Joe's Coffee Shop
1 ONE| new kid in town
Notas iniciais
Respirando fundo, ela ajeitou a jaqueta jeans e empurrou a porta dupla do estabelecimento antiquado, onde havia um amplo balcão à esquerda e uma garota loira, de estatura baixa e uniforme azul claro, esfregando a mesa com um pano desfiado enquanto a música genérica ressoava das caixinhas de som.
Trêmula, começou a retirar o panfleto amassado da bolsa, indo em direção à funcionária.
Pigarreou ao ficar de frente.
— Olá, me chamo Lily. Lily Evans. Vim para a vaga do anúncio... Estive em contato com Joseph McAdams por telefone.
— Você deve ser a novata, não é? Meu nome é Emmeline. Joe me deixou responsável para te apresentar tudo por aqui. Vamos, — a garota fez sinal para Lily a acompanhar cafeteria adentro enquanto desatava o avental. — Meu turno acaba em dez minutos. Pode virar a plaquinha para fechado, por favor? Ninguém vai aparecer mesmo.
Demorou alguns segundos para Lily entender, mas rapidamente virou-se, trocando o aviso neon desgastado.
— A entrevista, você quer dizer? — Perguntou ao girar de volta, apressando o passo.
— Ah, não, você já está contratada. O velho Joe não se importa muito com essas coisas. Na verdade, só tem uma coisa que tira o sono dele à noite, e acredite: não são os calouros da Universidade de Manchester querendo uma graninha extra para festas.
Ela piscou.
— Isso é... bom. Quero dizer, ótimo! — Lily se endireitou, e pela primeira vez em muito tempo, a vida parece ter sorrido para ela. — Como funciona tudo por aqui? Por onde começo? — Indagou, os lábios puxados para cima começando a se formar com mais naturalidade.
Até mesmo seus ombros caíram, como se lhe fosse tirado um peso enorme das costas, após uma série de tentativas desastrosas de arranjar um trabalho. Parando para pensar, ainda bem que a escolinha para cachorros nem cogitou ler seu currículo pífio, uma vez que tinha alergia a pelos, —e seu antialérgico a levaria à falência caso fosse.
E se conseguisse nada até o final dessa semana, seria obrigada a aceitar o dinheiro dos pais. O que era uma grande questão para Lily e a principal razão que escolhera essa cidade, e não Londres. Ademais, suas aulas logo começarão, na próxima semana.
Ao que tudo indicava, ela cobriria praticamente todos os turnos que Emmeline não estivesse. Menos às quartas, em que ambas tinham horário livre pela manhã.
— Basicamente somos nós duas, intercalando os horários com as aulas, e Severus, que fica nas cozinhas. Bom, o sr. Joe também, mas ele não conta.
— Certo.
— No decorrer dessa semana vou ensinar os principais cafés e todas as quantidades. A comida não é problema, toda congelada, basta pôr no micro-ondas e esperar uns minutinhos para entregar, assim o cliente acha que nós realmente preparamos — dizia distraidamente, apontando para os armários e o refrigerador.
Lily rapidamente pôde entender que Emmeline era o tipo de pessoa prática e a adorou por isso. A garota indicou o banheiro dos funcionários, mostrou a pequena despensa lá nos fundos, os horários que passava o lixo, a senha da caixa registradora e o lugar de todas as louças.
— E aqui, senhorita, é onde a magia acontece — disse Emmeline, e Lily foi posicionar-se ao seu lado, de frente às cafeteiras automáticas. — Essa faz todo o café expresso, mas tem que ter calma com a bichinha, está nessa vida tem algum tempo. Mas a maioria dos nossos clientes prefere o café manual recém moído, então é tranquilo. Já essa outra aqui do lado, é a de chás. Basicamente, é um infusor para ervas, que também aceita cápsulas. E, finalmente, a terceira...
Os olhos de Lily brilharam instantaneamente. Era a maior de todas, com muitos botões, luzes e design meio futurístico.
— ...é de enfeite. Venha, acabei de lembrar que não mostrei os produtos de limpeza.
— Quê? O que você quer dizer com de enfeite?
Emmeline soltou um suspiro cansado, como se já tivesse respondido essa pergunta um milhão de vezes e o assunto não fosse o seu favorito.
— Isso mesmo. Ela não funciona, Joe a comprou desse jeito, na ideia de quem sabe recuperar a antiga clientela. Francamente, Severus até tentou o convencer que não valia a pena, mas quando aquele homem coloca algo na cabeça... — Ela fez um gesto com a mão. — Ah, longa história.
Um tanto chocada, Lily apenas assentiu.
Depois de tratar os pormenores, saíram juntas da cafeteria, que fechava mais cedo aos domingos. Moravam relativamente perto uma da outra, e tudo naquele bairro girava em torno da universidade que estudavam.
Passavam agora em frente ao grande centro de desporto, que ocupava dois quarteirões, e fazia parte do campus da UMAN.
E é nesse momento que Emmeline pula ao seu lado.
— Olha, estão com as luzes acesas! Devem estar treinando ainda, — disse Emmeline, estrangulada e eufórica, e Lily olhou naquela direção, o gramado ao longe, com uma pista de corridas, uma piscina olímpica e o ginásio, um tanto difíceis de enxergar. — Vou te dizer, esses meninos mais moram aí do que qualquer outra coisa.
— Você os conhece? — A garota levantou as sobrancelhas, mas logo precisou estreitou os olhos em busca de foco, conseguia, porém, apenas ver borrões se aquecendo na lateral do que parecia um vestiário.
Um frio na barriga foi sentido por Lily apenas em pensar em frequentar o mesmo ambiente que garotos da sua idade depois de uma vida inteira em um internato de freiras—uma cortesia de sua irmã rebelde, que fez o favor de abrir esse caminho.
— Claro que conheço! Eles são ótimos, sempre animados, sabem bem como curtir a vida. E alguns vale perder uma noite. Até mesmo várias, — ponderou a loira, pensativa, mas em um jeito espevitado, dando uma risadinha.
Em contrapartida, Lily gemeu.
— Saquei, a galera popular. A minha chance de esbarrar com algum deles é próxima de zero, eu vou cursar Língua Inglesa, sabe como é, — resmungou, chutando uma pedrinha no caminho.
Emmeline tocou seu ombro.
— Não seja por isso, aproveite os intervalos andar por aí nos outros prédios do campus, sua visão vai agradecer. Me agradeça depois também.
Lily deu um esbarrão leve em Emmeline, rindo com ela. Haviam chegado à esquina onde cada uma seguia sozinha.
Despediu-se, agradecendo de novo e de novo pela ajuda, até lembrar de como Petunia sempre dizia que era patético esse comportamento passivo dela e resolver calar-se e marchar para o seu novo lar, um dormitório na ala leste, que dividia há menos de cinco dias com uma conhecida do seu amigo de infância e que não via desde que ele passou sua altura e engrossou a voz, Remus.
Pilhas e mais pilhas de caixas a estariam esperando para serem organizadas, além de ligações perdidas dos pais no seu celular, dentro da bolsa, todo esse tempo no modo silencioso.
***
Fazia exatos vinte dias que Lily estava trabalhando na Joe’s oficialmente. Era uma quarta-feira, dia que ela poderia bater papo com Emmeline e aproveitar o jeito sem qualquer resquício de pudor da garota, e quem sabe pegar umas dicas aqui ou ali.
Ela estava colocando seu novíssimo crachá, feito na noite anterior na impressora 3d de Severus —que Lily descobriu ser um cara de pelo menos 25 anos, e de poucas palavras, não que ela soubesse exatamente como um garoto se comporta além de seus poucos primos durante o Natal, além de ser extremamente viciado em jogos online. Era o único funcionário de tempo integral e o mais antigo.
Dando uma última olhada no cabelo pelo reflexo do forno elétrico, saiu da cozinha.
Era aproximadamente oito da manhã e já havia atendido duas senhoras mal-humoradas. Havia ouvido o sino de entrada algumas vezes enquanto estava nos fundos e foi, finalmente, verificar se Em precisava de ajuda.
Hoje também marcava sua segunda semana na universidade, mas até agora tudo o que viu foi salas de aulas muito vazias. Gradualmente os alunos apareceriam, uns, ainda se organizando com suas mudanças, outros, veteranos emendando festas de boas-vindas —o que é isso? é de comer?— desde o final de semana anterior.
Logo que adentrou o espaço comum da cafeteria, seus olhos foram inundados pelas cores verde e vermelha, uma mistura estranha. Pelo menos cinco rapazes estavam de frente para o balcão com jaquetas de estilo americano nessas cores, quase tiradas de um filme adolescente. E muito barulhentos.
Sua primeira reação foi mandar suas pernas para longe dali. Era exatamente esse tipo de problema —falar com pessoas, ainda mais do sexo oposto—, que sua mãe a desaconselhou a trabalhar em um lugar que requeria socializar.
E para o azar de Lily, ela não tinha nada disso em nenhuma célula do seu corpo.
O garoto que arrancava as gargalhadas e parecia um tanto violento no jeito que gesticulava era o de cabelos muito escuros, que estampava um sorriso de canto, parecendo gostar de ser o centro das atenções. Ela não gostava de exibicionistas, eram pessoas muito diferentes dela, então tratou logo de desviar para os outros.
O garoto ao lado, de cabelos loiros e pele bronzeada, era quem realmente estava consumindo alguma coisa. E foi dele que partiu a gorjeta no momento que perceberam o horário e foram embora, trotando uns nos outros na saída, o mais baixinho sendo o saco de pancadas mais fácil.
Arrumando o dinheiro no bolso do avental, Emmeline saltou no lugar quando Lily saiu das sombras, cochichando de olhos arregalados e o coração à mil no peito:
— De onde saíram esses caras? — Até agora, todo e qualquer cliente que Lily havia atendido eram senhores resmungões aposentados, professores e pessoas perdidas pedindo informação. Ela quase havia se habituado a atender esses perfis de clientes e não gostaria que isso mudasse tão rápido.
— Céus, que susto, Lily! — Chiou ela, levando as mãos ao peito. Depois, lhe lançou um olhar de censura, que fez Lily se encolher no lugar. — Você realmente deveria seguir meu conselho e dar umas voltas por aí. É sério.
Lily sabia disso. Arranjou desculpas para todos os convites da loira para uma ida ao bar queridinho do pessoal. E sabia apenas o caminho das aulas, do trabalho e da biblioteca. Quase parecia que ela estava em modo automático. Estar em uma nova cidade e sozinha pela primeira vez na vida a pegou de jeito, tudo de certa forma a amedrontava e tornava dez vezes pior.
Mas logo menos a garota soube. Esses rapazes, de jaquetas com desenho de uma cobra enrolada em um leão assustadoramente de mau gosto costurados nas costas, faziam parte do time de natação da sua universidade.
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