Joan Scott
9 Capítulo 09
9.
Joan sentia o pavor apoderar-se de si. A situação não poderia ser mais assustadora. Um filho em seu ventre, sem emprego, sem casa, sem o amor de sua vida, sem sua tia, acompanhada por alguém que não conhecia. Claro que ele a ajudou como um cavalheiro e era irmão de Phillip mas, ainda assim, aquele homem era um estranho.
Charles havia dado ao recente casal uma das carruagens da família. Joan estava dentro da cabine enquanto Edward guiava o veículo do lado de fora. Até agora, devido a toda a tensão proveniente dos recentes acontecimentos, não tinha parado para prestar atenção em seu futuro marido. Deveria ter tendado conhecê-lo melhor antes, afinal, mesmo sendo uma união de mentira, iriam morar juntos por sabe-se lá quanto tempo.
Agora que parou para pensar, a moça percebeu que estava totalmente a mercê da boa vontade daquele homem em continuar com a farsa, em continuar a suportar um casamento simulado e, futuramente, uma criança. Precisava saber com qual tipo de pessoa estava tão dependente.
Decidiu que assim que chegassem ao destino, que ele fez questão em não dizer qual, iria exigir que tudo fosse exposto. Todas as perguntas e dúvidas, de ambas as partes, seriam esclarecidas. Ela precisava saber até onde poderia contar com a ajuda dele, e saber quando teria de se virar por conta própria.
A carruagem parou, ela sentiu o solavando de quando Ed levantou-se e desceu do veículo, logo depois ele apareceu na janela.
– Chegamos. Fique aqui, vou resolver nossas acomodações.
– Eu pensei que já tinha resolvido!
– Como? Também fui pego desprevenido! A única coisa que pude fazer foi pedir para que o menino Sean, um ótimo garoto por sinal, viesse aqui antes de nós e esclarecesse nossa situação e adiantasse o pedido que eu faria.
– Se seu amigo recusar a nos ajudar? Para onde iremos?
– Eu não disse que era um amigo. E chega de pessimismo! Vamos pensar em problemas quando eles realmente existirem. Eu vou lá, me espere aqui!
Joan notou que Edward, desde que saíram do castelo, não deixou de manter, nem por um segundo, a expressão tranquila e segura.
“Realmente ele é alguém seguro de si! E admito que esta postura e aura dele me deixa um pouco menos amedrontada! Espero que consiga o abrigo!”
Curiosamente, ela nunca saíra do território do castelo Brock desde quando chegara para morar com a tia. Não conhecia a cidade pertencente ao ducado e nem mesmo os moradores. Resolveu afastar a cortina da janela para espreitar o lado de fora.
Pôde ver Ed saindo da enorme casa, pela distância, não conseguiu ver se o semblante dele mostrava sucesso ou fracasso. Mas viu uma moça, pouco vestida, saindo e beijando o rapaz, ele não a dispensou, pelo contrário, a puxou para mais perto iniciando algo que fascinou Joan. Para ela, aquilo parecia uma dança proibida, sensual, bonita e surpreendente. Com vergonha, por achar que estava espionando o casal, fechou a cortina e voltou para sua posição de origem, no meio do banco da carruagem.
Ficou feliz e cheia de esperança.
“Se Edward foi recebido tão bem e fervorosamente, o abrigo não seria negado. Então foi isso, ele disse que nossa ajuda não viria de um amigo… Uma mulher. O que ela é dele? Namorada? Amante? Será que não vai querer ajudar se souber que o senhor Edward está comigo? Acho que não tem problema, é só ele contar a verdade para ela.”
Enquanto Joan se perdia em seus pensamentos, sobre se iriam ou não conseguir auxílio e se precisariam vagar durante a noite sem pouso definido, Edward chegou perto sem ser notado.
– Não disse? Conseguimos.
Joan leva um susto e Ed ri zombeteiro com a falta de jeito da garota.
“Como meu irmão foi se apaixonar tanto por esta garota miúda e sem graça? Ela é bonitinha, mas se parece com uma menina de doze anos. Não tem presença e é um pouco desengonçada… Eu te amo Phillip, contudo sempre te achei um pouco esquisito, gostar desta pequenina só comprova sua esquisitice.”
Edward abriu a porta do veículo e ofereceu a mão para ajudar Joan a descer. Ela nunca foi tratada como alguém da nobreza, sempre foi quem serviu. Phill a tratava com todo amor e carinho entretanto nunca como uma duquesa. Se sentiu bem e gostou do gesto inédito que a deixou acanhada. Sem perceber, corou e despendeu um sorriso luminoso e sincero para Edward.
“Ela é sem graça, sem curvas e o amor de seu querido irmão!” — Pensa, mais como uma bronca, o afetado e mexido Edward.
Caminharam para a casa.
– Esquecemos as malas!
– Tudo bem, deixe-as, se ficarmos voltarei para buscá-las. Primeiro quero que veja o local, talvez você não queira ficar lá, e aí vamos ter de procurar outro lugar para nos acomodarmos.
– E por qual razão eu iria recusar?
– Quando entrarmos você verá.
“Que ridículo! O que de tão grave tem esta casa para eu recusar a estadia? Ele deve ter esquecido que eu não sou as moças de família, ricas e mimadas que ele está acostumado. Na certa é por isso que me trata tão cortesmente.”
Entraram. Joan nunca frequentou um lugar daquele e mesmo assim sabia o que era, um bordel.
“Ele nos trouxe para um bordel?!”
“Pelo visto, com esta cara, ela vai recusar ficar aqui.”
– Vai querer procurar outro lugar, não é?
– Não. Aqui está bom. — Responde a garota.
Edward se espanta e não esconde a expressão.
– Quer dizer… Não estou completamente confortável, contudo, não vejo problema em ficar. Ademais, seria grosseria e ingratidão recusar a ajuda bondosa que veio quando mais precisávamos! Onde está o dono? Quero agradecer pessoalmente! — Joan complementa.
“Ela é sem graça, sem curvas e o amor de seu querido irmão!” — Novamente o pensamento de alerta e lembrança de Edward.
Ele ficou admirado com a mentalidade e atitude da menina. Sem preconceito, não fez a cara de nojo, repulsa ou superioridade que muitas das mulheres que conheceu fariam.
***
Depois dos agradecimentos, Joan é levada para o quarto que ocuparia sozinha. O mais distante de todos os outros cômodos do estabelecimento, para que ela não ouça nada e nem seja vista pelos clientes e confundida com uma das garotas. Edward e Madame Josephine estavam conversando no escritório desta.
Na verdade, Edward estava situando Josephine sobre os acontecimentos. Ele contou tudo para ela, não sabia o motivo que o fazia confiar em Josephine apenas confiava nela e em seus conselhos.
– Deixei que fiquem aqui apenas por hoje. Não podem ficar aqui, não porque não quero ajudá-los, mas porque aqui não é o lugar para um casal, mesmo que falso, ficar, muito menos uma garota como ela e grávida. E mais, mesmo seu pai tendo te deserdado, você ainda carrega o sobrenome Scott.
– Eu sei que preciso arrumar outro lugar para vivermos, um lugar fixo. Também preciso de um emprego. Apenas precisava de uma saída urgente e só pude pensar em ti. Obrigada mais uma vez!
– Para sua sorte, tem em mim uma amiga de coração e com uma quantidade considerável de posses. Ninguém além de meu contador sabe, mantenha segredo sobre o que lhe contarei… Sou dona de algumas propriedades de aluguel aqui em Greenland. Vou alugar para você, de graça até arrumar um emprego e por um terço do preço depois disso.
– Eu nem sei o que dizer, Josephine! Gostaria de recusar, mas não estou em posição de fazer isto. Eu aceito! Muito obrigado mesmo! Por que ninguém deve saber?
– As pessoas desta região recusariam morar em uma casa cuja proprietária é uma ex-mulher da vida e atual cafetina. Dificilmente teria inquilinos se soubessem a verdade!
– Odeio este tipo de gente! — Exclama Edward.
– Mudando de assunto… Gostei muito da pequena Joan! E pelo visto você também! — Depois de dizer isto, Madame começa a rir, uma risada cheia de sabedoria.
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