Acordo me sentindo um lixo. Essa sensação está bem constante desde a morte da Gwen, mas hoje não é por isso. Relembro toda a discussão que tive com Hector, e com certeza isso me fez sentir ainda mais pra baixo. Eu ainda não entendi por que Hector quis terminar comigo. Sei que é muito difícil para ele, mas isso não explica o fato que ele não me quer mais por perto. Logo ele, que adorava ficar abraçado comigo... Pelo menos era o que parecia.

— Mana. — Lilian aparece na porta. — Mamãe está perguntando se você quer ir pra escola hoje. Ela disse que se você não quisesse, ela entenderia. Você está muito triste.

— Claro que eu vou! — Falo, forçando-me um sorriso torto. — Eu não posso mais ficar em casa sem fazer nada.

— Então é melhor se arrumar, se quiser ir de carona...

— Eu quero, apesar de já conseguir andar. — Falo, e ela entra em meu quarto e beija minha bochecha, logo depois descendo para a cozinha.

Levanto-me da cama e fico olhando para meu reflexo no espelho. Sei que não sou a garota mais bonita do mundo, mas estou longe de ser a mais feia — até que enfim admiti isso para mim mesma. Ele dizia que gostava de mim, disse que me amava... Ele não podia mentir tanto assim.

Talvez tenha caído a ficha dele que namorar uma garota doente seria um martírio. Quem gostaria de ficar com uma pessoa que está morrendo?, minha consciência fica martelando na minha mente. Ele não ia terminar tudo que tínhamos por um motivo fútil como esse.

Apesar disso, prefiro acreditar nisso do que acreditar que ele me culpa pela morte de Gwen. Só em pensar nisso sinto um enjoo horrível. Mas... Será que ele está certo? Afinal, se ele tivesse permanecido perto da própria irmã, talvez tudo tivesse sido diferente. Talvez ela estivesse viva. Ainda assim, como isso pode ser minha culpa?

Desisto de me martirizar por um momento e vou ao banheiro, tomar um banho demorado. Eu preciso me vingar da atitude dele... Eu não posso deixar que ele venha na minha casa, terminar tudo e ir embora sem que ele sofra alguma consequência. Ele não tem o direito de fazer isso. Enquanto me ensaboo, tenho uma ideia. Por que não provocá-lo? Ele falava que me achava gostosa, mesmo quando eu usava roupas bem frouxas. Eu posso usar isso ao meu favor...

Sei que é besteira, mas não custa nada tentar.

Saindo do banho, pego a roupa mais sexy que tenho — o que é uma tarefa árdua, já que eu não ligo, ou costumava ligar para essas coisas — , um vestido com mangas curtas preto bem justo que fica na metade da minha coxa, e que tem um decote pequeno comparado com o que as outras garotas usam, mas o suficientemente grande para ter atraído vários olhares na única vez que o usei. Visto-o e coloco um cinto para marcar ainda mais minha cintura. Ele disse que gostava dela, não? Calço uma sapatinha, ponho meu lenço preto e desço para a cozinha.

— Uau, Sica... — Papai está no pé da escada. Ele me abraça e beija o alto da minha cabeça. – Você está linda, filhota.

— Obrigada, pai. — Sorrio, meio sem jeito.

Mamãe se aproxima de nós e me olha de uma maneira estranha.

— Jessica, podemos conversar? — Ela fala, e antes mesmo de eu poder responder ela me puxa para o canto da cozinha. — Filha, me explique isso tudo.

— Mãe... — Falo, e ela suspira.

— Sica, não é assim que você vai voltar com ele. — Ela ajeita meu lenço. — Você se lembra de quando me separei de seu pai? Depois de um tempo eu estava disposta a voltar com ele assim que o visse, não foi? E eu só usava roupas assim, coladas e curtas. E isso adiantou?

— Não. — Admito. — Mas não custa nada eu tentar. Hector não é meu pai.

— Dã. — Ela sorri e beija minha bochecha. — Você só vai se sentir pior ainda...

— Eu não quero voltar com ele. – Digo, mas não sinto firmeza em minhas palavras. – Não depois do que ele me disse. Eu só... Quero me sentir bem. Quero que as pessoas olhem para mim como uma garota normal e bonita. Quero que ele veja que eu não estou abalada com a nossa discussão. Apesar de não ser bem verdade...

Ela sorri para mim e acaricia minha bochecha.

— Você tem todo o direito de se sentir bonita. Você é linda. – Ela me abraça. – Mas sei que seu coração está machucado. Sei que há outra motivação pra você ir tão bonita assim.

Estou prestes a soltar um suspiro quando ela diz:

— Seja confiante. Sorria. Não deixe ninguém pisar em você mais do que ele já pisou ontem. – Ela aperta um pouco mais meu lenço. – Mas se você voltar para casa chorando, eu vou com certeza te dizer-

— "Eu bem que te avisei" — Falo. — Eu sei, mãe.

Ela me deixa ir comer. Quando termino, ela pergunta se quero ir de carro. Respondo que sim, pegando minhas coisas e chamando Lilian para irmos. Quando entramos no carro, Lil me bombardeia com perguntas do tipo "você vai usar o punho direito ou esquerdo para dar um soco nele?", e coisas assim. Eu, claro, não respondo nada. Até porque eu ainda não sei bem como eu vou reagir ao ver ele, se vou estrangulá-lo ou implorar para que ele fique na cidade. Do jeito que eu estou desesperada, é bem capaz que a segunda opção aconteça.

Quando desço no meu prédio, todos olham para mim. As garotas ficam olhando para mim com uma cara de como assim? e vários, vários garotos ficam praticamente babando por mim. Sei lá, isso me deixa um pouco constrangida, mas fico alegre. Isso mostra que eu não sou um caso perdido em relação à garotos, não é?

Acho que, pela primeira vez, fico feliz em chamar atenção. E sei que não é por causa da minha doença, nem por eu andar com ele.

Vou até meu armário. Enquanto guardo alguns dos meus livros, Jerry, o melhor jogador de futebol americano da escola, vem até mim. Que fique bem claro: ele nunca trocou nenhuma palavra comigo.

— Oi, Jessica. — Ele se escora nos armários ao meu lado. — E aí?

— E aí? — Respondo, um pouco constrangida. Isso lá era assunto?

Ele era alto, forte e, confesso, bem charmoso. Sei que qualquer garota daria tudo para ficar com ele, mas algo nos olhos claros dele me faziam desconfiar das intenções que passavam pela mente dele. Mas isso não me impede de flertar um pouco, certo?

— Como você vai? — Ele se aproxima ainda mais de mim.

— Bem, muito bem. — Falo, ao perceber que Hector está no final do corredor e andando em nossa direção. — E você?

— Bem melhor agora... — Ele fica olhando para mim, de cima abaixo. Caramba. – Por que será que eu nunca notei você?

— Não sei. – Sorrio. – Talvez por que passo mais tempo em casa do que na escola, já que tenho que tratar minha doença.

Hector passa ao nosso lado, e sinto seu passo diminuir para nos encarar. Desvio meu rosto rapidamente para que consiga ver a reação dele, e meu ex está olhando para mim com uma cara de "mas que merda você está fazendo?" Ai como eu amo essa cara... Jerry fica olhando para ele, depois olha para mim. Ele percebeu que eu estava olhando para Hector também.

— Vocês ainda estão-

— Juntos? — Falo em um tom bem alto. Tenho certeza de que dava para Hector escutar. — Não, não. Digamos que ele é um idiota.

— Ah, que bom... Você merece muito mais que um vândalo. — Ele põe a mão na minha cintura e noto ele melhorar a postura. Por acaso Jerry acha que ele é o melhor que eu posso conseguir? — Quem sabe um dia desses a gente não saia, sei lá...

Calmamente retiro a mão dele do meu corpo, mas acho que ele é retardado demais para entender o que aquilo queria dizer.

— Bem, acho que agora não é o melhor momento. Acabei de terminar com ele e, digamos que eu peguei certo "trauma" em encontros. Sabe o que aconteceu, não é?

— Ah, sei sim. — Ele fala, um pouco constrangido. — Bem, a gente se fala, então.

— Até mais. — Falo enquanto ele sai pelo corredor.

Eu com certeza não quero me envolver com ninguém por enquanto, mas saber que alguém além de Hector consegue me enxergar como uma garota desejável me deixa com a autoestima nas alturas. Não sei como esse sorriso bobo se formou no meu rosto, mas ele não dura muito, pois noto que Hector está bem ao meu lado.

— Mas que merda é essa que você está fazendo? — Ele fala, segurando meus ombros.

— Me solta. Agora! — Falo ríspida, e ele obedece. — O que é que tem?

— O que é que tem? Você está parecendo uma vadia vestida assim!

Arregalo os olhos. Como ele pode ter me chamado disso? Minha vontade é de dar um tapa nele, mas resisto. Ele percebe que pegou pesado.

— Olha, desculpa. Eu não devia ter te chamado assim. – Ele suspira. – Mas é que essa não é você.

— E o que você tem haver comigo e o meu jeito de vestir? — Empurro-o para longe. — Ao que eu saiba, a única coisa que me liga a você é o fato de você me culpar pela morte da Gwen.

Algumas pessoas parecem tentar entender o que está acontecendo com a gente, mas logo eles desistem. Acho que ele ficaram com medo da minha cara de irritação.

— Eu não quis dizer aquilo, Jessica.

— Mas você disse. – Cruzo os braços. – E nem precisou repetir.

Sinto como se minha garganta fosse fechar, como se meu rosto fosse me inundar nas minhas próprias lágrimas. Tento controlar minha respiração, que está acelerada demais. Hector parece um pouco preocupado com minha reação e tenta me acalmar, mas eu o empurro para longe de mim. Não que isso fosse adiantar, pois quando consigo recuperar meu fôlego normal, Hector já está ao meu lado.

— Está melhor?

— Isso importa pra você? – pergunto. – Com certeza você preferiria que eu tivesse morrido no lugar dela. Não é?

Pela cara que ele fez, sinto que atingi seu ponto fraco. Não estou arrependida de ter falado isso. Eu mereço machucar Hector do mesmo jeito que ele me machucou. Ele ignora minha pergunta e diz:

— Eu ainda me importo com você, Jessica. — Ele passa as mãos pelos cabelos. — Você não entende isso?

— Não. Claro que não. — Saio, indo em direção a minha sala, mas ele me puxa de volta. — Eu já disse para me soltar.

— Não até você falar comigo. — Ele me leva até um corredor vazio.

— Eu não quero falar com você. Me deixa em paz! — Grito, mas ele não me solta. Eu começo a me debater, mas ele é mais forte.

Ele me coloca contra a parede, segurando minha mão com força. Deus, como eu quero escapar dele nesse exato momento...

— Escuta, Sica. Sei muito bem por que você se vestiu assim hoje.

— Sabe? — Engulo em seco. Não achei que estava sendo tão óbvia assim, mas acho que mamãe estava certa.

— Sei. E foi uma boa tentativa. — Ele me olha por inteira, morde o lábio e sacode a cabeça. — Foi uma ótima tentativa, mas isso não vai dar certo.

— E... e daí? — Olho para ele, com desdém. — Eu não preciso de você. Sabia que o Jerry me chamou para sair?

— Ele só estava de olho em seus peitos. Será que não notou? — Ele desvia o olhar. Hector estava envergonhado... Seria muito fofo se eu não estivesse com tanta raiva dele.

— Deixa olhar! Eles são meus e eu deixo olhar quem eu quiser! Agora me deixa ir, a aula já vai começar!

— JESSICA, EU AINDA NÃO TERMINEI!

— VOCÊ NÃO PERCEBEU QUE TODOS JÁ FORAM PARA A SALA?

— Ei, vocês! — o monitor do corredor nos avista. — Já para a sala da diretora Angelina!

— Mas... — Eu e Hector falamos ao mesmo tempo.

— Sem mas nem meio mas! — Ele fala. Que expressão mais antiga!

Eu e Hector somos levados para a sala dela pelo monitor. Durante o caminho, ele tentou falar comigo, continuar nossa conversa, mas eu o ignoro completamente. Quando chegamos, ela me olha surpresa e olha com uma cara de rotina para Hector.

— O que vocês fazem aqui? – Ela pergunta, gesticulando para que nós nos sentássemos nas cadeiras. – Por que não estão nas suas respectivas salas?

Eu e Hector começamos a falar bem rápido e ao mesmo tempo. Ela olha para ele, depois para mim e depois para ele, e para mim de novo. Ela fica confusa e nos manda parar.

— Jessica, conte sua versão. — Ela fala, ajeitando seu coque.

— Bem, eu estava no meu canto, quieta, quando ele me agarra e fica querendo que eu dê satisfações para ele, sobre como eu me visto, com quem eu falo...

— Mas eu tinha que falar com ela! — Ele se exalta. — Você notou como ela está vestida? Está parecendo uma puta!

— HECTOR! — Eu e Angelina gritamos. Ela olha severamente para ele. — Eu não admito que você fale assim com ela. Pensei que vocês estivessem juntos!

— Estávamos, não mais. — Falo para ela.

— Eu terminei com ela, por causa daquele negócio que eu lhe falei. – Ele diz quase sussurrando. – Da minha mudança.

A diretora balançou a cabeça e olhou para mim. Algo me diz que há muita coisa passando na mente dela, coisas que ela não vai me dizer. Então Hector já planejava a partida dele a um tempo... E ele não havia me dito nada. Tento desviar meus pensamentos.

— Ele disse que eu estava parecendo uma vadia! E que os garotos só estão olhando para mim por causa do meu decote! — Falo, mas as lágrimas descem pelo meu rosto. — Por acaso eu estou tão vadia assim?

Volto-me para Hector, e sua expressão de arrependimento me parece ser sincera. Mesmo assim, não me sinto preparada para perdoa-lo por isso. Não acho que vou estar preparada para perdoa-lo tão cedo, para ser franca.

— Não chora, Sica. — Ele fala, tentando enxugar uma lágrima do meu rosto.

— NÃO TOCA EM MIM, IDIOTA! — Grito, logo olhando para a diretora, que parecia estar chocada com meu grito. — Desculpa, Angelina.

— Não, não... Eu entendo, Jessica. Não precisa se desculpar. — Ela olha para o relógio. — Acho que seria uma boa ideia se você for para casa. Você ainda está sofrendo, ainda mais com tudo que aconteceu... Eu posso ligar para a sua mãe.

— Eu aceito. Mas isso não vai prejudicar ainda mais as minhas notas? — Falo, e vejo Hector me imitar, desdenhoso. Maluco.

— Não. Eu posso agendar aulas particulares com os professores. Tenho certeza de que eles jamais recusariam isso para você. — Ela sorri, para logo depois se vira para ele. — Você... Precisamos conversar.

— Eu não posso ir para casa também? — Ele fala, tirando sarro de mim.

— Não. — Ela fala, sua voz soando como um trovão. — Você foi agressivo com ela. Só de ver as condições mentais de Jessica consigo identificar isso. — Ela fala, e vê minha cara de dúvida. — Eu sou também psicóloga.

— E você acha que eu não estou em péssimas condições também? — Ele pergunta para ela.

— Claro que você está, Hector, mas isso não justifica seu comportamento. — Ela diz, pegando o telefone e discando o número da minha mãe. Elas se falam um pouco e logo ela desliga.

— Ela já está vindo. — Ela me avisa. — Pode esperar na recepção.

Agradeço-a e saio, mas não vou para a recepção. Fico escorada na porta, tentando escutar o que eles conversam. Só consigo escutar alguns murmúrios... Eu falei demais... Mas você não devia... Como eu vou conseguir me afastar dela... Ela ainda gosta de você. Isso é tudo que consigo ouvir. Saio para a recepção e vejo que minha mãe já estava me esperando.

— Onde você estava? — Ela pergunta.

— Eu... fui beber água. — Minto. Ela não precisa saber que eu estava escutando a conversa dos outros. Entro no carro e ela me leva para casa.

— Quer falar comigo depois? — Ela pergunta assim que chegamos. — Tenho que voltar pro trabalho.

— Depois, sim. — Falo, descendo do carro.

Entro em casa e vou direto para meu quarto. Limpo do meu rosto toda a maquiagem que havia colocado. Meu Deus, estou me sentindo uma vadia de merda... Tiro toda essa roupa e entro na banheira, tentando tirar tudo que me lembrasse de hoje. Saio do banho, visto uma roupa confortável e fico rondando meu quarto com minhas músicas. Sempre que estou depressiva eu coloco qualquer música da Rihanna... Sempre me faz bem.

Escuto a campainha. Desço correndo, provavelmente é papai. Ele está tendo muito tempo livre, já que finalmente ficou de folga do escritório e terminou seu livro. O sonho dele é publicar logo esse livro. Espero que ele se dê bem nesse sonho.

— Oi, Pap- Steven? — Falo, e ele sorri.

Ele estava um pouco diferente desde a última vez que o vi. Ele havia raspado toda a cabeça, e por isso parecia um pouco mais velho. Apesar de parecer um pouco cansado, ele tinha um sorriso estampado no rosto.

— Bom dia. — Ele me abraça. — Não sabia se você estaria em casa. Dei bastante sorte.

— Entra. — Falo.

Ele olha ao redor, como se estivesse se acostumando com o ambiente. ele se senta no sofá e faço o mesmo. Ele olha para mim, alegre.

— O que você faz aqui? – Pergunto para ele. A visita de Steven pode me ajudar a esquecer por um momento tudo o que está acontecendo comigo.

— Perguntei pra sua irmã se sua mãe estaria aqui nessa hora. Eu queria conversar com ela em particular. – Ele fala naturalmente. – Pensei que elas estariam em casa, mas pelo visto dei azar. Acho que devia ter ligado antes para elas.

Dou um sorriso.

— E o que você queria com mamãe e Lilian?

— Acho que não posso dizer. – Ele sorri.

O que será que ele queria dizer? Será que ele queria sair com minha irmã? Mas por que ele conversaria com minha mãe também? Só de pensar nisso me sinto um pouco estranha. Minha irmã é frágil demais, e pelo jeito que ele é com garotas bonitas, aposto que ela não se sentiria bem.

— Mais uma vez, Lil tem namorado. – Eu o repreendo. – E acho que mamãe não daria um jeito nisso.

Steven começa a rir. A risada dele é contagiante demais.

— Não vim tentar nada com ela! Apesar de Lilian ser encantadora. – Ele não deixa de sorrir. – Eu queria que elas me ajudassem a montar uma festa surpresa pra você. Sei que seu aniversário está chegando, ai pensei que na próxima quimio a gente pudesse cantar parabéns. Ia ser uma festa atrasada, mas seria muito bacana, sem falar que os outros pacientes iriam adorar uma quebra de rotina.

Meus olhos estão brilhando com o que ele diz.

— Acabou que você descobriu meus planos... Nem vai ter mais graça.

— Como você descobriu que meu aniversário está perto? – Pergunto.

— Facebook. – Ele fica corado. – Eu confesso: fiquei perseguindo você online. Fiz mal?

— Claro que não!

Eu estava tão radiante que ele não parava de rir da minha cara de boba. Ele ia preparar uma festa para meu aniversário... Mesmo que manter segredo não tenha funcionado, sei que eu adoraria! Como alguém que mal me conhece podia querer planejar um gesto tão significativo para mim? Como ele, que nunca me viu mais que duas vezes, podia ser tão mais gentil que... Que Hector, que me conhece há mais tempo?

Eu detesto comparar os dois. São pessoas diferentes, pensamentos diferentes, ações diferentes. Mas não posso negar que Steven me emocionou.

— Como você está? — Ele pergunta, vendo que minha alegria começou a sumir do meu rosto e uma tristeza me tomar. Ele realmente parecia preocupado.

Eu não sei por que, mas aquela pergunta me faz sentir tanta coisa dentro de mim... Meus olhos enchem de lágrimas e desabo no choro, na frente dele. Ele fica sem ação, para logo depois me abraçar.

— O que foi, Sica? — Ele levanta minha cabeça. — Porque está triste? Não queria uma festa?

Dou uma risadinha, mesmo chorando.

— É que você está sendo tão gentil comigo, diferente de certa pessoa...

Ele estava confuso com o que falei.

— Quem é essa pessoa que te fez ficar assim? – Ele segurou minha mão. Ela estava quente, viva.

— Hector... eu terminei com ele. Quer dizer, ele terminou comigo. – Respondo, tentando parar de soluçar. – Aquele canalha...

Steven continua olhando para mim, e rapidamente ele enxuga minhas lágrimas.

— Eu adoraria dizer que estou triste por vocês, mas você sabe, não sabe?

Faço que sim com a cabeça, dando um leve sorriso. Eu sei. Ele quer algo comigo. Não sei se é carência ou se ele realmente gosta de mim, mas com tudo que nós havíamos conversado, com a tentativa dele de me fazer uma festa... Ele sente alguma coisa boa por mim.

— Eu sinto muito. Por você, que fique claro. – Ele dá um soquinho leve no meu ombro. – Sei que você gosta dele, mas esse Hector é um mané por deixar uma mulher tão incrível como você.

Os olhos dele estavam me encarando intensamente, esperando qualquer resposta, qualquer reação minha. Pigarreio.

— Steven... Eu nem sei o que dizer. — Por fim falo, corando.

— Não precisa dizer nada.

Ele lentamente se aproxima de mim. Eu poderia fazer tudo: recuar, empurrá-lo ou dar um tapa na cara dele, mas a única coisa que faço é ficar parada que nem uma estátua. Acho que eu só posso descobrir coisas novas se eu tentar, certo? Quando nossos lábios finalmente se encontram, agarro-me em seu pescoço. É estranhamente bom. Eu não estou fazendo isso para provocar ciúmes em ninguém, estou fazendo isso por mim. Retribuo o beijo com mais intensidade, e percebo que ele se assusta um pouco, mas logo retoma o fôlego. Infelizmente ele interrompe o beijo.

— Me desculpa. Eu jamais devia ter feito uma coisa estúpida como essa. — Ele fala, olhando para o chão. – Você acabou de terminar um namoro...

Ele se afasta um pouco de mim, indo para a outra ponta do sofá. Dava pra ver que ele estava muito envergonhado.

— Não precisa pedir desculpas. – Engulo em seco. – Mas é que... está tudo tão recente. Eu não sei bem o que estou sentindo, nem por ele e agora... por você.

Ele balança a cabeça em negação.

— O que eu fiz foi uma estupidez, você ainda está confusa... – Ele finalmente olha de novo para mim. – Sinto muito.

— Dá para parar de pedir desculpas? — Falo, agarrando-me ao seu pescoço novamente. — Será que só assim você para de falar?

Dessa vez, eu que o beijo. O que diabos estou pensando? Não acho que tenha algo passando na minha mente agora. A única coisa em que consigo me concentrar é no beijo dele.Eu não sei... Sinto algo em meu peito. Amor? Taquicardia? Não faço a mínima ideia do que estou sentindo aqui dentro. Mas sei que é muito bom...

Quando nos soltamos, ele beija a minha bochecha e diz que precisa ir.

— Já? — Falo. Por que eu disse isso?

— Já. Prometi a minha mãe que não demoraria. Ela fica preocupada achando que vou passar mal no meio da rua. – Ele acaricia minha bochecha. – Mas eu volto. — Ele ajeita meu lenço. — Amanhã?

Sorrio e concordo. Steven está genuinamente feliz, mas preocupado. Ele sabe que não tenho certeza de nada agora, mas isso não impede que ele saia da minha casa com um sorriso. Assim que ele sai, deito-me no sofá, pensando no nó que acabei de formar dentro do meu coração.