Jessica Chloe - Vitoriosa
18 Um último beijo
Para mim, não existe nenhuma dúvida em relação aos meus sentimentos por Hector. Sim, eu o amo, apesar de isso ser a coisa mais estúpida que um ser humano lúcido poderia fazer, contando as circunstâncias. Mas o que acabou de acontecer entre mim e Steven foi... Ótimo. Nada comparado com os beijos que dei em Hector, mas muito bons para os primeiros. Espera... Eu estou, por acaso, esperando por mais? Meu Deus... O que eu estou sentindo?
Ainda estou deitada no sofá. O cheiro dele ainda está nas minhas mãos, ainda sinto a pressão dos seus lábios nos meus... Caramba. Eu posso muito bem namorar ele, se ele me quiser (acho que isso sempre foi meio óbvio), mas não sei se é o certo. Eu ainda sinto algo muito, mas muito forte por Hector. O que eu vou fazer? Ando até a cozinha, para beber um copo d'água. Como eu vou resolver isso?
Meu telefone toca. Olho quem é e vejo o nome de Hector. Para mais uma vez provar que sou uma idiota completa, eu atendo, ao invés de desligar.
— Alô? — Falo, um pouco nervosa.
— Sica, eu quero, ou melhor, eu preciso falar com você ainda hoje. — Ele fala, quase sussurrando.
Controlo-me para não gritar com ele.
— Eu ainda estou com muita raiva. Muita raiva. — Falo, e minha voz acaba falhando.
— Eu sei, mas por favor... – Ele suplica. – Me deixa ir na sua casa hoje.
— Você... pode vir. — Falo, me arrependendo logo depois.
— Obrigado — Ele fala e logo desliga.
O que eu faço, senhor! Eu quero muito voltar com ele, mas eu estou começando a sentir algo por Steven... E agora Hector vem aqui na minha casa, querendo falar alguma coisa. E se ele tiver desistido de ir para a Califórnia? Será que a diretora Angelina o convenceu, ou coisa do tipo? Mas o que eu faria em relação à Steven? Puta que pariu...
Vou ler um livro, para ver se esqueço disso tudo. Infelizmente os livros que eu leio sempre, ou quase sempre tem uma personagem principal que está dividida entre dois garotos. Muita coincidência... A vida imita a arte. Olho para a Lola, que dormia tranquilamente no tapete roxo do meu quarto. Chamo-a para cima da cama.
— Ai, Lola... — Faço carinho nela. — Só você me entende, não é?
Ela late em resposta. Rio enquanto ela lambe meu rosto. Coloco sua ração e ela vai comer, e eu vou preparar meu almoço — que nada mais é do que macarrão instantâneo. Depois que termino, decido fazer algo que minha mãe jamais aprovaria que eu fizesse, pelo menos sozinha: Vou até o túmulo de Gwen. Eu preciso fazer isso.
Coloco água suficiente na vasilha para Lola ficar bem por umas duas horas. Visto uma roupa melhor — já que eu me visto como uma mendiga quando estou em casa — e saio, trancando a casa. Como estou sem dinheiro suficiente, vou para a parada de ônibus mais perto de casa e pego a condução que vai para o cemitério.
Desço do ônibus, que estava bem vazio. Entro no cemitério e fico vagando pelas lápides, criando coragem para chegar perto da dela. Sento-me no banco, o banco onde eu consolei Hector. Deito minha cabeça no apoio das costas e fico olhando o céu, tapando o sol com a minha mão. Levanto-me, decidida a ir até sua sepultura.
Uma mulher vestida de preto, estava ajoelhada em frente a lápide de Gwen. Cutuco seu ombro e vejo que é a mãe dela.
— Jessica... — Ela se levanta e me abraça. — Eu sabia que você estaria aqui.
— Oi, senhora... — Fico envergonhada ao lembrar que não sei o seu nome.
— Carlie Daves. Mas pode me chamar de Carlie, somente.
— Desculpe eu não saber seu nome.
— Não tem nada, Hector não costuma falar da família mesmo. — Ela dá um leve sorriso. — Vamos para um local coberto? Eu preciso conversar com você.
— Claro, mas... será que posso... falar com ela antes?
Ela assente e dá dois passos para trás. Olho para as escrituras na pedra de sua lápide. "Gwen Stephanie Daves, * 10-03-95, + 03-09-12". Ler isso me dói tanto...
Ela segura minha mão e me leva até a área coberta. Lá existem algumas cadeiras e uma mesa bem grande, provavelmente feitos de uma madeira muito cara, e isso me faz notar o quanto a família Daves tem ótimas condições. Um cemitério como esse não é para todo mundo... Sentamos e ela suspira.
— Há algum tempo atrás, Gwen me disse que seu aniversário era nesse mês. Não sei como ela descobriu, mas Hector me confirmou isso.
— Sim, daqui a alguns dias. Provavelmente ela viu na internet. Hoje em dia tudo está lá. — Falo para ela, sorrindo de leve. Ela mexe na sua bolsa.
— Ela estava preparando um presente para você. Gwen sempre gostou de aniversários, desde pequena. Então ela sempre quis dar o presente ideal para as pessoas. Ela vinha preparando isso há semanas. – Ela sorri olhando para a caixa. – Não acho que ela tinha terminado, mas mesmo assim quero lhe entregar.
Ela tira uma caixa branca com uma fita rosa prendendo-a. Ela me entrega, e tiro seu laço. Quando abro a caixa, vejo várias coisinhas dentro: uma caixinha menor, uma foto, um papel e um mini-bichinho de pelúcia. Olho para Carlie, que está com os olhos cheios d'água. Pego o papel. Quando o desdobro, percebo que é, na verdade, um texto, uma carta.
Jessica,
Hoje é o dia de seu aniversário. Parabéns, minha amiga!!! 17 anos é uma idade maravilhosa, você vai ver! Eu estou muito feliz por isso... Agora temos a mesma idade! Isso não é demais?
Sei que esse negócio de carta deve estar parecendo uma coisa muito estranha, talvez até idiota, mas eu gosto dessas coisas. Eu acho que consigo me expressar melhor através das cartas, em vez de diálogos. Bem, deixa eu começar.
Quando te vi sentada na aula de história, eu nunca pensaria que seríamos tão amigas assim. Sério, você parecia bem tímida e quieta, bem diferente de mim. Mas foi isso que me chamou atenção... E não é que você é muito legal? Uma boa amiga, inteligente e às vezes você parece tão pura que quando faço brincadeiras com você, fica tão engraçada que eu tenho que me segurar para não rir!
Meu irmão é um garoto de sorte por namorar você. Na real, eu detestava todas as namoradas dele, até você aparecer em nossas vidas. Sério, muito obrigada mesmo! Se eu tivesse que aguentar mais um jantar com a Tiffany, eu ia vomitar!
Você é a garota mais forte que eu conheço. Às vezes, quando eu sentia que minha vida estava miserável, eu me lembrava de você, que passa por coisas mil vezes piores que as minhas, e sempre com um sorriso no rosto. Você é a minha inspiração, de verdade.
Ah, o resto dos presentes: a caixinha é algo muito especial para mim, acho que vai gostar. O bichinho de pelúcia é só uma lembrancinha. A foto é uma minha, quando criança. Não me pergunte por quê, mas eu acho que éramos muito parecidas.
Depois que terminar de ler, eu provavelmente estarei na sua frente com um sorriso bobo. Então faça o seguinte: me abrace bem forte e não precisa agradecer nada. Você é a minha melhor amiga. Amigas para sempre.
Com amor e carinho,
Gwen.
— Ela... escreveu isso para mim... — Meus olhos enchem de lágrimas. — Eu queria muito poder abraçá-la agora.
— Eu também. — Ela fala, enxugando as lágrimas com um paninho. — Ela realmente gostava de você.
— Eu sei. — Falo, dobrando a folha novamente. Pego a caixinha e abro-a. Um lindo par de brincos de ouro estão dentro dela. Neles estão cravados várias pedrinhas, muito bonitas.
— São diamantes. — Carlie fala. — Ela ganhou eles da avó Louise.
— Oh, Deus... Devem ser caríssimos! — Falo, pondo a mão na boca. — Jamais poderia aceitar um presente desses.
— Por favor. — Ela me olha, um pouco triste. — Era um desejo dela que você ficasse com eles.
Assinto e guardo-os na caixinha. Pego o bichinho de pelúcia, um panda, e quando apertei sua barriga ele fala "cadê meu bambu?". Rio, e Carlie também. Eu jurava que ele falaria eu te amo, ou coisa assim. Pego a foto e vejo Gwen, com uns dez anos, acho. Ela tinha longos cabelos lisos e loiros, o que achei bem estranho. Às vezes eu achava que ela sempre tivera um cabelo azul e curto.
Olho melhor para ela. Mesmo com nossas diferenças, ela... parecia muito comigo, quando tinha essa idade. Assusto-me ao lembrar de Hector, falando que se lembrava dela quando olhava para mim. Agora eu o entendo... Eu realmente sou parecida com ela, de certa forma. Sem querer deixo uma lágrima cair na foto, mas logo enxugo-a. Ela estava andando de bicicleta e parecia muito feliz. Deus, tudo isso me parte e esmigalha o coração.
— Você quer carona para casa? — Ela pergunta.
— Sim, por favor. — Falo, e ela me leva até seu carro. Ficamos em silêncio por todo o caminho, e quando ela para em frente a minha casa, ela fala.
— Jessica, eu estou aqui como a mãe da Gwen, não como sua ex-sogra, mas peço a você que não culpe Hector pelos atos dele. Eu mesma pedi para ele ficar em casa, mas ele não me escuta mais. — Ela fala com a voz falhosa. — Acho que passar um tempinho fora o fará bem. Sinto muito que não tenha dado certo para vocês. Você me parece uma ótima moça, e com certeza achará alguém que te mereça.
Penso instantaneamente em Steven, mas meus pensamentos mudam. Começo a visualizar Hector me abraçando, me beijando... Meu Deus, os pensamentos que eu queria esquecer hoje mais cedo voltam com tudo. Agradeço-a pela carona e ela sai.
Entro em casa com Lola me esperando no pé da porta. Ela deve estar com muita vontade de fazer xixi, coitadinha! Deixo ela ir para o quintal e logo ela faz o que tinha que fazer. Entro em casa e sento-me no sofá, assistindo aos piores programas de televisão que alguém poderia assistir. Não sei porque, mas não consigo parar de ver essas porcarias!
Alguém toca insistentemente a campainha. Vou até a porta e abro-a.
— Anda, vamos conversar. — Hector entra em casa, me puxando pelo braço. Não forte, mas firmemente.
— Você não pode entrar na minha casa assim, Hect-
Subitamente ele me beija, segurando-me forte pela cintura e me puxando para mais perto dele. Seu beijo é tão quente, seus lábios são tão doces... Eu me derreto com seu toque. Como eu sou burra! Eu jamais deveria estar beijando ele, já que ele terminou tudo e tal... Ele interrompe o beijo.
— Eu senti falta disso... — Ele fala, encostando sua testa na minha.
— Você é um panaca. — Falo, mas não consigo deixar de sorrir. — Eu te odeio.
— Eu também te odeio. — Ele fala, beijando-me novamente. Ele segura meu pescoço com uma mão, e com a outra ele me segura pelo quadril. Ainda bem a lucidez volta para mim.
— PARA! — Grito, assim que me afasto dele. — Como você pôde fazer isso? Quer me deixar ainda mais confusa, não é?
— Eu vim te pedir desculpas. Jamais deveria ter feito isso com você, eu fui um tolo. – Ele deixa uma lágrima escapar. – Eu nunca, nunca quis dizer que a culpa era sua. De maneira nenhuma.
— Mas você...
— Eu só quis dizer que olhar pra você ainda me faz lembrar daquele dia, da minha irmã. – Ele fecha os olhos com força. – Eu realmente não queria isso, mas não consigo evitar.
— Nós podemos superar isso juntos. – Eu digo, segurando as mãos dele. – Por favor, eu posso ajudar...
Hector parecia sorrir, mas não sei identificar direito sua expressão.
— Eu te amo. – Ele engole em seco. – Eu ainda te amo.
Meu sorriso volta. Isso significa que eu ainda sou importante para ele. Talvez eu consiga mantê-lo aqui.
— Isso significa que você vai... ficar? — Falo, com os olhos brilhando.
— Não. Eu vou para a Califórnia. — Ele fala, olhando para o chão. — Eu te amo, mas tenho que te esquecer. Não posso ficar perto de você, não até que eu consiga enterrar Gwen. A gente ainda está com tudo terminado.
Empurro-o para longe de mim, mas ele volta para mais perto.
— Então por que você entra na minha casa e me beija desse jeito? — Falo, esmurrando seu peito. — Seu imbecil estúpido!
— Eu não podia ir embora sem explicar que eu não te culpo de jeito nenhum. Não podia ir embora sem isso. — Ele fala, acariciando minha bochecha. — Eu desejo o melhor para você.
Ele encosta sua testa na minha. Não consigo controlar meu choro, e Hector me puxa para mais perto dele. Os olhos azuis dele me encaram numa mistura de dor, culpa e ternura, e eu sinto meu coração se desmanchar. O que está acontecendo comigo?
— Antes de tentar te esquecer, eu tinha que aproveitar ao máximo nossos últimos momentos.
— Hector... — Falo, enquanto ele beija meu pescoço. — A Lil pode voltar a qualquer momento.
— Não, não. Eu falei com ela antes, e ela me disse que ia fazer um trabalho na casa de uma amiga que mora aqui perto. — Ele fala, para depois voltar a beijar meu pescoço e me segurar pela cintura. Ele é muito injusto... Como ele faz uma coisa como essa? Diz que ainda está tudo acabado, mas fica beijando meu pescoço como se nada estivesse acontecendo.
Ele disse que antes de me esquecer, tinha que aproveitar. Ele está me usando? Eu não sou um objeto. Eu sou uma pessoa que possui um coração amassado, praticamente esmigalhado. Por que eu estou deixando ele fazer isso comigo? Hector me falou tantas coisas ruins, Steven me tratou com delicadeza, e agora meu ex está me beijando nessa recaída precoce... Ele passa uma mão por debaixo na minha blusa, quase tirando-a. Não posso deixar que ele faça isso. Não posso deixar meu coração continuar confuso.
— Hector, eu preciso falar uma coisa. — Ele não para, então eu falo sem hesitar. — O Steven veio aqui hoje, e ele me beijou.
Ele para o que estava fazendo. A expressão dele era de confusão, quase um desapontamento. Hector me afasta dele, e ele está boquiaberto. Eu queria saber o que ele está pensando nesse exato momento.
— Quê? — Ele fala num tom tão baixo, quase inaudível.
— Ele veio aqui em casa, hoje de manhã, quando voltei da escola. Eu estava tão frustrada... Você me ofendeu muito, hoje. Ele perguntou como eu estava e acabei desabafando com ele. Rolou dois beijos, Hector.
— Mas... mas você gosta dele? — Ele fala, gaguejando. — Você gosta dele mais do que gosta, ou pelo menos eu acho que de mim?
— Eu realmente não sei, Hector. Tudo está tão confuso, ainda mais com você vindo aqui em casa, pedindo desculpas e me beijando logo depois de ter me chamado de puta. — Falo, com dor irradiando pelos meus olhos. — Eu não tenho certeza dos meus sentimentos.
Ele suspira, frustrado. Passa as mãos pelo cabelo e olha para mim.
— Eu te perdi, não foi?
Não consigo responder. Quem está perdendo alguém ali sou eu. Ele terminou comigo. Ele vai embora. Ele dá as costas para mim, olhando para a janela da cozinha. Consigo perceber pelo movimento dos ombros dele que ele está soluçando. Hector passa as mãos pelo rosto, funga o nariz e respira profundamente. Quando ele se volta para mim, vejo que ele parou de chorar.
— Eu queria que hoje nós tivéssemos um último momento especial. Eu pensei... – Ele sorri e balança a cabeça em negativo, como se zombasse de si mesmo. – Eu pensei que você aceitaria. Eu sou burro. Não percebi que tinha te perdido pra sempre assim que terminei com você.
— Hector... – Sussurro.
— Eu realmente quero que você seja muito feliz. Seja com quem for. — Ele me interrompe e beija minha testa. — Desculpa eu não ser o homem certo para você. Eu adoraria ser, mas não é possível.
Ele parece muito magoado, algo que não entendo, já que não estamos mais juntos.
— Eu... — Ele murmura e vejo uma lágrima descer pelo seu rosto bonito. Eu queria tanto sentir raiva dele agora... — Eu já vou indo. Tenho que ajeitar as últimas malas. O meu voo é depois de amanhã.
— Depois de amanhã? Mas já?
— Sim. — Ele olha para o relógio. — Desculpa, mas eu não quero que você vá para o aeroporto. Não sei se conseguiria embarcar com você me olhando... Eu não teria coragem.
Não consigo falar nada, nem fazer nada. Meu cérebro me diz para expulsá-lo de casa, dizer que o odeio e que nunca mais quero vê-lo, mas meu coração me diz para agarrar-me a ele e aproveitar ao máximo o tempo com ele. Não consigo decidir o que fazer.
— Eu já vou indo. — Ele fala, beijando minha bochecha.
Antes que ele comece a andar para a porta, seguro sua mão.
— Hector... Nós ainda podemos ter um último momento. – Engulo em seco. Não sei o que ele vai achar da minha proposta. – Você se importa em me dar um último beijo?
Ele sorri, cabisbaixo. Aproxima-se de mim, me abraçando e logo depois, o que eu jurava que seria um beijo apaixonado, se transforma em um beijo na testa. Ele me solta e olha fixo para mim.
— Boa sorte. Em tudo na sua vida.
Ele se direciona para a porta, e o que eu quero fazer é impedi-lo. Mas eu não posso fazer isso. Ele que é o dono da vida dele, ele sabe o que faz. Ele me olha pela última vez e sai. Vou correndo para a janela, para vê-lo ir embora. Ele não olha para a janela, mas sinto que ele queria fazer isso.
Sento-me no chão, desabando no choro. Eu quero ele aqui, ao meu lado. Mas ele se foi, e jamais vai voltar para a minha vida. Sinto que quase esmago meu telefone ao sentar, então eu faço algo que não sei se agradeço a mim mesma por ter feito ou se fico desapontada comigo.
— Alô, Steven? Será que você gostaria de sair comigo, qualquer dia desses?
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