Jessica Chloe - Vitoriosa
4 A dor da descoberta
Notas iniciais
— Acorda, Jessica. Anda, acorda. — Minha mãe me cutuca gentilmente, até que eu me movo um pouco.
— Que horas são? — Pergunto para ela, achando estranho a quantidade de luz no meu quarto. Espreguiço-me, para logo olhar para ela.
— São oito e meia. — Mamãe responde com calma, e eu faço uma cara de espanto.
— Mas e a escola? — Vou me levantando rápido. — Como assim eu só acordei agora?
— Calma, Sica. — Ela segura minha mão e me senta na cama. — Você não vai a escola hoje. Eu pedi para a Lilian ir ao seu prédio para avisar. Você se lembra do que aconteceu ontem?
— Sim. – Respondo.
Eu não sei que expressão se formou em meu rosto, alegria ou preocupação. Eu lembro. Lembro-me de como eu estava feliz por ter um encontro com Hector, de como ele estava lindo quando veio me buscar, lembro-me de cair ao sair do carro, sem sentir as minhas pernas, lembro-me do beijo dele. Ah, como eu quero outro beijo...
— Eu estou preocupada, Jessica. Isso não é normal, essas tonturas repentinas, as dores de cabeça que vem e vão, e ainda mais essas cãibras esquisitas que você teve. Eu liguei para o doutor Augustus e ele me disse para trazê-la para uma consulta. Eu achei o tom dele preocupado, Sica. — Ela passa a mão pelos meus cabelos. — Você vai comer, deve estar morrendo de fome, e logo depois a gente vai.
Doutor Augustus é um antigo amigo da família da minha mãe, pelo que me lembro. Sei que ele é um médico ótimo, e pra ela ter ido atrás dele, mamãe deve estar muito preocupada.
— É, eu estou mesmo com fome. — Levanto-me devagar, mas não sinto tonturas, sem dores na cabeça, e sinto muito bem as minhas pernas. Não parece que seja nada grave. Grave seria se persistisse, não?
Ela, mesmo assim, me ajuda a andar. Descemos a escada e ela havia preparado uma salada de frutas — com chantilly, claro — divinamente incrível. Me sento e como, mas parecida com um dragão faminto do que com uma garota normal. Ela olha para mim, com um leve sorriso no rosto, e retribuo-o. Ela estava sendo gentil.
Minha mãe não é daquelas que mimam os filhos com presentes caros e absurdos. Para você ter uma ideia, ela só foi me dar um celular no meu aniversário de quatorze anos. Não que a gente não tivesse dinheiro, mas ela não queria que eu ficasse viciada, assim como as garotas da escola onde ela leciona. E toda essa preocupação, apesar de ser muitas vezes chata, é a coisa que eu mais admiro nela.
— Pronto? — Ela olha para mim. — Você come muito rápido.
— A última vez que eu comi tinha sido as cinco horas da tarde de ontem. Eu estava faminta.
Ela ri e me manda ir me arrumar. Olho para meu reflexo e me espanto. a maquiagem havia sumido e dado lugar para as olheiras de novo. Que susto! Tomo um banho e visto uma roupa simples. Ela estava pronta quando eu saí do quarto.
— Vamos. — Ela me pega pela mão, como se quisesse assegurar que eu não iria cair, e entramos no carro.
Passei a "viagem" toda escutando músicas, músicas que a minha mãe julgava "barulhentas". Mas ela estava tentando me agradar. Ela sempre faz isso quando ficamos doentes.
Quando chegamos, ela foi falar com a atendente do consultório, enquanto eu me sentei e folheei uma revista. Logo após escuto a atendente falar que não havia ninguém na nossa frente, e que ele já estava nos esperando.
— Vocês vão por esse corredor, e dobrem à esquerda. Sala sete.
Mamãe me chama e vou com ela. Passando pelo corredor vejo várias placas nas portas. Pediatras, Clínicos Gerais, Ginecologistas, Otorrinos, entre vários outros. Dobramos à esquerda, e logo vemos a placa na porta. Doutor Frederic Augustus, neurologista.
— Como assim, neurologista, mãe? — Olho para ela, com medo. Eu nunca havia ido em um neurologista antes.
— Você está tendo tonturas e dores de cabeça. Tudo isso deve estar relacionado a seu cérebro. — Ela explica, mas ainda parecia nervosa. Ela bate na porta e depois entramos.
— Bom dia, senhoras! — o doutor baixinho e sorridente nos saúda.
— Bom dia. — Dizemos em uníssono.
— Então essa é a Jessica Andersen... Conte-me, Jessica, o que está acontecendo?
Olho para minha mãe, que afirma com a cabeça.
— Bem, nesses últimos três dias eu estava me sentindo estranha. Estava tendo dores de cabeça, e há dois dias atrás estava tendo tonturas. Mas o pior aconteceu ontem; eu ia sair com um amigo meu e do nada eu parei de sentir minhas pernas.
— Sim. — Ele anota tudo em seu computador. — Você teve alguma queda, em que bateu a cabeça?
— Não. — Respondo, achando tudo isso muito estranho.
— Uhum... Sente-se aqui. — Ele aponta para aquelas camas esquisitas de consultórios. Obedeço e ele se aproxima com uma lanterninha. Ele pede para eu abrir meus olhos.
— Isso é um procedimento normal, Jessica. — Ele olha para mim, percebendo o quão nervosa eu estou. — Pupilas normais, senhorita. Pode descer.
Eu me direciono para a cadeira ao lado de minha mãe, enquanto ele faz perguntas à ela.
— Algum caso na família de doenças cerebrais, como derrames? Ou algum caso de hipertensão na família?
— Não, doutor. — Ela responde, esfregando as mãos.
— Sim. Bom, o mais adequado a se fazer agora é uma tomografia do crânio. Até agora não notei nada de anormal nela, mas esses sintomas não podem ser deixados de lado. — Ele com certeza deve ter percebido minha cara de pânico. — Calma, Jessica. Esse procedimento é muito normal. É só para termos certeza de que não há nada de errado com você.
Assinto com a cabeça. Minha mãe pergunta quando posso fazer o exame.
— Agora mesmo. Nós temos uma máquina aqui. Agora, o custo é de 400 dólares. Você pode pagar quando sair, na recepção.
— Tudo bem, eu tenho o dinheiro aqui. — Ela sorri, um pouco cansada.
Ele nos leva até a sala do exame. A sala é dividida em duas; uma com o aparelho, a outra com um computador, e acho que também os controles da máquina.
— Está vendo aquela salinha? — Ele aponta para uma porta. — Lá tem uma roupa especial para o exame. Você a veste e coloca uma faixa, que também está lá, na cabeça. Eu e sua mãe estaremos naquela sala, atrás do vidro. Mantenha a calma e tente não se mexer.
Concordo e vou para a pequena saleta, onde há aquelas roupas de hospital. Encontro uma faixa branca e coloco-a na minha testa. Saio e vejo que eles já estão na sala ao lado. Me deito na máquina, que faz um barulho atormentador enquanto me coloca dentro do aparelho.
É assustador. Tem um aro esquisito, e só. A máquina começa a fazer uns estalos esquisitos, mas contento-me em ficar parada. Depois de alguns minutos, o exame acaba, saio da máquina e o doutor entra na sala, me instruindo a colocar a roupa esquisita num tipo de cesta. Visto minha roupa normal e voltamos para o consultório dele.
Ele olha para mim, preocupado. Fico tão nervosa que sinto que quase desmaio. Minha mãe me segura no ombro, e parece que ela também está apreensiva. Ele põe as imagens na mesa, mostrando-nos.
— Nessa primeira sequencia de imagens, tudo está normal. — Ele olha para minha mãe, que escuta atentamente. — Nessa segunda fileira, também. Porém, na terceira...
— O que, doutor? — Me exalto, mas nervosa do que nunca.
— Calma, Sica. — Mamãe me segura, olhando para mim. — Deixe o doutor terminar.
— Vocês estão vendo essa mancha branca aqui, no centro da imagem? — Concordamos. Ele suspira, e olha para minha mãe, depois para mim.
— Essa mancha é um tumor. — Ele tira os óculos. — Sinto muito.
Não. Não, isso não é verdade. Olho para minha mãe, que está com os olhos arregalados. Eu... Eu não tenho isso. É mentira. Só pode ser mentira...
— Doutor... — Balbucio.
— Infelizmente é verdade, Jessica. — Ele olha para mim, com pena mesmo. — E pelo tamanho, dá para perceber que ele é daqueles que crescem muito rápido. É, muito provavelmente, maligno.
— Doutor, como isso é possível? — Grito, as lágrimas descendo. — Eu não acredito nisso...
— Não, Sica. — Mamãe fala, também chorando. — Como eu não pensei nessa possibilidade? A minha tia-avó, irmã da sua bisavó, morreu por causa de um tumor no cérebro. — Ela tapa a boca com a mão.
— Mãe... — Olho para ela. Eu não acredito nisso. Eu, com um tumor? Mas semana passada eu estava bem! Como isso pode acontecer, Deus? Eu começo a chorar muito, muito mesmo. Eu não sei o que passa na minha mente. Eu não consigo entender...
— Jessica, a localização do tumor facilita uma cirurgia. Como ele está aumentando rapidamente, o melhor é que fizéssemos a biópsia, ou seja, a retirada de uma pequena parte dele, o mais rápido possível, porém essa clínica não está licenciada para esse tipo de cirurgia. – Ele se volta para minha mãe. – Conseguir fazer as cirurgias é complicado e caro, mas posso dar um jeito de ajudar vocês. Daqui a duas semanas vocês poderão ir para o hospital onde trabalho, e não se preocupem com a burocracia. Afinal, para que servem os amigos?
Minha mãe balbucia um leve agradecimento, mas sei que ela realmente está grata pelo que o doutor Augustus está fazendo por mim.
Sei que devia agradecê-lo também, ma não consigo falar nada. Eu choro tanto... Porquê comigo? O que eu fiz? Eu... Eu... Eu não merecia isso... Um tumor! Um tumor no meu cérebro... Olho para mamãe, que chora, com o rosto escondido por suas mãos. Ela olha para o médico e concorda com a cirurgia.
— Você vai fazer, não vai, Sica? — Pergunta ela. Mas que bobeira!
— Vou. É claro que vou. — Respondo, entre soluços. — Eu faço. Tudo para ficar curada.
O doutor olha para mim, negando com a cabeça.
— Você não ficará curada com a cirurgia, Jessica. Essa cirurgia é para termos certeza da periculosidade do tumor. Assim que fizemos isso, saberemos se é seguro ou não retirá-lo. E se retirarmos, ainda sim você teria que fazer tratamentos para garantir que ele não volte.
— Que tratamentos, doutor? — Minha mãe pergunta.
— Quimioterapia, com certeza. Dependendo do seu caso, talvez radiografia, mas acho que não será necessário essa última. — Ele parece até pedir desculpa com os olhos. — Até a cirurgia, você deve descansar muito.
— Sim. — Falo, sem nenhuma emoção. Ele se despede logo depois de dar mais algumas informações para mamãe sobre a papelada do plano, e saímos do consultório.
Mamãe paga o exame, e todos que estão na sala de espera olham para a gente. Eu quero sumir. Não, quero que o tumor suma. Eu ainda não entendo, como isso foi acontecer comigo, meu Deus? Voltamos para casa e deito-me na minha cama. Ela fica deitada comigo por um tempo, sem conseguir conter o choro. Eu também não consigo. Ela beija minha testa e me abraça, até que eu adormeça.
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Quando acordo, já é hora do almoço. Minha mãe não costuma fazê-lo, já que ela está trabalhando nesse horário. Oh, não... Ela teve que perder um dia de trabalho para cuidar de mim... Isso pode sair muito caro. Percebo que ela sobe as escadas, trazendo uma bandeja com minha comida. Ela coloca na minha frente e se senta ao meu lado.
— Você está melhor, Sica?
— Como eu poderia estar, mãe? — Olho para ela, severamente. — COMO EU PODERIA ESTAR? EU POSSO MORRER A QUALQUER MOMENTO!
Ela se encolhe, chorando baixinho. Ai, Deus... Ela não tem culpa de nada. Na mesma hora me arrependo das minhas palavras, e chamo ela para sentar-se ao meu lado na cama.
— Me desculpa. — Abraço-a, enxugando algumas de suas lágrimas. — Eu não deveria ter gritado com você. A senhora não tem culpa de nada.
Ela dá um sorriso fraco e me beija na bochecha.
— Não tem problema, Jessica... Você está transtornada. Eu também estou, mas não estou no seu lugar. Só você sabe o que você mesma está passando.
Ela me abraça tão forte que é impossível eu conter as lágrimas. Ela beija minha cabeça e me deixa sozinha, comendo meu almoço. Depois de alguns minutos ela volta e pega a bandeja. Peço o telefone para mamãe.
— Ela deve estar preocupada por eu não ter ido à aula. – Digo, ao ver várias chamadas perdidas dela e de Hector. Ele deve estar tão confuso...
Disco o número de Gwen, pois não sei se teria força o suficiente para falar com Hector.
— Alô?
— Oi, Gwen. – Dou um leve suspiro. Ela soa tão enérgica, mesmo pelo celular. – Sou eu, a Sica.
— Sica! Porque você não veio hoje? – Noto que ela se afasta de uma multidão, pois o som se abafa um pouco mais. – O Hector me disse que você passou mal ontem. Ele está muito preocupado, e eu também.
— Eu... — Engulo em seco. Se eu falar agora para ela, irá ficar ainda mais preocupada. Decido não falar. — Queria que você viesse aqui em casa, quando a aula terminar.
— O que foi? É grave?
— Só... Só vem, por favor. – Meus olhos estão cheios d'água.
— Tudo bem. Mas acho que ele também vai querer ir.
— Não tem problema.
— Então até mais tarde, viu? — Ela se despede e desliga. Porque eu não disse logo? Bem, isso não é algo que se diga pelo telefone.
Passo a mão pela minha cabeça. Como lá poderia ter uma coisa crescendo? Eu paro de pensar no assunto. Ora, eu não ganhei uma sentença de morte, certo? Eu preciso ser forte, tanto agora quanto nos tratamentos. Confesso que é a quimioterapia que está me deixando nervosa. Claro, eu nunca fiz uma cirurgia na cabeça, nem em nenhum outro lugar, mas saber que vão me injetar tantas drogas pesadas não é um alento.
Mamãe entra de novo. Ela me traz um milk-shake de chocolate, meu favorito. Ela se senta ao meu lado e afaga minha cabeça.
— Eu queria poder fazer alguma coisa por você, filha. — Ela sussurra, já tentando enxugar mais algumas lágrimas. — Se eu pudesse trocar de lugar contigo...
— Você já está fazendo, mãe. Acredite. Seria muito pior se eu enfrentasse tudo isso sozinha.
— Você sempre sabe o que dizer. — Ela beija minha bochecha.
— Nossa, isso aqui tá uma delícia! — Digo, depois de tomar um gole.
Ela sorri triste e me manda deitar assim que terminar.
— Assim você vai me deixar mimada. Isso não é legal. — Rio e ela abre um pequeno sorriso. Seus olhos estão inchados. Ela chorou demais. – A senhora também deveria dormir. A Lil não tem uma chave? Ela pode abrir a porta quando chegar. Descanse, mamãe. Você também está exausta.
Ela sorri e vai para o quarto. Deito-me e me sinto sonolenta. Acho que ela colocou alguma coisa na bebida, um calmante, talvez... E é muito fácil dormir.
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— A gente quer ver ela! — Ouço alguém falar.
— Por favor, tia, deixa! — Reconheço a voz de Gwen.
Levanto-me e lentamente desço as escadas. Vejo minha mãe, gritando com eles, dizendo que eu estou cansada demais para vê-los. Lil, que parecia um pouco abatida, olha para cima e me vê parada no meio da escada.
— Filha! — Mamãe também me vê. — Porque está em pé? Vá descansar!
— Não até que você os deixe falar comigo! Eu disse para eles virem... — Olho para Gwen e para Hector. Ele parece preocupadíssimo. Quando percebo, ele desvia-se da minha mãe e sobe as escadas, ao meu encontro.
— O que aconteceu, Sica? — Ele pergunta, nervoso. — Quando vi que você não viria à escola, soube na hora que tinha algo de errado. Me diz, por favor.
Eu não aguento isso. Não aguento ver as pessoas se preocupando comigo, ficando nervosas. Desabo em choro, e ele me abraça. Ele me diz para ficar calma, e me leva até minha cama. Vejo que mamãe, Gwen e Lilian sobem também. Ele se senta ao meu lado, e olha para mim com delicadeza.
— Você quer me dizer? — Ele passa a mão pelo meu rosto, limpando as lágrimas. Concordo com a cabeça.
— Eu fui ao médico hoje. À um neurologista. Ele me examinou e me fez uma tomografia. Eu... Eu... — Soluço. — Tenho um tumor no meu cérebro.
Ele olha para mim, incrédulo. Ele olha para minha mãe, que confirma com a cabeça, escondendo as lágrimas. Lílian desaba em choro, e ouvi-la só faz que eu fique ainda mais sem chão. Gwen cobre a boca com as mãos, seus olhos parecem querer saltar de seu rosto.
— Não! — Lil corre para meu lado e me abraça. — A minha irmã não!
— Eu não sei o que dizer... — Gwen se senta na ponta da cama, ao lado de Hector, olhos vermelhos.
Todos vem me abraçar, e isso me faz sentir um pouco melhor. Mamãe chama Gwen e Lilian para conversarem melhor sobre isso, e sei que ela quer que eu converse melhor com Hector. Ele parece transtornado, seu rosto não demonstra nada, nem mesmo tristeza. Sei que ele está em choque. Elas saem, me deixando somente com ele.
— Você... Você corre algum risco de vida? — Ele pergunta, sua voz sai fraca e falha.
— Não sei, mas acho que todos que desenvolvem tumor correm. Eu vou fazer uma biópsia daqui a duas semanas, para saber o grau de risco. Depois de saber, eu vou fazer a retirada dele. E vou começar uma quimioterapia. Talvez uma radioterapia também.
Ele olha para mim, e vejo pela primeira vez seu pranto descendo pelo seu rosto bonito. Enxugo suas lágrimas e falo que vou ficar bem, mas sei que não soei convincente.
— Como isso pôde ter acontecido? Como algo tão horrível pôde ter acontecido com alguém tão bom como você? — Ele se altera. — Você não merece nada disso!
A raiva que ele demonstra é pesada, posso senti-la. Ele se levanta da cama e passa as mãos nos cabelos, andando de um lado para outro do meu quarto. Acompanho ele com meu olhar, e assim que ele se vira novamente para mim, Hector seca sua testa suada e se senta ao meu lado novamente.
— Calma , Hector. De nada adianta ficar nervoso. – Acaricio a bochecha dele, e ele segura minha mão onde ela está. — Mantenha a calma. Por mim.
Ele seca mais algumas lágrimas. Eu não gosto de vê-lo chorar, mas é nesse momento que eu sei que ele se importa comigo de verdade, o que é estranho para alguém que eu acabei de conhecer. O problema é que eu também me preocupo com ele bastante. Eu me aproximo dele e recolho toda minha coragem para dar um beijo em seus lábios.
— Eu estou com medo. — Confesso à ele. — Eu estava bem a alguns dias atrás, e agora vou ter que fazer uma cirurgia na cabeça. — Rio, com desgosto. — Preciso de apoio. Seu apoio e delas também.
— Pode contar comigo. – Ele aperta minha mão com força. – E eu quero que você saiba que, não importa o que a gente é um do outro. Na boa, nem eu mesmo sei.
Sorrio de verdade pela primeira vez desde ontem.
— Nossa relação só fica mais complicada. – Brinco.
— Pois é. Mas não importa se eu sou seu amigo por enquanto ou algo mais, saiba que eu sempre estarei aqui. Sempre.
Ele tira uma mecha do meu cabelo do meu rosto e me beija, do jeito que eu havia sonhado. Ele põe as mãos ao redor da minha cintura e me puxa para mais perto. Ele ainda está chorando; eu sinto suas lágrimas em contato com a minha bochecha. Passo minhas mãos pelo seu cabelo e ele geme baixinho. Antes que ele avance ainda mais, interrompo o beijo.
— Eu gosto de você, Sica, e você não merece nada disso. — Ele beija minha testa e se deita no lado esquerdo na minha cama. Também me deito e ficamos assim, abraçados por um bom tempo. — Eu trouxe uma coisa para você. — Ele tira algo de seu bolso. Meu colar! — Você deixou isso aqui cair ontem, dentro do carro.
Sorrio e minha mãe aparece na porta de quarto, segurando uma tigela fumegante. A visão que ela tem não é a mais fácil de se explicar.
— Eu interrompo? — Pergunta, olhando para o lado.
— Não estamos fazendo nada, mãe. — Reviro os olhos e Hector sorri.
— É uma sopa. – Ela levanta de leve a tigela em suas mãos. – Eu fiz para vocês. Se quiser, Hector, tem mais lá embaixo.
— Claro, obrigado. — Ele ri e me olha como se perguntasse se eu ficaria bem se ele descesse. Assinto para ele, que vai para a cozinha. Minha mãe senta ao meu lado, e olha pra mim com um olhar sapeca.
— Seu namorado está aprovado, viu?
— A gente não tá namorando, mãe. — Olho para ela, imitando-a. – Por enquanto.
— Essa geração demora demais, não? — Ela sorri.
A sopa está divinamente boa. Quando termino, Gwen sobe no meu quarto e me abraça.
— Eu quero que tudo dê certo! — Ela me abraça. — Eu gosto muito de você. Você é minha melhor amiga!
— A gente se conhece há três dias. – Sorrio. Mesmo nesses três dias, sei que ela é meio exagerada.
— E daí? Parece que a gente se conhece desde sempre! – Ela segura minha mão. – Eu sinto isso! Você vai sair dessa, pode contar comigo.
Abraço-a e ela sorri. Eu adoro a Gwen. Ela com certeza é uma boa amiga, e com o tempo, se tornará minha melhor amiga. Lilian chega e me abraça.
— Posso dormir com você? — Ela ri. — Agora é minha vez de te proteger.
Sorrio e concordo. Ela beija minha testa e Hector chega, parando na porta.
— A mãe me ligou, Gwen. Já está na hora de irmos. — Ele fala, e Gwen se levanta, despedindo-se de mim.
— A gente se vê. — Ela fala.
Hector se aproxima e olha para mim.
— Eu te adoro. — Ele confessa, pondo uma mecha do meu cabelo atrás da minha orelha. De todos ali, ele é o único além de mamãe que ainda está com os olhos vermelhos. — Quando vai ser a biópsia mesmo?
— Não sei exatamente, mas não se preocupe. Eu aviso.
— Eu posso vir aqui amanhã? — Ele pergunta, e antes que mamãe intervenha, concordo. – E você vai voltar à escola?
Olho para mamãe, que nega com a cabeça. Lembro que o doutor Augustus me deu um atestado de duas semanas. Ele realmente quer que eu descanse até lá.
— Então eu venho aqui sempre que puder. – Ele afirma e me beija de novo, e de novo, e de novo...
— Aham. — Minha mãe pigarreia.
— Desculpa. — Ele fala, envergonhado, me abraça e vai embora com Gwen.
Lil se deita na cama e me abraça forte. Sei que ela ainda não está totalmente bem consigo mesma, mas sei que ela está fazendo de tudo para que eu me sinta bem. Como eu amo minha irmãzinha... Eu me agarro a ela e passo um bom tempo pensando em como serão os próximos dias.
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