Notas iniciais
Neste capítulo: Como a família Scott vai receber a notícia de que Joan está grávida de Edward? Será que Phillip vai deixar o irmão assumir a responsabilidade?

Gritos ensurdecedores eram emitidos. Todos do castelo Brock podiam ouvir claramente e talvez alguns habitantes das redondezas também. Pandemônio é a palavra certa para descrever o que acontecia no castelo. Os berros eram de Charles e Edward, Cecille acabara de desmaiar, Louise chorava amedrontada, Phillip parecia uma estátua e Anne tentava acudir a mãe.

– Você é um desatinado! Como conseguiu tal proeza?! Esta foi a pior de todas as suas imprudências! Voltou para casa há menos de dois meses e já aprontou tanto! Um filho fora do casamento com a criada?!

Pai e primogênito estavam tão arraigados na discussão que nem notaram Cecille desfalecida. Acusações, xingamentos e palavras que não deveriam ser ditas. Joan estava perto dali, agachada no chão de pedra fria da cozinha, com a cabeça apoiada no colo de sua tia Sam.

Samantha sabia de tudo, Joan não podia mentir para a tia querida, a única que lhe estendeu a mão no pior momento da vida da garota. Com a morte prematura dos pais, Sam foi o amor familiar e segurança que Joan precisava. Samantha merecia estar a par de tudo, do relacionamento com Phillip, da gravidez inesperada e do acordo entre os filhos Scott e Joan.

Um mês atrás, quando fecharam o acordo, e Joan estava com quase três semanas de gravidez, não passou pela cabeça de ninguém que o duque de Greenland poderia não aceitar o envolvimento de Edward com uma das criadas e o filho fruto desta relação. Aparentemente, Charles estava desesperado para que seu sucessor formasse uma família, qualquer família; pelo visto, estavam enganados.

Agora estavam as duas, tia e sobrinha, apavoradas com a reação de Charles e o que ele faria com Joan, Sam e, pela primeira vez inocente, Edward. Joan temia que seu filho fosse tirado dela, Samantha acalmou a garota pois sabia que Charles não cometeria esta crueldade, ele não era um homem cruel. Porém, Sam também sabia, com base na péssima resposta do duque, que eles — Joan, Sam e Edward — não sairiam ilesos e não seriam tratados com amabilidade naquele castelo, com o andar da carruagem, seriam expulsos de lá.

– Venha pequena, acho melhor arrumarmos nossas coisas. Seremos mandadas embora daqui.

– Tia! A senhora acha que o duque irá expulsar o próprio filho e a mãe do neto dele?

– Tenho certeza. Venha.

As duas se levantam e caminham para o quarto que dividiram durante anos.

***

– Por que tamanha comoção?! Você mesmo me impôs um casamento! E eu vou me casar com ela, estou dando minha palavra!

– Comoção?! Sua palavra?! Sua palavra não vale de nada, Edward Scott! Pobre da moça, foi seduzida e desonrada por você! Edward, você acabou de destruir a reputação da garota e da família! Você manchou o nome Scott com suas atitudes pela última vez. A partir de hoje, não te reconheço mais como filho e herdeiro. Pode pegar seus pertences e ir embora de Greenland… E leve contigo sua futura esposa.

Neste instante, Phillip sai do torpor. Se aproxima da briga para sair em defesa de Edward. Não iria permitir que seu amado irmão fosse acusado e punido por algo que não fez, por ter sido altruísta, por ter servido de bode expiatório. E não deixaria seu próprio filho e Joan sem um lugar seguro e digno para viverem.

Antes mesmo de Phillip começar a falar, Ed impede o irmão mais novo de se intrometer.

– Não ouse me ajudar Phill! Só iria piorar a situação ainda mais! Nosso pai me odeia, sempre me odiou. Mais cedo ou mais tarde, por um motivo ou outro, ele conseguiria arranjar uma desculpa para me excluir desta família. Eu te amo, meu irmão. Sou forte e inteligente, tudo dará certo, para mim, Joan e a criança. Confie em mim, tenho tudo planejado!

– Tudo planejado?! E você é capaz de pensar no futuro e consequências?! Não responda, isso não é mais da minha conta! Você e sua “mulher” tem até o fim da tarde para partirem daqui, deste castelo! Levem o que puder, te darei de presente uma carruagem, para não me acusar de crueldade.

– Você será mesmo capaz de deixar uma mulher grávida, do seu neto, desamparada e sem ter um local digno para morar?! Que você é capaz de enxotar o próprio filho eu sempre soube! Sempre me odiou, sempre me afastou da família. Primeiro com o internato, agora com a desculpa de um relacionamento vergonhoso! Você exigiu que eu encontrasse uma mulher para casar, qualquer mulher; eu consegui, e sou execrado por isso?!

– Não distorça os fatos! Não tente se eximir deste vexame! Um relacionamento com a criada, órfã, que acolhemos anos atrás de favor e por caridade, que não tem um pingo de educação eu poderia até ter tentado relevar! Contudo, penso que de propósito, você fez questão de desgraçar ainda mais o nome Scott tendo um filho antes do casamento! E fez isso embaixo do meu teto! Agora não mais, nunca mais!

– Como se ninguém, nunca tivesse feito algo do tipo! Isso são apenas desculpas para se livrar de mim, é isso que me parece! Seu velho hipócrita, mesquinho e preconceituoso! Eu é que não o reconheço como meu pai, te odeio também! Sempre te odiei!

***

– Tia, por que a senhora está arrumando suas coisas? O duque é justo, ele não te mandaria embora por um erro que eu cometi.

– É verdade. Mas você acha que eu te deixaria sozinha? Que eu sou capaz de te ver partir sem rumo e não ir com você? A filha que eu nunca tive, te amo como uma mãe ama sua cria!

Joan percebe que é em momentos difíceis e incertos que os verdadeiros e puros amores se mostram. As lágrimas nos olhos das duas revelam todo amor, carinho e emoção que estão sentindo. Um silêncio reconfortante toma o quarto das mulheres enquanto elas dobram e guardam suas roupas nas malas degastadas.

– Tia… Pensando bem, talvez o Edward desista do acordo. Ele só aceitou para se livrar de um casamento de verdade e continuar usufruindo da fortuna Scott. Agora que o duque ameaçou deserdá-lo, ele pode voltar atrás e alegar a verdade, que não é o pai do meu filho. Que só mentiu por conta da exigência de um casamento e para ajudar a me livrar de um futuro vergonhoso.

– Minha querida… Você não conhece o Ed. Ele pode parecer prepotente e egoísta entretanto, acredite, não é. Edward é cheio de vida, irresponsável e cheio de excessos mas também é honrado, ao modo dele, e bondoso. Aquele garoto ainda vai surpreender todos que o veem com maus olhos. Ele não propôs o acordo para se safar, poderia ter contratado uma mulher da vida. Não acha que seria mais fácil? Penso até que ele já tinha cogitado esta solução.

– Está dizendo que…

– Que Ed aceitou apenas para ajudar o irmão, você e o sobrinho. Ele não irá voltar atrás na decisão.

A porta se abre em um rompante assustando as mulheres. Edward aparece transtornado, apressado e muito vermelho. Inicia a tentativa de dizer algo, mas para e analisa o lugar.

– Eu ia pedir para você arrumar suas malas… Vejo que se adiantou, isso é bom. Partiremos assim que eu ajeitar meus pertences. Não se preocupe, garota, tenho um lugar em mente, provisório porém confortável. Espero que não pense em ir conosco Samantha!

– É claro que vou! Ela e a criança que carrega são minha única família! Eu preciso ajudar!

– Por isso mesmo, Sam. Eu tenho algumas economias, contudo são poucas e um bebê está a caminho! Talvez, em um futuro próximo, precisaremos de algum dinheiro. Você irá nos ajudar mais morando aqui, trabalhando aqui e fazendo o intermédio entre nós — Joan e eu — e Phillip. Despeçam-se enquanto me preparo para a mudança e faço meus contatos para ajeitar nossas acomodações.

Notas finais
Qual será o plano do Edward? Onde o falso casal passará a viver? Será que Charles odeia mesmo o filho? Respostas no próximo capítulo... Ou não! hehehe