Jogos Justos
2 I - Sétima Zona
Notas iniciais
Vou postar o primeiro capítulo logo porque me sinto boazinha hoje! ;P
Espero que gostem e, por favor, comentem gente. Eu me importo com a opinião de vocês!
Boa Leitura. ;)
O vento batia em minha face com força e os pingos grossos da chuva machucavam a minha pele exposta; o marrom, o verde e o cinza se misturando numa névoa desfocada, meus olhos apenas procuravam alcançar onde ela estava e se eu a encontraria viva. Eu ofegava, escorregava, mas nada me deteria de chegar à clareira obscura onde ela lutava bravamente para poder voltar pra casa e me fazer companhia novamente.
Quando parei no meio de duas árvores baixas e dei de cara com a batalha no local, parei para encarar o garoto que atirava bolas de fogo pelas mãos, pés e boca, seus olhos frigidos e deprimidos quando os dela estavam determinados e audaciosos. E eu, ali parado, torcendo para quem que fosse morrer fosse o meta-humano.
A única luz no meio da tempestade surtia das cores vermelho laranja e amarelo que apagavam assim que não alcançavam seu objetivo – a habilidosa que lutava com espadas Sai em cada mão; Cada passo, cada movimento calculado com frieza e nada mais eram tão assustadores quanto o sorriso que pairava em sua face queimada, ferida e imunda – aquele que havia sido transferido da máscara. Até eu, a única pessoa que não era capaz de temê-la, senti meus ossos tremerem ao vê-la atacando o jovem.
Os momentos do final são os mais tensos, como em qualquer esporte comum. Entretanto, os desse jogo estúpido a frase “se ficar, o bicho pega; se correr, o bicho come” nunca foram tão propícias. Restavam apenas três tributos e ela era a favorita a ganhar o jogo nas pesquisas – eu, claro, torcendo por ela fervorosamente. Ela estava brincando com o garoto poderoso, ela zombava das tentativas chulas de dominá-la e ser vitorioso. Aquilo tudo, para ela, não passava de um jogo, também, e isso me deixou irritada. Eu berrava para que ela parasse de brincar, me aproximava da briga, mas ninguém me via ou ouvia a pior das sensações que eu já senti. Eu só queria que ela terminasse logo aquilo tudo e vencesse, voltasse para casa, voltasse para mim.
Até que o inesperado aconteceu e o rapaz, de alguma forma, jogou-a ao chão e desarmou-a com sua bola de fogo preparada contra o coração caso ela tentasse alguma coisa. E eu, gritando para que ela se levantasse, fugisse daquela enrascada, era ignorada as palavras provocativas zombando da piedade daquele que a ameaçava no chão, lembrando-o do quão inútil ele era e de que ele correria como da última vez – a arrogância dela foi que destruiu a todos nós.
Após ouvir meu grito doloroso espalhar-se pelo campo aberto enevoado, o rapaz atirou a bola de fogo tão forte contra o peito dela que num piscar de olhos um buraco carbonizado surgiu, a chuva apagou o fogo que ameaçava a se espalhar depois de que o canhão soou e anunciou que apenas dois restavam para o fim dos Jogos, eu desabei.
Minha irmã jazia morta num chão lamacento e com uma paz desenhada em seu rosto.
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Meu corpo saiu com uma rapidez anormal do colchão desconfortável que não faço nem idéia de como não quebrei a coluna ao meio; meus olhos doíam com a dilatação de como estavam arregalados; eu sentia que havia gritado direto no último minuto em que dormia, mas se minha mãe estivesse em casa, com certeza, já teria vindo me acordar.
Respirei fundo tentando me recompor, minhas mãos fizeram um caminho automático até meus olhos e esfregaram-nos até que eu relaxasse, meus ombros permaneceram tensos de qualquer forma. Olhei eu meu redor sabendo bem de que tudo o que eu havia presenciado era apenas um sonho, mais um sonho – melhor: pesadelo. Eu estava cansada e minha cabeça doía, eu sentia o peso das olheiras sobre as minhas bochechas e aquilo era conseqüência de uma noite de pesadelos seguidos. Quero dizer, pesadelo seguido: sempre a mesma lembrança, sempre eu nunca podendo ajudá-la.
Eu escorreguei minhas pernas para fora da coberta que pinicava e vi os raios fortíssimos de sol adentrando meu quarto acinzentado pelas frestas da persiana de metal, enferrujada e com partes desfeitas. A cama vazia encostada na parede oposta a mim permanecia entocada, com os lençóis do jeito que ela gostava e o travesseiro sempre mais macio que o meu, um desenho de um gato numa árvore e uma menina que nós fizemos juntas uma vez que a professora da escolinha nos contara a história de Alice no País das Maravilhas – ela sempre disse que por causa de meus cabelos, loiros e cumpridos, eu tinha de ser a garota e ela o gato que sumia e aparecia, mas sempre estaria por perto.
O dia de hoje não era bom para mim. Na realidade, para ninguém das Treze Zonas da Nação da Luz – se bem que a Capital ficava muito entretida com ele; Então lembranças bonitas como essa são coisas que devo aproveitar, não é sempre que acontece comigo.
A porta pesada de metal estava aberta e no chão de concreto eu podia ver algumas marcas da borracha da cadeira da minha mãe, a cômoda pequena parada na outra extremidade do quarto onde a luz da janela não batia, e eu pensando no porque que eu acordei hoje de novo.
Ah, sim. Lembrei-me. Pesadelo.
Pus-me de pé e caminhei preguiçosamente até a cômoda, o silêncio daquela casa me trazendo paz pelo bom sinal de saber que meu pai não estava presente. Minha calça jeans já estava no meu corpo e eu tinha de trocar a blusa de flanela pela regata. Agora seria difícil escolher qual: a branca ou a preta?
Eu deveria ter apenas um conjunto de roupas, e eu tinha, há dois anos, apenas a regata branca, a jaqueta de couro velho marrom, um par de botas pretas e um vestido azul para ir às missas nos domingos. Porém, depois dos jogos, eu ganhei coisas que não me pertenciam e eu não tinha muito a fazer se não usá-las – não é sempre que habitantes da Zona Sete têm outras roupas para usar, e Jade ficaria brava comigo se eu não vestisse suas roupas.
Na Zona Sete as pessoas não usam saías, bermudas ou shorts curtos. Não. Não há condições para isso. Durante o dia, um sol e calor absurdo de 50ºC numa cidade onde não há árvores ou sombras; Durante a noite, um frio de congelar os ossos se continuar parado numa mesma posição por muito tempo. Apesar de eu já ter uma pele mias bronzeada, herança de mamãe, minha face e minhas mãos são queimadas e é bem provável que eu tenha hepatite, mas médicos são para fracos e na família dos Crock ninguém vai ao médico sem estar tossindo sangue, ardendo em febre ou perdendo um membro – meu pai é o curandeiro e ele não é muito delicado para isso, mas até que cuidou de mim (naquelas).
Peguei a preta, aquele dia era de luto para mim, e a jaqueta marrom de couro velho, deslizando meus braços pelas mangas quentes que começavam a ferver meu corpo em pouco tempo. Avistei meus dois pares de botas largados num vértice do cômodo e peguei as botas pretas, calçando-as rapidamente depois de me acostumar com o cano apertando minhas panturrilhas. Minha cama continuaria a mesma zona que sempre fora mesmo se eu tentasse arrumar, então a deixei de lado e fui para o banheiro e tentei domar o meu cabelo num rabo de cavalo baixo. Ainda bem que ele não estava tão revoltado hoje, porque seria horrível eu parecer um leão na televisão hoje, durante a Colheita.
Um pouco de água quente no rosto (pois a temperatura da água era regulada junto com a temperatura ambiente. Dia sinônimo para banho quente; noite sinônimo para um momento terrível de lavar a louça na água gelada), só para aumentar o meu calor, e me preparei para sair, esquecendo de comer uma torrada passada sobre a mesa – meu pai me espancaria depois, mas se eu estivesse com cabeça para parar mais um minuto naquela casa e comer, eu teria cabeça para me importar com a falta de afeição dele.
Eu moro num edifício baixo, cujas paredes são todas de concreto, sem charme nenhum, e as portas, janelas e escadas são de metal, com infiltração nas paredes do banheiro e da cozinha, mesmo com toda a falta de umidade desse deserto onde vivo; um elevador velho manual, que minha mãe insiste em sair de casa mesmo correndo risco de ficar presa para sempre naquele cubo enferrujado e ainda pegar tétano. Eu não me atrevo a chegar nem perto daquilo, virando sempre à esquerda para as escadas “panorâmicas” até o térreo.
Minha mãe virou deficiente físico depois de um acidente de trabalho numa indústria – uma câmera superaqueceu e começou a atirar os parafusos ao seu redor, pegando justamente na lombar de minha mãe e paralisando seus membros inferiores. Ainda dá pra ver o pedaço cinza fosco restante na pele da minha mãe que os médicos não conseguiram tirar, pois agravariam seu estado. Apesar das dificuldades, ela lida melhor que eu com elas, sempre indo trabalhar no mercado com uma amiga antiga dos tempos de escola, vendo alguns pedaços de pano e bordando algumas coisas para ela vender. Os guardas as vêem e, às vezes, a ajudam a subir a ladeira com sua cadeira de rodas – claro que eu moro no topo de uma ladeira – e eles ficam conversando com ela quando minha mãe procura algo para fazer.
Na rua, poucos postes de luz espalhados de cinqüenta em cinqüenta metros para iluminar os corajosos que ousavam fazer a segurança das usinas durante a noite frigida – meu pai era o chefe dos seguranças na fábrica de platina onde os móveis finos e chiques eram diretamente enviados para a Capital. Explicada a falta de carinho dele? Não? É eu também não engulo essa. Mas se tem uma coisa em que ele prestou foi para preparar a mim e a Jade para um desafio iminente em nossas vidas – os Jogos. Sendo um homem alto, grande e forte, meu pai sempre tivera uma grande habilidade em esportes e uma capacidade física ilustre, então, quando éramos pequenas, ele nos levava para acampar no deserto vizinho a nossa Zona (sem o conhecimento dos guardas) e fazia-nos lutar, aprender a caçar e, às vezes, nos abandonava por uma semana, durante os feriados escolares, por ali para aprender a nos virarmos.
Isso eu devo a ele – apenas isso, ainda bem.
Aqui, na Zona Sete, não passamos uma grande necessidade quanto as Zonas Dez, Onze e Doze, pois somos quase um pólo industrial, então precisamos de energia e de algo para manter as pessoas vivas durante o trabalho duro nessa nossa terra – o clima já um grande obstáculo a se vencer todos os dias; Também não é por isso que somos tratados em berço de ouro. Apesar de termos água encanada e energia, o uso é regulado e energia acabada às oito horas da noite, sendo religada apenas às oito da manhã. O pagamento que recebemos não é em dinheiro para que possamos guardar algo e nos tornemos uma família rica, mas comida e algumas regalias como ventiladores e aquecedores – não podemos usar durante um bom tempo, então o que adianta isso mesmo? Alimentos defumados, enlatados e fáceis de consumo não necessitam de geladeira.
É. Não é nenhum berço de ouro, mas é bem melhor do que ter que caçar seu almoço todos os dias como eu e minha irmã fizemos durante as semanas que meu pai nos largava no deserto – sem água, sem abrigo, sem proteção.
Descendo a rua não movimentada e deserta, eu avistei guardas indo em direção ao pátio principal para dar apoio ao evento da tarde e um deles acenou para mim, provavelmente sabe quem é minha mãe, fazendo sinal para que eu corresse pro meu trabalho. Nem prestei muita atenção nele e segui na direção oposta da infantaria em armadura branca reluzente, com uniforme térmico e armas de choque do tamanho de um javali – comparando por fotos e livros.
Eu trabalho na fábrica de móveis e minha divisão é a de mobília para sala de jantar, ou seja, eu construo cadeiras, mesas, armários, todas as coisas – quero dizer, eu monto já que as peças já saem prontas dos soldadores que ficam num andar abaixo da terra, sobre um calor anormal, queimando suas mãos e fazendo peças com metais aquecidos.
Quando bati o cartão na entrada do grande salão cinza escuro, com luzes brancas fortes dependuradas do teto, tubos de metal espalhados na sala como pilares por onde saíam às peças, esteiras por onde elas corriam e pessoas usando avental, rede no cabelo e luvas de lona usadas, avistei minha amiga de colégio com um lugar vazio ao seu lado, construindo mais um pé de mesas com nossa esteira parada. Prendo meu cabelo num coque mal-feito, coloco a rede e amarro o avental nas costas, caminhando e puxando as luvas de dentro dos bolsos largos.
-BOM DIA! — Bette virou o pescoço tão rapidamente para me cumprimentar que temi que o quebrasse naquele gesto; um sorriso simpático e alegre desenhado em sua face bronzeada do sol, olhos azuis escuros divertidos e sua France encaracolada escapando entre as frestas da rede. Ela tinha um pouco de suor escorrendo pelos cantos de sua face e eu apenas franzi o cenho para sua felicidade estranha.
Não era lá um grande dia para tudo isso.
Eu assenti e peguei o primeiro pé de cadeira que me apareceu, avistando logo o acento e os pregos numa gaveta pesada sobre a esteira rotatória. O guarda se aproximou de nós e nos encarou, eu completamente desligada do porque ele estava há tanto tempo ali.
-Feliz dia dos Jogos Justos, Artemis! – e eu suspirei fundo concentrando-me para mandar minha melhor amiga enfiar aquele cumprimento num lugar não muito educado. O guarda esperou minha resposta e, relutante, eu sorri francamente e respondi o mesmo para Bette que me mandou um sorriso de desculpas.
Assim que o guarda foi embora, Bette relaxou a face sorridente e começou a tirar um sarro daquilo, gesticulando muito e quase atirando uma chave de fenda na mulher que polia um encosto de cadeira à frente. Eu supri uma risada e ela sorriu quando me viu.
-Finalmente um sorriso nesse rostinho lindo. – eu rolei meus olhos para outro lado e meu sorriso se desfez – Nossa, por que você é tão rabugenta, hein?!
-Oras, me desculpe se não sou tão patriota como você. – e Bette dobrou suas sobrancelhas juntinhas numa face apologética.
-Desculpa, ta? – ela coloca sua mão sobre meu ombro e eu assento com a cabeça, deixando-a saber que não tem problema. Essa personalidade feliz dela não tinha como mudar, de jeito nenhum, então eu só aceito-a dessa maneira.
Eu até tinha amigos um pouco antes de Jade ser levada pela Capital para os Jogos e alguns deles só falavam comigo porque minha irmã era a favorita a ganhar e nós iríamos morar nas casas chiques da Zona 7, ter tudo do bom e do melhor. Interesseiros. Depois que ela foi morta, a única pessoa que permaneceu do meu lado e chorou comigo quando o caixão fechado da minha irmã desceu da estação de trem foi a Bette, não há outra pessoa que eu confie mais hoje depois dela.
Ela é minha irmãzinha e eu não me importo com o que aconteça comigo contanto que ela não passe por isso.
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Fomos dispensadas na hora do almoço por causa da cerimônia mais tarde e nós voltávamos andando – bem, Bette saltitando – colina acima, conversando a respeito de coisas aleatórias e dos hobbies dela. Apesar de seus pais terem uma lojinha de bordados no centro comercial, perto do pátio principal, todos os jovens de dezesseis a dezoito anos tinham que trabalhar nas indústrias (qualquer uma) antes de poder ser livre e decidir se queria ser um vendedor ou continuar trabalhando nas fábricas. Então, Bette teria que esperar dois anos inteiros para poder fazer o que ela realmente gosta: costurar.
-Eu soube que Dinah Lance vai ser a apresentadora da nossa zona durante os Jogos. – ela diz baixinho depois que o assunto acabou nos aproximando do prédio dela.
-Minha mãe comentou comigo. Que honra... – meu sarcasmo era óbvio. Aquela mulher dizia ser amiga de todos nós, mas quando chegava na hora de selecionar alguém e dar suporte às pessoas, ela era dura e dizia tantas verdades que todos os nossos tributos que chegavam a batalha deprimidos querendo apenas dar fim a tudo.
-E o mentor será Oliver Queen. – eu não pude evitar parar e olhar para Bette que mostrava empatia pelo meu espanto – É. Parece que a Capital não quer mais que ele fique de repouso vendo tantos tributos morrerem depois que ele venceu os jogos há vinte anos. – Bette riu baixinho – Vai fazê-lo mostrar o segredo dessa vez.
-Hum...
Eu me perdi em devaneios depois disso, vendo apenas a boca de Bette se mexendo e respostas automáticas deixando a minha boca. Oliver Queen era o homem mais rico da nossa cidade depois de se tornar o ganhador dos jogos há anos atrás. A história dele é meio sombria e ele se voluntariou como tributo depois que seus pais foram mortos numa explosão de uma usina. Eu penso que ele só foi para morrer e dar um fim ao sofrimento, mas meu pai me disse que foi surpreendente tudo o que aquele homem fez (tudo bem que ele não disse surpreendente e sim apelativo, mas meu pai é muito orgulhoso pra dar o braço a torcer) sendo chamado por todos de Arqueiro Verde. Quando vi alguns vetes dele na escolinha, a professora contando história a respeito dos grandes tributos do passado, as maravilhas que ele fazia com o arco e flechas eram de se parar tudo que estava fazendo e prestar atenção. Era tão surreal, mas tão esperançoso que não havia par de olhos que não vissem aquilo.
Entretanto, depois que foi vitorioso e ganhou a mansão, dinheiro e passe livre entre a Capital e a Zona 7, era raro vê-lo nas ruas e criou-se um rumor de que ele havia se trancando na casa para morrer solitário, esqueceu-se do mundo. Eu não sabia no que acreditar até a notícia e uma pontinha de orgulho surgiu no meu estomago. Se é ele o mento, então temos uma chance de vencer.
-Te vejo na Colheita? – Bette perguntou pela quinta vez, acho, e eu balancei a cabeça saindo do meu transe e respondi que sim – Ta bom, então. Vê lá, hein? Não ouse ser escolhida! – ela subia as escadas “panorâmicas” do prédio dela.
-Melodramática. – zombei e ela choramingou com o sarro. Sorri pequeno para ela e voltei a caminhar, erguendo um braço para acenar – Não seja escolhida. – e faço meu caminho de volta para a tortura do meu lar.
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-Mãe! Cheguei!
Fechando a porta atrás de mim e virando-me para seguir pro meu quarto vi uma figure jogada no sofá, a cabeça de cabelos loiros como os meus apoiando no encosto enquanto os pés estavam cruzados sobre a mesinha de metal que ganhamos ano passado; a televisão de imagens pretas e brancas ligada, passando algumas reprises dos Jogos do ano passado, e não pude evitar fechar a cara.
-Ta atrasada. – ele abriu a boca depois de um ranger de dentes para um meta-humano jogando bolas de fogo em outras pessoas.
-O que ta fazendo aqui? – eu sei bem o que ele fazia aqui, mas eu só não queria cumprimentá-lo.
-No dia dos Jogos Justos eu sou liberado para assistir crianças serem escolhidas como tributos para morreram numa Arena, como sua irmã. – ele virou-se para me encarar, rugas leves no canto de seus olhos castanhos e embaixo de sua bochecha.
-Lawrence! – minha mãe gritou da cozinha, repreendendo-o e rolando-se para a porta da sala, vendo-me e sorrindo tristemente para mim – Olá, querida. Eu passei o seu vestido e ele está sobre a cama. Vá tomar um banho antes do almoço, sim?
Eu revirei meus olhos e segui para o banheiro.
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Tomei meu banho quente fervente, sentindo minha pele arder a cada segundo a mais eu demorava a tirar o sabão do meu longo cabelo loiro. A água preta escorrendo pelo ralo enquanto eu me enxugava na toalha, minha pele pinicando e o espelho fosco embaçado, mostrando nada mais do que uma iluminação chula do banheiro. Bufei irritada e enrolei-me naquele pano horrível, passando pelo pequeno corredor para meu quarto, meus pais conversando sobre coisas a respeito dos Jogos.
Essas pessoas são cansativas, e bati a porta do quarto assim que entrei. Coloquei minha roupa de baixo rapidamente e sentei-me para calçar as botas antes de colocar o vestido – estava com medo de pisar na barra e estragar... Até eu notar que o vestido que eu usaria não era o meu comum de missa, azul esbranquiçado, mangas cumpridas e com um laço na altura da cintura.
Não.
O vestido que se deitava sobre a cama de Jade o que lhe pertencia, verde musgo, lindo, de mangas cumpridas largas, design asiático que minha mãe ganhara de sua mãe há muitos anos atrás. Tinha um detalhe em dourado perto da gola e desenhos de flores numa linha preta, um cinto embutido para regular o caimento em quem o usava e batia na altura de minhas canelas. Eu sorri amargurada para ele, alisando-o antes de lembrar-me que meu pai entraria batendo pés no meu dormitório se eu não fosse logo me juntar pro almoço.
O vesti com extremo cuidado, exatamente o mesmo tempo e carinho que Jade tomava para colocá-lo, e prendi o meu cabelo molhado no rabo de cavalo baixo, puxando todos os fios e qualquer indício de franja para trás.
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-ARTEMIS! – Bette gritou no pé da ladeira, seus pais de braços dados esperando-a com uma faceta triste em seus rostos. Ela acenava alegremente para mim usando seu vestido rosa bebê, algum padrão de flores bordado por ela e um babado fraco nas mangas e na gola, pois Bette adorava coisas desse tipo. Seus cabelos loiros estavam soltos e encaracolando ao redor de seu pescoço e suas costas. Eu acenei levemente para ela.
Eu andava lado a lado com minha mãe enquanto meu pai levava sua cadeira de roda, os dedos ossudos dela entrelaçados aos meus e um leve tremor vindo de uma força um tanto quanto bruta. Minha mãe estava com medo que eu fosse selecionada, óbvio, e eu tentava acalmá-la com massageando as costas de sua mão rodando meu dedão em círculos. Meu pai estava frio, nenhuma expressão escrita em sua face, e seus olhar castanho cerrava-se em minhas costas – isso eu sentia graças ao costume de quando era criança ele ficar encarando eu e Jade duelando para os Jogos. Eu não sei bem o porquê daquilo, mas ele devia estar preocupado também.
Acho... Uma probabilidade bem minúscula.
Senhor e senhora Kane era um casal simpático e logo quando avistaram nossa família acenaram com a cabeça, pois sorriso naquele dia triste não deveria existir – eles sempre brigavam com a Bette por causa disso. Minha mãe assentiu de leve com sua cabeça, o cabelo negro voando um pouco sobre seu rosto, e meu pai respondeu com uma saudação curta e grossa. Bette parou ao meu lado para que nós fossemos caladas até a seleção e a senhora Kane foi do outro lado de minha mãe, conversando com ela a respeito de coisas de gente “grande” e meu pai apenas escutava as historinhas convencionais do senhor Kane.
-E que a sorte esteja sempre ao nosso favor. – a senhor Kane suspirou e minha mãe assentiu, tremendo um pouco mais, apertando mais minha mão a cada passo que nos aproximávamos da fila de inscrição.
Bette ficou um pouco sozinha com seus pais, abraçando-os e certificando-os de que tudo daria certo e ela não seria selecionada. Eu, por outro lado, fui parada pela minha mãe que me puxou para baixo num abraço de urso e quase deslocou meu ombro. Supri uma risada maldosa e reclamei um pouco do carinho, apesar de estar adorando aquilo.
-Que você não seja escolhida minha menina. – minha mãe beijou meu rosto e eu beijei o dela, piscando-lhe um de meus olhos.
-É.
Meu pai não se mexeu, mas estendeu uma de suas mãos para tocar meu queixo antes de eu ir embora. Eu o encarei com um bico revoltado e sobrancelhas franzidas. Ele sacudiu um pouco minha cabeça e murmurou um pouco, acariciando de leve meu maxilar e me soltando.
Eis a sua grande demonstração de afeição.
Bette me puxou em seguida para a fila, mas os guardas nos colocaram em linhas diferentes, deixando-nos bem afastadas. As filas que nós fomos, obviamente, de garotas e eu senti pena quando vi menininhas de doze anos sentindo seus dedos serem picados pelas agulhas de certificado e tendo que ter seus olhos analisados por escâneres. Minha vez logo se aproximou e a mulher da Capital puxou minha mão rudemente para si, pegando uma agulha grossa e afiada e pressionando-a contra o meu dedo médio – queria que ela pegasse aquilo e enfiasse em sua bunda, mas eu seria presa se dissesse tamanho desrespeito. Ela, depois de saber quem eu era pelo trocinho eletrônico apitando em frente a ela, espremeu meu dedo contra um espaço ao lado do meu nome num caderno de papel e puxou o escâner ao seu lado, mandando que eu me aproximasse e ela pudesse fotografar meu olho cinza.
Após permitirem minha entrada no Pátio cercado de guardas e grades móveis, me perdi no meio da multidão, não encontrando mais nada a minha frente que não cabeças e o palco no fim da visão: cadeiras onde o prefeito, sua esposa e seus filhos pequenos se sentavam esperando por Dinah Lance, os cinegrafistas montando as câmeras e acertando suas posições, o palácio da prefeitura atrás de um telão gigante ao lado de outros um pouco menores, cobrindo a aparência rústica da casa grande e fazendo que, logo depois, se ligassem e aparecessem as crianças da Zona 7 – de um lado da grade meninos; do outro, meninas.
Um desespero começou a tomar conta de mim enquanto eu avistava os cabelos encaracolados de Bette, mas não conseguia alcançá-la. Eu apenas queria ficar ao lado dela até que essa bagunça toda acabasse, mas as outras garotas não me deixavam passar e os guardas já começavam a me encarar de cara feia por eu estar tão nervosa.
Franzi o cenho e fiquei parada esperando para que os homens do sistema de mídia ajeitassem os microfones e as caixas de som para que começasse logo.
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Dinah Lance deixou a prefeitura após os serventes do prefeito abrirem as portas pesadas e permitissem que ela desfilasse em toda a sua glória loira até o microfone, os a câmera principal direcionada a ela enquanto ela sorria e acenava para as poucas pessoas que batiam palmas, seu salto alto fazendo barulho no pátio calado enquanto ela se aproximava do microfone – seu vestido era longo e de um preto magnífico, eu acho que o nome da parte de cima é corpete, pelo que minha mãe me contou, e ele era levemente volumoso na saia; um chapéu preto com rede sombreando sua face branca de orbes tão azuis quanto a cor do céu e lábios vermelhos como rosa. Apesar de eu não ir muito com a cara dessa mulher, eu devo admitir que ela esteja magnífica hoje comparando com todas as outras vezes que ela já apareceu por aqui – a Capital tem um gosto muito excêntrico pela moda e eu acho que eu prefiro não ter estilo a usar as coisas que eles usam.
-Bem-vindos. Bem-vindos. – ela diz, um sorriso aparafusado em sua face bela – Bem-vindos. – repetiu tentando parecer animada, mas ninguém respondeu a ela. Vi Bette se contorcendo para me enxergar e acenei discretamente, ela sorriu e devolveu o gesto, voltando para prestar atenção em Dinah – Feliz dia dos Jogos Justos e que a sorte esteja sempre a seu favor. – todos rolaram os olhos aquilo e ela continuou – Bom, como de costume, vamos assistir ao vídeo homenageando esses Setenta e Cinco anos de ótimo governo da Nação da Luz! Palmas, pessoal, palmas! – e após disso o vídeo começou a rolar, o narrador de uma voz grave e bonita contava tudo a respeito do que acontecera.
Eu vi alguns bocejando, outros tirando meleca do nariz, mas poucos prestando atenção na tragédia. Eu, Artemis, já havia decorado aquele filme após assisti-los por dezesseis anos – ou, pelo menos, desde que eu me conheço por gente. O vídeo mostra Sir Vandal Savage, o homem imortal, com cicatrizes de arranhões na face e cabelos cumpridos puxados para trás. Ele havia estabelecido que os Estados Unidos da América se tornassem a Nação da Luz depois de um de seus capangas, Lex Luthor, ter se tornado o presidente. Entretanto, esses caras não eram gente boa ou apenas políticos corruptos. Muito pelo contrário.
Eles faziam parte de uma quadrilha de vilões onde os grandes malvados se encontravam, tramando um plano surreal para conquistar a Terra e tirar aqueles que defendiam os cidadãos do mapa: a Liga da Justiça. Por anos houve conflitos entre a Luz e a Liga da Justiça, mas os vilões não conseguiam vencer... Até um deles ter a maior potência do mundo na palma da mão. Aí, a coisa ficou séria...
A Liga da Justiça, numa decisão de diminuir a discórdia no mundo, resolveu ceder temporariamente a Luz que na ausência de seus heróis dividiu o país em Zonas, estabeleceu leis absolutas e punições não humanas, gerando uma pobreza de países do terceiro mundo e guerras ao redor do globo. Vendo que aquilo não dava mais para continuar, a Liga voltou à tona e incentivou todas as Zonas, da dois a treze, a se revoltar contra a Capital, lutar por seus direitos e restauras a paz na civilização.
Então a guerra se desencadeou e a Capital estava quase perdendo a batalha quando a Luz descobriu o Quartel General da Liga da Justiça e explodiu-o com a Décima Terceira Zona. Todos os heróis sumiram após o ataque e a Capital ameaçou fazer o mesmo com as restantes zonas se não jurassem lealdade e servidão a eles para sempre. As Zonas cederam, mas ganharam como punição a execução de 23 jovens anualmente por setenta e cinco anos seguidos, onde escolhiam um menino e uma menina, entre doze e dezoito anos, para lutar até a morte nos Jogos Justos.
É. Eu sei de cor e salteado a história da “minha” Nação e não acho nenhum pouco justo que os filhos dessas pessoas tenham que pagar. No final, tudo não passa de um golpe de estado.
-Magnífico... – Dinah resmungou no microfone, rolando os orbes azuis e batendo palmas. Acho que ninguém mais notou aquele gesto a não ser eu, mas foi bem impaciente para alguém que deve amar mais a Nação do que a si mesma – Agora vamos dar inicio a seleção. – ela sorriu amarguradamente para as pessoas e continuou – Alguém se candidata? – ninguém se mexeu e ela suspirou – Ta certo. Vamos à sorte, então.
Ela seguiu para o baú de acrílico dos meninos onde vários papéis se misturavam e a mão fina e enfeitada por anéis e pulseiras teria de passar por uma orifício simbólico para agarrar o próximo tributo. Abaixei a cabeça pensando positivamente para que ninguém que eu conheça fosse selecionado – em vão. Todos que estavam ali eram da minha geração e foram à escola comigo. Eu saberia, nem que pouco, quem fosse escolhido para morrer naquele jogo.
-E o tributo masculino da Zona Sete será... – após uma pausa para que ela lesse o nome no papel, ajeitando o microfone e fazendo aquele melodrama todo, Dinah continuou – Roy Harper.
Meus olhos arregalaram-se com o nome que eu não ouvia a anos e os meninos do outro lado da grade começaram a formar um espaço para que ele passasse.
Não acreditei em meus orbes quando virei o pescoço para vê-lo, mesmo que seus cabelos alaranjados, suas íris azuis escuras, sua figura alta desfilasse calada e de cara fechada até o palco. Meus olhos direcionaram-se para meus pais na platéia do lado de fora das grades, minha mãe tapava a boca enquanto meu pai olhava pro lado depressivo.
Roy Harper era uma pessoa próxima de minha família até dois anos atrás, depois de tudo que aconteceu com minha irmã. Ele tinha dezesseis anos e ele e Jade eram muito próximos... Não. Eles eram namorados e ele se importava com ela, muito. Eu nunca tinha visto um garoto sofrer tanto quanto o vi no enterro de minha irmã, seus olhos azuis escuros avermelhados e seu ser completamente arruinado pela dor.
Ele parecia melhor agora, mais bonito e mais másculo, parando sem expressão ao lado de Dinah que tocou o seu ombro e lhe partilhou um sorriso empático. Ele assentiu com a cabeça e seus olhos tomaram o rumo da platéia, cerrando-se sobre uma única pessoa que lhe guardava depois da morte de seus pais por pneumonia anos atrás: seu tio, muito parecido com ele.
Distraí-me tanto lembrando o passado, lembrando de Roy, lembrando de Jade, que nem notei quando Dinah falava e pegava o papel no baú das meninas, fazendo seu drama básico e continuando para o anúncio do próximo tributo.
-Elizabeth Kane.
Agora sim eu podia dizer que meu mundo tinha chegado à beira do limite.
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Tudo ficou lento e eu mal podia respirar quando os olhos exasperados de minha amiga direcionavam-se em minha direção, tentando me dar um sorriso assegurador, tentando dizer que tudo daria certo, mas a face dela, aquela insegurança, aquele receio emanando dela. As garotas criavam espaço para ela poder passar e seguir para o corredor antes de andar com os guardas lhe seguindo até o palco. O ar estava escasso, minha visão estava ficando embaçada. Bette fora convocada para os Jogos e ela acabaria morrendo nos primeiros minutos daquilo – ela não era atlética, não era corajosa, não era astuta, e, definitivamente, não era capaz nem de ferir uma mosca. Não tinha como ela parar lá.
Não! Não! Não! Não!
Não podia estar acontecendo de novo! Eu não ia perder mais uma pessoa especial por causa de uma punição dos meus antepassados!
Não ia mesmo!
Eu esbarrei nos ombros das garotas para chegar ao corredor antes que Bette alcançasse as escadas para o palco onde Roy já se encontrava e eu senti o olhar dele sobre mim quando parei no corredor, ofegante e me preparando para correr e bater naqueles guardas. Eu não tinha tempo para ser simpática e responder ao olhar preocupado dele agora. Não tinha!
-BETTE! – eu gritei e ela olhou para trás (na verdade, todo mundo olhou para mim). Eu disparei na direção do palco e foram precisos três guardas para me pararem, segurando meus braços e um me barrando, parando meus empurrões com os pés – Bette! – ela sorriu apologética para mim e sussurrou um Tudo vai ficar bem com aqueles olhos...
Dinah me olhou interessada, mas eu não tinha tempo para me preocupar com ela. Bette já estava no primeiro degrau.
-EU ME OFEREÇO! – eu berrei e Dinah arregalou os olhos chocada, um tanto de orgulho dobrando nos cantos de sua boca. Bette parou de andar e eu continuei, parando de gritar – Eu me ofereço como tributo!
Notas finais
Dependendo da popularidade dessa fic e do numero de reviews que ela receber, vou deixar vocês fazerem perguntas paras os personagens e eles mesmo vão responder. ;9
Até mais.
Beijinhos
♥
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