Joe's Coffee Shop
2 TWO| don't take a tip from me
Notas iniciais
O sr. Joe era um homem nada convencional na opinião de Lily. Agora, completados três meses de casa, isso ficava ainda mais evidente.
Além do curioso hábito de monitorar os clientes que entravam na Starbucks que ficava bem em frente à cafeteria, xingando-os aos quatro ventos com seu sotaque italiano carregado do outro lado da persiana, (sem o binóculo, no entanto, visto que Severus deu um fim ao objeto quando ele foi visitar a neta em algum feriado), ele também tinha seus momentos contemplativos. E Lily pôde compreender que esse lugar era sua alegria de vida. Especialmente depois de um bom movimento.
— É mais do que um estabelecimento, — explicava ele, certa manhã, separando animado as notas na caixa registradora. — Imagine, filha, quantas pessoas já se apaixonaram por aqui. Quantas ainda irão. E eles falarão ‘nos conhecemos na Joe’s coffee shop’. Fazemos parte da vida de muitas pessoas nesses trinta anos, acredite. — O sr. Joe estufou o peito. — E desde então, não tem um único verão que não recebo convites de casamento!
Mesmo Lily não sendo uma boa referência, na verdade sua experiência em relacionamentos era quase nula, isso soava ridículo. Quem realmente se apaixona em uma cafeteria? Isso só ocorre em filmes, geralmente aqueles de final de ano, com neve e chocolates quentes. O mundo real não é simples ou mágico assim, ele é cruel e difícil, e mesmo que todas as noites antes de dormir um livro de Julia Quinn ou de Nicholas Sparks esteja em sua cabeceira, Lily sabe que isso não faz parte da realidade e está mais do que satisfeita em viver com isso em mente como a pessoa prática que era.
Ainda assim, assentiu, saindo de fininho para os fundos, mesmo que pudesse o ouvir assobiar fora de ritmo de dentro da cozinha.
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Ela estava trabalhando há apenas algumas semanas mais tarde quando aconteceu.
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Era uma segunda-feira nublada, e Lily quem abriria o estabelecimento hoje. Severus teve problemas com o carro, Emmeline chegaria no meio da manhã e o sr. Joe somente apareceria se o movimento fosse maior do que na praça onde ele jogava xadrez com os amigos.
Ela estava apreciando essa rotina, os dias eram quase sempre iguais. Seu Aberforth seguramente iria vir ler seu jornal, como sempre fazia nos turnos matutinos dela. Além dele, Lily esperava encontrar o doutorando que era fascinado pelas rosquinhas de avelã e pedia um copo médio de latte para viagem. E, se tivesse sorte, poderia comer o brownie de nozes caso sobrasse algum até o fechamento do caixa enquanto repassava o conteúdo das aulas.
O sino bateu no momento em que ela adicionava mais água no reservatório de uma das máquinas.
— Bom dia, querida. — Cumprimentou a proprietária da floricultura ao lado.
— Bom dia, dona Batilda. — Lily rapidamente virou-se em direção a prensa francesa atrás do balcão, mas não sem antes perguntar, com um sorriso: — O de sempre?
Se tinha uma coisa, além do café grátis, que ela apreciava em relação ao seu emprego, era definitivamente memorizar o pedido dos clientes assíduos. Observou Emmeline o fazer, e desde então, pegou isso para si.
Passado a hora do rush, geralmente entre as oito e nove horas, e embora Lily deva admitir que a gorjeta do casal acompanhado das duas filhinhas tenha sido ótima, ela não estava no seu melhor dia.
Cada final de mês era uma pedra em seu sapato. Fora ela quem fez questão de sair de casa, então ela quem arcasse com suas despesas. Poderia ter sido suas palavras, mas foram as de seu pai, e ela concordava.
Havia somente três pessoas agora, dentre elas, duas abusando do Wi-fi gratuito. Voltando para o balcão distraída, percebendo o sr. Aberforth lutando com a jukebox para tocar Johnny Cash novamente, Lily quase tropeçou com o barulho alto do lado de fora.
Era um ronco de motor ensurdecedor, e olhando pela vidraça, percebeu se tratar de um carro antigo que, aparentemente, saíra de um acidente, com o escapamento arranhando o asfalto, soltando faíscas. Estacionando de forma violenta, avançando o meio fio, ocupou duas vagas do já apertado estacionamento – uma delas de uso preferencial. Não que o motorista parecesse ligar.
Ela o reconheceu no segundo em que saiu de dentro do carro. Era difícil não saber. Era um dos garotos mais comentados do campus. Todo mundo conhece James Potter.
Até mesmo Lily Evans.
Ela havia passado tempo demais com Alice para entender quem era quem em meio aos seus monólogos pelo campus ou no dormitório, e James fazia parte de 90% deles, sendo ele parte da turminha arruaceira do seu ex-namorado, Frank.
James andava como se tivesse um rei na barriga pelos corredores, distribuindo high five e sorrisos, sempre calmo e relaxado, mesmo quando rumava para o prédio de engenharia em um horário nada dentro do convencional para o começo de uma aula, e Lily estaria no gramado o observando com a testa franzida à distância.
Então sim, definitivamente, ela sabia uma ou duas coisas sobre James. Como a sua inseparável jaqueta de couro que ele vestia essa manhã, por exemplo.
Como um furacão, o rapaz adentrou, fazendo a porta de vai-e-vem chocar com força contra a parede e voltar em um estrondo, largando-se em uma banqueta de frente ao balcão, esfregando o rosto.
— Café preto — grunhiu. — Grande.
Nada de por favor ou bom dia.
Lily se atrapalhou na apressa para alcançar a louça no armário auxiliar, e, despejando o café fumegante com a habilidade adquirida nesses últimos meses, lhe lançava olhares curiosos.
Ele mantinha o rosto enterrado nas mãos, vez ou outra massageando as têmporas. E em uma dessas oportunidades, Lily pôde ver os grandes círculos negros ao redor dos olhos cabisbaixos.
O mesmo olhar que Emmeline tinha nas segundas-feiras. Ressaca.
Quando ela o entregou a xícara, recebeu um aceno mínimo de cabeça. Ou talvez tenha sido sua imaginação. E quando ela virou novamente, avistou duas libras amassadas esperando para serem apanhadas.
— Isso não é o suficiente, — disse Lily, encarando as notas com constrangimento.
James encarou o dinheiro, movendo logo em seguida para seu rosto, e se ela não estivesse tão desconfortável com a situação, teria corado até a raiz dos cabelos vermelhos.
— Emme cobra esse valor toda vez, — ele disse de volta, soando ofendido, passando a mão nos cabelos.
— Você geralmente pega o café pequeno? — Pergunta Lily, sabendo que esse valor, que ela tentava desenrolar nas mãos sem muito sucesso, era o equivalente à xícara de expresso menor.
— Não, sempre o grande, — responde ele, tenso.
Lily respira fundo antes de encontrar voz para replicar.
— Bom... eu não sou Emmeline. Gostaria de um pequeno?
Ele jogou algumas moedas ao lado da xícara.
— Claramente, você não sabe quem eu sou.
De modo geral, ela tinha essa urgência em agradar as pessoas e não causar um mal-estar. Não dessa vez. Foi nesse momento que Lily perdeu a compostura, e aproveitou para tirar a vozinha da sua consciência, que sempre emergia na forma de Petúnia ou da Irmã Umbridge, para um lugar afastado e o encarar com faíscas nos olhos.
— Desculpe, eu deveria saber? — Perguntou com fingida inocência e uma boa dose de coragem inesperada, inclinando a cabeça.
Ele soltou uma risada rouca.
— Agora entendi tudo, — disse ele, a analisando com uma sobrancelha levantada, no canto dos lábios um o sorriso prepotente. — Você é aquele tipo de garota. Eu consigo ver de longe. Você é do tipo que passa cada segundo livre na biblioteca, e organizar os livros por assunto para estudar é a coisa mais incrível que você faz no seu final de semana. Estou certo?
Ela abriu e fechou a boca, sem palavras.
Para alguém que raramente conversava com garotos, não mais que o necessário em seus dezessete anos de vida, Lily estava tendo uns vinte tipos de raiva agora. Deveria ser para compensar essa falta de interação, ela supôs.
— É, sou exatamente esse tipo de garota.
Cerrando os punhos, marchou para o lado oposto do balcão, onde o sr. Aberforth já havia separado para ela as cruzadinhas. Mas a careta que o garoto fez ao tomar a bebida não passou despercebido.
Lily pensou em voltar e dizer umas poucas e boas. Respirou fundo. Isso seria rude, mesmo que fosse merecido. E ele era um cliente de toda forma.
Era só deixar aquele garoto para lá.
Mas o celular dele tocou. E ele, em um movimento brusco, acabou derramando um pouco do café.
— Ah, porra.
O sr. Aberforth estremeceu ao seu lado, quase deixando o jornal cair, e ela, apurou os ouvidos. Resolveu fingir abastecer os frascos de mostarda, torcendo para a sineta não tocar.
— O que você quer? — James rosnou baixo com o aparelho no ouvido. — Isso não é da sua conta. Não, não preciso de ajuda. Quer parar com isso? Já disse que não e ponto final. Acha que eu não sei? — James revirou os olhos, encarando o teto. — Tanto faz. Não volte a me ligar, nós dois sabemos que você não precisa fazer isso.
E desligou, atirando o celular do seu alcance, no que rodopiou e por pouco não caiu.
Lily mentiria se dissesse que não estava curiosa, e no mínimo, assustada. Apesar da pose arrogante, ele tinha sim uma espécie de magnetismo que a fazia ponderar suas ações, gostando ou não.
Hoje parecia que estava dando tudo errado para ele. E ela se sentia vingada indiretamente.
— Jay!
O sino tocou ao mesmo tempo que Emmeline chamou por ele, um sorriso amplo estampado no rosto da garota. Ainda sem o uniforme, ela deixou a pequena mochila atrás do balcão de atendimento e correu para dar-lhe um beijo estralado na bochecha.
O semblante dele instantaneamente suavizou. Eles trocam algumas palavras, a mão dele descansando nos ombros dela em um abraço de lado inocente, e Lily sabia que estava sendo idiota, mas seus olhos continuavam vidrados na cena à sua frente.
— Droga, estou muito atrasado. — Ele havia recolhido o celular, olhando a tela com a testa franzida e um claro sinal de cansaço nas suas feições. — Ensine a nova garota como se comportar, ok? — Disse ele, levantando e saindo da cafeteria, sem disparar um único olhar na direção de Lily.
Assim que a porta fechou nas costas dele, Emmeline imediatamente voltou seus olhos para Lily.
— O que você fez?
— Ele pediu um café grande. Eu entreguei um café grande. Que coisa terrível, não é mesmo?! — Disse ela, não conseguindo evitar soar aborrecida.
— Meu Deus, Lily! — Exclamou Emmeline, sacudindo a cabeça. — James… O que posso dizer? James é incrível, ele… é muito especial. Mas tem passado por uns apertos ultimamente, e precisamos segurar as pontas por ele. — Ela suspirou. — Tem várias coisas acontecendo na vida dele agora.
Lily trocou o peso dos pés, não comprando muito a ideia.
— Você gosta dele? — Ela perguntou de repente, quando o assunto James Potter parecia ter morrido e Emmeline estava debruçada anotando a lista de compras.
— Todo mundo gosta dele, Lily. Dê um desconto ao garoto. — Reparando que Lily ainda a olhava com incredulidade, suspirou outra vez. — Sabe de uma coisa? Vou avisar à ele para evitar seus turnos e damos por encerrado essa história.
— Ótimo, melhor assim.
Emmeline deu de ombros ligeiramente, deixando uma Lily pensativa para trás, se afastando para buscar seu avental.
Era um tanto difícil não pensar que o estereótipo de garoto popular vestia como uma luva em James Potter e ela decidiu, a partir daquele momento, que o detestava.
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