Joan Scott
6 Capítulo 06
Notas iniciais
6.
Já era madrugada e todos no castelo estavam preocupados. Cecille estava em pior estado, aterrorizada com a possibilidade de perder o filho. Edward deveria ter chegado antes do jantar e ainda não tinha aparecido. O pensamento de que algo de ruim poderia ter acontecido com Ed fez com que todos os Scott, e alguns empregados, incluindo Joan, permanecessem acordados até altas horas.
Joan queria reconfortar Phillip, que parecia desolado com o sumiço do irmão idolatrado, porém não ousava se aproximar com todos ali presentes na sala. Phill, por sua vez, sentia a presença discreta de Joan e necessitava dos afagos mágicos da garota, também não se atreveu a correr para ela.
Apenas Charles estava calmo, sua tranquilidade estava no fato de conhecer muito bem seu filho desgarrado e irresponsável, muito provavelmente seu herdeiro estaria aprontando pelas redondezas. Recebia mensalmente um boletim com todas as facetas do filho, enquanto este morava em Londres. Não tinha um mês sequer que Charles deixava de se espantar com os boletins. As cartas eram tão pecaminosas que o duque não ousava mostrar ou mencionar sobre o conteúdo das mesmas para Cecille.
Charles amava o filho, porém se preocupava que o retorno dele fizesse com que o nome dos Scott fosse jogado na lama. Charles não queria que seus descendentes passassem pelo que ele passou na época de doença e falecimento de seu pai. Não permitiria que seus filhos sofressem com a rejeição e humilhação, sentiu isso na pele e odiou.
O duque de Greenland, para evitar que seu filho mais velho se perdesse ainda mais, tomou algumas decisões. Assim que Edward chegasse de sua provável farra seria enérgico, trataria Ed com amor, mas também com pulso firme, seria rígido e exigiria responsabilidades. Imporia algumas condições para Edward, que já não era e não poderia ser tratado como garoto, que já era um homem feito e futuro duque.
O filho teria que trabalhar. Optou pela carreira de médico, contrariando a vontade de Charles, que desejava ver Ed como administrador. Pôde escolher a profissão de seus sonhos e por isso teria que trabalhar. Edward também deveria se manter longe de escândalos e dos bordéis. E, por fim, conseguir um matrimônio, qualquer moça direita seria aceitável, tarefa difícil levando em conta que a fama de Edward era conhecida por todas as melhores famílias da Inglaterra.
Qualquer evidência da falta de comprometimento de Ed em cumprir com qualquer das exigências traria consequências, consequências duras mas únicas saídas encontradas por Charles. Edward seria expulso de casa sem direito ao título, que passaria para Phillip, sem direito a mesada ou qualquer outra ajuda de custo. Charles esperava fervorosamente que a situação não chegasse a este ponto.
Depois do nascer do sol, um oficial da polícia apareceu na porta principal do castelo. Charles foi quem atendeu, os outros moradores estavam dormindo depois da cansativa espera por Edward, que ainda não tinha chegado.
– Vossa Excelência, encontramos um homem dormindo em um banco em plena área pública. Ele estava sem documentos, sem dinheiro e vestido apenas com as roupas íntimas. Muita gente que passou pelo local reclamou sobre ele no posto policial e resolvemos averiguar. Quando chegamos, ele ainda estava dormindo, como uma pedra aliás, e exalava um cheiro muito forte de bebida.
Mesmo imaginando o rumo da conversa e a identidade do bêbado dorminhoco, Charles questiona:
– E o que este homem bêbado tem a ver comigo?
– Bom… Me desculpe o incômodo, Sua Graça. O rapaz que encontramos disse ser seu filho. Edward Scott. Se não for um problema, o senhor poderia ir comigo para nos ajudar a identificá-lo?
– Não tenho dúvidas senhor Young! O homem lastimável que encontraram é meu filho Edward. Ele deveria ter chegado ontem pela tarde e não apareceu até agora. Na certa resolveu fazer um desvio pela casa da Madame Josephine e acabou perdendo todo o pouco juízo que tinha! Eu vou com você, só preciso de um momento para me preparar e arrumar algumas roupas para meu Edward. Entre, sinta-se a vontade e sirva-se de algo para beber ou comer enquanto espera.
***
Charles resolveu a liberação do filho e não poupou o rebento de suas reclamações. Ficou minutos reprimindo Edward em frente a todos os funcionários do posto policial.
De volta ao castelo, com todos mais aliviados pelo bem-estar de Edward e divertidos com a inusitada situação que o futuro herdeiro se meteu, Charles continuou com o sermão. O duque estava furioso, o rosto quase roxo enquanto gritava com o filho. O castelo inteiro podia ouvir os berros de Charles.
– O policial disse que muita gente passou e te viu naquelas condições! Nosso nome será alvo de chacota! Seremos alvo de piadas, não apenas você mas seus pais, seus irmãos!
– Será por pouco tempo, logo todo mundo esquece.
– O que?! Ainda ousa retrucar! Você chegou a pensar em seu irmão?! No quanto ele pode ser prejudicado?! Estamos arranjando um noivado para ele! E agora com este lamentável acontecido… O que será que os Lennox vão pensar de nós?!
Enquanto Charles terminava de brigar e explicava as novas regras para o filho, Joan, na cozinha junto de Phillip, escutava mesmo sem a intenção o que era dito pelo duque. Quando os pombinhos ouviram a citação do possível noivado de Phill ambos congelaram.
O rapaz se desesperou pois queria, ele mesmo, contar a Joan sobre a intenção de casamento, assim poderia tranquilizar Joan.
Joan se despedaçou porque entendeu tudo, entendeu a mudança de comportamento de Phill, entendeu o recente distanciamento do garoto, entendeu que seu relacionamento com o rapaz se restringia a um romance furtivo e ilegítimo, ou nem isso, e entendeu que se estivesse mesmo grávida teria de cuidar de tudo sozinha.
A garota saiu correndo do recinto já chorando muito, Phillip tentou, porém não teve tempo e não conseguiu impedir a fuga da amada, queria explicar-lhe que não a abandonaria desamparada.
***
– Então, meu irmão? Eu sei que você também está cheio de problemas contudo, como pôde perceber, eu estou precisando mesmo de sua ajuda e conselhos!
– Phillip! O obediente e certinho, Phillip?! Em um romance secreto e carnal com a empregada órfã?! Nunca imaginaria que você tivesse coragem de fazer algo do tipo! — Comenta Edward rindo.
– Se soubesse que teria de ouvir seus deboches e fazer papel de bobo da corte não teria lhe contado nada! Você é o único que confiei para contar e ri de mim?
– Não faço por mal, meu irmão. Nós dois estamos em enrascadas e nada melhor do que a descontração! Eis meu primeiro conselho, não leve tudo tão a sério. A descontração o ajudará a encontrar uma solução com mais facilidade.
– Eu abdico deste seu conselho. Afinal, foi justamente por não levar nada a sério que você está nesta enrascada!
– Bom ponto! Isto é verdade. Agora… Você e a Joan?! Você dormiu com a garota, fez sexo com ela e a engravidou?!
– Edward! — Phill repreende o irmão.
– Desculpe-me, mas é algo inacreditável vindo de você! Esta garota deve ser muito incrível mesmo!
– Ela é! Eu a amo! E, para sua informação, Ed, eu não fiz sexo com ela!
Edward fica alguns instantes em silêncio, sem entender nada.
– Phillip, você é um imbecil?! Me diga como esta moça está grávida de VOCÊ, se você não fez sexo com ela?! Ela te enganou seu burro!!
– Você entendeu errado! Eu quis dizer que a amo, Edward, por isso nós não fizemos sexo, fizemos amor! Sabe o que é isto? Alguma vez já experimentou?
– Você é mesmo um imbecil! Eu já te disse que aquelas histórias românticas, absurdas e melosas que lê iriam afetar seu cérebro! Eu já fiz muito mais sexo do que você pode imaginar, com mais mulheres que você já viu na vida e, para sua informação, sexo e amor são a mesma atividade biológica. Eu sou médico, sei disso!
– Você que é um imbecil! Em termos biológicos podem até ser a mesma coisa, porém, na prática, não têm nada de parecido.
– E como você, que fez com uma única garota, concluiu isto? Nos livros idiotas que lê?!
– Exatamente!
– Muito científico. Muito válido seu argumento! — Diz Edward cínico.
– Vamos parar de brigar! E aí, tem alguma ideia do que eu posso fazer para resolver meus problemas? — Pergunta Phillip esperançoso.
– Acho que sim… Mas tenho certeza que você não vai gostar muito da ideia. Contudo foi a única saída válida que me passou pela cabeça. É isto, ou você terá, pela primeira vez em sua vida, que desapontar e chocar nossos pais. Se der certo, vai resolver os seus e os meus problemas!
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