Acordo me sentindo um lixo.

Ver no espelho como estou agora me deixa muito insegura. Eu adoraria ser dessas que falam que não se importam com o que os outros pensam, que o que importa é o que eu penso, e blá blá blá... Pelo visto sou completamente diferente disso. Estou em frente ao espelho, segurando firme o lenço da minha cabeça. Mamãe entra no quarto e fica olhando para mim. Suspiro.

— O que foi, Jessica? — Ela olha para mim, um pouco tristinha. — Está com medo do que os outros vão pensar, não é?

— Sei que não devia, mas... – Tiro o lenço e aliso minha cabeça. A sensação é muito estranha. – É difícil não pensar assim.

Mamãe massageia levemente meus ombros e beija o topo da minha cabeça, evitando o curativo.

—Eu entendo, minha filha. Eu deveria ter comprado uma peruca, talvez fosse melhor...

— Não, não... – Volto-me para ela. – Eu iria pedir um lenço de qualquer maneira. Não quero esconder o que eu estou passando.

Ela me olha, sorrindo levemente. Ela pega o lenço de minha mão e o amarra em minha cabeça, com cuidado para não estragar o curativo. As mãos dela são leves e delicadas, como se eu fosse frágil demais e pudesse quebrar a qualquer momento.

Considerando o último mês, acho que estou muito mais frágil que em qualquer outro momento da minha vida.

— Às vezes me sinto como um pirata. — Digo assim que ela faz o nó e vejo Lil parada na porta do quarto.

— Até parece, Capitão Jack Sparrow! — Ela beija minha bochecha. — Você está linda. Sempre esteve.

Elas me abraçam e me sinto um pouco melhor. Desço para a cozinha e pego uma maçã, não estou com tanta fome assim. Lilian pega suas coisas e vamos para a escola, deixando nossa mãe nos olhando da janela. As pessoas ficam olhando para mim, com estranheza. Claro, eles não tem a obrigação de saber, mas poderiam pelo menos disfarçar os olhares, não?

— Você tem certeza de que quer ir? — Ela olha para mim, com certeza stá preocupada. — Nós podemos voltar.

Nego com a cabeça e seguimos nosso caminho. Lilian segurou minha mão o tempo todo, e só percebi o quanto eu precisava disso quando a vi andando em direção ao prédio do fundamental. Continuo andando, agora sozinha, e cada passo me parece mais pesado. Algumas garotas ficam olhando para mim de um jeito tão esquisito, mais parecia... Nojo. Quem elas pensam que são para me olharem desse jeito?

Antes de chegar ao meu armário, vejo Gwen no dela, guardando alguns livros. Ela olha para mim e abre um sorriso, vindo me abraçar. Ela me aperta tão forte que quase me sufoca.

— Tudo bem? — Ela olha para mim, como se checasse se estava inteira. — Não está sentindo nada?

— Não, eu estou bem. — Sorrio. Gwen parece uma mãezona para mim. — Bom, o quão boa eu poderia estar.

— Tudo isso vai acabar logo. Confie em mim. — Ela ajeita meu lenço, que estava torto.

Olho para os lados e vejo várias pessoas olhando para a gente. É constrangedor, é estranho... É difícil. Nunca gostei de chamar atenção, e tudo o que eu menos quero agora é exatamente isso. Quando volto a olhar para Gwen, vejo que ela está com um sorriso grande, olhando para alguém atrás de mim.

Também olho para trás e vejo Hector, em toda sua perfeição, junto com seus amigos. Desde que ele terminou com Tiffany, soube que ele havia feito as pazes com os garotos com quem ele andava. Como uma garota poderia ter acabado tantas amizades assim?

Ele olha para mim e sorri o sorriso mais brilhante que alguém poderia dar. Ele se afasta dos garotos e se aproxima. Eu dou alguns passos em direção à ele. Nos abraçamos e ele olha para mim.

— Tudo bem? — Ele põe as mãos na minha cintura. — Não está sentindo nada?

Sorrio para ele.

— É incrível como você é parecido com sua irmã. Até falam do mesmo jeito!

— Não é a toa que somos gêmeos. — Ele coloca a mão em meu rosto. — Eu estou tão feliz que você esteja bem...

Ele beija minha testa, depois a ponta do meu nariz e por fim meus lábios. Eles estão tão quentes, macios... Ponho meus braços ao redor do pescoço dele e ele me puxa para mais perto dele.

Acho que vou ter que me acostumar a chamar atenção, pois todos que estavam no corredor se voltaram para nós. Os suspiros surpresos deles quase me fizeram rir, mas estava bem mais concentrada em Hector que em qualquer outra pessoa que estivesse ali. Quando interrompemos o beijo, ele acaricia minha bochecha.

— Ora, ora, ora... Mas que belo ato de caridade, hein?

Tiffany está parada no corredor, seguida de duas amigas logo atrás dela. A loira me olha de um jeito tão furioso que fico com um pouco de medo. Ora, eu não tenho que ter medo dela! Hector segura minha mão, como se quisesse pedir para eu ficar calma, que ele resolveria qualquer coisa que viesse dela. Tiffany se aproxima de Hector, beijando-o na bochecha.

— Oi, fofinho. – Ela sorri para ele. – Pensei que nosso término fosse mais benéfico pra você. Você deve estar cego mesmo para me trocar por essa baranga.

— Por favor, Tiffany, nos deixe em paz.

Ai, como eu quero estrangular essa vaca! Ela tenta mais um beijo com ele, mas Hector a afasta, frio como uma pedra de gelo. Sorte dela ele respeitar as mulheres, porque tenho certeza que ele estava segurando um tapa. Ela se vira para mim, olhando-me com desdém. Vira-se para as amigas, que estão atrás dela.

— E você, queridinha? — Ela pega na ponta do meu lenço. — Tá dando uma de hippie? Ou é punk demais para ter cabelo?

Todos riem. Sem nenhuma exceção, todos riem de mim. Eu não posso acreditar... Como eles podiam fazer algo assim, sem nem mesmo me conhecer, conhecer minha história? Hector olha para mim, seu rosto assustado com o que está acontecendo.

— NÃO FALE ASSIM, TIFFANY! — Hector a afasta de mim com um empurrão. Ele fala de uma maneira tão enérgica que me faz estremecer. — VOCÊ NÃO SABE DE NADA!

Encolho-me um pouco. Eu detestava ver ele com raiva, de quem quer que fosse.

— Calma, Hector. — Gwen se aproxima do irmão, pondo sua mão no ombro dele.

— Ela não sabe de nada... — Ele fala, em um tom bem mais baixo. — Sica, posso contar à ela? Quer dizer, a todos que estão aqui?

Concordo com a cabeça. Não quero ver ninguém mais rindo de mim.

— A Jessica está doente. Uma doença séria. — Ele engole em seco. — Ela está com um tumor na cabeça.

Olho ao redor. Alguns olham surpresos, outros desviam os olhares para o chão, e Tiffany arregala os olhos. Escuto alguns cochichos, mas a maioria está olhando diretamente para mim. Posso sentir o pedido de desculpas de muitos.

— Ela fez uma cirurgia há poucos dias. Ela teve que raspar a cabeça. E ela não teve medo de fazer isso. – A voz dele balançou, Hector estava se controlando para não chorar. – Tenho certeza de que todos aqui não teriam nem metade da coragem dela. E ela encara tudo isso sorrindo. — Ele por fim me olha. Seus olhos já estão cheios d'água.

Subitamente o abraço. Nesse momento eu não quero mais saber do mundo, das pessoas ao meu redor. Não me importa o que elas vão pensar ou falar de mim, eu só quero saber dele. Nada mais é relevante. Ele me abraça, beijando o topo da minha cabeça.

— Em vez de vocês ficarem falando dela pelas costas, deveriam seguir seu exemplo. – Ele continua, me soltando do abraço. – Amar a sua vida e ser feliz, não importando a circunstância. E nem o que os outros vão pensar.

Ele me arrasta até a sala que vou ter aula. Eu me sento na cadeira, e ele fica de joelhos, na minha frente. Não consigo parar de chorar.

— Você está bem? — Ele me olha com ternura.

— Não. — Seguro sua mão. — Me abraça. Por favor.

Ele chega perto de mim, me segurando forte. Ele beija meu pescoço, e o seguro mais forte. As lágrimas correm pelo meu rosto, e caem na manga de sua blusa. Eu não queria chorar... Eu não queria...

— Me desculpe. — Ele seca minhas lágrimas. Hector tem essa mania de pedir desculpas por coisas que ele não podia controlar. — Nós podemos ir pra casa.

— A culpa não é sua. – Falo, e ele enxuga minhas lágrimas com sua mão. – Eu quero ir embora.

Ele me levanta e vamos até a diretora Angelina. Ela fica horrorizada com o que contamos. A primeira coisa que ela faz é chamar Tiffany para uma conversa, e logo depois fala que posso ir.

— Você quer que eu ligue para sua mãe vir lhe buscar? – Angelina pergunta calmamente.

— Por favor, não. Ela já perdeu muitos dias de trabalho, não quero atrapalhar mais ainda. Posso ir sozinha para casa, não é tão longe.

Ela assente, mas sinto que ela está receosa em me deixar ir só. Antes que ela possa fazer algo em relação a isso, saio de sua sala. Hector começa a se levantar da cadeira também, mas a diretora o interrompe.

— Você não, Hector. — Ela se recusa a deixá-lo ir. – Preciso que você fique para a conversa com Tiffany.

Ele assente, mas sei que ele não quer nem ver o rosto da Tiffany agora. Eu vou até a saída e os seguranças me deixam passar. Ando até uma pequena praça que fica em frente ao prédio do fundamental, sento-me em um banco de madeira e permaneço lá por alguns minutos, chorando baixinho.

Assim que vejo um vulto à minha esquerda, soube que tinha feito bem em esperar.

— Dei um jeito de passar naquele buraco da cerca. — Hector sorri. – Sabia que você ia esperar.

— Acho que nós já nos conhecemos bem, não é?

Ele sorri em concordância, mas sinto que ele está meio estressado. O que quer que eles tenham conversado, não deve ter sido muito amigável. Andamos em silêncio para minha casa, e inevitavelmente repasso todos os acontecimentos em minha mente. Sei que elas não fizeram por mal, mas rir daquele jeito não é algo que se faça nem com o próprio inimigo.

Assim que chego em casa, pego minha chave mas não consigo nem abrir a porta. Quase antes de eu notar, a porta se abre.

— Jessica?

— Pai? O que o senhor está fazendo aqui? — Pergunto, surpresa.

— Conversando com sua mãe. — Ele nos manda entrar. Mamãe está em casa? — Não era para vocês dois estarem na escola?

— Eu voltei logo. Longa história, eu não quero falar sobre isso agora. Cadê a mamãe? Pensei que ela tivesse ido trabalhar...

Escuto os passos dela, vindos da cozinha. Mamãe parece um pouco mais relaxada do que nos últimos dias. Noto que ela está usando o uniforme de professora. Ela voltou cedo para casa?

— Estou aqui, filha. — Ela soa preocupada. — O que vocês fazem aqui?

— O que a senhora está fazendo aqui? — Falo, mas o rosto dela se contraria um pouco.

— Não importa agora. O que aconteceu? – Ela põe as mãos no meu rosto. – Seus olhos estão inchados. Você estava chorando?

Olho para Hector. Seu rosto estava sério.

— Posso explicar mais tarde? Quero descansar um pouco... Hoje foi estressante demais.

Ela concorda, beijando minha testa. Papai se aproxima de mim e me abraça, acariciando minhas costas. É estranho vê-lo, mas sei que prefiro ir para meu quarto que descobrir o porquê dele estar aqui em casa. Subo para meu quarto e Hector vem logo atrás. Desabo na cama e ele se escora na parede ao lado, logo depois de encostar um pouco a porta.

— Eu não queria que isso tivesse acontecido. — Ele suspira, extremamente chateado. — Tiffany é maluca. Ela acha que vai conseguir voltar para mim... O que eu fiz para ter que aturar ela, hein?

Ele se senta ao lado da minha cama.

— Não queria que ela continuasse a gostar de mim. – Ele sussurra.

— Isso não é gostar, Hector. Quando a gente gosta, a gente deixa ir, mesmo que isso nos fira profundamente. — Suspiro, convidando-o para sentar-se na cama. Ele se levanta e ajeita alguns travesseiros para apoiar suas costas. — Ela está obcecada.

Ele concorda com a cabeça, alisando meu braço de leve. Tudo estava bem, até que ele começa a falar das pessoas da escola, de como ela deviam estar arrependidas e tudo mais. Interrompo-o.

— Vamos parar de falar sobre isso? — O puxo pelo ombro, fazendo que ele se deite quase por cima de mim. — Não estou afim de conversar sobre isso. Talvez eu nem queira conversar.

Ele sorri e me beija calmamente, como se quisesse parar o mundo só para viver aquele momento para sempre. É o que eu quero também. Ele beija minha testa e me puxa para mais perto dele, eu me arrepio com seu toque, e definitivamente queria que ele tivesse trancado a porta do meu quarto para que eu pudesse relaxar ainda mais. Ele sorri e brinca com a ponta do meu lenço.

— Todas as vezes que eu me deitei com uma garota, — Ele começa. — Não foi para isso.

— Você é muito safado, sabia? — Sorrio, passando as mãos pelos seus cabelos.

— Eu sei. — Ele fala, afastando-se um pouco de mim e olhando para o teto. — Mas sei que você também tem um lado safado. Só preciso descobrir como despertá-lo.

Ele parece ter lido minha mene, pois se levanta bem rápido e tranca a porta. Hector olha para mim, pedindo minha aprovação para seu ato, e eu o respondo com um sorriso. Ele volta para minha cama e me puxa para perto dele, beijando-me com uma urgência tão grande que me deixa sem ar. Ele passa a mão pela minha cintura, em direção ao meu quadril. Ele não vai parar se eu não fizer nada.

— Por favor, Hector. — Olho seriamente para ele. — Agora não. Meus pais estão lá embaixo, preocupados comigo, e a gente aqui, quase...

— Quase o quê? Isso não chega nem a ser preliminares. — Ele finge estar triste. — Quando?

— Não sei, mas não se preocupe. Você será o primeiro a saber. — Sorrio, e ele ri. — Eu estou cansada. Mas se você me ama mesmo, me esperará até quando eu quiser. Não é?

Ele beija minha testa.

— Claro que sim. Eu vou falar com seus pais, tranquilizá-los. — Ele se levanta e olha para mim. — Sabia que você está mais bonita assim, sem aquele cabelo enorme? Chama mais atenção para seu rosto, que é muito bonito. — Ele sai do meu quarto, me deixando pensar em como eu sou sortuda. Aproveito para tomar um banho.

Hoje foi um dia difícil, então acho que mereço um pouco de mimo. Aproveito ao máximo meu banho de banheira, colocando meus sais especiais na água. O cheiro de rosas é tranquilizante.

Sempre soube que eu passaria por isso, por esse constrangimento. Não pensava, porém, que seria tão duro quanto foi. Ainda bem que tenho amigos para contar, e tenho Hector também. Saio do banho e me seco.

— Eu tenho que ir. — Ele subitamente entra no meu quarto, assim que saio do banheiro.

— HECTOR! — Grito, minha toalha quase caindo do meu corpo — Não sabe bater?

Os olhos dele estão arregalados, mostrando que ele está super envergonhado.

— Eu... Eu... D-desculpa... — Ele fica olhando para mim, me deixando sem graça.

— Quer um babador, queridinho? — Brinco com ele. Só mesmo com Hector que eu deixo meu lado brincalhão tomar conta de mim. Eu esperava que ele risse de nervosismo, mas o que ele faz é uma cara feroz.

— Eu quero outra coisa. — Ele se aproxima de mim, me pegando pelo pescoço e beijando-me, colocando outra mão na minha cintura.

Retribuo o beijo, ainda tentando segurar a toalha. Ele aprofunda ainda mais o beijo, e sei que se eu não intervir...

— Chega... — Suspiro, tentando arranjar forças para evitá-lo. — Não, Hector, chega!

Ele para, fazendo um biquinho de desapontamento. Ele se despede de mim, dizendo que provavelmente pegou uma suspensão por ter saído sem permissão, então viria aqui se que eu precisar. Quando ele sai, me visto e desço para ver meus pais. Eles estavam sentados no sofá, rindo como nos velhos tempos. Minha mãe parecia mais alegre que qualquer outro dia desde a separação deles. Papai sorria timidamente, mas seu olhar dizia tudo. Ele falou a verdade quando disse que ele ainda a amava. Eles notam que estou na escada e param, ficando em um ar sério novamente.

— Não precisam disfarçar... Estava tão bonitinho os dois rindo. — Brinco, e eles coram.

— Está melhor? — Mamãe pergunta, se levantando do sofá e indo até mim.

— Sim. – Aceito o abraço dela. – Hector falou o que aconteceu para vocês?

Eles concordam.

— Ele contou. — Papai fala. — Ele se preocupa demais com você, sabia disso?

— Eu sei. — Sorrio, lembrando-me do jeito dele. — Eu tenho sorte demais. Sorte por tê-lo e por ter todos vocês.

Eu os abraço e é como se viajasse no tempo. Como se voltasse a ter treze anos, quando nós éramos felizes. Depois que papai saiu de casa, tudo foi diferente. Não ruim, mas pior do que era antes. Agora eu me sinto tão completa... Eu preciso de minha família unida. Agora eu tenho realmente certeza disso.