Joan Scott
2 Capítulo 02
Notas iniciais
2.
Charles nunca gostou de perder tempo, não demorou muito para expor seus sentimentos e intenções de casamento com Cecille, intenções que foram muito bem e sinceramente recebidas por ambos os Hastings, pai e filha. Em pouco tempo os negócios já tinham sido recuperados. A família Scott readquirira seu status e todos os nobres, os mesmos que antes renegaram Charles, lutavam para que o jovem Scott esposasse com suas donzelas.
Cecille, preocupada com a situação, ficou triste e deprimida com a possibilidade de perder seu, cada vez mais, amado. Charles ficou preocupado com a repentina mudança de estado de Cecille, sem desconfiar do motivo chegou a pensar que Cecille estava se arrependendo do noivado. Mais uma vez não quis perder tempo e em um jantar especial pediu a amada em casamento. Com a comprovação do amor de Charles por ela, Cecille voltou ao seu humor de sempre.
O casamento aconteceu dois meses após o pedido. Muitos, maldosa e erroneamente, imaginaram que a escolha do duque pela plebéia Hastings e a rapidez do casório se deu pelo fato de a moça já estar grávida. Apenas maldades, os recém casados, mesmo morando sob o mesmo teto, sempre respeitaram as leis da igreja.
Alguns meses depois do casamento Cecille estava grávida. Charles e Edward Hastings não poderiam ficar mais eufóricos com o fato. Nove meses depois da notícia a criança primogênita nasceu, era um menino. Um garoto grande, forte e saudável. Como homenagem, o casal resolveu dar o nome do avô materno ao garoto. Edward Scott, próximo duque de Greenland, nascido em 15 de novembro de 1720.
O que o casal não sabia, era que a conturbada tempestade, que caia no momento do nascimento do garoto, anunciava o quanto este menino traria de preocupações, vexames, fofocas e situações inusitadas para a família.
***
Inglaterra, Ducado de Greenland — 05/07/1726.
Mais uma vez a maior graça recai sobre o castelo de Brock. A duquesa novamente está dando a luz. Um novo herdeiro, ou herdeira, Scott está prestes a chegar ao mundo.
O duque não poderia ter ficado mais feliz e surpreso. Era do conhecimento de todos que a família Scott, desde tempos remotos, possuía a trágica sorte de procriar apenas uma criança a cada geração.
Um rumor supersticioso, que passou a rondar a região, dizia que o amor entre Charles e Cecille quebrou a maior maldição dos Scott.
Algumas pessoas, as mais pessimistas, ou talvez as mais realistas, acreditavam que esta mudança era sinal de má sorte para a família do duque. Apenas um ducado para dois herdeiros, isso poderia virar uma disputa trágica.
Outros, os indecisos ou prudentes, diziam “apenas o futuro mostrará o destino dos Scott”.
Em contradição com o tempo durante o nascimento do pequeno Edward, no dia deste segundo filho vir ao mundo o que recai sobre a extensão de Greenland é um tempo quente, seco e todo marasmo.
– Que diferença lorde Scott! O tempo está ótimo. Lembra-se do nascimento de Edward? Que terror! Que terror!
– Pois é lorde Howard. Mas creio que, quanto a Edward, dias piores que o nascimento dele virão. O garoto nos trará trabalho e preocupações. Acho até que a tempestade estava anunciando o que eu deveria esperar do meu primogênito. — Diz Charles com humor.
– Ele é tão levado assim?
Neste exato momento, Edward, com seus quase seis anos, nu e com uma calça enrolada na cabeça como se fosse um turbante, passa correndo pela sala. Logo atrás, exausta e muito molhada, a empregada responsável por banhar o garoto corre desesperada e ávida por terminar o mais rápido possível sua tarefa, sempre dificultada devido às travessuras da criança.
Charles envia um olhar ao amigo que diz “Tão levado assim”. Os dois, mesmo com a evidente falta de educação e responsabilidade do menino, não conseguem segurar as gargalhadas.
– Não deveríamos estar rindo, Quentin. Pense se minhas visitas já estivessem chegado, seria uma loucura! Um escândalo em toda a Inglaterra.
– Não é para tanto, meu amigo. Edward é apenas uma criança, seria um susto para todos, claro, mas entenderiam a travessura.
– Não tenho tanta certeza. Imagine as nobres mulheres e moças vendo o que acabou de acontecer, certamente haveriam alguns desmaios. E não se esqueça de lady Russell, ela se choca com qualquer coisa e faz questão de disseminar tudo, aumentando os detalhes.
– Não que ela precisasse aumentar certos detalhes. Vossa Excelência deve ser orgulhoso, seu filho possui “aquilo” bem grande para a idade dele.
– Ora, amigo, não sinta inveja. O que posso fazer se esta é uma dádiva dada aos Scott.
– Não tenho inveja, o meu pode não ser muito grande, mas é bem falado, tem uma ótima reputação. E descordo de você, eu acredito que a dádiva foi dada às esposas Scott!
As infames gargalhadas dos duques foram interrompidas pelos gritos de Cecille, anunciando o início do parto, e pela sineta da porta.
***
Algumas horas depois o duque estava aflito, mesmo com a casa cheia de convidados se sentia solitário, submerso na angústia. Este segundo parto estava demorando muito mais que o primeiro. Ninguém se dignou a descer e lhe trazer notícias o que, para o duque, sugeriam péssimas notícias.
“Não quero perder a criança! Mas perder Cecille seria o fim do mundo, ela é minha vida. Não posso perder minha vida! Deus, por favor, não leve minha lírio de mim. O Senhor não precisa dela tanto quanto eu.”
Um burburinho maldoso, iniciado pela língua ferina de Margaret Russell, dizendo que a maldição do filho único dos Scott não tinha sido quebrada surgiu.
– Querida lady Withlock, aquela história de que o amor deles quebrou a maldição… Pura besteira. Sabe o que acho? Deus está os punindo, por desrespeitarem todos os nossos costumes civilizados.
– Não entendo, lady Russell.
– A senhorita ainda é jovem. Charles ter se casado com aquela sem títulos, sem educação. E francesa, veja só! Enquanto que moças de nível como minha filha Gwen e a senhorita seriam muito mais apropriadas. Agora, como punição o duque perderá o segundo filho, que nunca deveria ser concebido, e a plebéia da esposa.
Quentin, ouvindo tudo, não se aguenta e vai em defesa dos, grandes amigos, Scott.
– Se não quiser morrer envenenada não morda a língua Vossa Excelência. A senhora é quem deveria ser punida por vossa maldade. Está desejando a morte de uma criança sem pecados e da inocente Cecille?!
Lucy Withlock, pelo tom grosseiro de Quentin, se afasta sorrateiramente.
– Além do mais, se repudiar um casamento com sua horrenda filha trouxer punição, acredito que qualquer homem da toda a Inglaterra, nobre ou não, aceitaria o castigo de bom grado. Pior ainda se ela for tão odiosa quanto a senhora. Eu mesmo, preferiria me casar com uma das meninas da Madame Josephine!
– Não ouse falar de minha preciosa filha, seu rapaz vergonhoso e desprezível! Minha querida tem muitas qualidades, e muito mais dignidade que você poderia sequer imaginar. Eu nunca permitiria que você, nobre ou não, se casasse com ela!
– Sorte a minha, então!
***
– Quer dizer que você se casaria com uma das garotas Josephine? Vou sair daqui, correr e contar a notícia às garotas. “Meninas, o nobre futuro duque de Norfolk irá se casar com uma de vocês!”.
– Não diga asneiras, John! Sabe que nunca me casarei.
– Ainda bem, pois tenho pena da mocinha que se casar com você Quentin! Libertino como é, a coitada terá que lidar com mais amantes que mulheres existentes em Londres. Pensando bem, não há o que se preocupar… Acredito que, ultimamente, as ladys já são ensinadas a fingir e ignorar os casos de seus maridos!
– Nem assim me casaria, quero aproveitar a vida meu caro! Ainda existem muitas mulheres que preciso conhecer profundamente. Uma esposa iria dificultar tudo, me enclausurar!
– E o duque de Norfolk, seu pai, por acaso sabe sobre sua decisão?
– Claro! Foi o primeiro a quem revelei meus planos. Não gostou nada, admito. Chegou a ameaçar de cortar meus rendimentos, e até a me deserdar. Contudo, penso que, com o tempo, ele entenderá… Ele entenderá...
***
– Outro garotão!! E Cecille está bem!!! — Charles, esquecendo de toda a classe que lhe foi ensinada, do alto da escada grita eufórico dando as boas novas aos convidados.
– E como será chamado! — Grita Quentin de volta para Charles também se esquecendo da boa educação.
– Phillip Scott II!! — Outro grito.
***
Charles, por mais duas vezes deu as boas novas a seus convidados, duque e duquesa tiveram mais duas crianças.
Anne Elisabeth Scott nasceu em 23 de julho de 1729. Embora verão, nasceu durante um dia com o tradicional clima da Inglaterra, nublado, com garoa e muito úmido.
Louise Mary Scott nasceu em 16 de abril de 1736. Nasceu na encantadora primavera, em um clima agradável, cheio de vida e revigorante.
Definitivamente, a maldição do filho único foi quebrada e suas consequências… Se houver… Veremos.
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