3.

Com apenas dez anos Edward trazia preocupações sérias. Inúmeros relatos e queixas chegavam aos ouvidos de Charles. O menino espiava empregadas e vizinhas no banho e em trocas de roupas; também fizera amizade com jovens trombadinhas da região e, vez ou outra, os ajudava em furtos apenas pela diversão.

Aos doze, Edward se meteu em um quase enorme escândalo. Foi pego no quarto de uma jovem nobre três anos mais velha que ele. Ambos vestidos apenas com peças íntimas e cheios de carícias. Nada aconteceu, por pouco, graças a mãe da moça ter entrado no momento certo e flagrá-los. O acontecido foi abafado e foi a gota d’água. Charles e Cecille decidiram matricular e enviar Edward para um internato religioso em Londres. A instituição era muito rígida, a mais rígida que os Scott conseguiram encontraram.

Phillip sempre fora mais comedido em seus atos e traquinagens de criança era bastante obediente para a idade. Muito ligado ao irmão mais velho, o idolatrava, e com apenas seis anos precisou lidar com a separação quando Edward foi para o internato. Já Anne, uma criança audaciosa e mimada, que tinha apenas três na época em que Edward se mudou, via o irmão apenas nas férias, quando este voltava para casa, e não se lamentava com as despedidas.

***

Certo dia, Samantha Smith, a governanta do castelo Brock, recebeu uma trágica notícia. Sua irmã e cunhado haviam morrido, foram infectados e infelizmente não sobreviveram à tuberculose. Por sorte, a pequena Joan, sobrinha de Sam, estava viva e bem de saúde. A criança, que estava com apenas oito anos, não tinha ninguém exceto Samantha.

Sam resolveu ficar responsável pela sobrinha, a única família que lhe restara. Iria pedir permissão aos Scott para trazer a pequena Joan para viver com ela no castelo. O duque e duquesa sempre adoraram Samantha, as chances de aceitarem Joan eram boas. Se não aceitassem, Sam iria procurar trabalho em outro lugar mas não ficaria longe de sua sobrinha.

Como esperado, Charles e Cecille eram amáveis, justos, adoráveis e permitiram que Joan fosse trazida. Afinal, seria uma companhia para Anne, apenas dois ano mais jovem que a sobrinha da governanta.

Mesmo muito pequenos, as crianças Scott não se aproximavam de Joan. Anne porque achava Joan indigna, por ser de uma classe social tão inferior; e Phillip porque estava na fase de achar todas as garotas, incluindo a própria irmã, chatas, feias, bobas e chatas.

Jho desde muito nova ajudava a mãe nas tarefas domésticas, no castelo com a tia não era diferente. Ajudava Samantha no que podia, era muito obediente, educada e esforçada. Tinha um porte miúdo para a idade, mesmo sendo dois anos mais velha, as roupas usadas e descartadas de Anne ficavam todas para Joan porque serviam perfeitamente. E apareciam muitas roupas, ainda muito novas já que a menina Scott não gostava muito de repetir vestidos.

Joan notara que Phillip era um garoto solitário, assim como ela, e muito triste. Não entendia a tristeza do menino, ele tinha tudo, pais vivos e amorosos, roupas próprias, suas comidas preferidas e qualquer brinquedo que quisesse. Vendo-o percebera duas coisas. Primeira, ser feliz dependia quase que sempre de si mesmo. Segundo, Phillip era o menino mais bonito que Joan vira na vida.

Quando Phill estava por perto Joan não sabia o que fazer, o que falar ou onde por as mãos, ficava nervosa. Ora pensava que o garoto achava que ela era uma tonta, ora pensava que ele nem sabia de sua existência e ora pensava que ele a desprezava. Mesmo assim, ficava ao longe seguindo com os olhos os passos, expressões e gestos de seu primeiro, e impossível, amor.

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Em 1736 a duquesa ficou grávida de Louise e já estava com uma idade perigosa para se ter filhos, todos ficaram temerosos. Nesta última gravidez, desde o princípio, todos os cuidados estavam sendo tomados, todos os acompanhamentos e procedimentos estavam sendo feitos. Nas semanas que antecediam o parto o medo e apreensão era quase palpável. Phill, talvez o Scott mais vulnerável, ficou ainda mais desolado com o medo de perder a mãe. Joan percebeu a piora no humor, usualmente tristonho, do rapazinho e não conseguiu manter-se afastada.

Phillip estava sentado no belo e bem cuidado jardim sob uma framboeseira, desenhava em seu surrado, e inseparável, caderno. Não tinha tomado o café-da-manhã, nem aparecido para o almoço, estava há horas sem comer nada. Jho, preocupada com a saúde do menino providenciou um lanche e foi levar para o garoto.

Phillip percebe a presença de alguém, levanta o olhar e vê Joan parada e corada segurando uma bandeja com o que parecia ser um lanche. Joan, que sente as faces queimar devido o olhar penetrante de Phill, se agacha gentilmente deposita a travessa com aperitivos e suco no chão, se levanta e dá meia volta para sair o mais depressa dali. Porém, antes de sair, um impulso de falar com Phill é mais forte e Joan volta a encarar o garoto que ainda não tinha tirado os olhos da menina.

– Eu sei que você gosta de desenhar para diminuir sua tristeza, mas acho que sua mãe gostaria de tê-lo por perto. Você precisa aproveitar ao máximo a companhia dela. Se sua mãe, que Deus a livre, se for você vai se arrepender de não ter feito. — Diz Joan segura e séria.

Jho nem espera Phill abrir a boca para responder-lhe e sai correndo para a cozinha.

– Ela está certa. E não me parece ser tão chata quanto minha irmã… Tão bonita. — Pensa Phillip consigo.

Phill aceita o conselho de Joan e vai ficar com sua mãe que está em repouso absoluto. Desde então, Phill e Joan viviam juntos, brincavam, riam, visitavam Cecille no quarto e faziam-na rir sem parar. A melancolia do garoto sumira com o surgimento da doce amizade, com o surgimento de um amor sincero e puro entre os dois pequenos.

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Devido ao perigo que Cecille passava nas semanas finais da gravidez, Edward recebera uma dispensa das aulas para ficar em casa junto da família. Chegou no castelo cheio de novidades, experiências amorosas (mesmo estando em um internato religioso conseguia burlar a vigilância) e corações partidos de pobres garotas.

***

– Além dos problemas da mamãe, como está tudo aqui em casa? — Pergunta Ed ao irmão.

– Tudo bem.

– E a garota nova? Você já falou com ela? Anne diz que a menina parece uma porta.

Phillip não sabe o porquê mas não quer falar de Joan para seu irmão. Um medo injustificado surge em seu peito, Phill sabe de todas as conquistas do irmão e por alguma razão, infundada pela diferença de idade, teme que Edward roube-lhe Joan. Resolve mentir.

– Anne está certa! A Joan parece uma tonta, nunca fala nada e talvez seja melhor, deve falar tudo errado. Sabe, ela não cheira muito bem também. Tento me manter à distância.

Mesmo sem saber, Phillip destrói o coração de Joan que estava perto o suficiente dos garotos para ouvir a conversa. A menina começa a chorar e corre para seu quarto, onde se tranca, e continua a chorar. Decide que não mais se aproximará de nenhum dos Scott, principalmente de Phillip. Desolada, Joan quase não sai do quarto durante os dias que sucederam. Phill, sem saber da besteira que tinha feito, com a presença do irmão na casa, mesmo sentindo saudades de sua amada, resolveu manter-se distante.

***

No final das contas, o parto de Louise fora difícil mas a bebê nasceu forte e cheia de saúde. Cecille também não teve maiores complicações. Tudo saiu bem. Com a mãe fora de perigo, Edward voltou para o internato e Phillip percebeu que Joan estava diferente.