Jogo da Vida
2 Champanhe Francês
Notas iniciais
Just give me a reason
Just a little bit's enough
Just a second we're not broken just bent
And we can learn to love again
It's in the stars
It's been written in the scars on our hearts
We're not broken just bent
And we can learn to love again
A cadeira em que me sentava era macia. Macia ao ponto de minha bunda não encostar na madeira de sua armação original. À minha frente uma mesa bem arrumada pronta para receber duas pessoas sem fome e com muito papo para botar em dia, com toalha em tons xadrez de rosa, vermelho e branco, duas taças, uma para vinho e uma para água, um castiçal com três velas aromatizadas acesas, um cheiro forte de lavanda no ar. Sophia aceitara jantar comigo. Pelo telefone havíamos marcado oito da noite. Olhava impaciente no relógio os segundos se passarem. Já eram oito e trinta e dois e nada dela.
Como bom cavalheiro que era, não pedira nada até o momento. Meu celular parecia adormecido sobre a mesa de tanto tempo que não recebia ligação ou mensagem. Meus olhos focavam o horizonte borrado pela porta de vidro. Estava quente, o ar seco inundando a tudo e a todos. O barulho do ar condicionado inundava o ambiente, deixando para trás um ar gélido e arrepiante. Quando eu estava, de uma vez por todas, pronto para levantar e sair, vagar pelas ruas indigestas e cheias de drogas e prostituição que eram as noites do Rio de Janeiro, sem rumo, recuperando-me do belo toco que havia levado, ela entrou, linda, radiante, apressada... eu já disse linda?
Parecia aquelas cenas de filmes que a mulher aparecia e começava a brilhar, como se ela fosse o centro do universo, uma produtora de luz própria ou energia luminosa, algo relativo ao sol. Sophia poderia ser considerada uma dessas. Tinha os cabelos castanhos sedosos, compridos até metade das costas, arrumados em ondas que lhe caiam sobre os ombros. Certa vez os contara Chanel à altura do pescoço, mas nada se comparava como ela estava agora. Seus olhos eram uma imensidão verde de esmeraldas fundidas e colocadas estrategicamente lá. Seu nariz era delicadamente pequeno e sua boca era um convite para ser beijada, não necessariamente somente beijada... Seus seios eram fartos, cheios, densos, era possível descreve-lo com quantas palavras eu quisesse, afinal, já os tive nas mãos várias vezes. Usava um vestido vermelho curto, simples mas sofisticado.
Sophia sempre sabia o que vestir no momento certo. Em sua mão carregava uma bolsa carteira dourada refinada, seu salto alto da mesma cor. O batom vermelho escuro, quase bordô cobria-lhe os lábios perfeitamente, seus brincos eram ousados: dois rubis envoltos em uma pequena casca dourada. Sem dúvida todos que a olhavam a invejavam. Até mesmo eu me senti mal de não ter me vestido um pouco melhor para a ocasião, se bem que nem mesmo sabia qual era certamente a ocasião. Havia-a convido para jantar, precisávamos conversar. Aquela era a descrição da mulher perfeita, eu sabia. Era tão clichê dizer que sua mulher, independentemente de ser namorada, amiga, ficante ou esposa, mas era o que ela era: perfeita. Uma beldade escrita com letra cursiva dos pés à cabeça.
–Sophia! – Me levantei, quase derrubando a mesa de ansiedade. Que vergonha! Faziam duas semanas que havíamos terminado, mas perecia que não nos víamos a meses. Foram dias de aflição e agonia que ficara afastado, mesmo não querendo, dela. Quando a abracei, senti seu perfume de rosas, o mesmo que usara quando nos conhecemos. O que sempre usava quando estávamos juntos. Enjoativo. Puxei a cadeira para ela sentar, depois voltei a sentar. – Que bom que veio. – Sorri. Ela não. Esboçou o mesmo olhar sério e pensativo que tinha quando viu minha mãe dentro de um caixão, logo depois de começarmos a namorar, ou quando ela pôs o ponto final na nossa relação até então duradoura.
–Só você para me fazer vestir uma roupa dessas no meio da semana quando eu poderia estar em casa, assistindo TV e comendo pizza, que você sabe eu prefiro muito mais que isso! – Aponto para os pratos, os talheres e as taças. Como sempre, tinha um discurso pronto, na ponta da língua, para começar a conversa. Ponto para Sophia. Não. Na verdade não estávamos jogando nenhum jogo o qual as melhores palavras ganhavam. Estávamos do mesmo lado, como sempre estivemos e gostaria que ainda estivéssemos. Que incentivador!
–Tudo bem. – Disse. – Podemos ir para a minha casa e pedir uma pizza. – Sarcasmo era o que me fazia pensar que sempre uma conversa poderia melhorar. E mesmo que eu não estivesse falando sério, o que eu mais queria, sinceramente, era ter Sophia, nos meus braços, na minha casa, a pele dela tocando na minha, pelo menos uma última vez.
–Haha. Engraçadinho. – Fez uma cara meio ironia meio tem um bobo na minha frente. – Nada disso. Aqui é o máximo que você vai conseguir hoje, Thiago. – Eu simplesmente me derretia todo quando ela me chamava por Thiago. – Mas, vamos logo ao ponto. O que você quer?
–Que tal um vinho? – Peço, pagando um cardápio e o observando. Sei o que Sophia mais gosta, assim como sei que tempero usar na hora de preparar uma feijoada, ou que sobremesa fazer para levar quando visito meu pai no asilo. É tão natural.
–Não seja idiota, Thiago. – Mas mesmo assim ela pegou o cardápio das minhas mãos e o observou, enquanto falava. – Você me chamou aqui dizendo que tinha um assunto urgente para tratar comigo. Algo que poderia mudar sua vida e precisava contar para alguém. – Ergueu os olhos e me fuzilou. Sophia sabia ser brava, chata, irritante e abusiva quando queria. – Pois bem, estou aqui! – Era convencida também. – Pode falar. Tenho todo o tempo do mundo. – Mas eram todos esses defeitos, inseguranças, falhas, que a deixavam melhor. Era comum tudo isso quando trabalhava no ramo em que tinha que fingir ser quem na verdade não era. Uma vilã que se dizia boa pinta. A heroína virgem boazinha. A mãe de família que não mede esforços para o bem dos filhos. Tinha vinte e oito anos de falsidade e sangue frio nas veias. A carreira de atriz podia corromper uma pessoa. No caso de Sophia, molda-la alguém melhor. Ela era Sophia Albuquerque, sonho de consumo de muitos jovens punheteiros. Até duas semanas, era minha. Meu sonho, minha realidade. Agora, sem se dar o trabalho, era de quem bem entendia pega-la para si, com seu sóbrio e inteligível consentimento.
–Vou viajar! – Disse, sem delongas. E antes de deixar a mulher falar, continuei. – Nova York. Depois Roma, Cairo e então: Pequim. – Sorri, enquanto via seu rosto de abrindo em uma expressão de dúvida. Deixei ela assimilar a ideia e chamei o garçom, pedindo o vinho preferido de Sophia: um francês, de garrafa preta e rótulo bege.
–Eu entendi bem? – Ela parecia indignada, como se tivesse dito que ia comprar uma Ferrari. – Viajar? Thiago, você está bem? Logo no começo do ano letivo? O que você está pensando? – Aquele era o lado preocupado, confuso e cismático de Sophia. Várias perguntas que talvez não fossem respondidas.
–Na verdade não foi por opção minha. – Disse, apertando no botão central do celular com ansiedade. – Um cara apareceu lá em casa hoje me contratando para dar palestras motivacionais nestes países. É meio estranho. Ele sabia tudo sobre mim, disse que todas as despesas da viagem seriam pagas por eles, que a única coisa que eu teria que fazer era falar. – O rosto da mulher se iluminava com um sorriso embriagado em meio aos olhos desdenhosos.
–E você simplesmente aceitou? – O garçom chegou com o vinho e, cuidadosamente, serviu-o nas taças: primeiro das damas, é claro. O cara usava um daqueles uniformes singulares de garçons: pareciam um pinguim vestindo avental, com uma mão atrás do corpo e a outra levando a bandeja. Um erro sequer e: rua. – Assim, sem mais nem menos? Ah, um cara apareceu no meu apartamento. – Imitou-me ela, seu ar de atriz sobrepondo-se à razão. – então ele me ofereceu uma viajem e eu aceitei. Hahaha! – Gargalhou ela, debochadamente.
–Não foi fácil dizer não. – Eu bebi um gole do vinho e me arrependi eternamente. Era doce demais, amargo demais, alcoólico demais, melancólico demais. Aquele vinho havia marcado o nosso relacionamento. Foram dois anos bebendo o mesmo vinho e não enjoando dele. Agora, parecia que aquela bebida era literalmente demais para mim. Quase engasguei, mas continuei falando, como se nada tivesse acontecido, baixando a taça na mesa. – O cara aparentava ser forte, você sabe que eu sei dessas coisas, musculoso. O jeito que ele falava, seus gestos, seus modos pareciam agressivos. Era como se ele fosse partir para cima de mim, tirar uma arma de dentro de sua maleta e aponta-la para minha cabeça dizendo: Assina ou assina, caralho! – Juntei minhas mãos e coloquei-as sob a mesa, sobre as minhas pernas que tremiam enlouquecidamente. – Era difícil não pegar a caneta e assinar meu nome. – Tudo bem. Estava omitindo boa parte da coisa, afinal, Sophia não precisava saber que havia colocado meu nome naquelas folhas pois queria, de certo modo, me ver livre dela, podendo começar uma vida nova. Com ela por perto era impossível.
A mulher apoiou os braços delicadamente sobre o tampo da mesa estudando com seus olhos verdes brilhantes meu rosto. Sophia tinha uma característica singular: ela sabia quando as pessoas estavam mentindo. Claro que artificialmente falando mas, quando ela olhava nos olhos da pessoa ela tinha consciência se o ser em questão estava blefando. Talvez uma característica conseguida dos vários anos como atriz. Eram cenas em que os personagens precisavam mentir, colocar na fala e nas expressões faciais a mentira que contavam, mesmo sendo ela uma mentira de mentira. Sendo assim, eu estava com medo de ela ver minha omissão. Apesar de não ser um blefe, Sophia era muito rígida e tétrica quando a isso.
–Acredito em você, Thiago. – Ela sorriu e bebeu um gole longo do vinho, saboreando-o. Era o preferido dela e com toda certeza não surtira o mesmo efeito que surtira em mim. – Mas toda essa história é muito confusa. Eu conheço você muito bem para saber que tudo o que você faz tem um porquê. E eu também sei que você não faria isso se não tivesse sido motivado por alguma coisa muito maior do que simplesmente medo. Sei que você honra seus compromissos, que a última coisa que você quer é abandonar o seu amado trabalho mal remunerado de professor. – Ela sorriu, continuando a falar com uma voz firme. – Mas é estranho você me ligar para dizer que precisa falar urgente quando se recusa a falar tudo. – Ela respirou fundo. – Eu não sou psicóloga, muito menos terapeuta. Sou sua amiga. – Amiga, que palavra fútil para descrever dois anos de relacionamento idos pelo ralo. – Por favor Thiago. Eu quero a história completa. – E era nessa hora que eu me fodia.
Outra característica indispensável de Sophia era como ela sabia convencer alguém a fazer o que ela queria com poucas palavras. Com o tempo eu aprendera a me controlar quando ela fazia aquilo comigo. Mas, naquele momento, o que eu mais queria mesmo era desabafar. Falar a verdade, mesmo com o peso que ela teria. Dizer o quanto eu queria, por tudo o que existia, esquecer ela. Era difícil, porém necessário.
–Eu sempre pensei que viveríamos para sempre juntos, Sophia. – Eu, você, dois filhos e um cachorro, apesar dela não gostar de cachorros. – Quando você veio com aquela história de dar um tempo, eu me desesperei. Do que adiantam anos estudando, trabalhando, consumindo, se quem você quer ao seu lado já não está mais lá. É frustrante sabe. Em certo ponto até mesmo broxante. – Ela me olhou, uma compreensão abalada em seu rosto. Olhei para baixo, para o branco do prato para não me deixar influenciar. – Aquele homem parecia a solução para todos os meus problemas. Noites mal dormidas, olhos de ressaca, pesadelos. É difícil confessar isso, ainda mais para você. – Aquela velha banalidade de que são as mulheres quem mais lamentam pelo fim do namoro não se aplicava a mim. Tinha trinta e quatro anos bem vividos, mas era fraco para essas coisas. – Tudo o que eu mais queria era dar um jeito de voltar para você, Sophia. – Ergui os olhos sorrindo. – Mas sei que isso não é possível, afinal, você não me quer de volta. Até agora não entendi o porquê do ponto final. São ideias contraditórias, eu sei, mas o que eu mais quero no momento é esquecer. – Percebi o clima pesando, minhas palavras deixando cicatrizes profundas pelo menos em mim. – Esquecer você, esquecer a porcaria deste vinho, esquecer seus olhos, seu cabelo, sua boca, a porra do seu perfume, a suavidade de sua pele, a maciez de seus seios. Tudo. – Franzi as sobrancelhas. – Está satisfeita?
A vontade que eu tinha era de sair correndo, perdido pelas ruas mal cuidadas do Rio e me esconder de mim mesmo. Meus olhos pareciam a ponto de chorar, mas não deixei as lágrimas caírem. Antes que Sophia falasse, peguei o cardápio e o observei, distraindo-me.
–Sinceramente, não sei se peço desculpas ou se simplesmente te agradeço. – Levantei os olhos confuso. Aquilo era um consolo? – Primeiro: quando pedi a você um tempo minha única intenção era me sentir livre. Depois de todo aquele tempo, acabei me prendendo em mim mesma. Era a hora da libertação. – Com uma das mãos Sophia abaixou o cardápio que eu segurava e pegou minha mão, fixando seu olhar em mim. – Vi, neste pequeno período de tempo que passamos separados o quanto você era essencial para mim. Às vezes, a liberdade vem com um preço. – Ela sorriu, mostrando os dentes brancos ofuscantes. – O meu foi querer você de volta. O seu, bem, foi tentar me esquecer.
–Tentei. – Olho para a porta de vidro atrás dela. Reparo como o restaurante está quase vazio, somos somente nós dois e mais três casais espalhados pelo emaranhado de mesas limpas. O que Sophia disse era tão estranho. A vilã se tornara repentinamente a mocinha. O mocinho veio a ser o vilão. A mulher entendia bem disso. Eu mais do que gostaria. Mas às vezes ser o antagonista poderia ser melhor, se visto do ângulo certo. – E espero conseguir. Desculpe, Sô, mas você começou isso. Inevitavelmente, eu preciso terminar, de uma vez por todas. – Soltei da mão dela. – Isso não quer dizer que não possamos ser bons amigos. –Voltei a pegar o cardápio. – Eu vou viajar. Agora mais do que nunca é o que parece certo. – Sorri, agora mais do que nunca, literalmente. Toda aquela história de quem termina e terminado mexia comigo. O jogo mudava, os jogadores mudavam, os iniciais mudavam. Era irrevogável. – Sophia assentiu, sem dizer uma palavra, séria, apenas pegando o celular sobre a mesa e digitando algo, rapidamente.
–Nada mais justo. – Enfim disse, sorrindo brevemente. Era tão boa a sensação de dever cumprido, a verdadeira sensação de liberdade. Um passo no vazio encontrara um ponto firme. Como num tribunal, nenhuma das partes saia completamente satisfeita. Era óbvio que Sophia deixaria cicatrizes profundas e doloridas no meu coração. Mas fazer o quê? – O que vamos comer? – Pediu ela, pegando o cardápio das minhas mãos, nossos dedos encostando-se por um mili-segundo.
–Que tal camarão? – Era nosso prato preferido, que eu estava disposto a comer em comemoração ao nosso término. Quem dera eu dizendo isso! Comemorar um término. Muito insensível da minha parte. – E molho barbecue, talvez? – Claro, porque não misturar nosso molho preferido também?
O resto do jantar transcorreu silenciosamente. Cada um na sua, uma garfada a cada minuto, saboreando o que poderia ser a últimas das noites que jantávamos camarão ao molho barbecue bebendo vinho francês. Conversamos sobre assuntos aleatórios, sem se preocupar com o que dizíamos, afinal, agora éramos apenas amigos. Consegui arrancar algumas gargalhadas de Sophia, tirando a nuvem escura que pairava sobre nós. Mas foi só isso. Houve uma hora que simplesmente chamei o garçom e pedi a conta. Um convite para nos retirarmos, cada um para a sua casa fazer o que bem intendesse. Sophia entendeu o recado e se levantou. Havia um olhar triste e melancólico em seu rosto, algo como se fosse chorar a qualquer momento depois que me despistasse. Paguei e nos despedimos com um beijo no rosto. Apenas amigos. Naquela noite olhei pela última vez seu nome nos contatos do meu telefone antes de edita-lo. Agora era somente Sophia, sem coração. Afinal de contas, meu coração pertencia a quem sentia-se livre comigo, não sem mim. Sophia era passado; No presente só existia uma boa noite de sono e uma viagem para Nova York.
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