— Bom dia, senhorita Andersen! — Uma enfermeira entra no meu quarto. Espera... Esse não é meu quarto. É o hospital. Às vezes eu me esqueço de que não estou em casa, mas tento levar isso como algo bom, já que provavelmente significa que estou confortável aqui.

— Bom dia. — Olho para ela, que sorri e pega uma bandeja com uma gororoba estranha.

— Aqui está seu mingau de aveia. — Ela coloca no meu colo, e olho para aquela comida nojenta. — Coma tudo, precisa ficar forte para hoje, já que é seu último dia.

Último dia! Fico feliz só em pensar voltar para casa. Apesar de estar sendo bem tratada aqui, ainda continuo em um hospital. Sinto falta da minha cama, minha cadelinha Lola, minha casa em geral... Sinto como se tivesse passado mil anos desde a cirurgia, mas de acordo com minha mãe e todos ao meu redor, cinco semanas se passaram. Por falar em mamãe...

— Onde está a minha mãe? — Pergunto gentilmente para a enfermeira.

— Foi comer alguma coisa na cantina do hospital. – Ela responde sorrindo. – Ela deve voltar logo. Sua irmã está ali. — Ela aponta para o canto do quarto.

Lilian está deitada desconfortavelmente no sofá-cama, um pouco de baba escorrendo pelo canto da boca. A cena é tão engraçada que não consigo deixar de rir. Devo ter feito isso muito alto, pois ela abre um olho e se levanta.

— Rindo de quê, posso saber? — Ela pergunta, esfregando os olhos.

— Nada não, Lil... — Sorrio. — Bom dia!

Ela sorri e passa a mão na minha bochecha. Olho para ela, e sem querer deixo uma pequena lágrima rolar pelo meu rosto. Ela a enxuga, e sinto que ela quer me dizer para aguentar. Sorrio e começo a comer meu mingau esquisito.

— Eu vou comer lá na cantina, tudo bem? — Ela pergunta.

— Tudo bem. — Deixo-a ir. Termino minha comida e a enfermeira tira a bandeja do meu colo.

— Quando eu vou embora?

— Hoje à tarde, Jessica. — Ela olha para a maquina ligada ao meu braço, que media meus batimentos. — Você está se recuperando muito rápido para uma cirurgia tão delicada.

— Bem... Acho que devo dizer obrigada. — Sorrio para ela.

Fico olhando para o teto, não sei bem o que eu estava esperando. Na verdade, a única coisa que se passa na minha cabeça é ir embora. Ir embora, deitar no sofá da minha casa e assistir à TV no volume que quiser. Continuo a fazer meu plano de coisas a fazer ao voltar para casa até que mamãe entra no quarto.

— Bom dia, minha querida! — Ela me abraça, aparentando-me cansada. — Já comeu?

— Já. Apesar de a comida não ser tão boa quanto a senhora. — Ela sorri pra mim ao ouvir meu elogio.

Ela fica olhando para mim, com um leve sorriso no rosto. Ela deve ter dormido umas duas horas, consigo notar somente ao ver seu rosto cansado. Não sei como ela consegue aguentar tudo sozinha...

Olho para ela. Ela não precisa suportar isso tudo só. Sei que a mágoa entre eles ainda é enorme desde a separação, mas é exatamente nesse momento em que sei que meu pai deveria estar aqui, ao lado dela. Ao meu lado. Por que ele não está aqui?

— Você... Você ligou para o papai? — Pergunto, cautelosa.

— Não, Jessica. — Ela me responde, friamente.

Quase não consigo encará-la por causa do que diz. Por que ela não havia dito para ele?

— Porque não, hein? Ele é meu pai. – Exalto-me mais do que desejava. – Ele tem todo o direito de saber o que acontece com a filha dele.

Ela parece contrariada, mas sinto a tristeza em seus olhos.

— O problema é que ele não quer saber da filha dele, desde que ele conheceu aquela vagabunda! — Ela grita, e Lilian entra no quarto, depois de provavelmente ter escutado essa parte da conversa.

— Como assim, mãe? O pai ainda não sabe da Sica?

Ela nega.

— Se ele quisesse saber qualquer coisa de vocês ele ligaria. Mesmo antes de tudo isso acontecer, Jessica e Lilian, ele não queria mais saber das duas. – Ela havia começado a chorar por causa de sua frustração. – Só ligava no Natal. Nunca perguntou nada sobre como vocês iam, se estavam bem...

Sinto meu rosto inchar, se preparando para chorar. Sei que ela não está exagerando. No primeiro ano de divórcio, ela quase todo dia ligava para meu pai, e sei que poderia contar nos dedos as vezes em que ele tomou a iniciativa de ligar. Depois, mamãe desistiu de manter contato com ele, e Lilian e eu meio que a seguimos, apesar de sentir tanta falta dele.

— Mãe... Ele errou. Feio. — Começo, e ela olha para mim relutante. — Mas a senhora não pode esconder algo tão sério quanto minha doença. É muita coisa para enfrentar sozinha. Sem falar que é o direito dele saber o que está acontecendo comigo.

Ela se senta no sofá-cama, passando a mão pelos cabelos loiros e desgrenhados. Seus olhos azuis encaram Lilian por um tempo, e minha irmãzinha reveza sua atenção entre nossa mãe e eu, braços cruzados em frente à seu corpo. Quando mamãe soltou um suspiro triste, Lil se senta ao lado dela, e a olha seriamente.

— Eu entendo seu lado, mãe, mas... Ou a senhora liga para ele, ou ligo eu.

— Você não tem autoridade para fazer isso, Lilian Marie. — Minha mãe fala em um tom mais alto, forte e enérgico.

— Não tenho? Eu posso falar com meu pai quando eu quiser. Ele mesmo falou isso para mim quando liguei para ele alguns messes atrás.

Mamãe parecia surpresa, mas eu não. Eu e Lilian costumávamos ligar para papai sempre que queríamos, mas mesmo assim eram poucas as vezes que ele nos atendia.

— E você acredita nele, Lilian? Agora ele deve estar com aquela cachorra, provavelmente casado com aquela baranga e com um filho melequento.

— Ou ele pode estar sozinho, naquele mesmo flat pequeno de esquina, tentando ganhar a vida como escritor. — Ela é mais realista. Numa das conversas que tivemos com ele, papai deixou escapar que havia conseguido um lugar novo e menor para morar. A ligação foi curta demais para conseguirmos fazer todas as perguntas que queríamos fazer, e ele não deixou escapar nenhuma outra informação.

Ela fecha os olhos, parecendo que se lembrava de tudo que aconteceu. O dia da briga derradeira, quando meu pai falou que tinha uma amante. Ela chorava tanto, eu estava escondida no alto da escada. Quando percebeu que estava ali, meu pai correu para o quarto deles e pegou todas as roupas, dizendo que pegaria o resto depois.

Minha mãe jamais o perdoou.

— Eu vou ligar para ele. Por vocês, meninas. — Ela olha para mim, e depois para Lil.

Ela sai da sala e ficamos conversando um pouco. A escola parece estar deixando de ser um martírio para ela, e eu sorrio com a notícia. Mesmo tendo que passar pelo que estou passando, a felicidade de Lil ainda é muito importante para mim, e saber que ela está se saindo melhor do que antes de certa forma me motiva. O telefone dela toca, e ela sorri.

— É pra você. — Ela entrega o celular para mim e voje que é o número de Hector.

— Alô, Hector? É a Sica... Ela me entregou o telefone agora. — Sorrio.

Não posso ficar com meu celular no leito, ordens médicas. Mas isso não impede que Lil me ajude a me comunicar com o resto do mundo.

— Eu queria ir aí hoje de manhã, mas minha mãe me intimou a ficar em casa. Aniversário da minha priminha Julie. – Ele solta um riso nervosos. – Ela mora aqui perto e, como nossa casa é maior...

— Não precisa se explicar, Hector. – Sorrio, e Lilian me imita. – O importante é que você ligou.

Ele fica um tempo em silêncio, aposto que ele tinha ficado sem graça.

— Eu vou mais tarde. Você sai ainda hoje, não é? Sua mãe me disse algo parecido ontem, mas só quero ter certeza.

— Sim, se tudo seguir como está indo. E se minha mãe deixar, vou para o colégio também.

— Não seria melhor se descansasse um pouco mais em casa? – Sinto preocupação em sua voz. – Foi uma cirurgia delicada...

— Eu estou bem. Ainda sinto algumas dores de cabeça, mas eles já disseram que isso é normal e estão me medicando. Logo eu vou tirar essa coisa.

— Espero que sim. — Escuto um barulho e ele grita "Desce do sofá, Julie!". Eu rio. — Tenho que ir, antes que ela acabe com a casa.

— Até mais tarde.

Ele desliga e vejo Lilian olhando para mim, incrédula.

— Nem um beijo? Ele não falou eu te amo, ou coisas do tipo?

— Não, Lil. — Sorrio. — A gente não precisa ser como aqueles casais melosos que ficam naquele típico "ai, desliga você!". Sem falar que a gente é... Um caso complicado.

— Complicado demais, não? – Ela ri. – Quando vocês irão oficializar esse namoro, hein?

— Nem sei se ainda existe essa coisa de pedir em namoro no século em que estamos.

Ela ri de novo e mamãe entra na sala. Ela olha para mim e diz que falou com papai. Os olhos dela diziam que a conversa não havia sido pacífica.

— Ele está com raiva de mim. Acredita? — Ela fala. — De qualquer maneira, ele disse que vem mais tarde, quando você sair.

— Claro que acredito que ele está com raiva, mãe! Se minha filha estivesse com um tumor, e minha ex-mulher só me comunicasse depois da primeira cirurgia, também ficaria do mesmo jeito. — Reclamo.

Ela não fala mais nada, só fica olhando para mim.

— Hoje me exaltei demais, e já que eu não tenho o que fazer aqui, vou dormir. — Falo. — Se quiserem ir para casa... Vocês devem estar ansiosas por um banho de verdade. Bem, eu estaria.

Elas riem e me deixam dormir.

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— Minha filha... — Ouço uma voz masculina, sussurrando para alguém. Não a reconheço de primeira, mas a suavidade dela é inconfundível depois de um tempo. Acordo de vez e o vejo.

Meu pai estava parado, ali. Estava com seus cabelos vermelhos arrepiados, e noto que ele está começando a ficar calvo. Ele olha para mim, com seus olhos verdes arregalados. Eu não acredito que faz três anos que eu não o vejo. Três anos que eu nem recebo notícias.

— Filha... — Ele se aproxima de mim, e me abraça forte. Retribuo, e ele começa a chorar no meu ombro. Eu não sei o que dizer, não sei o que fazer... Sinto um pouco de raiva, mas a felicidade de vê-lo ali comigo anulava qualquer sentimento ruim que me ocorresse.

— Que saudade... Eu senti sua falta. — Ele olha para mim. Os olhos verdes, iguais aos meus, analisavam meu rosto num misto de tristeza e raiva. — Você me perdoou, filha? Por tudo que fiz?

— Quem sou eu para perdoar o senhor... Eu não tenho nada a perdoar.

— Tem, sim. Eu não traí só sua mãe. Eu traí nossa família toda. – Ele fecha os olhos, suas sobrancelhas estão franzidas. – Eu ignorei vocês por tanto tempo... Sou um idiota. Também traí sua irmã e você.

— Mas traiu principalmente minha mãe. – Desvio o olhar. – Ela está tão magoada... Por quê, pai?

Ele não respondeu minha pergunta. Acho que ele nem sabe a resposta.

— Você não sabe o quanto eu me arrependo de ter feito o que fiz.

— É, pai. Eu realmente não sei. — Ele passa a mão na minha cabeça, e chora novamente, como uma criança que se perde dos pais no supermercado. Enxugo suas lágrimas e ele dá um pequeno sorriso.

— Eu jamais deveria sair de casa. Eu estou tão envergonhado... – Ele tenta parar de chorar, falhando horrivelmente. – Eu amo vocês três. Soube dos problemas de Lilian, ela mesma me contou. Eu jamais saberia dela, assim como jamais saberia o que você está passando. E mesmo isso sendo por causa de sua mãe, eu a entendo completamente. Sei que você não vai acreditar, mas eu ainda a amo. Nunca deixei de amar.

Meu maxilar se contraiu. Ele parecia ser sincero, mas era difícil de acreditar nisso depois do escândalo da separação deles lá em casa. Decidimos silenciosamente e ao mesmo tempo que esse assunto está encerrado. Ele me abraça, e pergunta sobre minha cirurgia. Eu respondo que tudo ocorreu bem, e que vou sair daqui a pouco.

— Com licença. — Outra enfermeira entra no quarto, trazendo meu almoço.

Ele pega a bandeja e coloca no meu colo. Ele pergunta como eu estou, como minha vida está..

— Boa. Apesar de tudo isso, ela está boa.

— Sua mãe me contou que você está namorando. — Ele fica sério. Ele sempre teve ciúmes de mim, apesar de eu não ter namorado tanto assim. — Quem é ele? É de boa família? Tira notas boas?

— Ora, pai! — Sorrio. — Ele se chama Hector, mas não somos namorados. É mais complicado que isso. Sim, é de boa família, os pais são advogados. Em relação às notas dele...

— Nada que você não o ajude, não é? — Ele ri. — Ele já veio lhe visitar?

— Já. Na verdade, ele estava aqui quando eu estava na mesa de cirurgia. — Confesso.

— Oh. Eu queria ter estado aqui na hora. — Ele olha para mim, e percebo que ele está realmente arrependido. — Me chama de pai de novo, por favor? Eu senti tanta falta disso também.

— Pai. Pai, pai, papai, paizinho... — Eu o abraço mais forte, e choro ao saber que ele ainda se importa comigo. – Promete que não vai ficar longe? Que não vai ficar longe da gente?

Ele segura minha mão com muito cuidado.

— Sica, você já tem idade o suficiente para entender que o que acont-

— Eu não estou pedindo para você voltar com a mãe. – Corrijo a má interpretação dele das minhas palavras. – Eu só quero que você não vá embora, pra longe. Mamãe precisa de apoio agora. Está sendo difícil para todas nós.

Ele diz que sim, e me deixa comer o peito de peru mais esquisito da minha vida. Ele fica me olhando, encarando enquanto encho minha boca de frango. De repente minha mãe entra no quarto.

— O médico disse que ela precisa descansar. — Ela fala tentando parecer durona, mas definitivamente não consegue.

— Tudo bem. — Ele se levanta da cadeira e tenta sair, mas acaba acidentalmente esbarrando na mamãe. Ele pede desculpas, meio sem jeito, e sai me deixando sozinha com ela.

Quando ela olha para mim, não consegui esconder.

— O que significa esse sorrisinho no seu rosto, posso saber?

— Você ainda gosta dele. — Falei, e ela me olha furiosa. — Não é?

— Não, Jessica! Que absurdo! – Ela me repreende, mas noto que a expressão dela está mais suave. Talvez a conversa deles tenha sido como cutucadas numa ferida aberta, mas fez bem à ela pelo menos vê-lo de novo. – Depois de tudo o que ele fez, não quero mais me envolver. Nem com ele, nem com mais ninguém.

— Absurdo é a senhora não perceber que ele também ainda gosta de você! — Falo, e ela fica vermelha como um camarão.

— Você está cansada. Nem sabe o que está falando. — Ela fala, mas não soa nem um pouquinho convincente para mim. Ela me deixa descansar e durmo.

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— Boa tarde, meu amorzinho! — Acordo com um leve beijo no rosto. Hector.

Amorzinho era o apelido que ele usava comigo quando queria me fazer rir. Eu o havia proibido de me chamar de qualquer nome meloso, mas ele insistia em me chamar desse. Depois de um bom tempo, deixei de ficar chateada e acabei achando engraçado e, de um jeito torto, fofo.

— Boa tarde. — Sorrio. Percebo que todos estão lá, incluindo o doutor Augustus. Ele está desligando os aparelhos do meu braço.

— Enfim livre, senhorita Andersen. — Ele sorri.

— Enfim! — Rio, e todos abrem um sorriso. — Mas logo estarei de volta, dessa vez para a definitiva, não?

— Com certeza. — Ele fala.

Mamãe estava com minhas roupas normais, e um lenço transparente vermelho, para minha cabeça.

— Eu achei a sua cara. — Ela fala.

O doutor tira as faixas de gaze da minha cabeça, deixando somente o curativo principal.

— Troque todos os dias, e evite molhar. Pode arder um pouco, mas nada de mais. Qualquer tontura mais grave, direto para cá. — Ele fala, olhando para minha mãe.

Eu me levanto e noto que não preciso de ajuda para tal ato. Vou para o banheiro pequeno e visto minha roupa. Nossa, como é bom vestir algo que não é uma bata! Pego o lenço e o enrolo na cabeça, fazendo um nó e colocando-o para trás, como um rabo de cavalo, mas de tecido.

Saio e todos olham para mim, com um sorriso no rosto. Eu sorrio, e Hector se aproxima de mim.

— Você vai pra aula?

— Sim. Eu não posso perder mais aulas. — Ele segura minha mão e vamos para a saída. Vejo meu pai olhar para mim, sorridente. Ele sabe que eu estou feliz.

Entramos no carro que deve ser do meu pai. Mamãe foi na frente, papai dirigindo e nós três, eu, Lil e Hector atrás. Nós fomos conversando animadamente até chegarmos em casa. Descemos e entramos para casa, onde em minutos minha mãe faz um jantar delicioso para cinco. Era estranho ter meu pai à mesa, mas fiquei quieta. Depois eles foram para a sala, e decido ir para meu quarto.

— Posso ir com você? — Hector pergunta.

— Pode, pode sim. — Respondo antes que minha mãe pudesse negar.

Subimos e sento-me na cama. Ele se senta ao meu lado.

— Eu gostei do seu pai. — Ele fala, sorrindo. — Ele me parece ser gente boa.

— Ele é. Mas os que são gente boa demais são perigosos. — Falo. – Nunca se sabe o que se passa na cabeça deles.

— Ainda bem que eu não sou tão gente boa assim. — Ele sorri e rouba-me um beijo.

Ele podia estar com qualquer garota agora. Ele podia estar com uma perfeita, com o corpo perfeito, cabelo perfeito, rosto perfeito... Mas ele prefere ficar aqui, comigo. É por isso que eu gosto dele, porque eu sei que ele não se separaria de mim, mesmo com essa doença horrorosa. Não sei o que ele é meu, nem o que sou dele, mas tenho medo de que isso acabe algum dia.

— Eu não sei o que você está pensando, mas deve ser algo muito importante para você não retribuir meu beijo.

Ele acaricia minha bochecha, e agradeço mil vezes a Deus por poder estar finalmente a sós com ele.

— Eu estava pensando em como você deve me amar mesmo. – Suspiro e o encaro. – Mesmo com essa doença.

— E você ainda tem dúvidas? — Ele beija minha testa. Seu rosto parecia mais fechado do que antes. — Eu não estou aqui por pena de você, nem por obrigação. Eu... Posso te confessar algo?

Ele parecia relutante e preocupado. Assinto sem falar nada.

— Nem sei como começar, é tão pessoal... Mas sei que posso falar pra você. – Ele sorri de lado, tentando disfarçar o nervosismo. – Eu tive muito medo de me deixar levar por esse sentimento que tenho por você. Não era um medo de você me rejeitar, mas sim de... De me envolver demais e te perder para essa doença.

Meus olhos já estavam cheios d'água. Realmente o que ele falou era pessoal o bastante para deixá-lo constrangido. Eu mesma pensava nisso várias vezes. Alimentar um amor que poderia acabar numa questão de minutos. Acho que a minha cara estava horrível, pois ele continuou:

— Desculpa. Eu preocupado com meu coração quando você está numa situação bem pior.

Sorrio para ele, que agora parece confuso.

— Essa foi a declaração mais esquisita que já recebi. Não que eu tenha recebido muitas. – Os olhos dele brilham. – Muito obrigada por me dar seu coração, mas não posso prometer que ele vai sair ileso quando o que quer que há entre a gente acabar. Talvez o meu não saia também, sabendo que te machuquei.

— Se depender de mim, o que há entre a gente não vai acabar.

Ele estava lindo; seu cabelo bagunçado caindo em seus olhos azuis-claros, extremamente sedutores. Olho para cada detalhe no seu rosto: suas sobrancelhas grossas, sua mandíbula bem desenhada, suas maçãs do rosto... Ai Deus, como eu posso resistir a tudo isso?

Eu me aproximo dele e o beijo, ficando cada vez mais colados. Ele me segura pela cintura e eu o envolvo com meus braços. Nós estávamos tão abraçados que ele solta um suspiro. Ele beijava meu pescoço e arrepiei-me por completo.

— Para, para, para. Não podemos fazer isso.

— Por que não? — Ele fala, cabisbaixo. — Quero aproveitar nosso tempo ao máximo. Você não confia em mim?

— Claro que confio, mas... Eu não sei se estou preparada para avançar mais. E nem acho que tenho idade suficiente para isso também.

— Você é bem diferente das garotas de dezesseis anos. — Ele olha para mim. — E é por isso que eu gosto de você.

Ele me beija e olha o relógio. Já é tarde, então ele se despede de mim e desce para a sala. Às vezes eu não sei porque eu não deixo rolar. Mas depois, vendo que ele não desiste, percebo que ele me quer mais que tudo. Tudo bem, ele não vai morrer se esperar.