Jogo da Vida
3 Asilo
Notas iniciais
Wanna hear your beating heart tonight
Before that bleeding sun comes alive
I want to make the best of what is left hold tight
And hear my beating heart one last time
Acordei instintivamente com uma música inundando meus ouvidos. Abri meus olhos lerdamente como sempre fazia quando o despertador tocava e tateei a procura do celular na cabeceira da cama. Quando o agarrei, percebi que na verdade estava recebendo uma ligação. Franzi meus olhos meio que embriagado de sono tentando decifrar o número. Era privado, algo como uma ligação internacional, códigos arrumados de maneira estranha. Vi a hora: eram três e meia da madrugada. Pensei em não atender e voltar a dormir, afinal, era sábado, e não estava afim de ficar com insônia logo agora. Mas então meu cérebro inundou-se de imagens do dia anterior, o homem, o contrato, o jantar... Sophia. E resolvi atender.
–Alô? – Indaguei, mas minha voz saiu grogue quase que como um aul-ô, um resmungo inaudível. “Sr. Thiago Fernandes Paiva?”, indagou quem quer que estivesse no outro lado da linha. – Sim. – Respondi me recuperando um pouco do entorpecimento e prestando mais atenção no que o homem, a voz era grave e seca, falava. “Desculpe estarmos lhe incomodando a esta hora da noite, mas precisávamos confirmar o horário e o local de seu voo que partirá amanhã.” – Certo. – Me perguntava o porquê de ligarem àquela hora para dizer somente isso. Porque não ligavam pela manhã? Era tão mais prático. Me levantei, cambaleando enquanto catava meu chinelo pelo chão do quarto e acendi o abajur. Procurei, abrindo as gavetas, por um bloquinho de papel e uma caneta que funcionasse. Encontrei e me pus a posto rapidamente, antes que o homem no outro lado da linha dissesse algo. – Pode falar. – Insisti. “Aeroporto Santos Dumont”, disse, incisivo. “Portão nove. Embaque ao meio dia de amanhã, domingo, dia 13. Um carro irá lhe buscar, com um encarregado que lhe informará mais detalhes. Até breve, senhor”. – Anotei tudo. Conferi com uma passada de olhos o que havia escrito e antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, pedir o nome de quem estava falando, de onde estava falando, o fulano desligou.
Coloquei o celular sobre a cabeceira e fiquei olhando para um ponto branco qualquer na parede pálida do quarto iluminado pela funesta luz amarela que o abajur emanava. Um choque de realidade veio contra mim, algo que acontecia comigo depois de fazer coisas importantes, como assinar um documento. Pensei na burrada que tinha feito, as coisas que poderiam dar errado. Por que, por tudo o que existia, tinha sido logo eu? Toda aquela história de profissional conceituado não me convencera totalmente. Era estranho, haviam tantas pessoas melhores. Só sei que nada sei, dizia Sócrates, e então a ignorância surgiu. Que porra estaria Sócrates pensando ao afirmar aquilo? Talvez beber cicuta tivesse sido um preço mínimo a pegar. Algo que me assustava, independentemente do modo que viesse acontecer era a perspectiva da morte como uma ideia futura. Morrer fazia parte, sim. Mas morrer era algo tão... mal pensado. Tanto fazia vegetar em uma cama de hospital ou sangrar até não poder mais, tudo o que fazíamos, nossas ideias, nossos atos, nos levavam a isso: morte. Galileu precisou negar seu princípio mais precioso para ser poupado do fogo: o geocentrismo. O mundo girava de um modo tão interrogativo que fazia-nos pensar se todos os nossos movimentos não passassem de um jogo programado. Chegava a ser tedioso.
Fechei os olhos, respirando fundo e me deitando, novamente, na cama agora já fria. Desliguei o abajur e me concentrei no sono, para que ele chegue logo, rapidamente. Senti que meu pensamento voava para Sophia e sua beleza agora exageradamente procrastinada. É inevitável dizer que ela fez parte, uma grande parte, talvez a maior das fatias de pizza do meu passado. Sophia fez parte da minha vida. Ela me apoiou, me ajudou, me incentivou, me criticou, me repreendeu, me amou. Nossos sentimentos foram os mesmos, eram compreendidos. Foram, talvez, os melhores dois anos e três meses da minha vida. Nossas noites em claro, nossas conversas inteligentes, nossos momentos de amor. Aquilo tudo era tão bom. Mas dizem que o que é bom passa rápido. Não deixa de ser verdade. Adormeço mas no não tardar, sonho.
Sinto que não consigo abrir os olhos, parece que as pálpebras foram grudadas. Meus braços estão presos, assim como minhas pernas, todo o meu corpo. Aquela sensação é horrível. Não consigo me mexer, não consigo ver, tudo parece sobre-humano. Tateio a procuro de algo ao meu redor, mas a única coisa que encontro é o frio, um vento cortante que passa por mim e se bifurca ao encostar no meu corpo. Tento andar, mas minhas pernas atadas deixam o trabalho impossível. Faço o máximo de esforço para pelo menos abrir os olhos e percebo que eles estão cedendo. Quando a primeira luz passa por elas, é como se meus olhos estivessem assim a anos, e agora precisassem se acostumar com a presença de luz. Parece que estou em uma sala branca, algo como um filme futurista, um lugar artificial. Mas o que mais me assunta, quando finalmente me acostumo com o brilho fugaz, é o líquido rubro, espesso e quente que cobre meu corpo, dos pés, passando pelos braços, ambos atados por correntes de couro, como num sanatório, até minha cabeça. Sangue.
Todo o meu corpo suava quando abri os olhos, assustado. Me remexi, tentado desgrudar o lençol da minha pele. Era estranho, fazia tempos que eu não tinha um pesadelo como aquele. Respirei fundo e me levantei, olhado a hora no celular. Eram nove e quarenta e quatro da manhã e meu corpo precisava de um banho. Carecia urgentemente me livrar daquela sensação abstrata de que havia sangue cobrindo o meu corpo. Mexi meus pés e meus punhos a procura de movimento. De cueca, sai em busca da água morna e apetitosa do chuveiro. Mesmo estando quente, o ar seco dominando tudo, os parques aquáticos arrecadando mais que o normal, era do calor que precisava. Não tinha mais Sophia para ter em meus braços alguém com quem busca-lo, então seria a água minha mais nova amante.
Isso parecia tão superficial da minha parte. Ensaboava meu corpo agora nu com a energia revigorada. Tinha ainda um dia livre antes da viagem, e o aproveitaria como se fosse o último. Depois disso, só Deus saberia o que fazer comigo. Havia decidido que me jogaria de corpo e mente nesta viagem, faria tudo o que fosse necessário para ser feliz. Enxuguei-me, colocando a roupa mais próxima de um dia normal: calção, regata e chinelo. Era verão. Era Rio de Janeiro. Era sábado.
Olhei-me no espelho, esperando um milagre que tirasse as olheiras fundas que cobriam meus olhos ou que me barbeasse sem me mexer. Meu cabelo molhado caia mais preto sobre a minha testa. Meus olhos castanhos pareciam esbugalhados com a presença dos casulos pretos sob eles. Meu rosto define um exímio insone, o que não é verdade. O meu cronograma para o dia de hoje seria simples: visitar meu pai no asilo, arrumar e mala e dormir cedo. Estou nem aí de segunda derem falta de mim na escola. Talvez ligasse de Nova York avisando. Sei que é minha responsabilidade, afinal, estou ganhando para isso, como se importasse muita coisa. Nos dias se hoje, os professores eram tão desqualificados e mal vistos que qualquer um poderia ensinar aos alunos como se acentua café ou como se soma dois e dois. A internet estava ai para isso.
Sai de casa beliscando uma bolacha qualquer de um pacote aberto. Peguei o carro e vagueei pela cidade maravilhosa. O asilo que meu pai morava era no Méier, não muito longe do meu apartemento. Era uma casa de repouso que tratava de velhos com reumatismo, osteoporose, Alzheimer, mal de Parkinson entre outras doenças que acometem os idosos. Desde quando eu tinha uns quinze anos meu coroa apresentara sinais de tremores constantes quando levantava uma simples xícara de chá. Minha mãe engravidara de mim quando ele já tinha passados quarenta anos. Foram inúmeras tentativas, a maioria sem sucesso, até que eu saí. Mas já parecia tarde. Faziam dois anos que minha mãe falecera, e depois desse momento, eu não hesitara em colocá-lo sobre tratamento médico constante.
As paisagens pelas quais eu passava eram diversas: prédios grandes ostentando uma bela arquitetura; casas simples contrastando com casarões bem decorados; parques, estabelecimentos, grandes construções; ruas bem e mal asfaltadas com uma diversidade enorme de pessoas caminhando por elas. Estacionei o carro e sai, sabendo que aquela seria a última vez que veria meu pai antes da viagem. Suas rugas, seus olhos que pareciam mortos olhando para o horizonte, seu sorriso simpático e contagiante, que fazia todo mundo sorrir também. Falaria com o enfermeiro chefe e exporia minha situação a ele. Segundo dizia o contrato, deveria ficar pelo menos um mês fora: uma semana em cada metrópole.
A Casa de Repouso para Idosos Richard Clare era uma grande propriedade com jardim, caminhodromo, lago para dar de comer aos patos, mini zoo, academia, refeitório, sala de convivência, sala de jogos e música, quartos grandes, amplos e bem arejados com TV a cabo e ar condicionado. Era quase como um hotel cinco estrelas para moribundos. Eu era conhecido por quase todos os enfermeiros, fiz amizade com muitos pacientes, talvez até mais que meu pai, que passava o dia ou na cama, assistindo filmes e lendo romances eróticos, ou no lago, observando os patos e lendo romances eróticos. Romances eróticos do tipo Sabrina, aqueles vendidos em sebos, com folhas amareladas e cheirando a cigarro, eram os que ele mais gostava.
–Olá Bia. – Cumprimentei a recepcionista. Era uma mulher já de meia idade, com a pele morena, os cabelos cacheados compridos arrumados em um coque. Ela sorriu para mim, saudando-me de volta. – Meu pai está no quarto? – Ela assentiu e apontou para o corredor, como se eu nunca tivesse vindo até ali visita-lo antes. Caminhei por lá, dobrando as esquinas, passando por vasos de plantas bem cuidadas, quadros coloridos e expressivos, paredes pintadas com cores vivas até chegar à porta do quarto 76. Abri a porta cuidadosamente, com medo de que meu velho ainda estivesse dormindo. Quando o vi, sorri para mim mesmo. Estava lendo um romance erótico. Me aproximei lentamente, com cuidado e em silêncio, ele nem dando conta da minha presença. Era estranho ver meu pai segurando um livro, pois suas mãos tremiam consideravelmente tornando difícil a leitura. Uma vez pedira ao médico como ele conseguia ler naquele estado, mas o homem me explicara que meu velho pai se acostumara às suas condições.
–Pai... – Sussurrei. Ele se virou, fechando o livro. Quando viu quem era, sorriu. Quando sorria, seus olhos da mesma cor que os meus franziam e sua boca chegava até as bochechas. Hoje, seu cabelo liso e grisalho estava bem penteado, o que não era muito normal. Heitor Paiva podia ser considerado um homem reservado e com toda certeza muito inteligente.
–Filho! – Mais rápido do que eu esperava ele se levantou e me abraçou. Abracei-o também. Era alguns centímetros mais alto que ele e podia sentir suas mãos tremulas e fracas encostando nas minhas costas. A roupas que usava era o pijama da casa de repouso, branco com o brasão do lado esquerdo. – Que bom que veio.
–Que nada, pai. – Respondi, enquanto ele se sentava na beirada da cama, me olhando, seus olhos brilhando. – Precisamos conversar. – Disse, e no mesmo segundo o sorriso nos lábios do meu pai aumentou em gênero, número e grau.
–Não me diga que... – Parecia que ele ia aplaudir. – Filho? Você... você vai ser papai? – Que? Sabia que o sonho de meu pai era ter um neto antes de entrar em um caixão e nunca mais sair de baixo da terra. Afinal, eu era seu único filho e toda essa história de crianças mexia muito com ele. Mas a minha intenção não era indiciar meu pai àquilo, logo agora. – Como está Sophia? Aquela menina é de ouro!
–Na verdade, pai, não é nada disso. – O sorriso que estampava o rosto dele foi desaparecendo aos poucos. – Sophia e eu... nós... terminamos, você entende? – Me arrependi de ter dito aquilo no momento em que falei. Poderia ter mentido, sei lá, talvez dito que Sophia e eu ainda estávamos juntos felizes, tentando ter muitos e muitos filhos para encher uma casa de netos para ele. Mas... burro... não foi o que eu disse.
–Ah. Certo. – Ele assentiu, cabisbaixo. – Mas, então porque veio aqui. – Uma coisa própria de meu pai era sua facilidade de ficar irritado. Por qualquer coisa que não lhe satisfizesse, seu humor mudava. Ainda mais depois que envelheceu. Fora esta uma característica que eu não herdara dele.
–Vim dar uma notícia. – Tentei anima-lo. – Uma novidade. – Sentei na lateral da cama, perto dele, colocando um dos meus braços nas suas costas. – Vou viajar! — Ele olhou para mim, como se desacreditasse e então voltou a baixar a cabeça. – Qual é, pai? Não está feliz? Amanhã mesmo estou indo para Nova York.
–Bom. – Ele disse, com pesar na voz, tremendo. – Muito bom. E vai deixar seu pai aqui, sozinho, doente, no meio de toda essa gente. – Como de praxe estava se fazendo de vítima. E eu achando que seria fácil contar a ele. – Você acha que eu sou burro, não é Thiago? Sei que você não está nem aí para mim. Que por você eu poderia ter morrido... – Quando ficava nervoso, suas mãos e seus pés tremiam mais.
–Cala a boca, pai! – Gritei, levantando-me, ficando de frente para ele. – Você tem todo o direito de querer mandar em mim, afinal, se não fosse por você eu nem estaria aqui, mas eu não sou mais o garotinho sem noção que eu era quando eu tinha doze anos. – Esperei alguns segundos, crente de que ele revidaria. Como não aconteceu, continuei. – Aliás, estou viajando a trabalho e a última coisa que eu quero neste mundo é te ver morto. Antes eu que você. Saiba disso. – Tudo o que eu dissesse entraria por um de seus ouvidos e sairia pelo outro. Toda a calma que tinha comigo quando eu era criança se esvaiu depois da morte da minha mãe. Era inútil conversar com ele sobre certas coisas. – Ficarei um mês fora. Um mês. – Frisei. – Sei que consegue se virar sem mim. – Sorri. Não gostava de brigar com meu pai, muito menos com ele naquele estado. – Amo você, pai. – Aproximei-me dele novamente e o abracei. – Eu sei que você sabe. – Ele também me abraçou. Rapidamente, torpe e tremendo, mas foi um abraço.
Dei as costas para ele dizendo um tchau, até mais, e quando estava fechando a porta, uma brecha faltando, escutei meu pai sussurrando, como um lembrete: desculpe, filho. Eu também te amo. Sorri, emocionado, e fui em direção à diretoria do asilo. O diretor era um cara simpático, ainda na flor da idade, por volta dos vinte e cinco anos. Era loiro, olhos azuis e não fez nenhuma objeção quando lhe informei sobre a viajem. Despedi-me cordialmente dele, agradecendo-o e voltei para o carro, fazendo o caminho inverso que fiz quando vim. Quando cheguei ao meu apartamento, a primeira coisa errada que percebi foi a porta. Estava aberta. Será que não a tranquei quando saí? Entrei, desconfiado na sala e acendi as luzes. Tirei o molho que tinha no bolso e a tranquei, testando-a por fim. Estava seguro.
Esta ideia de que dentro de casa eu estaria seguro veio da minha infância. Toda noite, quando eu ia dormir, minha mãe me assegurava de que nada de ruim aconteceria comigo, com ela, nem com meu pai, enquanto estivéssemos aconchegados dentro de quatro paredes. Na realidade, nunca aconteceu mesmo e quanto mais eu crescia, mais eu percebia que talvez sua afirmação tinha fundamento. Encostei as costas na porta, fechando os olhos e respirando fundo, me recuperando do susto.
–Espero que esteja preparado. – Ouvi uma voz dizer. Abri os olhos imediatamente e procurei de onde ela vinha. Uma coisa que eu odiava era tomar sustos, e escutar uma voz dentro do meu apartamento poderia muito bem ser considerado um susto. O mais estranho era que a voz me parecia conhecida.
–Quem... – Gaguejei. – Quem está ai? – Dei um passo para frente, observando cada coisa que podia. O tapete estava no lugar, a poltrona, meus materias de trabalho, o laptop. Tudo estava lá. Mas...
–Quem mais poderia? – A voz se manifestou. Ela veio do corredor, parecia estar se aproximando. Decidi ficar onde estou, parado, sem movimento. – Quem você acha que foi até a casa de sua ex–namorada e “pegou emprestada” a chave do seu apartamento? Quem ficou anos pesquisando seus dados nas redes sociais, indo atrás de catalogar tudo, tudo mesmo sobre você, seu passado, seu boletim, sua família? QUEM? – Gritou. Aquela voz... Não, não poderia... mas aquela voz era...
–Lisías? – Pedi, quase em um sussurro inaudível, no momento em que o corpo dele se libertava da escuridão que o prendia no corredor. Era o mesmo homem que me visitara ontem. Seu cabelo preto mesclado de grisalho. Seus olhos azuis fulminantes. Agora ele vestia uma regata branca que deixavam expostos seus grandes bíceps. Mas o que mais me chamou atenção foi o que ele estava segurando na mão enluvada: um revolver. Ouça a voz da sua consciência, dizia sempre a minha mãe. Pois é. Foi o que eu não fiz. Todo o tempo em que ele estivera em minha casa na tarde passada eu pensava comigo mesmo o que ele poderia ser. Agora eu tinha certeza. Ele era.
–Em carne, osso e arma na mão. – Levantou-a, apontando para mim. – Qualquer movimento brusco e eu, bum, atiro. – Ele gargalhou, como se sua piada tivesse graça e aproximou-se, um passo de cada vez e eu me afastei até a porta ser a única coisa atrás de mim. – É simples. Como eu disse, espero que esteja preparado. – SOCORRO, o que era aquilo? Eu havia assinado a porcaria do contrato, feito tudo o que aquele homem, involuntariamente, me obrigara a fazer e agora ele estava me apontando uma arma. Tenso.
–Preparado para quê, porra? – Minha voz soava seca e diminuta, como se eu estivesse com medo. Na real, eu estava mesmo. – O que significa isso? Eu assinei o contrato, me propus a perder meu emprego e viajar com vocês. O que mais você quer agora? – De certo modo estava furioso. O que aqueles filhos de umas putas queriam comigo?
–Acabar. – Seu sorriso era sádico, como quando você mata um inseto por prazer. – Na verdade, quero começar. Começar a maior guerra pelo qual já se teve notícia contra a pocilga que está se transformando a igreja católica. – Que merda era aquela? – E você será nosso estopim! – Mais um passo, a arma apontando para mim.
–Mas... e tudo aquilo que você disse ontem? – Tentei fazer meu cérebro funcionar, conseguir algum tempo antes do inevitável. PORRA, tem uma arma apontando para mim! – Sobre a viagem, novo modo de vida, dinheiro em bicas? Era tudo mentira?
–Boa parte. – Olhei para a sala do meu apartamento: o sofá todo bagunçado, minhas anotações do que poderia me fazer ganhar mais dinheiro no futuro. Aquilo era sério? – Nunca houve viagem. Nunca houveram investidores. Nem mesmo sequer todo aquele mundaréu de dinheiro. O que, de verdade, sempre houve foi um homem em busca da libertação. Espero que se lembre. – Mais um passo. Estava próximo demais agora, se andasse mais dois metros a arma estaria encostada em mim. – E todos os exemplos que citei. Pecados, liberdade. Lembra? – Assenti, engolindo em seco. Sabia que qualquer movimento em falso acionaria aquela arma. – Bom. Muito bom. Então assim será mais fácil atirar, sabendo que sabe no que se meteu. – Não consegui me segurar:
–No que eu me meti? – Engasguei. – No que vocês me meterem, diga. – Sem querer meu pé se chocou com tudo contra a porta. – Porra, eu não entendo... – O homem me cortou.
–É muito fácil lhe fazer entender. – Ergueu a arma, apontando agora para a minha cabeça, dando um curto passo. – Seu livro, foi ele o que me motivou a tudo isso. – Meu livro?! – A sua simples história da paixão de uma casta mulher por um abusivo padre nos mostrou o quando somos subordinados à igreja. Mesmo ela enfraquecendo, perdendo inúmeros fieis por dia, sua raiz é forte, assim como sua ditadura, e aguenta todos esses... fracassos. – O meu livro, na verdade, era uma simples história original que acabara vendendo mais que o esperado, criando fãs malucos, como este postado à minha frente. Abri a boca para retrucar. Sem chance. — A sua obra serviu como uma faísca. Ela me encontrou, veja bem, represento a pólvora, e então... CABOOM!
–Mas e o contrato? – Atrasei-o. – E o telefonema sobre o voo? – Aquilo não podia estar acontecendo. Eu entrara no jogo de um maluco, um quebra-cabeças louco, sem solução plausível, um labirinto sem saída. Algo como um filme de terror sem fim.
–Mera parte do plano. – Ele sorriu e deu mais um pequeno passo. Um metro, calculei. – Precisava que você acreditasse. Que visse o quão certa era a ideia que lhe expus. Como disse, você será o estopim. Quando o tivermos morto, a polícia, a perícia, quem quer que seja necessário, descobrirá a verdade que se esconde por detrás das palavras de seu livro. Com a nossa humilde e inocente ajuda, o catolicismo entrará em declínio. E então, finalmente ruirá. – Parecia que estava divertindo-se dizendo aquilo.
–E porque precisa de mim morto? – Engoli em seco novamente. Parecia que a cada palavra que eu dizia ele aproximava-se um passo. Todas as insinuações mentais que havia feito ontem voltaram à minha cabeça: matador de aluguel, assassino, psicopata. Mas nenhuma parecia aceitável.
–Pelo simples fato de você poder querer desmentir todas as descobertas que fariam acerca de seu livro. – Deu o último passo e senti o cano frio e metálico da arma encostando na minha testa. Fechei os olhos. – Você poderia dizer que tudo nele escrito era mentira, que foi uma simples invenção de sua cabeça, uma coincidência, quem sabe? – Precisava fazer uma última pergunta, era necessária, talvez aquelas fossem minhas últimas palavras:
–Porque, então, você simplesmente não vinha e me matava, sem precisar enrolar com esse papo de contrato e viagem? – Praticamente cuspi aquelas palavras. Pareciam veneno. Fiz questão de não tê-las só para mim. Não aguentava mais toda aquela história sem pé nem cabeça.
–Pelo simples fato de acreditarem que você cometeu suicídio. – Ele falou, convencido. Suicídio? Como assim? Não seria ele quem me mataria. Agora ele queria que eu me matasse? Era mais louco do que eu pensava – Daqui a alguns instantes, exterminarei com qualquer indício de que eu passei por aqui, inclusive você. Para todos os efeitos, a fama pelo qual você não estava acostumado lhe sobrecarregou. – Aquele homem era louco, com toda a certeza. E as câmeras de segurança? E as testemunhas que poderiam tê-lo visto? Será que não existiam? Será que não havia pensado nestas circunstâncias? – Infelizmente.
Quando estava pronto para jogar contra ele aquelas dúvidas, minha boca abrindo-se, sem conseguir mais se segurar, a pressão que arma expelia sobre mim aumentando, o sujeito apertou o cano, mais forte, contra a minha testa e atirou sem hesitar. A sensação da bala alojando-se, perfurando crânio e cérebro foi ao mesmo tempo inquietante, mórbida, dolorida, insuportável e misericordiosa. Meus nervos, por todo o corpo, pareciam queimar. Eu parecia estar em chamar. Não ficará impune, foi meu último pensamento, a última centelha de vida em mim, antes de cair, meu rosto, a porta, tudo, maculado pelo sangue. Não via mais nada, não ouvia, não sentia. Era como dormir... para sempre. Dizem que quanto você morre toda a sua vida passa pela sua cabeça, como um insight: memórias, ideias, passagens boas e ruins; era como um purgatório mental. No meu caso, foram as pessoas mais importantes que fizeram parte dela.
Vi meu pai, e então soube o quanto o desapontara, agora ainda mais; não poderia mais dar a ele o neto que tanto queria. Seu rosto enrugado, mesmo assim, sorrindo para mim, seus olhos fechados, suas mãos segurando um terço, dentro de um caixão. Ele me perdoara, eu sabia. Depois vi Sophia. A beldade escultural, a segunda mulher que mais amara na minha vida, ao lado de outro homem, alto, suas mãos entrelaçadas. Seus olhos verdes, seus dentes brilhantes, seu cabelo amadeirado, e o bebê. Um lindo menino sorrindo. Thiago, Sophia sussurrou, olhando para a criança, e então eu soube.
Sabia que no final o certo era o mocinho ficar com a mocinha, mas quem pode dizer que a vida é um conto de fadas? Afinal, talvez eu não fosse o mocinho.
E então, ela. Minha mãe. Lara Fernandes. Cabelos brancos como neve, um vestido de seda púrpura lhe cobria o corpo, que parecia envolto em uma áurea de pureza, algo branco que pulsava energia. O câncer a consumira como um rato come um queijo, mas até seu último suspiro continuara forte, uma guerreira nata. Ela estendeu a mão e eu, em algum lugar do meu inconsciente, também estendi a minha e encostei na dela. Senti seus dedos quentes, a textura delicada e rugosa de sua mão, e soube que seria feliz.
Foi minha mãe que me guiou até o paraíso. Ela também me ensinou a coisa mais importante da minha vida, algo que sempre levei comigo:
“No jogo da vida, este que somos peças de xadrez na mão do onipotente, ninguém sai ileso, de modo algum, muito menos ganha no final”.
Fale com o autor