Jessica Chloe - Vitoriosa
3 Quando o sonho e pesadelo se misturam
Eu nunca tinha me sentido tão ansiosa em ir para a escola. Depois daquela mensagem da Gwen eu quase não consegui dormir, e isso aumentou minhas olheiras. Ó céus, como eu poderia me encontrar com ele com essas coisas roxas embaixo dos meus olhos? Tudo bem, nada que um corretivo não melhore.
— Ainda são seis e quarenta da manhã, Sica. – Lil fala, ainda deitada na minha cama. – A gente não precisa se arrumar agora. Vem deitar.
— Não. Eu preciso dar um jeito no meu cabelo. – Olho para ela, que está com uma sobrancelha arqueada. – Eu estou parecendo uma patricinha, não?
Ela ri e concorda. Arrastando-se, ela se levanta e vem me ajudar. Desde pequena Lilian adora fazer penteados e maquiagem, então acho que isso faz dela uma expert.
— Não cubra seu rosto. – Ela fala, prendendo meu cabelo com um elástico. – Você tem um rosto bonito demais para ficar escondido. Assim, está vendo? Deixa só uma mecha aqui do lado.
— Obrigada. – Eu a abraço. Ela parecia bem melhor que ontem, mas se tem algo que eu aprendi com ela é que as aparências enganam. – Mas e maquiagem? Eu uso esse batom coral ou só um gloss sem cor?
Ela estava rindo de mim. Claro, se eu estivesse no lugar dela também riria. Eu jamais me comportava assim, então deveria ser muito cômico mesmo, essa Jessica preocupada com a aparência.
— Acho que nós deveríamos comer primeiro, antes de qualquer maquiagem. – Ela fala e meu estômago ronca. – Mas a mãe ainda não acordou, então acho que a gente vai ter que se virar.
Concordo e descemos até a cozinha. Para a nossa surpresa, mamãe já estava de pé, preparando waffles para nós. Ela sorri e nos abraça.
— Já acordadas? Não está cedo demais? – Ela pergunta.
— Claro que está, mas a Sica não deixa ninguém dormir. – Lil fala, sorrindo. – Ela está ansiosa porque o Hector vai chama-la para sair.
— Isso é uma notícia boa, querida! – Ela aperta minhas bochechas. Sabe como são as mães, não sabe? – Mas como você sabe que ele vai te chamar?
— A amiga dela, Gwen, por ironia do destino, é irmã dele. Ela mandou uma mensagem para a Sica dizendo que tinha escutado uma conversa dele com um amigo, falando que tinha terminado com a namorada dele e iria chamar a Sica hoje! – Lilian responde por mim.
— Ela perguntou para mim, Lilian! – Rio. Ela sorri pedindo desculpas. Lil sempre falou pelos cotovelos. – Mas é isso mesmo que aconteceu. E agora eu estou extremamente nervosa.
Mamãe ri e nos chama para a mesa. Waffles é a comida favorita da Lil. Acho que a mãe quer que ela se sinta bem. Claro, eu também quero. Eu não contei nada para elas, mas fiquei tão chocada com tudo isso que eu fiquei com uma enxaqueca tão grande... Mas logo passou. Eu queria entender porque aqueles alunos ficaram chamando-a de feia, sendo que ela não é. Se eu encontro esses malditos...
Voltamos para o quarto e Lil vai tomar banho enquanto eu penso que cor de sombra eu coloco. Ai, para, Sica estranha! Cadê a Sica desencanada com a aparência?
— Ainda? – Lil aparece no meu quarto. – Passa só um batom rosa. Não aquele forte, e sim aquele coral. Uma sombra branca e lápis preto. Não passe blush, do jeito que você fica perto dele nem vai precisar. – Ela ri.
— Valeu. Eu já ia colocar esse vermelho aqui. – Mostro o batom mais piriguete que eu tenho. Ela volta para seu quarto e continuo me arrumando. Ponho uma calça apertada – a única que eu tenho – e uma blusa tomara que caia. Ponho um colar que minha mãe me deu no meu aniversário de quinze anos e pego minha mochila.
Saio do quarto e recebo uma enxurrada de elogios de minha mãe e da Lil. Logo depois vou para a escola. Vejo Tiffany na entrada, chorando, junto com algumas amigas. Escuto-as falando, adivinhem de quem?
— Aquela vadia o roubou! Ele é meu, e ela o roubou de mim! – Ela percebe que eu estou me aproximando. – Vadia! Sua puta de merda!
— Não me chame assim, metida! Puta é a sua mãe! – Grito, e ela me empurra.
— Não fala da minha mãe, cadela! – Ela me dá um tabefe. Ai, ela pode ser metida, mas sabe bater em alguém.
— Não toca nela, Tiffany! – Hector a empurra para longe de mim. Eu nem havia percebido ele se aproximar. – Você está bem?
— Sim, só um pouco tonta. – Respondo. – Obrigada.
Tiffany se aproxima de novo, mas suas amigas a impedem de avançar ainda mais.
— Você ganhou a batalha, mas não ganhou a guerra. – Ela lança um olhar de fúria para mim e se afasta com seu bando de amigas, nos deixando sozinhos.
Hector inspeciona minha bochecha vermelha por causa do tapa. As sobrancelhas dele estão franzidas, como se ele não pudesse acreditar que aquilo tinha acabado de acontecer. Nem eu acredito, pra falar a verdade.
— Desculpa por isso. Não queria que isso tivesse acontecido. – Ele é sincero. – É que a gente terminou ontem, e pelo visto ela já está descontando em minhas amigas.
De novo, a palavra "amigas" me deixa confusa. Por um lado, agarro-me ao pensamento da mensagem de Gwen, dos elogios que ele fez a mim, mas essa amizade me traz de volta para o chão.
— Oh, eu não sabia. – Decido não falar nada para ele. – É uma pena ela agir assim, para ser sincera, mas estou feliz por você ter seguido meu conselho.
Começamos a andar para dentro do prédio, e mesmo evitando olhá-lo nos olhos, sinto que ele me observa cautelosamente. É como se meu coração fosse explodir de ansiedade.
— Eu também estou feliz por ter lhe ouvido. – Ele finalmente fala, quebrando o gelo e interrompendo nossa caminhada bem em frente à entrada do prédio. – Mas não vou seguir a segunda parte do conselho. Sobre ficar sozinho por um tempo...
Sorrio.
— Eu acho que seria bem... interessante – O sorriso dele começou a se abrir. – se a gente se encontrasse fora da escola, sabe?
SIM!, pensei. Ele parecia um pouco nervoso. Ele estava ansiando minha resposta.
— Você está me chamando para um encontro, então? – Cruzo meus braços, e ele fica mais envergonhado ainda.
— Uma saída de amigos. – Ele me corrige. – Por enquanto. A menos que você queira que seja um encontro.
Era exatamente isso que eu estava esperando. Um sinal de que algo maior poderia acontecer entre a gente. Aquele "por enquanto" me deixou ainda mais sorridente do que eu já estava.
— Acho que saída de amigos está bom para mim. Por enquanto. — Não consigo evitar sorrir para ele. – Eu aceito.
— Cinema? – Ele pergunta. – Hoje ou amanhã?
— Hoje às seis me parece justo. – Minha resposta parece o deixar alegre. – Você já sabe onde é minha casa.
Ele beija minha testa e me solta, por dentro eu fico me rebatendo, pensando em como seria bom beijar ele de verdade ou algo assim. Mas tudo bem, cada coisa em seu tempo certo.
Ele entra no colégio. Assim que o perco de vista, vou flutuando até a minha sala. Eu estou tão feliz que eu presto atenção em todas as aulas. Sério! Eu estava de tão bom humor que as até as aulas ficaram interessantes. No intervalo, Gwen me procura, com uma cara de felicidade inevitável.
— Tá, o que você fez com meu irmãozinho? — Ela ri. — Porque ele está tão feliz, hein?
— Ah, você já sabe, já que adora espionar as conversas do seu irmão...
— Eu não o espiono! Ele que fala alto demais! — Ela se defende, sentando-se na minha mesa. — Ele praticamente cantarolava na última aula. Como você conseguiu fazer isso com ele? Aula de matemática é um martírio para ele, mas ele não reclamou nenhuma vez!
— Não fiz nada, eu juro! — Falo, mas fico feliz em saber que ele estava, assim como eu, alegre.
Ai, minha cabeça está doendo. Pela cara dela, ela deve ter notado meu desconforto.
— O que foi, Sica? — Ela põe a mão em meu ombro. — Tem algo errado?
— É só uma dor de cabeça. — Eu falo, e logo a dor passa. — Pronto, passou. Não é nada demais, eu tenho essas crises de enxaqueca quase todos os dias, de uns tempos pra cá.
Ela sorri e come seu almoço, assim como eu. De vez em quando a dor voltava, mas nada que não desse para suportar. Depois, nós saímos um pouco do prédio e ela me apresenta alguns de seus amigos.
— Esta é Sarah. Sarah, essa é a Sica.
— Oi, Sica! — A morena de olhos amarelados fala, mexendo os cabelos. — Como vai?
— Bem. — Respondo.
— Essa aqui é a Jasmine. Ela é do Egito e mora aqui desde os três anos de idade.
— Oi, Sica. — Jasmine me abraça com muita força. Tá, isso é estranho, mas tudo bem. — Soube que você vai sair com o irmão da Gwen.
— Você já está fazendo fofoca! — Bato de leve no ombro da Gwen.
— Elas me perguntaram, eu ia esconder? — Ela fala, fazendo uma carinha de anjo.
Nós rimos e conversamos sobre minha antiga escola. Nós passamos um bom tempo sentadas embaixo de uma árvore. Logo depois voltamos para a sala, para continuar nossas aulas. Álgebra, Artes, Física, Trigonometria... As aulas que eu não sou muito fã ficaram mais alegres, divertidas... Mas confesso que eu mal podia esperar para mais tarde.
Quando as aulas terminaram, fui buscar a Lil. Ela já estava me esperando, com um sorriso enorme no rosto.
— Você deve estar ansiosíssima. Anda, nós só temos uma hora e meia para dar um jeito em você.
— Ei! Cadê o respeito? — Rio e seguimos para casa.
Quando chegamos, eu tomei o melhor banho da minha vida. Passei o melhor óleo corporal, o melhor perfume, coloquei meu vestido azul que, segundo a vendedora da loja, ressaltavam meus olhos verdes. Coloco meu tênis e Lilian vem ver como eu estou.
— Linda, lindíssima. — Ela pega nos meus cabelos, depois passa a mão pelo meu vestido. — Feminina, mas despojada. Adorei.
— E o meu cabelo? O que eu faço? – Pergunto, tentando prender meu cabelo num coque estiloso que de estilo não tinha nada.
— Deixa que eu faço. — Ela me senta na minha cadeira de maquiagem e começa a penteá-lo. – Vamos deixá-lo bem natural... Solto, assim. Essa parte para a frente, e o resto para trás. Olha, você está linda! — Ela sorri.
— Maquiagem? – Questiono.
— Esse batom aqui. — Ela pega um vermelho. Não o piriguete, e sim um vermelho mais natural. — E uma sombra rosa. Ficará linda.
— Tem certeza?
— Claro que sim. Ele vai ficar maluquinho com esse batom.
Sorrio, e ela passa a sombra para mim. Eu me levanto e espero por ele na sala. Mamãe senta ao meu lado, e olha para mim.
— Você gosta dele mesmo?
— Ele é divertido e compreensivo. Não acho que faço mal em sair com ele, pelo contrário. – Tento esconder meu sorriso. Não queria dizer para ela todos os detalhes. – Mas não se preocupe. Oficialmente, esta é uma saída entre amigos.
— Não me faça rir, Sica. – Ela brinca, mas parece preocupada. – Mas e ele, gosta de você?
— Bem, pelo que eu sei, ele gosta sim. A irmã dele é minha amiga, e ela sempre fala de como ele me acha incrível.
— Bem... Se você gosta dele, e se ele gosta de você... Deixa eu confessar: Eu estou ansiosa para conhecê-lo. — A campainha toca. Meu Deus, é ele!
Ela abre a porta e ele está lá. Lindo, vestido com uma blusa de manga e calças jeans. Mais perfeito? Impossível.
— Boa noite, senhora Andersen. — Ele beija sua bochecha. — A Sica está?
— Óbvio que ela está. — Ela fica meio boba em frente a meninos bonitos, mesmo tendo idade para ser mãe deles. — Olha ela aqui.
Ele entra e olha para mim. Ele abre um sorriso tão bonito que me deixa envergonhada. Ele me abraça.
— Você está linda. Linda mesmo. — Ele sussurra no meu ouvido, me fazendo arrepiar.
— Obrigada. Você também está. — Sorrio.
Ele conversa um pouco com a minha mãe e depois ele diz que é hora de irmos. Mamãe acena para nós quando saímos de casa, e assim que ela fecha a porta noto a respiração dele voltar ao normal. Ele estava nervoso?
— Ainda bem que seu carro não está mais quebrado. – Comento, lembrando de nossa caminhada do colégio até minha casa.
— Nem me fale. Toda vez que eu empresto meu carro para a Gwen ela dá um jeito de travar a embreagem. – Ele sorri, abrindo a porta do passageiro para mim.
Ele entra no carro e dá a partida. É estranho, faz tão pouco tempo que nos conhecemos e já me sinto à vontade com ele, e sei que ele também se sente assim comigo. Não gosto de pensar nessa possibilidade, mas sei que caso nada entre nós engrene, sei que pelo menos seremos grandes amigos.
Ele liga o som, e sorrio ao escutar Californication, do Red Hot Chilli Peppers.
— Ainda bem que você tem bom gosto musical. Lilian quase me deixava surda quando ela estava na fase de escutar k-pop. — Sorrio, e Hector também.
— Ah, eu te entendo. Gwen ainda está nessa fase. — Ele solta sua gargalhada.
Aperto o cinto e vamos em direção ao cinema.
— Então, — Ele diz, olhando para frente. — O que está achando da escola?
— É bem maior que a minha antiga, mas acho que vou me acostumar. A única coisa que sinto falta mesmo é da proximidade entre os alunos. Lá parecem que são um bando de estranhos.
— E são mesmo. — Ele ri. — Quando a diretora me obrigou a participar do sistema de tutores, eu só enxergava uma vantagem: conhecer pessoas diferentes das daquele inferno.
— E você acabou me conhecendo.
— Totalmente diferente do inferno. — Ele murmura. — Ainda não acredito que nunca nos conhecemos, já que moramos tão perto um do outro.
— Quase não saía de casa. — Confesso. — Não sei, acho que sou tímida demais, não conheço tantas pessoas assim. Eu tenho que mudar.
— Por favor, não mude. Sua timidez me chama atenção.
— De uma maneira boa, pelo menos? — brinco.
Hector sorri em resposta. Um semáforo se fecha, e ele olha pra mim bem rápido.
— Com o que sua mãe trabalha? E seu pai?
— Ela é professora das primeiras séries. Ela até ensinava na minha antiga escola, mas agora ela está trabalhando numa creche-escola um pouco longe de casa. — solto um suspiro. — Meu pai, quando ele ainda morava com a gente, trabalhava numa empresa de material de escritório, mas o sonho dele era ser escritor. Agora que meus pais se separaram, não sei o que ele faz.
— Não tem mais contato com ele?
— Há uns dois anos. Não lembro bem da última vez que ele me ligou.
— Sinto muito. — o semáforo abre. — Meus pais são advogados. Trabalham no mesmo escritório. Até que são bem sucedidos, mas quase não os vejo em casa.
— Acho que não me vejo trabalhando em escritórios. — confesso.
— Talvez eu até conseguiria, mas... Não sei. Não quero ser ausente como meus pais.
Continuamos a conversar por mais um bom tempo, e quase pude acreditar que ele estava indo por um caminho mais longo só para conversarmos mais ao som de RHCP. Descobri que ele sabe nadar muito bem, e que uma vez ele mesmo salvou Gwen de se afogar num lago perto da casa de veraneio da família dele. A família dele tem bastante dinheiro, o que eu já havia prestado atenção assim que vi o carro dele, que apesar de um pouco antigo, não deixa de ser caro. Hector também tentou aprender a tocar violão, mas nunca conseguiu tocar nada além de "Parabéns pra Você". Confesso a ele que meu hobby é tirar fotos, que adoro passar horas em frente à televisão quando não tenho nada melhor para fazer e que meu sorvete favorito é o de flocos que, pasmem, também é o favorito dele.
Fico sorrindo feito uma boba durante o trajeto todo e, mais cedo do que eu queria, chegamos ao cinema.
Tiro meu cinto, e ele desce do carro. Abro a porta.
Não.
— Sica? – Vejo ele segurando a porta para mim. – Vamos?
Meu coração começa a acelerar, mas não por nervosismo ou ansiedade. Olho para Hector, que me encara confuso.
Não consigo sentir minhas pernas.
— Minhas pernas. – Volto a olhar para meus pés. – Não consigo mexer minhas pernas.
Anda, pernas, se mexam! Faço força para movê-las, mas nada acontece. Hector está atônito.
— Tem certeza? – Ele pergunta, segurando minhas mãos. Assinto com a cabeça. – Vamos, vou te ajudar a se levantar.
Ele me ajuda a arrastar as pernas para fora do carro. Apoio-me com minhas mãos no banco do carro e empurro meu corpo para cima. Hector parece nervoso. Mas o que diabos está acontecendo comigo?
Não consigo sustentar meu corpo. Caio no chão, mas só não me machuco por causa dele, que me amparou segundos antes. Meu Deus, o que está acontecendo... O que tem de errado comigo?
— Desculpa. – Ele me ajuda a entrar no carro de novo. – Vamos para casa, certo?
— Não consigo andar... Não consigo andar...
Ele fecha minha porta e volta ao banco do motorista. A viagem de volta foi mais rápida que a ida, e tenho quase certeza de que ele avançou alguns sinais. O tempo todo tento mexer meus dedos, e consigo mover o dedão do pé. Hector não para de falar para não me preocupar, que não é nada de mais, mas eu sei, e ele também sabe, que isso é tudo menos normal. Assim que chegamos na porta da minha casa, ele sai do carro com pressa e me ajuda a sair do carro.
— Se apoie em mim. – Ele passa meu braço por trás de seu pescoço. – Vamos... Um, dois, três!
Ele me sustenta, mas logo consigo dar alguns passos por mim mesma. Ele, mesmo assim, continua me ajudando. Quando mamãe atende à porta, vejo uma expressão de confusão em seu rosto.
— Quem é... Ai meu Deus, o que aconteceu? — Ela olha para mim, transtornada.
Hector entra comigo, e mamãe logo vem para meu outro lado me ajudar a andar. Assim que chego perto do sofá, contudo, já consigo andar normalmente, como se nada tivesse acontecido.
— O que aconteceu, Hector? – Mamãe pergunta, assim que percebe que estou em choque demais para responder qualquer coisa.
— Não sei. Ela não estava sentindo as pernas, não conseguiu andar. — Ele se ajoelha e fica perto de mim. — Você está bem? Estava se sentindo bem hoje?
Tento me lembrar de cada detalhe de hoje.
— Sim... Bem, eu estava com um pouco de dor de cabeça. Mas nada sério.
— Meu amor, qualquer coisa é séria! — Mamãe exclama. — Porque não me disse antes?
— Era só uma dor de cabeça comum, mãe... — Explico.
— Nós vamos ao médico amanhã. — Ela fala, séria. — Tente mexer suas pernas.
Lentamente, minha perna direita se levanta, dobro meu joelho e deito-a novamente. Faço igual com a outra.
— Viu? Eu já estou bem. — Passo a mão pela cabeça. — Só estou um pouco tonta.
— Eu vou pegar um remédio. — Minha mãe adentra a casa.
Hector fica me encarando. Queria saber o que está passando pela mente dele. Com certeza deve estar me achando uma louca que fica paralisada em momentos súbitos. Solto um suspiro.
— Você está bem? — Ele tira alguns fios do meu cabelo da minha cara.
— Sim, eu acho... – Afirmo, olhando para o teto e tentando esconder meu desapontamento. – Desculpa por nosso encontro ter ido por água abaixo.
Ele solta um risinho, virando meu rosto para ele.
— Então é um encontro? – Hector pergunta, seu sorriso de lado me contagiando.
— Um encontro, – Suspiro. – que se tornou um fracasso total.
Ele se ajeita no chão, tentando ficar o mais confortável possível que uma pessoa ajoelhada pode ficar. Ele se aproximou de mim, perto o suficiente para meu nervosismo aflorar.
— Não precisa ser um fracasso total.
Ele me beija de um jeito tão suave que me derreto toda. A pressão dos seus lábios nos meus é deliciosamente provocante, como se ele quisesse, em um único momento, expressar todos os seus sentimentos. Ele é tão cuidadoso, como se não quisesse me assustar, mas tão galanteador... Ele para e beija levemente, um selinho. Ele sorri pra mim, e devolvo o sorriso.
— A gente pode sair de novo qualquer dia. Ainda não desisti de ir ao cinema contigo. — Ele olha para mim, sorridente.
— Com certeza. — Rio, vendo minha mãe voltar para a sala, trazendo um remédio. Ele se levanta do chão — Você já vai?
— Só se você quiser. — Hector sorri pra mim, mas logo se volta para minha mãe. – Ou se a senhora quiser, é claro.
— Eu quero que fique. — Olho para minha mãe. — Ele pode?
Ela fica relutante... Mas logo depois aceita.
— Você pode me levar para meu quarto? — Pergunto para ela.
— Claro. — Ela fala. — Hector, pode me ajudar a apoiar ela?
— Sim. — Eles me levantam e me seguram pelo braço. Lentamente eles me levam, mas na metade do caminho eu já consigo andar normalmente. Eu me deito e ele pega uma cadeira e se senta ao meu lado.
— Vocês vão ficar bem? Sozinhos?
— Mãe! — Fico envergonhada, mas Hector só sorri.
Ela sorri e sai. Ele olha para mim, talvez com pena, talvez com amor. Eu jamais saberia.
— Você está linda, deitada na cama.
— Sério? – Franzo o cenho. Acho que o remédio está me deixando meio lerda. – Eu agradeceria, mas estou cansada demais para cantadas, gostoso.
A cara de surpresa dele quase me fez rir.
— Gostoso? — Ele sorri.
— Você disse que eu podia te chamar assim, quando a gente se conheceu. Se lembra? — Arqueio uma sobrancelha.
— Lembro. — Ele beija minha testa. Ele começa a fazer cafuné em mim, o que me faz bocejar. – Lembro sim.
Fale com o autor