Jessica Chloe - Vitoriosa
8 Enfim, chega o dia
— O jantar está pronto, mãe?
— Sim. Podem vir, vocês duas. — Ela fala da cozinha.
Lilian desliga seu notebook e vai para a sala de jantar, onde mamãe colocava os pratos na mesa. Desligo a TV e faço o mesmo. Ponho a comida no meu prato, lasanha. Eu olho para minha mãe e vejo que ela parece mais feliz, mais bonita.
Quando papai foi embora, senti a leveza dele permanecer aqui em casa. Minha mãe nunca foi uma pessoa triste, e mesmo depois da separação deles ela sempre tentava se manter o mais feliz possível, mesmo que algumas vezes eu soubesse que ela estava fingindo. Quando nossas vidas ficaram ao avesso, porém, era impossível não enxergar a tristeza dela, por Lilian e agora, principalmente, por mim. Não adianta falar para ela o quanto eu amo ver o sorriso dela em seu rosto, mamãe havia deixado de sorrir constantemente como ela fazia no passado.
Mas, desde que papai voltou a fazer, de certa forma, parte de nossas vidas, ela estava mais alegre. Não tanto quanto antes, mas eu podia ver seu sorriso genuíno estampado em meu rosto. E eu estou muito feliz por ela.
Quando eles se divorciaram, mamãe não falou tudo para eu e Lilian. Talvez ela quisesse preservar a imagem que tínhamos de papai, o que não funcionou muito depois que ele se afastou de vez de nós. Eu conseguia entender o que estava acontecendo melhor que Lilian, e várias vezes escutei mamãe sussurrar para si mesma "não vou perdoar", "eu não o amo mais" e coisas do tipo. Eu achava que entendia o que ela estava fazendo. Hoje percebo que eu era tão ingênua quanto ela. Mamãe tentava se convencer de que papai não valia a pena. Que ela não o amava mais.
E depois de três anos, aquelas frases ainda eram mentira.
Sorrio e mamãe olha para mim.
— O que foi, Jessica? — Ela abre um sorrisinho. – Com esse sorriso, algo deve ter acontecido.
— Nada não. — Respondo e olho para Lil. — Lilian, sabia que a mãe chamou o pai para "conversar" com ela aqui, hoje de manhã?
— Não brinca! — Ela abre um sorriso, olhos brilhando. — Isso é tão legal, mãezinha!
— Sica! — Ela me olha furiosa. — Na verdade, ele pediu para falar comigo. Decidi falar com ele enquanto vocês não estivessem em casa para que, caso a gente brigasse, vocês não tivessem que presenciar. Há algum problema nisso?
— Não... — Brinco, com um sorriso estampado na cara. — Só não é muito comum isso, não é?
Ela fica calada, ruborizando. Minha mãe não fica envergonhada facilmente, e considero uma vitória para mim, vê-la corando daquele jeito. Continuamos nosso jantar em silêncio, e durante o tempo eu flagrei ela olhando para mim com um ar inexplicável. Quando terminamos, Lilian sobe para seu quarto e mamãe me puxa para o canto da sala.
— Você acha que fiz mal? — Ela pergunta, me puxando para sentar no sofá. — Que eu não deveria ter chamado-o para conversar aqui?
— Claro que não, mãe... – Acaricio a bochecha dela. – Acho que conversar aqui foi bom pra vocês. Eu vi que vocês dois estavam de certa forma alegres enquanto conversavam... Eu fico feliz por ver a senhora mais alegre.
Um sorriso sincero surge no rosto dela. Acho que essa é a hora.
— No dia da visita que ele fez para mim no hospital, ele me contou que... Ele ainda gosta de você. Ele me disse que nunca se sentiu tão arrependido em toda a minha vida, que ele estava envergonhado.
Aperto sua mão. Ela ainda está em silêncio, e por isso continuo:
— Eu não sei o que você ainda sente por ele, mas sei que sente algo bom. Eu vi em vocês. Quero que saiba que a sua felicidade é muito importante pra mim, mamãe. Não importa de onde essa felicidade venha. E, se vier do pai... Vou ficar muito feliz.
Ela já está mostrando todos os dentes, de tão grande seu sorriso.
— Ele me falou isso também. Que me ama. — Ela confessa. — No começo eu não acreditei, e sei que eu tinha todos os motivos para não acreditar... Mas eu sabia o que eu sentia. O que eu sinto. Eu tentei esquecer ele, porque eu achava que ele havia me esquecido, mas não...
Ela pigarreia.
— Não sei porque ele me traiu. Não posso esquecer desse detalhe enorme e doloroso, e ele sabe que eu não posso fazer isso. Ele também não esqueceu. – Os olhos dela estão marejados. – Mas perdoar não é esquecer, não é?
Assinto.
— Eu perdoei ele. Perdoei e... A gente se beijou. – Ela cora ainda mais. – Eu havia esquecido o quanto é bom ser amada.
— Isso é tão fofo, mãe... — Abraço-a, mostrando o quanto estou feliz por ela finalmente se libertar dessa corrente que a prendia, e ainda mais por voltar a se entender com papai. — Eu quero que a senhora seja feliz. Você sabe disso, não sabe?
— Sei, sim. Eu quero o mesmo para você. — Ela beija minha bochecha. — Mas chega de falar de mim. Agora o que eu quero saber é sobre uma gritaria que vinha do seu quarto, hoje mais cedo. O que foi aquilo?
Arregalo meus olhos.
— Ah, não foi nada não... — Lembro-me dele quase me vendo nua. Meu Deus...
— Não foi nada não, não! – Ela insiste. – O que aconteceu?
— Hector entrou no quarto sem bater. – Confesso e olho para o chão. – Eu estava saindo do banho.
— O QUÊ? — Ela grita, esbaforida. — Como assim? Ele te viu pelada? Mas ele é um sem vergonha mesmo...
Ponho minhas mãos nos ombros dela.
— Não, mãe! Ele não viu nada! — Respondo, totalmente envergonhada. — Eu estava coberta pela toalha.
— Mas ele vai ver da próxima vez que eu o encontrar... – Ela parecia ainda um pouco consternada. – A partir de hoje ele só sobe no seu quarto com meu consentimento
— Calma, mãe! — Rio, um pouco nervosa. — Ele não fez nada. Não precisa disso tudo.
— Aham, mas ainda assim. — Ela vai para a cozinha, e eu a acompanho. – Espero que você não esteja me escondendo nada. Eu mesma falo tudo para voc~e da minha vida, e espero o mesmo das minhas filhas.
Engulo em seco.
— Mãe. — Eu olho para ela. — Ele vem tentando me convencer a...
— A o quê? — Ela parecia um pouco confusa, mas depois arregala os olhos. — Como é que é?
— Ele vem meio que puxando assunto sobre isso. — Ruborizo.
— E o que você fez? — Ela fala, enérgica.
— Evito. – Sou sincera. – Eu não estou preparada.
— E ele alguma vez falou em "prova de amor"? Pelo amor de Deus, diga que não!
— Não. Ele sempre entende e para, mas não impede que ele tente outra vez.
Ela parece mais aliviada.
— Ainda bem. Se ele falar qualquer coisa desse tipo, não ceda. Sexo não é prova de amor. Acredite, eu fiz o que ele falou e acabei... — Ela para subitamente de falar.
— Ficando grávida de mim. — Completo. Ela olha para o chão, envergonhada. — Desculpa, mãe.
Mamãe se volta para mim, e sei que não era a intenção dela me fazer triste.
— Você não tem culpa de nada, flor. — Ela me abraça. — É que você tem que entender que eu era muito nova. Eu perdi parte da minha vida. Não que você tenha me trazido infelicidade, jamais. Quando eu te vi pela primeira vez, quando vi seus olhinhos... Eu me senti tão contente!
Ela olha para mim, com os olhos cheios de lágrimas. Eu a abraço e ela continua.
— Eu perdi uma parte da minha vida para ganhar outra. Você pode ter as duas partes se quiser, filha. Sua juventude e sua vida adulta.
— Eu sei, mamãe. Eu quero viver as duas.
O telefone toca. Ela pega a extensão da cozinha e atende.
— Sim, é ela. Claro... Estão prontos? Ai, que maravilha... Três semanas? Sim, sim... Ela vai ficar muito feliz. Até amanhã, então. — Ela desliga sem conter a felicidade.
— Quem era? — Pergunto, ansiosa.
— Era do hospital. Seus exames saíram hoje, e você pode fazer a cirurgia daqui a três semanas. A definitiva.
Abro um sorriso. Eu não acredito que finalmente farei a retirada dessa coisa! Eu a abraço e Lilian desce do seu quarto, perguntando o que está acontecendo.
— Eu vou tirar o tumor, Lil! Ai, eu ainda não acredito!
Ela me abraça e ficamos assim por um bom tempo. A campainha toca e Lilian vai ver quem é.
— Oi, pai! — Ela olha para o lado. Já é a segunda vez dele aqui em casa. — Oi, Hector! Temos uma boa notícia!
— O quê? — Os dois falam em uníssono, entrando em casa. Hector olha para mim, e seu sorriso me fez amolecer ainda mais.
— Eu vou fazer a cirurgia! — Sorrio e meu pai me abraça. – Daqui a três semanas!
— Oh, minha filha... Isso é maravilhoso!
— Eu sei, pai. — Eu o solto e Hector está sorrindo.
Ele se aproxima de mim e me abraça tão forte... Toda vez que ficamos assim eu me sinto completa, como se ele se afastasse, eu fosse apenas metade de mim.
— Já sabe o que vai acontecer com você por ter saído sem autorização?
— Eu peguei suspensão. Três dias. — Ele ri. — Mas não me importo. Estou tão feliz por você...
— Seus pais não ficam bravos? — Pergunto.
— Eles mal ficam em casa. — Ele olha para o chão. — Você tem sorte de ter os pais que tem. Eles pelo menos querem saber como foi seu dia.
Eu nunca tinha pensado nisso. Talvez ele seja assim, um pouco revoltado e com as notas não tão boas, para chamar a atenção deles. Mas ele não conseguia. E, mesmo que meus pais tenham tantos problemas, sei que eles se importam comigo.
— Deve estar muito feliz. — Ele volta a me abraçar.
— Eu estou. — Seguro-o mais forte.
Quando ele pensa em subir para meu quarto, mamãe pigarreia.
— Hector. — Minha mãe fala. — Quero falar com você. Agora.
Deus... Só minha mãe para me envergonhar. Ela pede para eu subir para meu quarto junto com Lilian. Eu obedeço, pensando em como ela falará para ele o quanto ela acha horrível o fato dele estar tentando corromper a garotinha dela, e tudo isso na frente do papai!
— O que foi, Sica? — Lilian pergunta. — Parece preocupada.
— Não, eu só estou nervosa com a cirurgia. — Minto. Lilian é minha irmã, mas não dá para falar sobre tudo.
Ela fica comigo, falando que a escola está melhor, ainda bem. Olho para ela. Ela está mesmo diferente, há agora um brilho em seus olhos, um sorriso bobo.
— Você está feliz. — Sorrio.
— Estou. — Ela começa. — Minhas notas estão cada vez melhores, e já fiz algumas amizades com umas meninas da minha turma de inglês.
— Sério? – Sorrio para ela. – Estou tão feliz por você!
Ela sorri mais boba ainda.
— E além disso.. Tem um garoto, ele é mais velho...
— Mais velho? — Olho para ela, curiosa. — Mais velho quanto?
— Tem quinze. Ele começou a estudar tarde, mas é muito inteligente. – Os olhos dela brilham de entusiasmo. – O professor de biologia nos fez formar dupla, e conversamos bastante e...
— Diga logo, Lil!
— Ele me chamou para sair, próxima sexta. — Ela fala, com um grande sorriso no rosto.
— Ai, que bom! — Eu a abraço. — Eu sabia que era só uma questão de tempo para tudo se ajeitar.
— Agora eu também sei. — Ela sorri e vai até a porta. — É, parece que eles terminaram a conversa. Eu vou na cozinha, quer algo?
— Não, pode deixar.
Ela sai ao mesmo tempo que Hector entra no meu quarto.
— Pensei que eles não fossem mais deixar você subir aqui. — Falo, ruborizada, enquanto ele encosta a porta.
— Acho que convenci eles. — Ele senta na ponta da cama. — Eu não acredito que você contou a ela...
— Não pude evitar o assunto, Hector! — Olho para ele, que parece estar com um misto de raiva e chateação. — Ela começou o assunto e meio que as palavras saíram! Qual é, Hector... Ela é a minha mãe, não posso esconder nada dela.
— Você... Tem razão. — Ele segura minha mão. — Eu fui rápido demais, não?
— Foi. — Franzo os lábios. É melhor falar logo. — Foi bem rápido.
— Desculpa. É que eu nunca fiquei com nenhuma garota como você. A maioria era bem mais rápida.
— A maioria está louca para fazer aquilo. Essa é a verdade.
Ele concorda com a cabeça. Eu sinto um pouquinho de pena dele. Ele devia estar achando tudo estranho...
— Não é que eu não queira, é só que eu sou muito nova. — Olho para ele. — Minha mãe me teve com dezenove. Sempre fui criada com isso na cabeça.
— Oh. Eu sempre achei sua mãe bem nova. — Ele fica vermelho. — Agora eu entendi.
— Pois é. — Sorrio. — Ela me ensinou a ser difícil. Ela perdeu uma parte da juventude dela, e não quer que isso aconteça com as filhas.
Ele me abraça. Eu adoraria ter falado isso antes para ele. Agora ele entende o que eu penso.
— Quando estiver pronta? — Ele pergunta.
— Quando estiver pronta. — Eu respondo, trazendo-o para mais perto. — Mas isso não significa que a gente não vá...
Ele me interrompe com um beijo. Um beijo demorado, doce e ao mesmo tempo cheio de más intenções... Eu o seguro pela cabeça e ele coloca as mãos na minha cintura. Eu deito na cama e ele fica em cima de mim. Ele para, olha para mim e deixa um leve sorriso aparecer em seu rosto. Ele volta a me beijar, e eu o viro, ficando em cima dele.
Ele estava alegre, mesmo sabendo que não iríamos passar dos beijos. Ele coloca a mão atrás do meu pescoço, me fazendo arrepiar. Eu o seguro com minhas mãos e beijo seu pescoço. Saio de cima dele e fico deitada ao lado dele. Ele passa as costas de sua mão pela minha bochecha, beijando minha testa logo em seguida. Ficamos abraçados por um curto tempo até que minha mãe entra no meu quarto.
— Sica, já tá na hora de se desped- — Ela para, olhando o jeito que a gente está. Ela suspira e olha para o lado. — De se despedir. Seu pai ligou, Hector.
— Sim. — Ele ruboriza, depois olha para mim. — Te vejo amanhã.
Ele se levanta, pede desculpas para mamãe bem baixinho e desce as escadas. Mamãe senta na cama e olha para mim.
— Jessica Chloe... A conversa que tive com ele não serviu de nada? — Ela olha para mim, testa franzida.
— Não culpe ele... Eu também tento convencê-lo de algumas coisas. Como se deitar na minha cama. — Sorrio, mas mamãe ainda parece horrorizada. — Não fizemos nada demais, se é isso que quer saber.
Ela sorri e se senta na ponta da cama.fala que conversou com ele. Fala que ele quer meu bem, e que jamais me forçaria a nada.
— Eu e seu pai conversamos com ele, que me pareceu convincente. — Ela sorri. — Eu realmente acho que ele te ama. Bem, eu só queria dizer isso.
— Tudo bem. — Olho para ela, que ainda sorri. — Papai está aí?
— Não. Ele foi embora a pouco tempo. — Ela fica com um sorriso bobo, mas logo volta ao normal.
Ela já me desejou boa noite e começou a andar para fora do meu quarto quando me lembro:
— Mãe, sabia que a Lil está com um encontro marcado para próxima sexta?
— Não... Ela está de namorico? — Sorrio com a palavra e assinto. — Agora é ela com quem eu tenho que conversar.
Ela sai do meu quarto e vai ao dela. Eu vou tomar banho e noto que alguns fios vermelhos começaram a surgir na minha cabeça. Uma pena, já que devo raspar novamente. Depois visto meu pijama e deito, pensando no dia da cirurgia.
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Três semanas depois
Estou a caminho da sala de cirurgia, somente esperando o médico se aprontar. Mamãe está perto de mim, junto com Lilian. Estávamos conversando um pouco sobre vários assuntos, talvez para acabarmos com o desconforto da espera, talvez por que ficar em silêncio será pior. De repente vejo Hector entrar na sala.
— Ainda bem! — Ele fala, esbaforido. — As enfermeiras me falavam sempre o leito errado!
Ele olha para mim. Seus olhos falam tantas coisas... Coisas que as palavras não dizem. Ele se aproxima, segura minha mão e a beija. Por fim ele fala:
— Boa sorte. Vou estar aqui quando você acordar.
Levanto os braços, convidando-o a um abraço. Ele me aperta forte, e posso sentir seu coração acelerado. Ele beija a minha testa e sussurra no meu ouvido.
— Eu te amo. Eu te amo muito, muito mesmo.
Eu o beijo. Eu não sei se ele estava sendo movido pela paixão, ou estava falando sério, mas isso é o que menos importa agora. A única coisa que eu quero é ficar com ele o tempo todo.
— Pronta, senhorita Andersen?
— Sim. — Eu me afasto de Hector e sigo o doutor.
Entro na sala. O mesmo enfermeiro aplica a anestesia e logo durmo. Durmo pensando nos dias felizes que virão.
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