor da Zona 8 sorrindo abertamente para mim, as sardas do mesmo tom do cabelo sobressaltando o bronzeado de sua face enquanto seus olhos verdes tinham outro brilho descrito neles.

-Você sabe que princesas não devem brincar com coisas perigosas, né? – ele não me colocava no chão.

-Oras certamente você não sabia. – lhe respondi, sorrindo satisfeita quando ele franziu as sobrancelhas rubras.

-Delicada como um cacto... – ele murmurou me largando no chão com desdenho, tirando poeira imaginária de suas mãos.

-Não que você seja o cavalheiro digno, claro. – acho que ele não esperava por eu ter rebatido novamente.

Ele voltou a me encarar, com os braços cruzados sobre o peito. Ele era bem pouco mais alto que eu, acho que dois centímetros ou três. Eu tinha minhas mãos na cintura e ele continuava lá, sem sair correndo a velocidade da luz dele.

-Dá próxima vez, eu te deixo cair lá e vai ficar esperando um instrutor vir te buscar. – ele me alertou, virando-se para sair correndo.

-Não preciso de piedade sua, cabeça de cenoura. – ele me encarou irritado, meio chocado pelo apelido e eu sorri satisfeita, correndo para o próximo obstáculo e deixando-o para trás, mesmo que só por um instante.

-Uma dica pra sair do buraco quando você cair: use o seu cabelo! – ele sorriu e eu revirei meus olhos.

-Demorou tanto tempo pra você me responder isso? – eu ri e acho que foi o suficiente para ele se calar e voltar a correr os milhares de quilômetros dele sem parar.

Aquele garoto, de fato, era um desafio.

O trajeto em si era cheio de coisas, mas depois de mais outras voltas eu já sabia mais ou menos o que esperar, prestando mais atenção nas coisas. Mesmo que eu soubesse exatamente como correr, não tinha muitos obstáculos no deserto da Zona 7, então eram coisas novas e eu estava satisfeita com o resultado, mesmo depois quando o garoto chato da Zona 8 passou por mim e gritou:

-DE NADA!

Não to nem aí. Não faço diferença alguma pra ele, de qualquer forma.

.

-To morto! – Roy choramingou descendo as escadas do corredor dos quartos dele e de Oliver, que já estava sentado à mesa de jantar com Dinah, bebendo licor e conversando sobre os patrocinadores e os jogos anteriores.

Fala sério, ninguém tem outro tópico de conversa por aqui não?

Helena mudava de canal da televisão, procurando por algo produtivo para sua inspiração enquanto seus fiéis subordinados conversavam sobre os recentes assuntos da moda, seguindo para a mesa de jantar para se juntar com meu mentor e secretária. Eu estava meio dolorida depois de cair uma ou duas vezes durante aquela corrida de obstáculo e ser jogada ao chão por um dos instrutores de luta que testavam meus conhecimentos. Eu vestia um dos pijamas que Helena havia colocado no meu guarda roupa, muito luxuoso para ser chamado de pijama e ela meio que ficou brava quando eu disse que tinha gostado dele, mas os detalhes em laranja dourado com listras pretas, parecendo um tigre, cheio de brilhos nos fios e eu realmente não acho que merecia ser usado para dormir.

-Acostume-se a coisas chiques. – ela me alertou sorrindo, depois que conversamos a respeito.

Mesmo sendo lindo, ele era confortável, então acho que eu podia dormir com ele...

Meus olhos não saiam do horizonte brilhante sobre o mar escuro, as estrelas e suas constelações condecorando o céu maravilhoso de Metrópoles. De um lado, o mar aberto e seus perigos, liberdade me tentando pelo vidro temperado do apartamento; do outro, as luzes da cidade mostrando como existia vida depois das oito horas da noite, energia e barulho. Uma coisa que não tinha lá em casa.

Eu não pertencia a aquele lugar, de qualquer forma.

-Artemis, — a voz afinada de Dinah me acordou e eu me virei, vendo a mesa lotada com um espaço ao lado dela me aguardando, os garçons servindo-nos com pratos majestosos e cheirosos – Venha se servir.

.

-Legal você ter avisado a gente sobre velocistas. – eu chamei por Oliver e ele pareceu confuso – Ou vai me dizer que você nunca comentou com nenhum outro tributo a respeito de velocistas? – eles estavam me acostumando mal com aquelas comidas maravilhosas postas a minha frente. Toda vez que um prato esvaziava, os garçons traziam outro maior ainda.

-Certamente que sim, mas eles não são comuns. – Oliver respondeu um tanto surpreso.

-Saibam que temos dois! – Roy ressaltou começando a se estressar – O garoto e a garota da Zona 8 são velocistas e acho que eles não são como os outros tributos fortes das outras Zonas mais pobres.

-Claro que não são. A Zona 8 é tão privilegiada quanto as Zonas favorecidas pela Capital. – Dinah se manifestou e eu olhei-a chocada – Nunca viram imagens de lá? Os campos são verdes e vastos e, se não me engano, tem até uma cidade grande como a Capital. Eles podem ter vindo de lá.

-Sério? – eu olhei-os irritada e preocupada – Vocês deviam ter nos dito que os tributos de cidades ricas eram aceitos com maior facilidade!

-Não sabíamos disso até você dizer, Artemis. – Dinah se defendeu.

-É uma dedução, também. – Oliver continuou de cara fechada. Helena não podia dar palpites quando o assunto era outros tributos. Nossa sala era monitorada por vídeo e áudio e tudo o que dizíamos poderia cair nas graças do alto calão da Capital.

Ela até comentava algo comigo no meu quarto porque lá é a privacidade do tributo e, pelo menos isso, eles têm que respeitar. Fora de lá, nunca.

-Ótimo! Perfeito. Temos um super poderoso, treinado para usar seus poderes na arena. Tem algo mais que devamos saber? – Roy gritou nervoso, tacando os talheres sobre a louça de porcelana.

-Que não devem ficar nervosos só por causa de um ou outro tributo que se manifesta. – Oliver tentou nos acalmar, superioridade tomando conta de sua voz que estava relaxa até então – Além disso, esses raros casos, que sabem como controlar os poderes, são eliminados na abertura pelos jogadores mais fortes e ricos. Não subestimem os outros jogadores, crianças.

-Sim. Ainda têm outros tributos que devem se preocupar. – Dinah colocou a xícara de chá sobre a mesa e ajeitou o vestido elegante.

-Prestaram atenção em mais alguém hoje? – eu tentei me lembrar, mas tudo que me vinha à cabeça eram os tributos da Zona 6 nadando sem parar para respirar.

-Eu digo que os tributos da Zona 10 são perigosos. – Roy comentou, cruzando os braços e fechando ainda mais o cenho, se é que possível.

-Não foram treinados para ser perigosos. Não vão fazer muita coisa. – Oliver o respondeu.

-Pode ser que a garota não faça grandes coisas, mas o cara é surreal.

-Não se preocupe com eles, Roy. Os grandes desafios estão nos tributos das Zonas favorecidas da capital.

-Zona 5 é favorecida? – eu perguntei me lembrando da garota loira meiga e o menininho medroso que me cumprimentaram durante o desfile e o início dos treinos. Nem notei a presença deles hoje.

-Até a Sexta Zona eles têm muitos privilégios, então sim. – Dinah que respondeu dessa vez, desconfortável com aquilo. Seus olhos se tornaram um pouco tristes.

-Está se referindo as crianças vestidas de soldados romanos, né? – Oliver me olhou curioso e eu assenti. Ele parecia estar julgando mentalmente os dois – Eles foram treinados, certamente. Têm garra, vão lutar para viver. Nem sempre acabarão como querem, mais provável que morram, mas vão lutar.

-As mortes mais prováveis são as nossas, Oliver. – eu chamei a sua atenção, irritada com aquele julgamento frio dele. Dinah me olhou repreensivamente e até Helena ficou meio incomodado com o comentário. Roy bufou, mas sabia que eu estava com a razão. O mentor somente me olhava de soslaio – Dentre todos os tributos que eu vi, a maioria tem poderes. Não tem como uma semana dar conta de ensinar tudo a nós, Oliver.

-Com essa atitude certamente não.

-Não venha com discursos de auto-ajuda. Não cola. – eu respondi secamente, mas sem alterar minha voz – Temos velocistas, alienígenas e peixes contra nós. Além de magia e super-força. Diga-me, dentre todos esses, quem está mais perto do túmulo?

Oliver bufou e pegou o licor restante da mesa, levantando-se para sair. Dinah protestou e Roy o seguiu com os olhos, mas eu mantive-me focado no meu guardanapo de seda jogado sobre a mesa de marfim: — Só digo uma coisa pra você. – meus olhos o seguiram automaticamente, deparando-me com verdes orbes contrariados – Preste atenção nos seus adversários.

.

E eu estou prestando, mas tudo que vejo são adolescentes fadados a morte.

Realmente, essa aula de botânica já deu o que tinha que dar e acho que nem mais o instrutor presta atenção em suas palavras. Olhei os interessados na matéria que eram os da Zona 6, semi-peixes eu diria, e os da Zona 9, parecendo decorar todos as palavras que o instrutor dizia. Eu já tinha me dispersado e Roy estava dormindo de olhos abertos do meu lado, atônito e de boca aberta.

Quem diria que meu ex-cunhado seria um oponente tão fácil...

Os da Zona 11 e 12 também prestavam atenção, mas as meninas sorriam e o garotinho também, com exceção do garoto lindo de olhos azuis gelados que via aquilo tudo como se fosse completamente entediante.

Em seguida, tivemos as aulas de anatomia e todo mundo estava bem atento, com exceção dos tributos gelados da Zona 2, o rapaz de pele pálida sem tirar seus olhos de minhas costas, me incomodando profundamente; e os irmãos gêmeos da Zona 4, falando entre si a respeito de todas as coisas que incomodavam a eles. Estava começando a me irritar também.

Durante o almoço, Roy e eu nos sentamos no mesmo lugar, mas fomos perseguidos pelos tributos das Zonas 6 e 9, que ficaram conversando ao lado de nós e tentavam nos fazer parte daquilo. Roy respondeu uma ou duas vezes ao tributo nadador a respeito da geográfica da nossa zona enquanto o garoto da seis, sorridente, tentava puxar assunto comigo.

Eu até conversaria com ele, se eu não estivesse focada demais em encarar de volta o veloz, cabeça de cenoura, do outro lado da mesa, conversando com a alienígena e os outros tributos das Zonas mais pobres. Quando ele não estava me fazendo caretas, ele estava flertando e sorrindo para a menina verde de cabelos rubros, que corava e voltava a responder uma ou duas coisas para a falante loira da Zona 12. A garota da Zona 8 era seca e sentava solitária do lado do cabeça de cenoura, focada em sua refeição e em rasgar os guardanapos de papel com a faca, escrevendo qualquer coisa ou algo do tipo.

E só lá pro meio da tarde do segundo dia de treinamento, que eu fui descobrir quem o verdadeiro inimigo era.

Eu estava descansando nas arquibancadas, quase me deitando para cochilar, se é que era possível dormir com pessoas que poderiam me matar. Roy estava socializando enquanto treinava qualquer coisa perto da piscina, conversando palavras monossilábicas com o tributo moreno de olhos verdes da Zona 6, convidativo no meu conceito. Qualquer um que consiga manter uma conversa civilizada por mais de dois minutos com o Roy, mesmo com palavras curtos, merece um prêmio.

Uma garrafa de água largada ao meu lado na arquibancada estava pela metade e já era minha terceira seguida, as crianças da Zona 5 lutavam uma contra a outra aprendendo os movimentos segundo o instrutor enquanto a Zona 12 investia em arremessos de peso – eles eram muito fortes, de verdade. Os velocistas estavam variando as áreas de treinamento, correndo ali e aqui para aprenderem algo sobre escalada e armas de curto alcance, já que eles conseguiam encurtar a distância a qualquer piscar de olhos que quisessem entre os adversários.

Os gêmeos da Zona 4 estavam na academia, malhando seus músculos e dando risada entre si, enquanto os tributos calados da Zona 3 se direcionavam a área de informações químicas. A garota da Zona 2 aprendia com um dos instrutores a usar a umidade do ar a seu favor, transformando-o em pedras de gelo. Claramente que isso não era grandes coisas, mas creio que eles já tinham aprendido o suficiente nas escolas que freqüentaram antes de parar aqui.

-Relaxando, já? – uma voz maliciosa surgiu das minhas costas e calafrios percorreram minha espinhas, mas eu fiquei parada. Já imaginava a quem ela pertencia.

O garoto de pele pálida e olhos azuis parou ao meu lado, sorrindo de lado e pegando minha água para beber. Eu fuzilei-o com os olhos.

-Isso é meu. – eu disse a ele.

-É da Capital. – ele me avisou e eu arqueei uma de minhas sobrancelhas. Ele riu baixo, sentindo-se vitorioso com certeza, dando um gole na minha garrafa. Eu que não colocaria mais a boca ali. Ele murmurou algo, apontado para ele mesmo – E tudo que é da Capital é meu também.

-Que informação válida. Acho que posso conseguir um patrocinador com ela. – zombei, dando de ombros e me distanciando dele.

Pois não é que o ser irritante sentou-se ao meu lado e apoio o braço atrás de mim. Eu fechei meu punho, irada, pronta pra socá-lo de lá. Eu olhei-o de soslaio, ele sorriu e apontou com a cabeça para a garrafa em sua mão que, de repente, estava resfriada.

Eu sabia que eles já dominavam seus poderes. Droga, Oliver! Não serve nem pra alertar as pessoas, maldito!

-Gostei de você, Sete. – eu senti minhas narinas arfarem e eu sentia minha pele queimar de raiva.

-Encantador. Quer um prêmio?

-Eu posso salvar você durante os jogos.

-Claro que sim. Mas acho melhor você salvar a si próprio.

-Não preciso. Tudo que eu tenho que fazer é estralar meus dedos e o jogo acaba. – eu olhei-o chocada e irritada.

Claro que a Capital não colocaria uma pessoa tão poderosa assim nos jogos. Não quando ele pode até mesmo atrapalhar seu domínio...

-Mas isso não seria inoportuno para sua querida Capital? – eu disse tentando imitar sua voz de uma forma tola e me envergonhei quando ele prendeu o riso pra responder, me preparando para sair dali.

-Tudo é negociável. Até mesmo regras. – eu olhei e seus orbes azuis, brilhantes e tentadores, procurando por qualquer vestígio de mentira aparente.

Eu engoli em seco e me levantei, resmungando coisas para ele largar do meu pé, entretanto quando estava prestes a me retirar, eu ouvi barulhos como tempestade e risadas vindo de uma área aberta onde instrutores e Slade Wilson viam os tributos da Zona 1 treinando.

Meu queixo caiu quando vi a menina de cabelos negros ondulados, olhos azuis doces recitando palavras estranhas e fazendo com que variada coisas surgissem do nada, sem nenhuma matéria-prima para troca, como na alquimia. Seus olhos brilhavam dourados e arbustos surgiram do chão, cordas dentre tantas outras coisas para amarrar o boneco de teste no centro.

Então esse era o poder de uma maga e eu já não sabia mais onde colocar a minha cara chocada, esperando que o pior fossem os tributos que corriam mais rápido que a luz.

Do outro lado daquele espaço, o garoto com cabelo esquisito, parecendo formar chifres no topo, pretos e imóveis. Ele sorria de uma forma tenebrosa e se voltara para um pássaro que passava por ali, tornando seus olhos castanhos completamente negros e transformando suas feições em algo feio e maléfico. O pássaro chiou até planar ao ombro do garoto, piando todas as vezes que o menino falava com ele como se prometesse algo que ainda não pudesse dar. E, depois de algum tempo, o garoto esticou sua mão para frente formando um buraco negro, sugando tudo que a menina da Zona 1 tinha conjurado, sem abrir a boca para falar nada mais que sua risada sinistra. Depois transformou o céu azul de Metrópoles em nublado, fazendo chover granizo.

Acho que todos ficaram preocupados com aquilo. Uma revolta vinda do tributo favorito da Capital? Será que ele iria destruir a cidade? Ele era muito, muito poderoso e eu podia sentir uma coisa maligna, mesmo estando longe dele, se manifestando naquela quadra. Minha mãe diz que tudo é possível nesse mundo em que vivemos, eu concordo plenamente com ela, até o momento em que chegamos a falar de liberdade – isso não passa de ilusão.

Realmente, eles ficaram com medo daquilo, porque quando todos menos esperavam, Slade surgiu na lateral da criança e cortou o pássaro ao meio com a espada disposta para treino, jorrando sangue e sujando a roupa do garoto, sem falar nele mesmo. O menino tinha voltado a sua feição natural, mas ele estava aborrecido e discutiu com Slade.

-NÃO É PERMITIDO POSSUIR COISAS FORA DESSA QUADRA! – Slade berrou contra o garoto e ele nem tremeu, apenas dando de ombros e seguindo para a instalação dos banheiros com os guardas nas portas. O teto retrátil se fechou e tudo que escutávamos além das reclamações de Slade foram às porradas das pedras de granizo contra o material cromado extremamente caro.

Eu olhei para o garoto da Dois que sorria sem jeito, voltando a me ver.

-Esse é o poder da Capital. – ele me avisou piscando um de seus olhos.

-Se fosse, Slade não teria parado o garoto. – eu rebati.

-Slade não vai estar na Arena, Sete. – ele continuou e se levantou, me entregando a garrafa congelada – Mas Klarion... – ele apontou pro banheiro, se referindo ao garoto da Um e eu respirei fundo – Vai estar lá e vai estar no meu time. – apesar dos calafrios, eu não tirei meus olhos da cara safada daquele desgraçado da Dois – E você também pode estar se quiser, mas... – ele levou a sua mão gelada até meu rosto, mas eu me neguei a recuar, o gelo já queimando a minha pele – Seu tempo é limitado. Não abuse da minha bondade.

Quando eu menos esperava, ele fechava a distância entre nós, mas eu puxei meu rosto e sai andando, sem olhar para trás, sentindo minha bochecha arder com a mudança de temperatura. O instrutor me olhava feio como se eu estivesse flertando com o Dois, mas eu o ignorei, seguindo para o tatame onde iria enfrentar a instrutora duas vezes maior que eu.

Uma coisa boa do meu encontro com ele foi que ele me deu energia pra lutar, ódio pra quebrar uma parede ao meio, se eu fosse super-poderosa. Já que não sou, vou tentar jogar alguém maior que eu no chão.

Entretanto, minhas pernas vacilaram quando o garoto da Zona 1 surgiu passando ao meu lado com os guardas na sua cola. O cheiro de sangue do animal inocente emergindo e os olhos castanhos me seguindo, uma coisa tão ruim envolta daquele menino. Eu, curiosa, me aventurei a olhá-lo só para me arrepender depois:

Klarion, o menino bruxo, sorriu tenebrosamente para mim, condecorando seu rosto com aquela segunda face horrível que havia desfigurado-o e suspirou meu nome, somente para mim, ler em seus lábios finos e quase inexistentes.

.

A tempestade só cessou na madrugada daquela noite e eu associei ao fato de Klarion ter, finalmente, pegado no sono.

Então era esse o poder da magia negra?

Notas finais
Se tiver coisas erradas a culpa é do Word porque foi ele quem corrigiu esse capítulo dessa vez. :F
Ah, perguntas?
Eu só tenho a dizer que vocês podem ficar felizes! Wally apareceu meus amores! :3 Ele e Artemis estão brigando. Aguardam mais interação para o próximo capítulo, sem falar nos restantes.
~.~
Klarion está aqui e aew já sabem... A porra vai ficar séria!
Beijos e Obrigada pelo carinho, suas pessoas lindas!