Jessica Chloe - Vitoriosa
26 Voo
Notas iniciais
Eu estou arrumando minhas malas, com a ajudinha de Lilian. Ela fica pegando cada vez mais roupas e tagarelando bastante, mas devo confessar que não estou prestando atenção. É que eu estou muito nervosa, jamais saí de meu estado, e agora eu vou para o outro lado do país, morar praticamente com uma estranha — não que eu não considere Missi uma amiga, pelo contrário. Ela foi uma bênção para mim. Tudo ficou tão mais fácil...
— Alô, Sica? – Percebo que a loirinha estava falando comigo há um tempo. – Será que você pode me escutar um pouquinho?
— Ah, desculpa, Lil. É que eu estou nervosa. — Eu ajudo-a a fechar a última mala.
— Sei como é. Bem, pelo menos eu imagino! — Ela brinca. — Não se preocupe. Qualquer coisa é só voltar pra cá. A gente vai estar te esperando, viu?
— Se fosse simples assim... Ainda bem que me aceitaram na faculdade, pelo menos vou ter alguma coisa para fazer lá, mas tipo, minhas aulas só começam ano que vem! – Suspiro. – O que vou ficar fazendo durante esse tempo?
— Sei que vai demorar, mas pensa assim. Você pode arranjar um bom emprego, um em qual você queira mesmo. Sei lá, tipo trabalhar em um jornal, fazendo as fotos das reportagens. Depois você começa a faculdade numa boa, por que você vai ter juntado grana o suficiente. – Ela finalmente consegue fechar um zíper da mala. – Quem sabe comprar um apartamento só seu... Ai, quero logo te visitar lá!
— Eu sei que quer... – Sorrio para ela. – Quando chegar as férias, você pode vir me visitar, junto com a mãe e o pai. Acho que a Missi não vai achar ruim vocês fazerem uma visitinha...
Ela se aproxima de mim e me dá o abraço mais apertado que conseguiu dar. Encho a bochecha dela de beijos, e seus braços me apertam ainda mais contra ela. Deixo um suspiro de dor escapar, e ela começa a rir.
— Você vai sentir mesmo saudade de mim?
— O papa é católico? – Lilian ironiza. – Dã, claro que vou.
Depois disso ela me ajuda a descer com as malas. Mamãe, que passou o dia inteirinho chorando de saudade antecipada, veio me abraçar.
— Jessica, ainda dá tempo de você desistir e ficar aqui com a sua família. — Ela suplica. – Fique aqui comigo... Meu bebê é tão novo pra ir morar sozinha...
— Calma, mãe... Eu não vou pro Iraque não! – Brinco, afagando os cabelos dela. – Uma hora esse dia ia chegar. Eu não vou estar sozinha, Missi estará comigo. Além disso, vocês poderão me visitar.
— Pra mim é tão longe quanto o Iraque. — Ela beija minha testa. — Queria que ficasse aqui por mais um tempinho. Sei que é egoísta, mas... Não quero perder meu moranguinho.
— A senhora não vai me perder. Nunca. — Murmuro, e ela concorda comigo em silêncio. — Você sabe que é o que eu quero. Eu vou ser tão feliz indo pra lá...
— Sei, sim. — Ela sorri, olhando para mim e depois para Lilian. — Eu te amo, Sica.
— Eu também te amo, mamãe. Aliás, eu amo todos vocês. — Falo, olhando para Lil e papai, que tentavam conter o choro. Meu Deus, nem chegamos no aeroporto e todos já estão se debulhando em lágrimas! Eles me abraçam, e é quando eu escuto uma buzina lá fora.
— Deve ser a Missi. — Falo, e ela fica ainda mais triste.
Vamos até lá fora e vemos Missi em uma Ferrari vermelha muito linda. Abro a boca em um perfeito "O" e ela fica rindo da minha cara.
— O que foi? – Ela sorria. – O carro é dos meus pais, mas quem usa sou eu mesma. Eu falei que eles tinham grana, né?
— É, você falou... Mas isso não é ter grana, é ser ricaço!
— Eu não gosto muito disso, sabe? – Ela sai do carro e se aproxima de nós. – Claro, aproveito ao máximo minha condição financeira, mas para mim nada disso é meu. Por isso estou indo para Nova Iorque. Eu quero conquistar minha total independência.
Mamãe ficou a encarando. Queria muito saber o que está passando na mente dela.
— Melissa... — Mamãe chama, e Missi olha para ela. — Quantos anos você tem?
— Dezenove, quase vinte. – Ela responde. – Eu sei o que está pensando, senhora Andersen, mas não se preocupe. Eu já me viro sozinha a um tempo, e a Sica pode contar comigo pra tudo. Qualquer coisa a gente comunica a senhora, certo? Mas nada de ruim acontecerá.
— Ah, bem. – Ela solta um suspiro. Acho que mamãe não esperava que Missi fosse tão segura de si assim. – Tome cuidado da minha moranguinho, viu? — Ela diz, me matando de vergonha.
Missi solta uma gargalhada e eles a acompanham. Só eu fico vermelha.
— Não se preocupe, senhora Andersen. – Ela abraça minha mãe e volta seu olhar para mim. – Acho que essa viagem fará bem pra nós duas.
— Espero que esteja certa. — Mamãe sorri e depois vem até mim. — Boa sorte, viu?
— Mãe, nós ainda vamos nos despedir no aeroporto. – Acaricio a bochecha dela. – Vocês vão atrás da gente ou nós seguimos vocês?
— Vamos atrás. Se você quer independência, deve começar desde já.
Concordo e entro no carro. Missi olha para mim, tirando os longos cabelos negros dos olhos.
— Sua mãe é legal. – Ela dá a partida no carro. – Ela se preocupa tanto com você...
— Eu sei. Tenho sorte de tê-la.
Ela concorda, e eu percebo que ela estava um pouco tristinha. Vejo a mãe e o pai pelo retrovisor, seguindo-nos. Missi anda devagar, mesmo com seu possante. Deus, eu nunca imaginaria estar eu uma Ferrari na minha vida! Tenho que aproveitar esse momento.
Depois de quase uma hora, chegamos ao aeroporto. Um homem de terno estava nos esperando, e Missi logo se aproximou dele. Pelo que entendi, ele era o motorista da família dela e iria levar o carro de volta. Acho que Missi realmente queria independência dos pais dela. Como estávamos um pouco atrasadas, corremos para fazer todas as formalidades e tal. Bem, ficamos esperando a chamada de nosso voo. Olho para mamãe, que fitava Missi.
— Onde estão seus pais, Melissa? – Mamãe pergunta, um pouco hesitante.
— Viajando a negócios. — Ela responde, dando um suspiro e olhando para seu relógio. — Devem estar... no avião para o Japão.
— Japão? Eles viajam tanto assim? — Pergunto, achando estranho ela falar com tanta naturalidade.
— Sim, praticamente um país a cada duas semanas. Eles querem cada vez mais filiais em todos os países do mundo, ou algo assim. — Ela desabafa. — Desde a morte do meu irmãozinho, eles caíram de cabeça no trabalho. Eles esqueceram, pelo visto, que ainda têm uma filha.
Mamãe parecia comovida. Uma menina tão rica, mas tão pobre ao mesmo tempo...
— Não acho que eles queriam fazer isso com você de propósito. — Mamãe fala, tomando o partido dos pais dela.
— Eu nem me importo mais, senhora Andersen. – Ela diz, mas seus olhinhos estavam úmidos. – Há quase dois anos eu vivo praticamente só. Há um ano eu vivo totalmente só, somente recebendo algum dinheiro para gastos maiores, mas tive que arranjar emprego em um lojinha, a mesma da Sica. Não fico triste por isso, de jeito nenhum. Eu quero liberdade.
— E você ainda tem medo de morar sozinha? Não me interprete mal, mas eu acho que se morasse sozinha por tanto tempo assim, já estaria acostumada...
— Talvez, mas é que eu nunca fui para Nova Iorque na intenção de morar. É uma cidade muito grande, sei lá... Me dá um pouco de medo ficar lá por um tempo indeterminado.
— Entendo. Eu também estou sentindo isso. — Falo, e finalmente chamam o número do avião.
Corremos para a área de embarque. Mamãe, papai e Lilian nos seguem, esbaforidos. Entramos na fila e lentamente, entregamos a passagem para um moço que estava lá. Olho para mamãe, que chora baixinho no ombro do papai. Lilian, apesar de estar com os olhos inchados e vermelhos, sorri acenando para mim. Lanço no ar um beijo para cada um, enquanto Missi acena para eles.
Quando viramos, vamos em direção a um grande e longo corredor de vidro, onde vemos tudo do lado de fora, as pistas e tudo mais. Continuamos e de um jeito muito estranho no qual eu não entendi, entramos no avião.
— Nervosa? — Missi pergunta, sorrindo. — Soube que é a primeira vez que viaja de avião.
— Um pouquinho. Estou mais ansiosa que nervosa. — Falo, enquanto procuramos nossos assentos.
Quando finalmente os achamos, sentamos e uma simpática aeromoça pergunta se queremos chiclete. Acho estranho mas aceito. Guardo do bolso do meu casaco.
— Masque logo, já vamos levantar voo. — Missi fala.
— Não entendi.
— É que a altitude causa pressão na nossa cabeça, tipo um zumbido ou chiado no ouvido. Mascar chiclete ajuda.
— Ah. — Falo, me sentindo uma total idiota.
Depois de alguns minutos o avião faz um barulho estranho. Seguro-me na poltrona e Missi fica rindo da minha reação. Fico mascando que nem uma louca, de tanto pavor. É, pavor sim. Estou morrendo de medo.
— Relaxa. A probabilidade de você morrer em um acidente aéreo é muito menor que morrer engasgado.
— Bom saber disso. — Falo, tirando o chiclete da minha boca. Não sinto tanta pressão, e olho pela janela para ver se já levantamos muito. Vejo várias nuvens, ou seja, quase sinto náuseas ao perceber que estamos a tantos metros do chão. Concentro-me nas músicas que saem do fone de ouvido acoplado na cadeira da minha frente.
Depois de uma hora as aeromoças nos trazem o almoço. É bem caprichado, mas dispenso a carne vermelha. Apesar de estar curada, tenho que me cuidar muito ainda, e por um bom tempo... Logo depois da refeição eu adormeço. Acordo mais ou menos três horas depois.
— Quanto falta? — Pergunto para Missi, mas percebo que ela estava dormindo. Vejo uma aeromoça e pergunto para ela.
— Falta uma hora, mais ou menos.
— Obrigada. — Agradeço e volto a cochilar. Estou um pouco cansada.
Acordo com o piloto do avião nos informando de que já estamos pousando em Nova Iorque. Depois de alguns segundos de turbulência, o avião finalmente para de se mover, pelo menos é o que parece.
— Missi. Missi, acorda! — Quase grito em seu ouvido. Acredita que ela ainda estava dormindo?
— A gente já chegou? — Ela pergunta bem sonolenta.
— Já. — Respondo, rindo da cara amassada dela. Desafivelamos o cinto e descemos lentamente pela escadinha do avião. Olho para a paisagem, que está fria com o inverno rigoroso da, convenhamos, capital do mundo.
Eu não acredito que cheguei aqui!
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