Notas iniciais
Esse capítulo é bem curto, mas essencial para o resto da história.

— Está pronta, Jessica? — Um médico entra no pequeno quarto onde me instalaram.

Eu estava com um pequeno espelhinho, que minha mãe tinha me entregado antes de me levarem para onde estava. Eles haviam acabado de medir minha pressão e temperatura, e tudo indicava que eu estava apta a fazer a cirurgia. Só faltava uma coisa.

— Você quer que eu raspe tudo, ou só o local da operação? — A enfermeira entra na sala, com a máquina de raspar o cabelo.

Suspiro. Um dos meus maiores orgulhos é meu cabelo ruivo. Ninguém na família da minha mãe era ruiva, então todas as minhas tias me elogiavam, diziam o quanto eu era bonita e outras coisas do tipo. Se eu não ligo muito para maquiagens e afins, é porque eu sei que já chamo atenção o suficiente, às vezes mais do que eu realmente quero.

Mas não é por que meu cabelo chama atenção demais que eu iria querer raspar minha cabeça. Tenho toda a consciência de que, comparado às circunstâncias, a falta de cabelo pela qual terei que passar não chega nem aos pés do principal problema que estou passando. Já é bem a terceira vez que eu brigo comigo mesma por se importar tanto com um detalhe tão fútil como esse, mas... Faz tão pouco tempo que descobri esse tumor. Ainda parece mentira.

— Raspe tudo. — Digo, depois de soltar outro suspiro. — Afinal, depois de tudo isso ele vai cair mesmo com a quimioterapia...

Ela consente, e liga o aparelho na tomada. Olho-me no espelhinho, não acreditando que aquela era eu mesma. Alguns dias atrás, eu estava ansiosa por começar em uma nova escola. Estava saudável. Agora, eu estava a caminho da mesa cirúrgica, para fazer uma biópsia de um tumor na minha cabeça. Isso era informação demais... Ela passa lentamente a máquina pela minha cabeça. fecho os olhos, e algumas lágrimas caem sem que eu queira. Ela continua, e logo ela termina. Olho-me no espelho. Essa não sou eu.

— Você quer falar com eles, antes de entrar na cirurgia? — O doutor pergunta, enquanto checa alguns papéis em uma prancheta.

— Eles quem? — Questiono. — Tem mais alguém além da minha família?

— Além de sua mãe e irmã, uma garota, chamada Gwen e um garoto, Hector.

Sorrio. Eles estavam lá. Já fazia um tempo desde que vi Gwen pela última vez, e já sentia muita falta dela. Quase sempre conversávamos por celular, e alguns dias ela vinha com Hector me visitar em casa. Ela me trazia algumas anotações das aulas e me colocava a par de tudo o que acontecia na escola.

Hector, ao contrário, já vinha todos os dias depois da aula me visitar, e eu adorava as idas dele lá para casa. Nós conversávamos sobre as coisas que nós gostávamos, que nós detestávamos, coisas sem sentido, às vezes nós passávamos quase o tempo inteiro que tínhamos só rindo um da cara do outro. Houve vezes que eu não aguentava e chorava toda a água para fora do meu corpo, e ele sempre me dava forças para continuar.

Para compensar o cinema, um dia ele trouxe vários DVDs para assistirmos, mas confesso: foi bem difícil prestar atenção nas histórias dos filmes enquanto nos beijávamos. Ainda não sei o que nós somos um para o outro, mas o que quer que seja, eu não quero que acabe tão cedo. O doutor aceita meu sorriso como um sim e chama um por um. Gwen é a primeira.

— Oi, Sica. — Ela olha para a minha cabeça, careca. — Eu sinto muito.

— Não há o que sentir, Gwen. Cabelo cresce. — Sorrio, um pouco forçado. Ela sabe que eu estou triste.

— Desculpa. Se tivesse um jeito de eu ajudar você... — Ela me dá um abraço.

— Você já está me ajudando! — Sorrio, retribuindo o abraço. — Eu gosto de você. Só de vir aqui, você já me deixou mais alegre.

— Eu também, Sica. Você é uma amiga muito boa. — Ela ri, mas sua alegria acabou rápido demais. — Eu preciso te dizer uma coisa.

— O que é? — Fico curiosa.

— É o Hector. Ele está muito abalado. Quando a gente voltou para casa ontem, depois de sairmos de sua casa, uns amigos dele o chamaram para ir em uma balada, comemorar que ele estava livre da Tiffany. Ele foi, um pouco relutante, mas depois de uma hora ele havia voltado. Ele disse que não estava com a cabeça no lugar para comemorar. Ele se trancou no quarto e eu escutei alguns sons de choro vindos de lá.

As palavras dela me deixam surpresa. Sempre que eu desabava em choro, Hector era o único que se mantinha sério, tentando me acalmar e me fazer alegre por pelo menos mais algumas horas. Eu não conseguia enxergá-lo chorando escondido por minha causa.

— Oh, Deus... Ele estava chorando?

— Estava. Eu fui dormir, mas no meio da noite ele meio que invadiu meu quarto. Eu quase matava ele, ele sabe que eu detesto quando ele entra lá, mas ele estava chorando desesperadamente. Eu passei a noite toda consolando-o, dizendo que ficaria tudo bem com você.

— Eu não queria que ele chorasse por mim... — Falo, cabisbaixa.

— Ele disse que se sentia estranho. – Ela encarou o chão. – Hector disse que nunca havia se sentido assim por uma garota, nem mesmo as que ele conhecia há anos. Ele me disse que te amava, Sica.

Amor? Em nenhum momento eu poderia dizer que Hector me amava. Claro, ele vivia me dizendo o quanto gostava de estar comigo, o quanto ele gostava de mim, mas amar... É uma palavra tão forte. Um sentimento tão forte. Eu não posso negar que estou feliz por saber disso, mas... Eu o amo também?

— Ele disse isso? — Deixo meu sorriso bobo tomar conta do meu rosto. — Onde está ele? Quero falar com ele...

— Você o ama, não é? — Ela sorri de lado, surpreendente igual ao sorriso dele. – Ou pelo menos gosta muito dele, não?

Eu o amo? Ele definidamente se tornou muito importante para mim. A melhor coisa que aconteceu comigo desde que entrei na nova escola foi conhecer ele, além da Gwen. Em minha mente, repasso todos os beijos e carícias que trocamos durante essas semanas. Os únicos momentos que eu realmente esquecia que podia ter um agravamento cerebral em questão de minutos. Hector me fazia feliz, e algo me dizia que eu o fazia feliz também.

Se eu estivesse no lugar dele, e ele estivesse correndo risco por causa de uma doença, eu me sentiria inútil por não poder ajudar, me sentiria triste e com raiva... Do mesmo jeito que ele se sentia, mesmo fazendo esforço para esconder sua frustração. Eu...

— Sim. — Coro, e ela ri da minha vermelhidão. – Eu acho que o amo.

— Então, já que você está me expulsando daqui... — Ela brinca, e eu a abraço. Ela é uma ótima amiga.

Ela sai, passa-se um tempo e ele vem. Hector me olha, se aproxima e passa a mão na minha cabeça. Ele olha nos meus olhos e vejo os seus, vermelhos e inchados. Passo a mão nos seus cabelos e, sem dizer nenhuma palavra, nos abraçamos. E nesse abraço eu pude sentir seu coração, que batia acelerado. O meu também, e por um momento eu podia jurar que eles batiam ao mesmo tempo, juntos.

— Eu... Eu queria tanto te ver... — Ele fala, sem se desgrudar de mim. – Sei que te vi ontem, mas parece que faz séculos que a gente não conversa.

— Parece mesmo, Hector. — Sussurro, e o abraço mais forte. — Eu estou com medo.

Ele me solta e sorri para mim.

— Não sinta. Eu estou aqui, eu não vou sair daqui por nada. Eu vou esperar você ficar boa, e você vai ficar. Eu vou sempre estar aqui, do seu lado.

Ele olha para mim, sorri e beija a ponta do meu nariz.

— A Gwen me contou que você chorou muito ontem. — Começo, e noto o rosto dele ficar vermelho. — E ela também falou que você me... Me ama.

Ele arregala os olhos, e eu sorrio de leve. Sua mão segura a minha, e ele encara nossos dedos entrelaçados por alguns segundos.

— Eu acho que nunca amei ninguém de verdade até você aparecer. Sei que eu parecia forte na sua frente, mas na verdade eu não deixava transparecer meus sentimentos por que eu queria que você tivesse pelo menos um porto seguro, que você não se sentisse sem chão. – Ele funga seu nariz e seca algumas de suas lágrimas.

— E eu agradeço por isso. – Sorrio. Eu realmente precisava de alguém em que eu poderia me apoiar. Uma base, um pilar para que eu não fraquejasse, e ele foi perfeito para mim. Ele continua.

— Mas... Eu não conseguia dormir à noite. Eu sabia que a qualquer momento algo poderia acontecer com você, e não sei se eu suportaria perder alguém que eu gosto por algo tão fútil como um bando de células mutantes. – Hector desvia o olhar do meu. – Acho que ainda não sei bem o que é amor de verdade, mas seja lá o que for... O que eu sinto por você está, no mínimo, bem perto disso.

Sorrio. É bom ouvir as palavras dele, e a sinceridade que elas passam me deixam mais tranquila. Ele sabe que é cedo demais para sabermos o que nossos sentimentos são de verdade, mas ele também não esconde que os mesmos são fortes demais para serem taxados como um simples "gostar". Os olhos dele se fixam nos meus novamente.

— E você, Sica? Você me ama? — Ele olha para mim, nervoso. – Ou seja lá o que for esse sentimento?

— Eu... Eu... Também te amo. – Meu coração se inunda de felicidade. – Eu te amo, Andrew Hector.

Ele sorri, e me beija. Eu estou tão envolvida... Ele me segura pela cintura, me fazendo chegar ainda mais perto dele. Eu sinto ele chorar, e interrompo nosso beijo.

— Não chore, Hector. — Eu sorrio. — Não há motivo para ficar triste. — Eu o beijo, e ele para de chorar. Ele me aperta mais forte, e ele quase desamarra a bata que estou vestida. – Calma aí, garoto... — Passo a mão nos seus cabelos. — Isso aqui ainda é um hospital. — Ruborizo.

— Foi mal... É que eu não consigo me controlar ao seu lado. — Ele também fica vermelho, e me dá um beijo na testa. – Foi muito bom ter falado tudo para você de uma vez.

Sorrio, concordando com a cabeça.

— Será que eu poderia falar com a Lilian agora? — Pergunto.

— Claro. — Ele sorri tão magnificamente, e eu percebo que ele está muito feliz. Sorrio de volta, e ele chama minha irmã.

A garota dos cabelos loiros entra na sala, me dando um abraço tão apertado que quase me parte em duas. Ela sorri, mas de um jeito triste.

— Tudo vai dar certo, Jessica. — Ela fala, olhando para mim com convicção. — Você sempre foi a mais forte lá de casa. Eu sei que você, que nós, vamos ultrapassar esse merda de tumor. Você concorda?

— Tudo vai dar certo. — Repito as palavras dela, que continua sorrindo. — Logo nós só vamos lembrar dessa época como um passado distante. Nós duas.

Ela me abraça de novo, as lágrimas dela descem por suas bochechas.

— Eu me sinto uma idiota. – Ela desvia o olhar. – Meus problemas são tão pequenos agora... Eu só me importo com você nesse momento. Eu quero que você saiba disso.

— Nós vamos superar isso. Eu prometo.

Lilian para de chorar e diz que vai chamar mamãe. Depois de um tempo, ela chega.

— Oh, minha filha! — Ela se aproxima e pega minha mão. — Você está sendo muito forte. Forte demais para uma adolescente. Eu tenho orgulho de você, viu? — Ela beija minha testa. — Ah, e eu percebi que esse Hector ficou um bom tempo aqui dentro.

— Está com ciúmes, mãezinha? — Eu franzo a testa.

— Um pouquinho. — Ela sorri. — Eu notei a cara dele depois que saiu desse quarto. Ele estava bem diferente de quando chegou, o coitado parecia que tinha levado uma surra de tão derrotado que ele parecia, mas saiu daqui como se tivesse ganhado na loteria. Porquê, hein?

— Eu me declarei pra ele. — Sorrio. — E ele também se declarou pra mim. Ele disse que me ama, e eu, bem... – Pigarreio. É meio difícil falar sobre essas coisas para mamãe. – Nós dois não sabemos direito o que é esse sentimento, mas... Eu o amo.

— Não é muito cedo para dizer que você ama ele, e vice-versa? — Ela me olha um pouco chocada.

— Eu não sei, acho que sim... Mas eu senti que era o momento certo. Ele se declarou primeiro, eu só segui meu coração.

Minha mãe tinha um sorrisinho no rosto, e sei que ela estava se segurando para não rir. Nunca fui tão melosa assim, e com certeza deve ser uma cena pateticamente fofa.

— Você está tão romântica... Não parece minha Sica. — Ela ri.

— Se eu mudei, eu garanto que foi para melhor. — Falo, mas depois penso no tumor. — Só mesmo essa doença maldita.

— Isso vai passar. Tenha fé.

O médico entra na sala novamente e interrompe nossa conversa.

— Vamos para a sala de cirurgia?

Eu me despeço dela e vou com ele para a sala. Tem vários aparelhos, uns que eu não quero nem ver. Só de pensar que vão abrir minha cabeça eu fico tão nervosa...

— Procure relaxar, senhorita Andersen. — Um assistente fala, e outros três entram na sala. Eu me deito na cama, e ele pega uma seringa.

— Esse é o anestésico geral. Você vai dormir como uma pedra, não vai sentir nem uma cócegas. — Ele brinca, tentando me descontrair. Ele pega meu braço e injeta a substância.

— Agora relaxe. Se ficar nervosa, o anestésico pode não funcionar. — Eu obedeço, e logo estou desmaiando... A última coisa que eu sinto é ele passar um líquido, provavelmente para matar bactérias, na minha cabeça. E de repente, eu apago.

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Abro os olhos e noto que estou no apartamento do hospital. Provavelmente o doutor Augustus conseguiu que eu ficasse fora da enfermaria, para dar um pouco de privacidade para mamãe, Lilian e eu.

— Ah... Que dia é hoje? — Falo, e eu quase não entendo minhas próprias palavras. Noto que o doutor Augustus olhava para alguns aparelhos ligados à mim.

— Ainda é sábado, Jessica. — O doutor Augustus ri. — Passaram-se três horas depois da operação, que durou também três.

— Já se passaram seis horas?! — Exclamo, e ele concorda. — Nossa! Não parece nada...

Ele sorri, e uma enfermeira entra com uma sopa que não parece muito apetitosa. Mas estou tão faminta que devoro tudo e não deixo uma gota. O doutor anota alguma coisa em seu monte de papéis.

— Como foi a cirurgia?

— Perfeita. – Ele sorri ao ver meu alívio. – O tumor está em um lugar estratégico para a retirada. Mas antes tivemos que retirar uma parte pequena, para examinar, como eu já havia explicado. Acho que logo estaremos fazendo a retirada completa, Jessica.

— Bem, isso é uma boa notícia. Minha mãe já sabe que eu acordei?

— Vou avisá-la. Ela logo virá, mas você precisa se recuperar um pouco. Ela virá, e todos os outros também.

As palavras dele me pegaram de surpresa.

— Eles ficaram? — Sorrio.

— Não desgrudavam os olhos do relógio. — Ele fala. — Principalmente seu namorado. Ele de hora em hora me procurava para saber seu estado.

Hector... Eu quero vê-lo.

— Quando eles vão poder me ver?

— Logo... Descanse um pouco. — Ele sorri e sai da sala.

Eu quero vê-los... A enfermeira entra com uma gelatina esquisita, e disse que era minha sobremesa. Apesar de já ser umas três horas da tarde. Eu a como e espero ansiosamente para ver minha mãe, minha irmã, Gwen e Hector.

— Sica! — Lilian entra, me abraçando com cuidado.

— Oi. — A abraço de volta. — O doutor disse que tudo ocorreu bem.

— Ele nos disse. — Hector se aproxima, sorrindo. — Eu estou tão aliviado...

Ele coloca sua mão em cima da minha, para logo depois segurá-la com força. Noto que mamãe, Gwen e Lil observam cada detalhe que nós fazemos, cada olhar que nós trocamos, e algo me diz que ele foi bombardeado com perguntas depois que conversou comigo.

— Eu não disse que tudo ficaria bem? — Sorrio para ele, que me beija levemente. Eu escuto Lil e Gwen soltarem um "aaaaawwwwwnnnnn" em uníssono.

— Te amo. — Ele sussurra no meu ouvido. – Isso ainda é estranho.

— Também te amo. — Sussurro de volta. – E concordo.

Ele se afasta e minha mãe olha para mim. Sei que ela ainda deve estar achando meu lance com Hector estranho, talvez rápido, mas tenho certeza de que ela sabe que eu estou tão feliz quanto eu posso estar, de acordo com a situação.

— Eu só espero que a definitiva aconteça rápido. – Digo, voltando para a dura realidade. – Não quero ficar nem mais um minuto com essa coisa dentro de mim.

— Logo isso vai acabar, Sica. — Gwen fala. — Não vai, doutor?

— Sim. Mas depois, mesmo com a retirada completa do tumor...

Eu sei o que ele vai falar. Desde a descoberta do tumor, eu penso mais na quimioterapia do que nas cirurgias em si.

— Eu vou ter que fazer quimioterapia. Isso é que me dá mais medo. Medo de eu não resistir às medicações.

— Você vai, Sica. — Hector segura minha mão. — Você é forte. É a garota mais forte que eu já conheci em toda a minha vida.

Sorrio, ruborizada. O doutor confirma.

— Ele tem razão Jessica. Você manteve suas condições o tempo todo, durante a cirurgia. Garanto que você aguentará.

Todos olham para mim, sorrindo. Eu sei que posso contar com eles. Contar com eles para tudo.

Notas finais
Reviews?