João de Barro
1 O que ele viu...
Notas iniciais
A vida é uma caixinha de surpresas. Nem sempre as coisas saem como esperado, e nós, simples humanos, tentamos modificar a história para deixá-la mais “aceitável” para o público.
Felizmente, eu não fiz isso.
Bem, podemos dizer que de certa forma eu o fiz, mas apenas para contrastar os fatos. Resta agora, ao senhor ou à senhora, escolher a versão que mais lhe agrada/convém.
***
Era uma linda terça-feira de sol. Eu havia acabado de sair do meu serviço para o horário de almoço e me dirigi ao parque ecológico, como todos os dias.
Sou farmacêutico. Não é nada demais, mas consigo pagar todas as despesas. Moro em uma casa simples, na companhia de um cachorro e um gato. Acordo às seis horas e saio para uma pausa à uma da tarde. Volto para casa por volta de sete da noite.
Minha noiva é florista. Ela realmente ama seu trabalho e vive com os pais por enquanto, sem animais. Os preparativos do casamento acabaram de começar, e uma das primeiras coisas que estamos vendo é onde iremos morar juntos... Mas não apressemos as coisas. Tudo tem o seu tempo, e isso é imprescindível.
Voltando ao assunto anterior, os nossos horários coincidem. O aproveitamos da melhor forma possível, comprando algo em uma padaria próxima e sentando na grama verdejante de nosso parque preferido. Ficamos lá, parados, nos encarando e conversando, rindo e contando casos do dia a dia, sonhando com o futuro e relembrando o passado.
Neste dia, estávamos de bobeira, como sempre, deitados próximo a um lago onde alguns patos e peixes nadavam tranquilamente. Havia uma leve brisa, que soprava nossos cabelos contra o rosto, de forma que ela de hora em hora o ajeitava. Eu, claro, ria, pensando em como ela era linda até mesmo dessa forma.
— Ei... – ela chamou, com os olhos fechados, aproveitando os raios do sol.
— Hum?
— Está ouvindo esse som? Os pássaros estão cantando.
— Sim, estão.
Ela fez uma pausa e soltou um suspiro. Ainda com os olhos fechados, me perguntou:
— Você ama pássaros. Consegue me dizer qual é o que está cantando agora?
De fato, eu adoro pássaros. Meu hobby é fotografar aves, e sei reconhecer uma grande maioria só pelo canto. É algo banal, mas eu gosto.
Fechei os olhos, apurando minha audição. Havia muitas árvores neste parque, logo ele abrigava diversas espécies.
— Hum... João-de-barro. – conclui, sorrindo para ela, que imediatamente me fitou com seus profundos olhos verdes.
— Tem certeza?
— Absoluta.
— Pode provar? — ela arqueou uma sobrancelha, me provocando. Aquilo era um desafio, e por sorte eu adoro desafios.
— Olhe ali na árvore próxima à beira do lago. – apontei e ela seguiu meu dedo. – Está vendo o galho com um ninho um tanto quanto diferente? Aquele com um buraco no meio?
— Sim. O que tem?
— Aquilo não é feito de madeira ou algo do tipo, mas sim de barro. Apenas o joão-de-barro constrói esse tipo de casa... Se duvida de mim, olhe na árvore ao lado. Aquele pássaro gordinho, marrom, com o bico da mesma cor das penas das costas, barriga um pouco mais clara que o restante do corpo, olhos negros e pernas finas é um joão-de-barro.
— Entendi... – ela aceitou a derrota. – É aquele da música, não é?
— Música?
— Isso mesmo. Tem uma música que fala sobre um homem que ama uma mulher, comparando-o a um joão-de-barro. Ele não é correspondido e pede que Deus traga seu amor de volta, dizendo que agora compreende o pássaro... Admito que nunca entendi essa parte.
— Nunca ouvi a música, mas prometo escutá-la assim que chegar em casa hoje... Tudo por você, amor...
Eu beijei sua testa e continuei:
— Acho que entendo o que ele quer dizer... O joão-de-barro só tem uma parceira para a vida toda. A fêmea deve ser totalmente fiel ao macho, caso contrário, se ele a vir com outro, fecha o buraco de seu ninho com ela lá dentro. Ela morre de fome, sem poder sair, muita vezes junto com os filhotes.
— Que horrível! – ela se aconchegou em meus braços, protegendo-se.
— Pode até ser, mas é interessante.
— Sim... – sussurrou enquanto verificava o relógio. – Ah, parece que preciso ir... Ao contrário de certas pessoas, eu tenho meia hora a menos no almoço.
— Passou rápido... Como sempre.
— Realmente...
— Quer que eu te leve até lá?
— Não precisa. Minha colega almoça num restaurante que fica na esquina. Ela disse que me daria carona hoje.
— Tudo bem... Mas já estou com saudades...
— Amanhã faremos tudo de novo. – ela sorriu docemente e me beijou. – Eu prometo.
— Estarei esperando... – retruquei enquanto a via se afastar.
Voltei a deitar-me na grama, esperando o tempo passar e olhando para o céu azul que estava sob minha cabeça. Meus pensamentos estavam literalmente nas nuvens, quando uma sombra chamou minha atenção. Algo voou sobre mim.
Me levantei, notando que a fêmea do joão-de-barro havia voltado para casa. Provavelmente ele estava de olho em predadores, com medo que entrassem em sua casa e pegassem sua comida, ou algo do tipo. Agora era a vez do turno dela, e o macho saiu voando pelo céu.
Parei para observar a cena. Pássaros realmente me admiram... Queria eu poder ter asas como eles e ser livre, sem maiores compromissos ou atrasos...
Mas algo curioso aconteceu. Assim que o macho se afastou, a fêmea fez o mesmo, deixando o ninho desprotegido. Essa não era uma atitude comum da espécie, então decidi averiguar a situação, com calma.
Aos poucos fui seguindo o indivíduo, me escondendo atrás das árvores sem ser visto ou fazer barulho, mas não precisei ir longe. Ela parou em uma árvore que estava a uns dez metros de distância apenas. Escondendo-me atrás de um tronco, continuei observando para ver o que havia de errado.
Eis que então um outro joão-de-barro surge, pousando ao lado da fêmea. Talvez fosse o seu par, mas logo ficou claro que não. Os dois alçaram voo juntos bem no instante que o macho retornou. O que eu dissera alguns minutos antes para minha noiva havia se concretizado.
Ele não expressou nada – afinal, o que um joão-de-barro poderia expressar? – mas aguardou pacientemente que ela voltasse. Eu conseguia ouvir seu coração se partindo – embora ele fosse apenas um pássaro – e não era um som agradável.
Ele emitiu um único pio e esperou na entrada de seu ninho.
Quando ela retornou, o joão-de-barro fingiu que não havia visto nada. Eu estava cada vez mais vidrado naquilo e fitava o relógio de minuto em minuto, garantindo que meu prazo não se esgotasse.
A fêmea entrou na casa. Provavelmente ia descansar no conforto de seu lar, e o macho a acompanhou.
Minutos depois ele saiu, voando em busca de matéria-prima. Sua parceira provavelmente estava dormindo ou cuidando da comida, distraída demais para notar que ele agora fechava a única entrada, trancando-a para sempre em sua morada como castigo por ter sido infiel. O vi preencher o buraco por completo, sem deixar uma só abertura para o ar escapar.
Inicialmente fiquei pasmo com a situação, mas aceitei-a com a mesma rapidez que ela acontecera. Se era isso o que a mãe-natureza queria, era assim que deveria ser. Dentro de pouco tempo ela estaria morta. Essa era a sua sina, e a justiça do joão-de-barro.
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