Jogos Justos

4 III - Metrópolis


Notas iniciais
Sinto muito pelo atraso, mas eu tinha coisas pra fazer e eu tinha que terminar Espiando o Futuro antes que a culpa me consumisse! ;)
Mas cá está, outro capítulo longo, de Jogos Justos!
Um pouquinho de tudo pra vocês!
Boa leitura! ;3

A tarde terminava aos poucos e eu e Roy já não agüentávamos mais aquela viagem insuportável de trem. Precisávamos do sol mesmo que queimando nossas peles – o que o costume não faz? – e estávamos agitados com a chegada a Capital que seria a qualquer instante. Nós estávamos com nossas roupas de domingo desde o dia anterior e eu precisava, urgentemente, de uma troca um pouco mais calorenta – eu até colocaria o pijama se alguém não tivesse entrado no meu quarto enquanto eu tomava café da manhã e o tivesse pegado para lavá-lo.

Dinah já estava com seu quarto conjunto de roupa, noturno e estilo Capital para parar de me confundir – espartilho roxo escuro elevando os seios, mangas bufantes brancas com babado bordado em padrões que eu não queria prestar muita atenção, saia longa um pouco volumosa nos quadris com detalhes bordados entre os tons que a enfeitavam. Um chapéu com véu no rosto pendia em sua cabeça enquanto os belos cabelos loiros fixavam-se em um coque lateral – isso nunca pararia nos meus cabelos. Bota de salto alto preta e uma pequena bolsa presa a seu braço. Todas as vezes que passava por um espelho, ou quando um espelho passava por ela, dava um jeito de arrumar os mínimos defeitos de seu andar ou de suas vestimentas, sempre tirando pó imaginário de suas roupas.

Oliver estava bem mais vestido quando lanchávamos à tarde no vagão comunal – descobri o nome depois que Roy me disse que nosso mentor havia me levado até meu quarto assim que eu tombei minha cabeça no encosto do sofá. Eu acho que agradecer aquilo não mudaria nada e Oliver já havia mudado a forma como estava me tratando sem nós termos trocado muitas palavras, o que eu acho estranho demais. Mas aí tem todo o mistério de que Dinah podia tê-lo feito mudar de idéia durante aquele jantar em que eu não fui – e me arrependi amarguradamente. Um terno azul marinho, com listras tremidas enfeitando a costura e se espalhando bem pela vestimenta, uma camisa clara de tom pastel por baixo e uma gravata borboleta branca combinando com o a risca de giz.

Eu até o elogiaria se não estivesse preo

cupado com o estado físico do vestido de Jade. Roy me encheu o saco por eu continuar a esfregar as partes amassadas com força, tentando desfazer a imperfeição, mas avisei-o que eu poderia até não querer saber de papo com o povo da Capital, entretanto meu vestido ficaria impecável para prová-los que não é porque não moramos na Capital que não cheiramos bem ou não nos vestimos bem como Michael Carter às vezes cismava em tirar sarro junto dos tributos.

Eu sou limpinha, droga!

–Está tendo tanto trabalho para que gostem de você? – Roy me provocou apoiando-se na janela de vidro esperando que aquelas matas litorâneas dessem fim para nós vermos o sol beijando o mar da cidade Capital.

–Se eu quisesse que gostassem de mim, a primeira pessoa que eu iria tratar bem seria meu adversário. – eu olhei-o de soslaio enquanto ajeitava os laços pretos do vestido de minha irmã; os orbes azuis escuros em mim, eu ri internamente, vitoriosa.

–Esse vestido...? – ele apontou, só notando agora o que eu usava e eu assenti, ajeitando a barra e as mangas.

–É dela. – eu acariciei o tecido e olhando para o passado. Minha irmã ficava maravilhosa nesse vestido!

–É seu. – meus olhos viajaram de volta para a cara dele e ele abaixou os olhos – Ela não precisa dele.

–Não diminui o valor sentimental que ela tinha por ele e eu vou continuar tendo por ela. – eu me senti bem irritada de repente. Sempre que ele falava de Jade as coisas não acabavam muito bem.

–Não tem haver com carinho, Artemis. Ela te deu esse vestido. Ele é seu! – ele insistiu e eu dei de ombros.

–Você nunca entende nada, cabeça de cenoura. – e me dirigi para a poltrona mais próxima, tomando cuidado ao me sentar no macio e não amassar minha roupa.

–Vai voltar com os apelidos?

–Eles sempre estiveram aqui, topetinho. – ele arfou as narinas e eu cruzei meus braços.

–Pare de brincar, Artemis. – e o bipolar estava de volta – Não é algo que devamos nos ligar agora.

–Se não brincar comigo, Roy, – eu mencionei seu nome da mesma forma que disse o meu – Com quem você vai? Oliver? Dinah? Quando morrermos eles não vão passar de lembranças rápidas antes de nossa morte.

–Eu não pretendo morrer, Artemis! – de repente ele estava perto de mim, mãos cerradas e duras nas laterais de seu corpo e sobrancelhas franzidas – Eu tenho que voltar pra trazer sossego a pessoas como seus pais na nossa Zona!

Ele é muito engraçado não? Ele não pretende morrer?! Bom, ele não é o único que procura por probabilidades nesse mundo – mesmo que minha vida seja um martírio e eu a odeie, morrer não era um destino que eu almejava aos dezesseis anos – mesmo por tudo que passei.

Mas a realidade dura das coisas e que todos nós temos que encarar um dia, crescer e dar a cara pra bater, é que somos sacrifícios para manter um circulo vicioso, incorruptível e cruel de figurões da Nação da Luz que, querendo ou não, nos faz pensar que essa nossa tradição é o que mantém a paz para nós, os pobres e burros dos distritos que vivem sob seus comandos.

–O que quer, Roy, ou o que “pretende”, não importa! – e ele conseguiu trazer o pior de mim a tona, novamente. Esse tem um dom impressionante de me tirar do sério – Quando pisarmos lá fora, eu e você seremos apenas peças no jogo deles e, se eles quiserem te derrubar; eles vão! Então, não fique se gabando da sua força de vontade pra alguém que sente na pele exatamente o que você sente!

Oliver e Dinah escutaram nossa discussão e viraram suas cabeças na nossa direção, seus olhos de soslaio preocupando-se caso um de nós pulasse no pescoço um do outro.

–Só que eu vim pra cá porque eu fui escolhido! – ele exaltou batendo no peito e com o cenho cerrado.

–Você quer o que? Um prêmio? Uma salva de palmas? Uma oração por sua pobre alma desafortunada? – eu desisti de tentar não amassar o vestido e levantei, fechando a distância entre nós e fazendo com que minha cara estivesse no campo de visão de seus olhos de fuzil. Ele estava muito puto.

–Ei, crianças. Já deu. – ouvi Oliver dizer antes de Roy grunhir e bater em sua coxa pra não me machucar. Eu não pisquei meus olhos enquanto Dinah tremeu e Oliver marchou até nós.

A mão de Roy apontou a direção contrária de onde íamos e seus olhos azuis estavam opacos, cheios de amargura por algo que não sei explicar – DEPOIS DE TER VISTO TUDO PELO QUE SUA MÃE PASSOU QUANDO A JADE MORREU, VOCÊ AINDA É CAPAZ DE SE OFERECER?! – certo. Agora eu sabia o que aquele olhar significava – ARTEMIS, SUA MÃE PODE PRESENCIAR A MORTE DE OUTRA FILHA! – Oliver segurou Roy pelo ombro e ele se debateu, puxando o braço e apontando um dedo na ponta de meu nariz – Sua consideração é maior por uma garota qualquer do que por sua família!

Agora eu não me segurei – SE ESTIVESSE TÃO PREOCUPADO ASSIM COM A MINHA MÃE OU COM A MINHA FAMÍLIA, NÃO TERIA NOS IGNORADO TODOS ESSES ANOS!

–Basta. – a voz firme de Dinah nos fez virar para ela que estava parada atrás de mim e de Roy. Pensei que ela fosse dar sua visão da nossa discussão, tentar acalmar aquilo ou berrar conosco por estarmos fazendo escândalo no trem, porém ela somente apontou para as paredes pretas do túnel em volta dos trilhos por onde passávamos e respirou fundo, sorrindo tristemente – Vão perder a vista se continuarem discutindo.

Quando voltei para encarar Roy e continuar nossa discussão, Oliver já estava entre nós e me empurrando para a janela longe da qual Dinah convidava o ruivo para assistir junto. Eu cruzei meus braços e o estado do vestido de Jade já não importava mais.

Oliver me largou quando minhas pernas encostavam-se à parede cromada do trem e meus olhos estavam no vidro que ainda não mostrava a bela visão do sol poente – ou provavelmente nós estávamos tão convictos de nossa briga que perdemos as poucas coisas que nos restava aproveitar; Eu vi os cabelos loiros com mechas mais claras de rabo de olho enquanto os orbes verdes tentavam desvendar minha raiva.

–Não íamos nos matar. – eu avisei-o quando ele continuava quieto demais.

–Eu só não queria que meus pupilos aparecessem com rugas de estresse. – meu pescoço automaticamente se virou para que eu pudesse encará-lo inconformada com sua futilidade. Ele deu de ombros e voltou a ver a janela – Pelo menos a intenção foi boa.

Eu poderia ter respondido àquilo, mas eu estava irritada e todas as vezes que eu olhava Oliver eu podia ver a camisa bege esbranquiçada dentro da calça social marrom do meu ex-cunhado de fundo, e o que eu definitivamente o queria numa boa distância do meu alcance – eu iria quebrá-lo a três metros se ele ousasse esfregar na minha cara o que eu faço ou o que eu deixo de fazer.

Entretanto, a raiva e a mágoa foram embora quando aquele brilho alaranjado vindo do horizonte sobre águas cristalinas desenhando ondas e reflexos em sua superfície tomaram meu campo de visão.

Eu nem senti meu queixo cair e meus olhos arregalarem com a deslumbrante vista, estava contente demais – o mar é a coisa mais bonita que eu já vi. Tão amplo, sem fronteiras e independente. A palavra mar me lembrava liberdade e isso é meu sonho de consumo inalcançável – mesmo que um tributo vença os Jogos a diferença será que terá um título, uma casa bacana e poderá visitar a Capital sempre que tiver vontade.

(Ah! Mas é claro! Como eu poderia me esquecer desse detalhe extremamente importante: quando o último vencedor da Zona alcançasse tal idade, se houvessem mais de um, o vencedor mais novo era obrigado a tomar seu lugar e ser o mentor consagrado dos tributos dos anos seguintes.)

Inspirador, não?

De qualquer forma, outra coisa que dominou minha visão foram os prédios enfeitando a baía dentro de uma muralha – apenas cumprida; a altura não era tão relevante – de marfim brilhando com os raios do sol cálido e exibindo a arquitetura típica da Capital: arranha-céus suntuosos, cada qual com suas características; mansões espelhadas e praças abertas, com estátuas gigantes de ouro e árvores raras (pelo menos pra mim); postes de energia grossos como torres e automóveis tão modernos que quase flutuavam. Ruas lotadas de pessoas sorridentes e sociáveis, brincando com seus cachorros de pedigree casto e suas crianças de ouro.

O caminho que o trilho do trem percorria nos fez subir uma rampa alta, mas nada íngreme, até que estávamos a dez andares do solo. Eu tremo só de lembrar em ver aqueles carros caros e grandiosos minúsculos e pessoas com roupas coloridas como formiguinhas na colônia – a única diferença, novamente, era o fato de eu não ver ninguém trabalhando tão pesado quanto uma formiga.

Rapidamente, antes que eu pudesse aproveitar o divertido prédio do jornal da Capital com um planeta gigante rodando em seu topo – cujo nome era Planeta Diário – estávamos entrando numa estação enorme completamente de vidro lotada de pessoas gritando alvoroçadas, batendo palmas e chamando torcendo por nós. Eu quase pulei para trás quando um cara com a face pintada de azul e vermelho com cílios postiços cor de rosa batia na janela, o trem diminuindo a velocidade e parando, animado com a minha presença.

Quando olhei para o lado, Oliver estava mais para trás e eu pude ver Roy acenando junto de Dinah para os ricos insanos da Capital, dando a eles o que queriam com um meio sorriso típico que ele usava para seduzir as garotas na Zona 7 – isso antes de ele resolver ficar com Jade. Dinah estava orgulhosa do ruivo mala sem alça e forçava seu sorriso mais amplo enquanto os guardas desciam do trem e mandavam todos abrir espaço para que pudessem passar com as malas de nossa representante (ela me convenceu de que ela seria responsável pelo nossa presença impecável e pontual em todos os lugares e nos ajudaria da forma que ela pudesse enquanto lutássemos nos Jogos) e, depois, nos levar em segurança até nossos alojamentos que eu não lembrava onde seriam.

Alguém limpou a garganta e eu me virei para ver o loiro sorrindo satisfeito para mim, levando um dedo na direção do meu queixo e forçando-o levemente para cima, fechado minha boca. Eu provavelmente parecia uma retardada apática a vista dos ricos da Capital enquanto Roy era o bonitinho da Zona 7 com o sorriso galanteador.

–Não se preocupe. – a voz grossa de Oliver soou e me acordou de mais uma sessão de surra mental, desta vez em mim mesma. Ele deu sinal com a cabeça para que eu o acompanhasse na direção da saída do trem – O povo de Metrópoles gosta de gente risível.

Eu provavelmente voltei a essa característica quando ouvi aquela palavra saindo da boca de Oliver Queen.

Item que dever ser riscado da minha lista quando eu tiver tempo de reformar o meu caráter: não julgar um livro pela capa ou por suas aparências públicas.


Depois de darmos uma volta pela cidade na limusine maravilhosa que nos acomodava bem, ainda mais as oito malas de Dinah, e a ouvindo falar de alguns pontos turísticos os quais agradavam meus olhos – qualquer lugar que tivesse árvores foliadas em suas ruas me agradaria, na realidade – seguíamos por uma estrada coberta por copas de árvores imensas que nos levavam a outro lugar. As luzes da cidade enfeitando-a na noite atrás de nós não me deixavam ficar parada no banco de couro. Era maravilhoso ver aquelas cores diferentes e aquele ar fresco e leve mesmo sendo uma cidade tão povoada.

–Assim que chegarmos ao Palácio da Justiça, vocês serão deixados com os esteticistas e a estilista. – eu me virei para encarar Dinah que retocava a maquiagem no veículo em movimento sem o batom escorregar um milímetro longe de sua boca.

–Não sejam teimosos e deixem que eles ajeitem vocês. Tributos bonitos ganham patrocinadores e eles fazem diferença, não esqueçam. – Oliver nos alertava – Além do que, precisarão de toda ajuda que puderem ter.

Eu franzi o cenho com aquilo. Eu sei que não sou o exímio exemplo de beleza, nem chego perto, mas não precisava esculhambar. Porém, por mais tentadora a3S oportunidade de responder aquilo, não falei nada. Oliver estava certo no final das contas – o povo da Capital se preocupa com as aparências e com seus poderes nos Jogos. Tanto faz se você for inteligente, capaz de sobreviver por dias numa selva repleta de perigos ou simplesmente humano. Se não for meta-humano ou bonito, não teria chance de ganhar patrocínio e acabaria morto mais cedo ou mais tarde.

Eu mal notei que o carro parou quando um guarda abriu a porta da limusine e sinalizou para que nós saíssemos. Nem sei o que achei naquele momento, mas alguns homens usando ternos faziam filas para pegar as bagagens de Dinah e voltavam para trás das portas de vidro automáticas. Voltei meus olhos acima e visualizei o prédio onde ficaríamos pelas próximas duas semanas: o Palácio da Justiça.

Apesar de ser enorme e muito bonito, não lembrava nada a um palácio. Ele era redondo, com vidraças enormes por onde a luz passava e tinha apenas seis andares. Ele era prateado puxado para o branco – imagino que durante o dia aquilo ali brilhe tanto que possa servir como um farol – e bem largo. Depois de entrarmos, eu vi que fazia jus ao tamanho: um grande salão de recepção, com obras-primas penduradas nas paredes e artes espalhadas em prateleiras bem localizadas, não deixando nada muito cansativo e tornando tudo cada vez mais interessante. Sofás esparramados por ali e um quadrado de monitores gigantes, telas que reproduziam o Gladiador Dourado e um assistente comentando animadamente a respeito dos Jogos dos anos anteriores, dependurado do teto e centralizado na sala. Seguranças espalhados pelo lugar e corredores que puxavam para cantos diferentes, alas, cada qual saindo de sua direção e levando para algum lugar.

Eu estava muito espantada com aquilo tudo e não tive tempo de ver se o ruivo irritante estava aproveitando a vista, além de que não importava mesmo – era certo que iríamos morrer; se ele é burro o suficiente para achar nada disso daqui emocionante por si só, não serei eu quem vai lembrá-lo disso. Não agora quando era muito mais legal seguir por um dos corredores que levava a Ala Leste do Palácio da Justiça.

Foi só então enquanto andávamos no corredor de paredes pintadas em cinza chumbo com luzes pálidas nos levando a algum lugar que eu descobri que aquilo ali era muito maior do que imaginava: quando menos esperava que uma janela fosse surgir naquele lugar escuro comparado com toda a clareza e limpeza de Metrópoles, do prédio em si também, as paredes pretas não existiam mais para dar lugar a um caminho envidraçado, com meras luzes penduradas de uma única faixa restante do teto, e que seguia bem mais adentro do que o imaginado.

Ao olhar para fora, nós passávamos dentro de uma passarela, uma enorme avenida dentro do local, completamente iluminada e cercada por arquibancadas fixas altas; depois de olhar para o outro lado e ver um armazém – que, para mim que vinha de um lugar cheio de armazéns de concreto armado e indústrias sem graça, não parecia nada – da mesma cor sólida que dominava a arquitetura da cidade, as portas levantadas e empregados do local enfiando as carruagens com cavalos de raças majestosas de cores diferentes; deduzi que o final da avenida era onde um vão circular se encontrava, um grande espaço e mais atrás o começo de um pilar redondo de uns seis andares que possuía um terraço coberto por algo similar a parte redonda da fachada do Palácio da Justiça.

Era majestoso. Eu nem tive tempo de sentir raiva do povo da Capital por viver num lugar tão belo enquanto passava ali por cima.



–Certo. Eu estou cansada de brincar de cobra-cega, Dinah! Estamos andando há horas por corredores escuros e eu nem sei onde estão me levando! – eu reclamei revoltada com as poucas luzes e os guardas musculosos em branco nos levando até tal canto que Oliver e Dinah não queriam nos dizer. Acredite se quiser, mas os ruídos de Roy eram mais irritantes do que meu desabafo agora – Estamos na Capital, ou não? Cadê a luz daqui?

Pfft... Novatos. – Oliver murmurou segurando uma risada e me deixando mais nervosa.

–Chegamos. – ela respondeu com um sorriso meio malicioso quando um brilho pálido estendeu-se nas portas que aparecerem no final do corredor escuro me cegando momentaneamente.

E era uma sala enorme e redonda, dividida no meio com divisórias de aço. Uma cama que parecia ser gelada de cada lado, com escorredores do lado e localizada no centro de cada metade. Um estofado de branco de couro como colchão e utensílios suspeitos pendurados em locais específicos na estrutura da cama. Outras coisas estavam espalhadas pelo quarto também, mas eu notei mais as pessoas usando aventais brancos e máscaras antivirais nas bocas.

Tudo bem que se eu gritasse que não topava fazer cirurgia e isso não mudaria minha personalidade eu seria a maior idiota que a Zona Sete um dia escolheu, mas era de arrepiar ver aquelas pessoas se dirigindo até mim e falando comigo com aquele obstáculo de plástico no caminho. Além de que Oliver e Dinah se divertiam as minhas custas na maior cara de pau.

–Venha. – uma mulher (acho que era do sexo feminino porque a voz era fina) com cabelos espetados brancos e olhos verdes com cílios postiços atirando para lados diferentes com ângulos diferentes.

Eu me assustei com aquilo. Admito. Me virei para ver se Dinah falava alguma coisa ou Oliver, ou até mesmo Roy se manifestava e falava a besteira primeiro, mas a outra pessoa já o encaminhava para o seu canto e meu mentor saía conversando com Dinah porta a fora.

Perfeito. Fiquei sozinha com um bando de gente cujas intenções não faço nem idéia quais sejam.


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Esteticistas – eis o nome daquelas pessoas estranhas que me deram banho como a um bebê, lavaram meus cabelos, me depilaram e fizeram todos os tratamentos de beleza que eu vira na televisão. Por isso que os tributos sempre apareciam bonitos, de cabelos penteados, no estilo Capital, e bem vestidos (eu ainda usava uma camisola de plástico que terminava no meio das minhas coxas).

Aliás, as divisórias serviam para que eu não visse Roy andando semi-nu de um lado para o outro durante nossas reformas.

Quando começaram a mexer nos meus cabelos, depois de alguns banhos com sais de nomes completamente esquisitos e cheirosos, um homem que parecia uma mulher fez cara feia e olhou para mim com reprovação.

–Ele está muito longo! Vamos repicar tudinho! – eu quase estapeei a mão dele.

–Não! – eu gritei e todos os meus esteticistas pararam para me encarar. Até uma moça do lado de Roy pôs a cabeça para o meu lado e tentou entender o porquê de eu estar gritando. Eu corei, mas me recompus rapidamente e continuei – Não corte o cabelo. – saiu uma voz séria e ameaçadora.

Nada mal. Pela minha insegurança achei que a voz que sairia seria tremida e baixa. Pelo menos deu pra assustar o cabeleireiro um pouquinho. As moças olharam para mim com sobrancelhas arqueadas e, se as máscaras não fossem de um branco tão puro, acho que veria suas bocas abertas questionando meu olhar nervoso do cara com a mão no meu cabelo.

–E por que não? – essa voz era diferente e não veio do homem que mexia em mim.

Virei-me para encarar uma mulher de cabelos pretos longos e ondulados, brilhantes e muito mais bonitos que os de minha mãe; olhos azuis estreitos com cílios longos e naturais; rosto definido, bochechas altas e uma boca tão vermelha e bem formada que me deixava com vergonha de aparecer assim a sua frente. Poderia ser pior, não?

Uma de suas sobrancelhas arqueada e mãos nos quadris, pernas um pouco abertas, e sua roupa não era nada que a Capital usava: calça colada no corpo preta, alguns rasgos na altura dos joelhos e perto da cintura; uma bota alta de cano três/quartos roxa e uma blusa decotada até abaixo da linha dos seios, quase no umbigo, com o contorno do decote em roxo e o restante do material era branco – pelo brilho que fazia parecia de couro (e como era grudado no corpo); uma gola alta roçando em seu queixo fino, mas ela parecia não se incomodar com o adereço da blusa.

Ousadia em seu andar, em seu olhar e na forma em que ela se vestia – a Capital não deveria gostar muito dela, mas pelo menos as cores eram do estilo.

–Uma promessa. – eu respondi engolindo em seco depois que ela fechou um pouco a distância, seu salto alto batendo no chão de granito.

–Promessa? – ela avaliou se aquilo ali não era mentira em meus olhos. Não, não era – Bom... – ela sacudiu os ombros um pouco e relaxou a postura, permitindo seus ombros lineares se posicionarem para trás e seus braços caíram aos lados – Então não podemos fazer nada, né? Promessa é dívida.

O cabeleireiro dizia algo sobre o comprimento que iria me atrapalhar durante os Jogos, que com ele eu poderia facilmente ser puxada, estrangulada, coisas do tipo que me poriam medo. Entretanto, antes que eu pudesse dizer que não me importava, a mulher deu dois passos mais largos e o cutucou para que saísse sem dizer nada. As esteticistas assentiram e foram para o lado de Roy junto com o cabeleireiro que me lembrava um cão com o rabo entre as pernas – aqueles que eu via na televisão.

–Esse povo não sabe o que realmente importa certo? – ela perguntou. Sua voz um pouco mais doce do que a aspereza prévia e suas mãos massageando as ondas que se formavam nas minhas madeixas volumosas. Eu não respondi, mas acho que ela entendeu que eu ainda estava tentando descobrir quem era – Essa sua promessa é arriscada aqui, mas eu vou dar um jeito de te ajudar. – e ela parou na minha frente, novamente, e sorriu com lábios vermelhos e um brilho inocente, completamente diferente do anterior quando ela enxotara todo mundo, nos orbes turquesas – Eu sou Helena Bertinelli e eu sou sua estilista.

Eu fiz um quase sorriso, um pouco apreensiva com a mudança de temperamento dela, mas ela não parecia tão estranha assim – era bem melhor tê-la por perto do que aquele bando de gente esquisita, com cílios gigantes coloridos e cabelos psicodélicos. Só depois de certo tempo que eu descobri que ela esperava por saber quem eu era. Eu senti minhas bochechas arderem novamente pelo meu lapso momentâneo.

–Artemis Crock. – falei rápido e estiquei minha mão para que ela apertasse.

–Que nome bonito. Tão diferente. – ela fez uma expressão impressionada e voltou a tocar em meu cabelo, colocando-o para cima e para baixo enquanto eu pensava no que dizer em seguida para que não ficássemos num silêncio desconfortável. Porém ela voltou a falar – Sabia que seu nome é de origem grega?

Eu queria virar-me para ela e questionar o porquê de falar do meu nome quando deveríamos estar discutindo o que ela me faria vestir no desfile bizarro da abertura dos Jogos. Eu realmente não concordava com aquilo, mas a voz de Oliver veio a minha cabeça e eu lutei muito para não responder a Helena – por enquanto ela havia sido legal comigo.

–Minha professora disse uma vez, mas eu não havia dado muita bola na época. – a mais pura verdade.

Quando se é criança na Zona Sete, você só pense em duas coisas: água fresca e sombra, pois nossa escola era uma tenda aberta, branca, velha e furada, onde aprendíamos o básico do básico e usamos banheiro químico. Na hora do recreio, disputávamos lugar na sombra de um toldo ao lado do trailer que dava milho enlatado pra gente. Durante a aula, sentávamos em cadeiras de ferro superaquecidas usando roupa de inverno para não nos queimarmos; durante o intervalo, revezávamos algumas cangas esticadas perto do trailer de alimentos – tentando buscar pela sombra.

Eu pelo menos aprendi algumas coisas. Não vejo qualquer outra criança fora da Zona Sete ganhar educação em situações precárias como essa (bem... digo no sentido de aprendizagem. Creio que as pobres crianças das zonas 10, 11 e 12 passem por muito mais que eu).

–Pois é. – Helena continuou, largando o meu cabelo de novo e se posicionando a minha frente, passando a mão nos braços como se estivesse checando à aspereza deles. Agora creio que não depois de todas as horas que passei com várias pessoas esfregando minha pele com sais e tirando várias camadas ressacadas – Ártemis é o nome da Deusa grega da caça e patrona da Lua, entre protetora dos partos e da virgindade. – aquilo foi interessante. Onde ela queria chegar ali? – É um nome muito forte e quem o possui deve honrá-lo de coração.

–Desculpa, mas o que importa isso agora?! – eu não pude evitar. Sou uma pessoa muito estourada, fazer o que? Helena levantou os orbes claros para olhar minha reação.

–Muito, falando sério. – ela me soltou e jogou algumas mechas paras trás, ajeitando o cabelo e apoiando uma mão espalmada ao lado das minhas pernas, colocando a mão livre na cintura e fazendo uma expressão arrogante parecidíssima com a de Jade – Temos que dar um jeito de fazer com que as fantasias da Zona 7 se destaquem esse ano para dar aos tributos prestígio e chamar atenção, claro. Patrocinadores gostam de carroças bem enfeitadas e roupas interessantes, além de coerentes. – eu arqueei uma de minhas sobrancelhas com a justificação dela – A não ser é claro que você queira se vestir de uma fábrica de cadeiras ou algo do tipo.

–Mas a Zona Sete não tem nada haver com a Grécia!

–Não precisa ter se abalar os telespectadores. – Helena estava muito obstinada em me fantasiar de grega, porque o brilho que cintilava em seu olhar era muito assustador. Eu não pude evitar meu reflexo que me fez jogar o corpo um pouco mais pra trás com a resposta dela. Eu não esperava por aquilo – Olha... Eu não estou aqui só pra te fazer bonita e te enfiar em vestidos feitos por mim, ta legal? — ela ajeitou sua posição e pôs ambos os pés no chão, gesticulando enquanto tentava me explicar – Eu quero ajudar você a provar para as pessoas lá fora que há mais do que os olhos possam enxergar, mas eles precisam de um incentivo pra isso. – ela parou e deu fez uma careta – Venhamos e convenhamos que eles não sentirão nada demais vendo alguém vestido de chaminé de indústria.

Realmente, aquilo fazia muito sentido.

Um silêncio desconfortável pairou entre nós enquanto eu tomava um tempo para pensar. Não que eu tivesse muito, claro. Afinal de contas, se Helena quisesse eu e Roy em fantasias gregas, ela não deveria estar aqui parada discutindo comigo – e eu podia jurar ouvir a voz irritante do meu mentor ecoando em minha mente enquanto me repreendia por estar sendo desagradável com aquela pessoa que pode fazer de mim tanto uma obra prima quanto um circo ambulante.

–Então... – ela puxou o assunto e eu despertei, voltando a encará-la cujos olhos azuis mostravam maior interesse e os lábios rubros formavam um sorriso meio malicioso – Conte-me tudo a respeito de suas habilidades.


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–Não sabem como estão charmosos assim. – Oliver mexeu com a gente enquanto juntava-se a equipe de maquiadores de Helena enquanto ela terminava os ajustes finais de nossos figurinos.

O armazém lotado de carroças como eu havia notado anteriormente, só que repleto de pessoas também. Os vinte e quatro tributos estavam ali, usando suas fantasias diversas representando suas zonas e com suas equipes de apoio, ensaiando o que fariam ou o que não fariam caso algo errado acontecesse – na Capital nada acontece errado, mas é melhor prevenir do que remediar.

Seguranças altamente armados contra meta-humanos e transmitindo raios inibidores de forças místicas passeavam entre os pequenos espaços dos grupos espalhados. Eu não estava com muito medo deles, mas sim do olhar dos meta-humanos da Zona 2 que encaravam eu e Roy como se fossemos refeição.

A garota tinha cabelos azuis escuros, coisa que eu nunca tinha visto antes, e uma pele tão clara que chegava a se tornar um azul também. Ela usava casacos de pele rigorosos e finos enquanto me cercava com aqueles olhos verde-água, tentando me fuzilar. Eu senti calafrios só de trocar olhar com ela, mas na briga entre gênios mais fortes o meu ganha, porque eu não desviei nem um momento até que ela estivesse cansada de me julgar ou que um de seus estilistas a atrapalhasse. Fosse o que fosse eu podia dizer que eu ganhei aquilo.

Já o cara, esse era alto. Muito alto! Com cabelos brancos e pele azulada, de olhos azuis tão claros quanto o tom da pele e um sorriso bem malicioso que me deixou paralisada; as roupas dele não eram muito diferentes das que a garota usava, mas como ele era excessivamente magro, elas ficavam esquisitas e um de seus braços ficava estrategicamente exibido na fantasia – algum truque ele usaria, com certeza.

Infelizmente, Dinah chamou minha atenção no meio de nossa troca de olhares hostis e eu não tive muito tempo de provar minha alta capacidade de provocação, e acabei perdendo a disputa infantil.

Além disso, um sentimento me dizia que eu tinha que tomar cuidado com esse cara – não sei bem o que, mas eu tinha que me cuidar de qualquer forma. Nos jogos então, tomara que eu nem esbarre com ele no início. Por enquanto, ainda tenho amor ao calor do meu corpo.

Quando Dinah me voltou de frente para o grupo voltei a encarar Roy e não pude evitar rir um pouco. Ele parecia um abacaxi gigante com aquela túnica dourada, cheia de detalhes em branco como o broche em formato de sol que segurava a túnica mostrando metade de seu peitoral. Em uma de suas mãos um instrumento, uma lira bonita que, de fato, funcionava feita – ou pintada – de bronze com gravuras gregas; A outra mão dele servia para tocar a lira e uma sinfonia que ele havia aprendido em uns 45 minutos enquanto terminavam de enfeitar o cabelo dele com alguma coisa que lembrava ao sol.


–E Roy será Apolo, Deus do Sol e irmão gêmeo de Ártemis. – Helena nos dizia enquanto terminava de jogar os tecidos já costurados sobre uma de suas mesas limpas de trabalho. Eu e ele já usávamos roupões, trocando olhares nervosos a respeito de tudo aquilo – E ele é o Deus da música, também.

–Ta bem. Roy vai tocar uma harpa... – eu comecei com a minha revolta.

–Lira! – Helena me corrigiu acariciando o instrumento ao seu lado.

–Isso. E eu vou fazer o que?! Partos durante o desfile?! – Roy supriu uma risada irônica ao meu lado enquanto eu mostrava claramente o meu aborrecimento.

–Não se preocupe senhorita Esquentadinha. – minha estilista avisou-me, voltando a mexer nos meus cabelos soltos – Você vai saber exatamente o que fazer. E eu vou ter que descobrir uma forma de mexer no seu cabelo sem transformá-lo em uma juba de leão.


E ela descobriu o que fazer com o meu cabelo, prendendo-o numa trança interminável bem próxima a minha coxa, com vários tipos de flores penduradas nele já que eu representava Ártemis, a Deusa da caça e da vida selvagem, dentre tantos outros aspectos. Entretanto, minha túnica era prateada com detalhes em verde escuro e preto, sendo a saia do vestido aberta nas laterais para melhor movimentação e decotado nas costas, até a lombar. Senti-me nua usando aquilo, já que nunca havia mostrado tanta pele fora de casa – as pessoas provavelmente me achariam bizarra por ter a cara bronzeada e os braços amarelados por andarem sempre cobertos.

Meu broche tinha o formato de uma lua minguante e ele ficava sobre meus ombros, dois para ser exata. O resto era tudo resto, tirando o fato de eu ter um arco de gravetos com algum tipo de vegetação decorativa nele e, como flechas, flores jacinto que eu jogaria na platéia.

Claro que a surpresa era o fato de eu usar o arco e flecha – como ela descobriu minha habilidade com aquilo? Nem minha mãe sabia quão boa eu era usando o arco e flecha, acho que Roy sabia um pouco, mas ele estivera comigo o tempo inteiro depois que vestimos os nossos roupões e ele não dissera nada a respeito daquilo. Não podia ser uma homenagem a Oliver porque ele não chegara nem a me explicar suas habilidades com aquilo. E eu tinha certeza de que Helena não havia falado com o meu pai – não que ele fosse dar de mão beijada essa informação.

Eu teria de perguntar a ela depois, porque o sinal do inicio do desfile já havia apitado e todos já se preparavam para sair do armazém e se exibir de frente as câmeras da Capital. Dinah estava meio doida com tudo aquilo, mas nos desejou boa sorte e nos avisou para ficarmos calmos, com um sorriso sutil nos nossos rostos, enquanto Oliver continuou a tirar um sarro de nossa cara saindo do local junto das outras equipes e Helena nos avisava para não nos esquecermos de fazer nossos papeis que ela faria o dela.

Subimos em nossa charrete com nossos cavalos todos montados em armaduras gregas e elmos dourados, eles sendo pardos em tons claros, nos puxavam para a fila do desfile, iniciando com os tributos da Zona 1 e terminando com os da Zona 12 – claro, nós éramos os sétimos, mas aquela avenida era tão grande que eu suspeitava que para chegar até o meio seria uns quinze minutos.

(Muito grande mesmo! Ali deveriam caber os cidadãos da Capital toda.)


Entretanto, eu subestimei a Capital, claro, e quando eu menos esperava estávamos nos aproximando do meio da avenida, os cavalos eram rápidos, mas sutis, e as pessoas aplaudiam animadas e exaltadas a todos os tributos bem vestidos que por ali passavam. A voz do Gladiador Dourado no microfone avisava o fim da apresentação dos tributos da Zona 6 enquanto os telespectadores apontavam para a carroça com decoração grega, impressionados.

Eu fiquei assustada com aqueles dedos de unhas pontudas e colorida em homens e mulheres, gritando e rindo e torcendo. Minha mão agarrou o corrimão e minha garganta fechou, eu não conseguia respirar direito. Eu sentia o arco na outra mão estralar com a minha força e tudo se tornou branco.

Eu estava com medo de uma platéia?!

–Que foi? – a voz áspera de Roy deixou sua voz entre os dentes travados num sorriso forçado, seu cotovelo cutucando minhas costelas que fizeram meus pulmões forçarem a respiração. Eu olhei para ele – Sorria! – ele acenava enquanto a voz do apresentador ainda não terminava de comentar a respeito da Zona 6.

–Eu fiquei sem ar, só isso. – eu o avisei balançando a cabeça pra despertar essa fobia estranha que eu nem sabia da existência.

–Parecia que você tava com medo. – ele me provocou, tornando aquele sorriso forçado em algo cafajeste e eu fiz uma careta para aquilo. Eu nunca admitiria ter medo, principalmente pra esse cara aí!

–Talvez do seu sorriso estranho. – eu sorri vitoriosa e a sensação de asma começou a esvair, porque aquele nossa pequena discussão estava me distraindo.

–Uma dica, Miss Simpatia... – ele começou e pegou a lira com as duas mãos, ouvindo o Gladiador Dourado ao fundo terminando o discurso – Imagina esse povo todo, brega do jeito que são, somente com as roupas de baixo.

Eu não esperava que ele fosse tentar me ajudar, de forma alguma, mas aquilo foi algo que fez minha falta de ar desaparecer num piscar de olhos enquanto um sorriso malicioso tomava conta dos meus lábios e eu me virava para encarar o publico do meu lado da avenida, com suas roupas de baixo esquisitas, coloridas e bufantes.

Realmente, tinha funcionado. Eu só não podia começar a rir que nem uma retardada, mas eu pude deixar um pequeno gargalhar sair ao mesmo tempo em que Roy riu.

Fazia anos que eu não o ouvia gargalhar.

–Senhoras e senhores, recebam de braços abertos, agora, os Tributos da Sétima Zona. – e a platéia foi à loucura assim que eu e Roy erguemos nossos braços agradecendo aquilo.

(tudo coreografado por Helena e Dinah nas últimas horas, enquanto Oliver não estava por perto para nos ajudar em momento algum)

Então a platéia se tornou silenciosa enquanto Roy iniciava a única melodia que ele havia aprendido a tocar na lira, alguma sinfonia que tinha haver com as guerras travadas da história antiga, fazendo pessoas chorar nas platéias enquanto nossos cavalos andavam mais devagar e no ritmo da música.

Eu também tinha meu papel, então peguei do balde entre nós, também decorado, uma bola feita com rede que possuía as pétalas das flores de jacinto, ao invés das flores com os cabos.


–Vai acabar furando o olho de alguém com isso! – Dinah discutia com Helena enquanto faziam a trança no meu cabelo.


Eu peguei uma delas e apontei para o meu lado da platéia, já preparada no arco de galhos e atirei, assustando ou espantando muitos espectadores. Mas quando a pequena bolinha abriu, num som como de uma bombinha, milhares de pétalas flutuaram como chuva de prata até eles e eles foram à loucura ainda mais, gritando extasiados e berrando palavras para mim e para Roy.

Não sei quantas vezes eu tive que fazer isso, atirar as bombinhas de flores de um lado para o outro enquanto a melodia de Roy não terminava, mas eu fiquei muito satisfeita quando o Gladiador Dourado comentou algo sobre nós no final de nosso desfile e fechou nossa parte, deixando que os tributos da Zona 8 iriam se apresentar.

Infelizmente, não consegui ouvir por causa do barulho, mas foi algo bom.

Aquela praça grande no final da avenida foi onde as carroças ficaram paradas, esperando até que todas estivessem ali para que ouvíssemos um discurso de Vandal Savage dizendo o quão interessantes éramos, como desfile havia sido maravilhoso e que era essencial a existência dos Jogos Justos.

Os cavalos, treinados, pararam a carroça do lado Impar, fazendo-nos sermos os últimos daquela fila da frente, deixando os tributos das Zonas mais pobres na segunda fileira. E eu, entediada e não querendo mais saber de Roy estar reclamando por seus dedos estarem doloridos por ter tocado aquela lira maldita, fiquei olhando os tributos por perto.

Ao lado da nossa carroça, os tributos da Zona 5, numa distância bem grande se quer saber, estavam usando fantasias de época também, mas eram de gladiadores romanos, com aqueles escudos pesados e espadas de bronze.

Senti um aperto no meu coração quando olhei o garoto de 12 anos, baixinho e de olhos azuis tristes, olhando para baixo nervoso e com as bochechas rosadas por ter participado daquilo tudo; ele devia estar feliz pela atenção toda, mas será que ele tinha noção daquele perigo todo? Por Deus, ele era tão novinho.

E a garota ao seu lado, parecia ser um pouco mais nova que eu, com olhos azuis também, mas corpo atlético e braços musculosos. Pelos poucos fios de cabelos não cobertos pelo elmo pesado descobri que ela era loira e também muito bela, um pouco mais baixa que eu talvez, mas uma garota muito bonita também.

Ela sentiu meu olhar e virou para me encarar, mas quando eu esperei por algo hostil, recebi dela um sorriso conformado e um balanço de ombros bem leve. Aqueles doces olhos azuis me lembravam de Bette e eu não pude evitar um sorriso de resposta.

Essas crianças ali do lado pareciam tão inocentes, tão leigas do mundo em que viviam. Eu tive que respirar fundo pra parar de lembrar que elas morreriam logo.

Os outros tributos que eu mirei foram da Zona 3, mas eu não os notei por muito tempo. Eles eram muito estranhos, tenho que falar. Pareciam ter a mesma idade, um pouco mais novos que eu, mas o garoto era anão e muito carrancudo (se ele viesse mexer comigo na Arena eu o apelidaria de Zangado com certeza), sem falar da pinta de nerd que ele tinha; Já a garota ela tinha uma estatura normal e cabelos rosa brilhantes, um pouco abaixo das orelhas, e eu não sabia bem do que eles estavam vestidos. Aliás, os olhos dela também eram rosa, então isso me deixou bem desconfiada... Só sei que eles não foram muito bem recebidos pela Capital com toda aquela parafernália de metal que usavam.

E os outros tributos que eu resolvi xeretar eram os da Zona 1, claro, a primeira carroça mais luxuosa. Temas místicos entalhados ali e um brilho mágico dourado que a incorporava. Os cavalos tinham a crina longa e branca, sendo que todo o resto de seu pelo curto era preto. As rodas de ouro e desenhos de círculos religiosos em suas celas.

Com certeza os dois riquinhos vieram da Capital. Eles não poupavam nada quando era pra um dos deles.

O garoto usavam roupas negras e fechadas, com seus cabelos pretos penteados de uma forma que ele parecia ter chifres, eu tive que conter uma risadinha. Os olhos dele também eram negros e profundos, macabros e ele era tão magro que o vento com certeza o levaria se o pegasse.

Já a menina, talvez bem mais nova, usava roupas brancas, quase um vestido de gala, elegante e um espartilho que continha fios enlaçados pretos para combinar com todo o resto. Seus cabelos eram negros e lisos e cumpridos, então eles se destacavam claramente, mas eles eram tão bonitos e brilhantes... Eu tive que enxugar a baba depois de vê-los tão bem arrumados; e ela também era muito bonita, com olhos azuis de tom médio e boca vermelha, cílios grandes e ela tinha um jeito de modelo, mas ela só seria escolhida pra profissão se fosse bem mais alta.

Por mais que eu quisesse continuar a ver com detalhes os meus futuros adversários, o desfile já havia terminado e agora Vandal Savage iria começar o discurso dele.

–Os estilistas sempre me impressionam, todas às vezes nesses Setenta e Cinco anos. – todos da Capital riram e eu tive vontade de vomitar. Ele estava a nossa frente, numa plataforma bem mais alta que nós e a única forma de vê-lo, sem adquirir um torcicolo, era prestar atenção na tela enorme a nossa frente.

Ele continuava a mesma coisa sempre, não importava o quanto os anos passavam. Seus olhos, seu rosto, sua cicatriz nunca enrugando por causa daquele seu poder inigualável de eternidade. Ele usava um uniforme vermelho militar, com suas infinitas insígnias e todas as estrelas que o Presidente da Nação da Luz possuía. Aqueles orbes castanhos maldosos e o sorriso falso em seus lábios enquanto ele falava.

Não adianta. Por mais que todos digam que eu não posso nem pensar mal a respeito dele, eu não consigo engolir esse cara. Ele tem uma aparência primitiva, neanderthal e é a pior pessoa que existe nesse mundo! Como eu não tenho o direito de odiá-lo?

Além disso, ele é a razão de Jade ter morrido.

Depois de muito encher lingüiça com o mesmo discurso usado todos os anos, ele deu mais uma vez aquele sorriso horrendo e terminou: — Que os Jogos comecem e a sorte esteja sempre a seu favor!

Eu reviro meus olhos pro final daquele discurso e eles acabam pousando em Roy, que me encara seriamente. Eu sei o que seus olhos estão dizendo, os meus também retribuem e acho que todos os outros tributos também pensam a mesma coisa: não há mais volta.


Notas finais
E então?!
O desfile... Eu até iria colocar alguma coisa mais elaborada, mas Artemis e Roy não tem quaisquer poderes e seria muito parecido com Jogos Vorazes se eu colocasse a nossa Esquentadinha pegando fogo. Então, espero que tenham entendido a minha escolha.
Também, achei muito importante a participação de Roy nesse capítulo. Muito mesmo e espero que tenham notado também. Escrevam nos comentários por favor o que acharam! ^_^
Ah... Claro. Todo mundo perguntando onde o Wally está!! ;)
Wally, minha gente, ele está aí. Só que a Artemis ainda não conseguiu vê-lo por motivos.
Próximo Capítulo: Magia Negra!! ~.~

Zona X - Tributo - codinome (idade)
Zona 1 - Klarion Bleak - Klarion, menino bruxo (15) e Zatanna Zatara (15)
Zona 2 - Cameron Mahkent - Icicle Jr (17) e Crystal Frost - Killer Frost (18)
Zona 3 - Mikron O'Jeneus - Gizmo (15) e Jinx (15)
Zona 5 - Billy Batson - Capitão Marvel (12) e Cassie Sandsmark - Moça Maravilha (15)
Zona 7 - Roy Harper - Arqueiro Vermelho (18) e Artemis Crock (16)
Por enquanto só eles que apareceram na fic e que a Artemis já sabem de onde são! :D