Jiban End

21 Isso, com certeza, é uma emergência


Já passava das onze da noite, quando Seichi finalmente chegou em seu apartamento. Ele mal havia conseguido dormir na noite anterior, pois tinha passado boa parte da madrugada no Centro de Monitoramento de Trânsito, e os cochilos, que não havia controlado durante o dia, pareciam que só tinham servido para deixá-lo ainda mais cansado.

As únicas coisas que desejava fazer naquele momento eram colocar o pijama, cair na cama, apagar e só abrir os olhos na manhã seguinte, mas parecia que aquele desejo simples não seria realizado tão facilmente.

Assim que se esparramou na cama, tirou os óculos e desligou a luminária na mesinha de cabeceira ao lado, o telefone tocou. Tocou seis vezes, mas Seichi não estava com a mínima vontade de atendê-lo. Deixou tocar até que ele parou. Porém, logo em seguida recomeçou. Deveria ser algo importante, para alguém estar ligando àquela hora com tanta insistência, então, mesmo a contragosto ele não teve alternativa, a não ser atender.

- Alô. – disse ele, com a voz arrastada.

- Chefe Muramatsu? – perguntou uma voz masculina do outro lado da linha. Era alguém da Central de Polícia.

- É ele.

- Desculpe ligar a essa hora, senhor, mas é que houve uma emergência.

- Então fala de uma vez, meu filho. – pediu Seichi, já perdendo a paciência.

- Aqui é o Sargento Tokimura e eu estou ligando do Hospital Central, para avisar que houve um incidente no quarto de Ryu Hayakawa. – aquela informação, com certeza, chamou a atenção de Seichi, que ficou em silêncio por alguns instantes, apenas escutando o relato do policial. – As testemunhas não souberam explicar exatamente o que aconteceu, mas parece que o médico não era médico e as enfermeiras não eram enfermeiras. Eu também não entendi muito bem a situação, mas elas disseram que o médico se transformou em uma criatura esquisita e depois houve uma briga dentro do quarto. Uma criança e uma mulher, foram levadas por eles. A mulher parecia ferida e estava inconsciente.

Seichi ainda estava deitado com o telefone no ouvido, mas ao ouvir aquilo, ele precisou se sentar. Ele não conseguia acreditar naquela notícia.

- Uma mulher e uma criança? Por acaso era uma menina de uns dez anos? – indagou o policial, já completamente desperto.

- Sim, senhor. Uma enfermeira disse que a menina tinha se apresentado como sobrinha do Hayakawa, mas até onde nós sabemos, ele não tem parentes. Já a mulher, disseram que era uma policial que estava acompanhando o caso do Hayakawa.

- Entendi…

Não era preciso ser muito esperto para deduzir que a menina era ninguém mais, ninguém menos do que Ayumi Igarashi e a mulher, provavelmente era Yoko. Não havia mais ninguém de guarda no lugar, mas ele sabia que a parceira voltaria ao hospital após o término de seu expediente.

- Ok. Eu estou indo para aí.

Parecia que aquela seria mais uma noite passada em claro.

Seichi tratou de vestir novamente as roupas que tinha acabado de tirar e quando pegou a carteira, se lembrou do pedaço de papel que Yanagida havia lhe entregado com o número de telefone para caso houvesse alguma emergência.

Ele tirou o papel da carteira e ficou observando aqueles números. Pensou por alguns instantes se ligaria ou não, mas achou melhor ir primeiro no hospital e se inteirar da real situação, depois decidiria se faria a chamada. Colocou o papel, a carteira e as chaves no bolso e saiu apressado.

Quando chegou ao hospital, encontrou mais duas viaturas da polícia estacionadas na entrada, indicando que algo realmente havia acontecido. Ele apresentou seu distintivo aos policiais, que agora guardavam a entrada, e no mesmo instante teve autorização para cruzar a barreira e seguiu para o quarto onde tinha estado há apenas pouco mais de um dia.

Lá ele encontrou o policial que havia lhe telefonado, juntamente com uma cena não muito animadora.

Hayakawa tinha sido transferido para outro quarto, pois aquele havia se transformado em uma cena de crime. Havia vários materiais de primeiros socorros espalhados pelo chão e o carrinho de metal, que antes os transportava, agora estava tombado e levemente amassado. Um vaso de vidro também estava estilhaçado sob os pés dos policiais, assim como as flores, que antes exibiam sua beleza, agora jaziam pisoteadas e espalhadas pelo lugar. Havia também uma pequena mancha de sangue na parede.

- Os policiais estão comentando que a mulher que foi levada pelos criminosos pode ser a Chefe Yoko. Isso é verdade, senhor? – perguntou o Sargento Tokimura, curioso com os rumores que havia ouvido pelos corredores.

- Sim. Era ela. – confirmou Seichi ao ver a bolsa da colega jogada sobre a cadeira no canto da sala. – As testemunhas deram mais alguma informação?

- Não, senhor. Só falaram que a mulher, quer dizer, a Chefe Yoko, estava desacordada e parecia machucada. Não tinham certeza se ela ainda estava… com vida.

- Ela está. – disse Seichi, tentando manter a confiança de que a parceira não iria ser derrotada assim tão facilmente, ainda mais depois de finalmente reencontrar Ayumi. Ela, com certeza, faria de tudo para proteger a menina. – E o Ryu Hayakawa, onde está? Ele está bem?

- Sim, senhor. Ele foi transferido para o quarto ao lado.

- Menos mal…

As notícias não eram das melhores, mas Seichi já tinha visto e confirmado tudo o que queria saber, portanto não havia mais nada a fazer ali. Entretanto, antes de ir embora, resolveu dar uma passada no novo quarto de Hayakawa para ver se estava tudo bem mesmo com ele.

Ao entrar, ele viu que a situação do rapaz parecia a mesma, nem melhor nem pior.

- Pelo menos você está bem. – disse Seichi, olhando para o paciente inconsciente. Pensativo, ele colocou as mãos nos bolsos da calça e novamente reencontrou o papel com o número de telefone, e viu que, por mais que ele quisesse resolver tudo por conta própria, agora que tinha perdido também a parceira, ele estava em um beco sem saída e precisava de ajuda. Aquela, com certeza, era uma emergência. Ele sabia que Naoto ainda não estava em condições de fazer muita coisa, mas era hora de trocar algumas palavras com ele.

No entanto, quando estava prestes para sair do quarto, um sussurro o deteve.

- A-ayumi. – disse a voz masculina, de forma quase inaudível.

Seichi se surpreendeu ao ver que aquela voz vinha de Ryu Hayakawa.

- Hayakawa! – exclamou o policial, que correu de volta para perto do leito do paciente. – Hayakawa? Você está acordado? Está me ouvindo?

O rapaz mexeu a cabeça, quase que imperceptivelmente, para cima e para baixo de forma afirmativa.

- Você viu o que aconteceu? Sabe para onde levaram a Ayumi e a Yoko?

- Dr. J-jean-Ma-marie. Ca-caverna. – respondeu o paciente com dificuldade, enquanto o policial se abaixava e aproximava o ouvido de seus lábios para escutá-lo melhor.

- Dr. Jean-Marie? Esse é o nome do líder do Biolon. Caverna… caverna… será que o esconderijo deles fica em alguma caverna? Será que é isso? Haya...

O rapaz não pôde responder a mais nenhuma pergunta de Seichi, porque havia perdido a consciência novamente.

- Ele desmaiou de novo… Mas não tem problema. Muito obrigado, Hayakawa. Agora fica aqui quietinho e descansa. – o policial saiu apressado do quarto, enquanto gritava pelo corredor do hospital:

- Acho que alguém devia ir dar uma olhada no paciente do 257! Ele acordou, mas desmaiou de novo!

Ao ouvirem o pequeno escândalo de Seichi pelo corredor, os enfermeiros e médicos que estavam próximos, seguiram para o quarto do rapaz, enquanto ele corria em direção à recepção do hospital, onde havia visto alguns telefones públicos. Ele tinha uma ligação urgente a fazer.