Jessica Chloe - Vitoriosa
31 No Starbucks da esquina
Notas iniciais
— Ele te ligou ontem! — Missi grita, assim que lhe digo o que acabou de acontecer. — Por que não me disse antes?
— É... Missi, eu não sei nem o que pensar. — Sento-me ao seu lado no sofá.
Decidi esperar meu coração acalmar mais antes de dizer para Missi o que havia acontecido. A noite tinha sido estranha. Antes de dormir, peguei a foto do dia do cinema e fiquei encarando o rosto de cada um ali. Gwen tinha seu sorriso mais largo, e lembrei que ela era a pessoa que estava segurando o celular. Thomas, o namorado dela, parecia não ter prestado atenção na foto, pois seu olhar estava para minha amiga. Tenho certeza que ele realmente se importava com ela.
Apesar da leve maquiagem que usava, meu rosto se mostrava cansado e minhas bochechas estavam mais magras por causa do tratamento. Passei a mão por meus cabelos, lembrando de quando minha cabeça estava nua. Ainda assim, eu sorria na foto.
De longe, Hector era o que parecia mais feliz. Quase não pude ver o azul em seus olhos, de tão espremidos que eles estavam por causa de seu sorriso. Só de ver a imagem dele, sorri feito uma boba até que percebesse o quão idiota estava sendo. Gwen e Thomas haviam morrido naquele mesmo dia. Hector não conseguiu se desculpar por não ter estado ao lado da irmã no momento de sua morte, e seu fantasma o rondou até que ele fugisse para outro estado, me deixando. Ele não queria mais ficar perto de mim. Não queria mais me amar. Guardei a foto novamente e chorei até dormir de cansaço.
Acordei ainda abalada. A ligação fez meu coração bater muito rápido, muito rápido mesmo, e minha mente ficou mais confusa do que já estava. Por que, depois de tanto tempo, eu ainda tenho que ficar tão afetada com o simples fato de Hector vir para o estado vizinho onde estou? E mais importante, por que ele voltou a falar comigo depois de tanto tempo?
Foi para tentar me desvencilhar dessas perguntas que falei para Missi o que havia acontecido.
— Como ele estava? — Missi insiste. — Pra ele ter te ligado depois te tanto tempo, deve ter precisado muito.
— Ele me pareceu bem triste. — Explico, jogando-me na poltrona confortável. — Ele me falou que não sabia por que tinha me ligado.
Missi sorri, me contagiando um pouco.
— Ele deve estar com tantas saudades suas... — Missi suspira, sentando-se no sofá maior. — Ele te falou quando ele vem?
— Não. Acho que ele ficou bem nervoso quando descobriu que eu estava aqui.
— Eu adoraria saber o que deve estar passando pela cabeça dele agora. — Ela brinca.
— E você acha que eu não quero também? — Sorrio, ainda um pouco apreensiva.
Ela desiste de ficar deitada e se senta, passando seus dedos por seus cabelos negros e desatando alguns nós.
— Bem, espero que esteja preparada, porque ele com certeza vai vir atrás de você.
Olha para ela. Será que ela tem razão? Será mesmo que ele me procuraria? Ele vai morar com a tia dele... Ela provavelmente vai dizer pra ele que se encontrou comigo, sabe como as tias são. Ele pode me procurar no jornal. E se eu não estiver lá, mas Jack sim? Ele pode dizer pro Hector onde eu moro, se ele for muito louco ou se Hector falar que me conhece. Eu falei a minha história pro Jack, mesmo que de leve. Ele pode se lembrar, não? E por que eu crio tantas expectativas?
Se ele não tivesse me ligado, eu poderia morrer achando que ele nem lembrava mais do meu nome. Não troquei nenhuma mensagem com ele, nenhum e-mail, deixei de segui-lo em todas as redes sociais, e ele fez o mesmo. Eu poderia jurar que ele não queria mais nem ouvir minha voz. Mas foi para isso que ele me ligou, certo? Então ele não havia se esquecido de mim. Não sei como devo me sentir.
— Você deve estar pensando em tanta coisa... Está nervosa. Bem, acho melhor almoçar, né? — Ela olha para o relógio na parede. Onze e meia. — Acho que dormimos demais!
— Pode apostar. — Sorrio por causa da mudança de assunto. — Eu estou com uma vontade enorme de comer sushi.
— Sorte sua, por que eu também. — Ela sorri para mim, pegando o telefone.
Ando de um lado para o outro na sala, olhando pela enorme parede de vidro, onde vejo várias pessoas, que mais parecem formiguinhas, andando de um lado para o outro. Depois de quinze minutos, um motoboy chega com nosso pedido. Missi entrega o dinheiro e dá uma boa gorjeta para ele, que sai sorrindo.
Ela sorri para mim e me entrega a minha bandeja de sushis. Pego os hashis e junto-me à ela na mesa. Depois de comermos, passamos um bom tempo falando de coisas que não me lembrassem dele. Sim, eu pedi isso, porque eu já estava praticamente tendo um ataque cardíaco.
O telefone dela toca, para meu desespero. Poderia jurar que era o meu tocando, e se fosse ele, não sei se teria coragem em atender de novo.
— Oi, Jack! — Ela sorri, toda animadinha. — Cinema? Hoje às seis?
Ela olha para mim como se suplicasse. Faço para ela um gesto com as mãos que podia ser interpretado como "pode ir" ou "tô pouco me importando". De qualquer forma, os dois significam a mesma coisa.
— Claro! Tudo bem, então. Até mais! — Ela desliga e começa a surtar. — SIIIIIIIIICAAAAA! Ele me chamou pra sair! Dá pra acreditar?
— Claro que acredito, você fica repetindo tudo que ele fala... — Sorrio para ela. — Aproveite.
— Com certeza, vou sim! — Ela se levanta abruptamente. — Vem, me ajuda a escolher uma roupa!
— Ainda falta muito, Melissa!
— Mas eu quero estar linda. — Ela sorri, maliciosa. — Não tem problema se eu não voltar pra casa hoje, né?
— Vocês vão só no cinema! a menos que você queira... — Meu raciocínio mais do que lento resolve trabalhar. — Missi, como você é safada!
— O que é que têm? Ele gostou de mim assim mesmo, atirada. E ele não vai negar isso, a menos que ele seja beeem lento.
— Você é um caso perdido, Melissa! — Grito. — Posso pelo menos terminar meu almoço?
Ela sorri pra mim em concordância e volta a se sentar, também para terminar sua refeição. Assim que terminamos, Missi praticamente voa para seu quarto e tira praticamente todas as roupas que tem no armário. Fico pasma a ver tantas roupas chiques e caras juntas, como se fosse um leilão de raridades. Percebo que ela fica meio constrangida com a minha cara de "Nossa!", então resolvo disfarçar melhor.
— Usa essa blusa azul aqui, com esse decote. Deus, você mal conhece ele!
— Jessica, posso ter conhecido ele a pouco tempo, mas sinto que ele é alguém especial. Sem falar que eu não estou dizendo que vou ficar com ele, mas e se rolar? — Ela cruza os braços. — Não posso ir com uma calcinha bege.
— Ai, ai... Você tem certeza? — Fico olhando para ela.
— Sim! Ai, Sica, às vezes até parece que você nunca...
Olho para ela, tentando fazê-la entender.
— Você nunca transou? — Ela fica pasma.
— Isso é tão anormal assim?
— Talvez não na Palestina, mas aqui é a América! — Ela está mesmo chocada. — Você já tem dezenove anos!
— E daí? — Falo, realmente constrangida pelo rumo que essa conversa tomou.
— Ninguém quis isso com você ou você não quis? — Ela fala, ignorando-me totalmente.
— Eu não quis, Melissa. — Quando falo, ela fica ainda mais confusa.
— Por quê? — Ela pergunta. — Não vai me dizer que "só depois do casamento"!
— Não, Missi. — Sento-me na cama. — Minha mãe me teve com dezenove. Ela sempre me falava pra ter cuidado, não fazer isso muito nova... Eu não quero ficar grávida.
— É pra isso que existe a camisinha. — Ela se senta ao meu lado.
— Ela usou com meu pai. E olha eu aqui! — Falo. — Acidentes podem acontecer, nunca há uma garantia de cem por cento. Além disso, até meus dezesseis eu não tinha encontrado ninguém. Pra falar a verdade, eu acho que fazer isso com 16 é muito precipitado.
— Ah. — Ela fala. — Então nem te conto que minha primeira vez foi com quinze.
— Quinze? — Grito, sobrancelhas arqueadas ao máximo.
— É. Eu era uma ingênua, sem contar que foi horrível, o cara não tinha paciência, já queria ir pras vias de fato. Não sei se posso dizer que fiquei traumatizada, mas só voltei a fazer sexo com dezessete.
— Sério? — Ainda continuo chocada. — Mas foi ruim assim?
— Foi. Mas a segunda vez... Foi maravilhosa! — Ela fala. — Bem, é uma raridade encontrar garotas virgens de dezenove anos fora de um convento.
— Isso não teve graça.
— Foi mal. Bem, mas você tem hormônios, não? Como conseguiu ficar esse tempo todo sem nem tentar?
— Eu não disse que não tentei. — Sorrio para ela, que parecia ainda mais curiosa. — Teve uma vez, ano passado, que eu quase fiz com o Steven.
— Steven? Aquele mesmo Steven que fazia quimioterapia no hospital?
— Você o conhece? — Indago.
— Conheço ele bem antes de vê-lo na terapia, ele estudava na minha escola. Todas as garotas babavam por ele, até eu, um pouquinho. Quem não babaria, não é?
— Mentira! — Sorrio.
— Verdade! Quando a gente soube que ele tinha câncer foi um choque. — Ela fica um pouco chateada. — Então ele foi seu namorado? Antes ou depois do Hector?
— A gente não namorou, só ficávamos. Ele aconteceu depois de Hector. — Sorrio ao pensar nele. Minha irmã tem que saber aproveitar a companhia dele. — Bem, a gente quase transou. Mas eu falei uma besteira enorme.
Explico tudo para ela, e quase que ela não para de rir.
— Não acredito! Ai meu Deus! — Ela retomou o fôlego. — E com o tal do Hector?
— Ele sempre tentava me convencer. — Encaro o chão, lembrando todos nossos amassos mais quentes. Deus, voltamos ao assunto Hector mais cedo do que eu queria. — Eu fazia muito jogo duro.
— Você não vai fazer agora, vai? Se você se encontrar com ele?
— É mais fácil eu dar um tapa na cara dele se ele tentar.
Ela começa a rir mais uma vez. Junto-me ao seu surto de gargalhadas e quando retomamos a normalidade, voltamos a escolher roupas.
— Bem... — Tento voltar a me concentrar na tarefa. — Um salto alto? Não se esqueça que é só um cinema.
— Não, eu vou com uma sandália mesmo. Bem, acho que terminamos.
— Graças a Deus! — Sorrio para ela. — Você acha que vai ficar mesmo a noite fora?
— Sim. — Ela suspira. — Você não acha ruim, acha?
— Não. — Respondo. — Bem, ainda são duas e meia. Dá pra tirar um cochilo.
— Com certeza. — Ela fala, me expulsando de seu quarto.
Vou ao meu, pego meu ursinho de pelúcia — aquele que Gwen/Carlie me deu — e durmo agarrada-me à ele.
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— Sica. Sica, já são cinco e meia.
Lentamente abro os olhos e vejo Missi, já pronta para sair, me cutucando gentilmente.
— Boa tarde. — Falo para ela. — Caraca, que sono.
— Já é a terceira vez que eu tento te acordar em duas horas. — Ela sorri. — Bem, o Jack já chegou, e só estávamos esperando você acordar.
— Não precisavam me acordar, bastava deixar um bilhete, sei lá... — Esfrego meus olhos e seguro um enorme bocejo. — Mas vocês já vão? Agora que são... que horas mesmo?
— Cinco e meia. — Missi repete, sentando na beira da cama. — É que a gente vai andar um pouco pelo shopping antes de ir pro cinema. Eu já vou indo.
— Tá certo.
Levantando-me da cama, mais parecendo um zumbi do The Walking Dead, e começo a andar para fora do quarto. Missi me segue.
— Você precisa tomar café. — Ela dá um risinho. — Tem uma cafeteira aqui, mas confesso que não sou muito fã de cafeína. Nem sei como preparar um chocolate quente naquela coisa.
— Eu também não sei fazer café. — Falo, adentrando a sala. Vejo Jack sentado no sofá, o que me faz ficar vermelha por estar parecendo um mendigo morto.
— Oi, Sica. — Ela acena para mim. — Pronta, Missi?
— Sim. — Ela me abraça antes de ir. — Tem um Starbucks aqui na esquina. Devia ir lá, de qualquer maneira. Garanto que um cappuccino lhe deixaria com uma cara menos amarrotada que essa de agora.
— Acho que vou. — Falo. Logo depois fecho a porta para os dois.
Vou ao banheiro, tomar um banho quente e demorado. Quando termino, estou um pouco melhor, mas confesso que anseio por um cappuccino. Visto uma calça jeans folgada, uma blusinha fina e um moletom que roubei do armário de meu pai antes de viajar, pois era muito confortável. Pego meu lenço vermelho — o primeiro lenço que eu ganhei da minha mãe — e amarro meu cabelo com ele. Pego minha grana e o cartão do apartamento e saio.
Andar pelas ruas de Nova Iorque pode ser um desafio. Pra falar a verdade, você tem que ser bom em desvias das pessoas, por que parece até que você tomou uma poção de invisibilidade e ninguém te enxerga ao ponto de desviar para evitar um choque de frente. Isso sem falar dos assaltantes e dos Black-outs. Bem, felizmente sobrevivo ao mar de pessoas, e não sou assaltada. Chegando a loja de café mais famosa do mundo, sento-me naqueles banquinhos ao redor do balcão.
— Um cappuccino de chocolate, por favor. — Falo pra atendente.
Enquanto ela prepara, fico olhando as pessoas ao meu redor. Muita gente esquisita, e ao mesmo tempo, normal. Pessoas brancas, negras, nativo-americanas e asiáticas. É incrível a quantidade de etnias que podemos encontrar... Gente feia, bonita, alta, baixa, gorda, magra... Caramba, é gente demais.
— Um expresso com chantilly, por favor. — Alguém se senta ao meu lado, e olho para ela. Não, só pode ser brincadeira.
— Hector? — Ouso perguntar, e minha voz sai fraca demais. Quando ele olha para mim, arregala os olhos mais do que eu achava que era possível.
— Sica? — Ele fica imobilizado.
Ficamos nos encarando por muito, mas muito tempo. Ele, mesmo sentado, parecia mais alto que antes. O cabelo estava curto como na foto do Facebook, mas estava de barba feita. Era estranho. Ao mesmo tempo que conseguia reconhecer o cara que me apresentou a escola nova, há quase três anos, consigo também ver alguém totalmente novo. Com certeza a vida na Califórnia o transformou.
Ele também me analisava. Sei que ele encarou meus novos cabelos por um bom tempo, e havia um sorriso tímido em seu rosto. Eu não acredito ainda. É realmente ele ali, bem na minha frente. Imaginei mil vezes todas as possibilidades de, alguma forma, eu me encontrar com ele, mas jamais pensei que fosse acontecer de uma maneira tão casual. Engulo em seco.
A atendente traz nossos pedidos e interrompe a cena. Quando voltamos a realidade, pagamos-a e voltamos a nos olhar.
— Você... você está linda. — Ele olha no fundo dos meus olhos.
— Obrigada. — Desvio o olhar intenso, dando um gole na minha bebida.
— Eu não acredito que é você... — Ele passa uma mão pela minha bochecha esquerda. Esquivo, e ele percebe que estava sendo invasivo demais.
— Eu te disse que estava em NY. — Comento, ainda ríspida. — Por que não acreditaria?
— Desculpa. — Ele olha para sua bebida, sem bebê-la.
Acho que fui um pouco mais grossa do que gostaria de ter sido. Afinal, ele está com uma cara melancólica e com a mesma voz triste do telefone. O que está acontecendo com ele?
— Não, me desculpe pela grosseria. — Falo, tentando descontrair um pouco. O barulho do local também ajudava.
— Tudo bem. — Ele volta a me olhar. — Não esperaria outra reação sua.
O que ele quis dizer com isso?
— Quando você chegou? — Mudo de assunto.
— Hoje bem cedo. — Ele solta um suspiro. — Quando eu te liguei, havia acabado de chegar em Nova Jersey.
— Ah. — Bebo mais um gole do meu cappuccino.
Ficamos em silêncio, mas sem parar de olhar um pro outro. Tem tanta coisa engasgada em mim que eu adoraria dizer, mas aqui não dá. Uma discussão no meio de uma loja não é o que eu quero fazer.
— Coincidência a gente ter se encontrado aqui, não é? — Ele se vira no banco para ficar de frente para mim. — Estava olhando uns apartamentos aqui perto, e decidi vir aqui. Estou acordado há muito tempo. E você?
— Minha amiga saiu com o namorado, e eu estava precisando de uma bebida quente. — Comento. — Vim aqui porque é perto de casa.
— Onde você mora? — Ele me pergunta, parecendo curioso.
— Aqui perto, no Starlight Building. — Por que eu dou todas essas informações?
— Nossa, é um prédio muito chique. — Hector já havia terminado a bebida, mas continuava ali comigo. — Até pensei em ir lá, mas minhas condições não estão ao nível deles. O apartamento é alugado ou é seu?
Não sei se ele realmente quer saber minhas informações imobiliárias ou se ele quer só prolongar uma conversa desconfortável.
— Moro com uma amiga. Ela que é, na verdade, a dona do apartamento.
— Ah. — Hector sorri de lado. Não, isso não... — Posso te acompanhar até lá?
Olho para ele, confusa.
— Por quê você quer fazer isso? — Indago.
Hector pareceu confuso por cinco segundos, encarando o copo vazio em suas mãos. O que quer que ele esteja pensando, sei que ele também está confuso com nosso encontro repentino.
— Por nada. Eu só queria fazer um favor.
Suspiro. Não sei se devo fazer o que estou pensando, mas mesmo assim arrisco.
— Tudo bem. — Levanto-me do banco. — Pelo menos lá a gente pode conversar francamente.
Ele concorda com a cabeça e vamos em direção ao prédio. Andando pelas ruas, é como se eu não pudesse mais ver a multidão de pessoas que se esbarram em mim sem pedir desculpas depois. Eu só consigo vê-lo andando ao meu lado. Numa fração de segundo, lembro-me de quando ele caminhou comigo e com Lil até nossa casa, depois da escola. Aquele era um tempo tão mais tranquilo... Quando chegamos no prédio, vejo várias pessoas olhando para nós. Que se foda todas elas. Entramos no elevador e logo chegamos.
— Uau. Aqui é enorme. — Ele comenta, indo diretamente para a janela enorme. Ele solta um suspiro de admiração.
— É sim. — Sento-me no sofá. Não posso adiar o que estou planejando. — A gente precisa conversar.
Hector se volta para mim, e vejo que seu sorriso já se desfez. Ele engole em seco e olha para o chão, parecendo nervoso. Ajeito-me melhor no assento, pois não quero que ele perceba que eu também estou nervosa.
— Eu sei. — Ele se senta na poltrona à minha frente.
É agora. Tenho que lavar os pratos sujos.
— Hector — Começo. — Eu sei que a gente não tem mais nada, mas nós deixamos muitas dúvidas pendentes.
Ele concorda com a cabeça, sem fazer nenhum barulho.
— Eu só queria saber- — Pigarreio e o encaro nos olhos. — Por que você...
Eu não consigo continuar, por que ele começa a chorar na minha frente. Eu não sei o que fazer, já que eu não tinha falado nada ofensivo ainda, então faço a primeira coisa que veio na minha mente, que foi abraçá-lo. Ele parecia confuso ao meu toque, mas não hesitou em praticamente apoiar todo seu peso em mim.
— Me perdoa, Sica. — Ele sussurra entre soluços. — Me perdoa, por favor... Por favor.
— Por quê você está chorando, Hector?
— Você nunca vai me perdoar. — Ele volta a olhar para mim. Seus olhos estão inchados. — Perdoar tudo o que eu fiz. Não devia ter te deixado. Não devia ter ido embora. Deus... Você nunca vai me perdoar.
Minha voz soa fraca quando digo:
— Não, eu não vou mesmo, mas...
— E se eu te disser que foi a pior decisão de toda a minha vida?
Fico em silêncio. Do que será que ele está falando?
— Quando eu cheguei lá, pensei que tudo seria uma maravilha. Pensei que enfim teria um pouco de paz, depois do que aconteceu no cinema. — Ele funga o nariz. Seus braços ainda estão envoltos em mim. — Que eu ia encontrar amigos novos, garotas novas... Enfim, pessoas novas em um ambiente novo.
— E não foi isso que você encontrou? — Falo, com um pouco de raiva.
— Foi. — Ele confessa. — Mas eu não queria encontrar gente nova. Eu queria esquecer você.
— E você conseguiu. — Minha voz falha. — E não me diga que é mentira...
— Não consegui. Eu tentei, tentei de verdade, mas não consegui. Você era mais presente a cada dia para mim, assim como Gwen. — Ele encara o chão, soltando-me de nosso abraço. — Mas confesso que você é quem vinha a minha mente toda hora, não importava o lugar. Tudo que eu fazia, via ou ouvia, me lembrava você.
Ele desaba na poltrona, voltando a chorar ainda mais. Ando rapidamente até a cozinha e pego uma cadeira, levando-a para a sala e sentando nela, bem em frente à ele.
— Eu joguei nosso amor fora. — Ele diz, depois de conseguir controlar seu choro. — Eu joguei fora a coisa mais preciosa que eu tinha. Como eu sou estúpido!
A última frase sai num grito que Hector logo abafa com as próprias mãos. Algumas lágrimas começas a surgir no canto dos meus olhos.
— Mas por qual razão você me mandou aquele e-mail maldito? — Falo, ódio saindo pela minha garganta. — Se você realmente acha que fez besteira, por que me mandou aquele texto horrendo?
— Não sei. — Ele limpa as lágrimas e o suor de seu rosto. — Por um lado, depois que soube que você estava com Steven e feliz, quis me mostrar melhor que a minha situação de verdade. Não tinha conhecido ninguém que me interessasse. Só queria me mostrar forte e com a vida para frente, do mesmo jeito que você estava.
Aperto com força a manga do meu moletom.
— Por outro lado, eu só... Só queria manter o menor tipo de contato. Pelo menos por algum tempo. Desculpa por isso. Sei que fui um idiota.
Enxugo algumas lágrimas.
— E porque você me ligou bêbado certo dia, dizendo que não precisava mais de mim? — Quase grito. Não queria me descontrolar daquela maneira. — Você realmente achou que eu merecia escutar aquilo? Escutar que eu era inútil? Que você nunca gostou de mim de verdade?
Consegui notar que ele estava extremamente envergonhado.
— Eu estava bêbado. Eu comecei a beber pra tentar te tirar da minha mente. Eu saía toda noite, bebia toda hora, e toda noite ficava com uma garota. Até experimentei maconha. Mas nada me fez te esquecer. Eu te liguei naquele dia... Só pra ouvir sua voz. — Hector suspira pesadamente. — Era tudo mentira. Você sempre foi importante. Eu te amei, de verdade. Eu te amo.
Afasto-me dele. Tudo aquilo parece ser verdade, uma verdade amedrontadora. Andrew Hector ainda me ama. Ele acabou de dizer isso, bem na minha frente. Ele me ama. Não tenho dúvidas que ainda o amo. Só por sentir meu coração se agitar em meu peito, sei que todos os meus sentimentos por ele ainda estão aqui, dentro de mim. Eu, porém, não sei o que fazer. Uma dúvida surge em minha mente.
— Porque não voltou para Seattle?
— Eu tinha vergonha. O que eu tinha virado? Um bêbado chapado que cada vez mais se afundava na escola. O que você pensaria de mim? Além disso, meus avós sempre me obrigavam a ficar. Se eles pudessem, me acorrentariam à uma coluna de ferro.
Olho para ele, que está com os olhos inchados.
— Eu resolvi mudar. Consegui mudar, para ser mais sincero. Parei de beber, parei de me drogar. Foi difícil, mas eu consegui. Vim pra cá reconstruir a minha vida, até que encontro você, Sica.
— A pessoa que destruiu a sua vida. — Sussurro. — Que fez você entrar nesse ciclo de autodestruição.
— Não! — Ele se levanta da poltrona e se ajoelha em frente a mim. — Eu destruí a minha vida. Você não tem culpa, eu tenho.
Abraço-o, ainda mais forte. E eu senti tanta raiva dele, nunca quis ligar pra ele, nem nada... Sinto-me uma total idiota. Não sabia o quanto ele estava sofrendo. Sei que, se eu soubesse, faria de tudo para ajudá-lo, sem me importar com meu orgulho idiota. Eu amo Hector. Eu faria de tudo para vê-lo feliz.
— Me perdoa, Sica. Por favor... — Ele diz, sua voz está baixa. — Só peço isso. Não peço mais nada além de seu perdão, Jessica. Só quero continuar minha vida em paz.
— Se eu soubesse disso, eu mesma teria ido na Califórnia te buscar à força. — Olho para ele. — Eu te perdoo, sim.
Ele fica me fitando, como se pedisse algo. Estou ofegante, e ele ainda mais do que eu. Levanto-me da cadeira, e ajudo-o a se levantar do chão. Ele me abraça, e sinto seu coração pulsar tão rápido quanto o meu. Passo meus dedos entre seus cabelos e ele passa pelos meus. Sorrio de leve, mesmo que muitas lágrimas ainda desçam pelo meu rosto. Ele as enxuga, cada uma, com um beijo. Não o interrompo, porque isso é exatamente o que eu quero que ele faça. Hector, contudo, deixa somente uma seguir seu caminho até o canto da minha boca.
— Eu vou ter que enxugar essa também. — Ele sussurra.
Ele me dá um leve selinho, mas há algo entre nós que está tão forte agora que eu não me contento com isso. A barreira que eu havia construído contra ele cede com um único sopro, como se fosse um castelo de cartas. Ele segura-me pela cintura, puxando-me para mais perto dele. Eu não o impeço.
Sinto as mãos largas dele acharem seu caminho por debaixo do meu moletom. O calor delas no final das minhas costas me fazem relaxar um pouco mais. Eu mesma passo minhas mãos para o pescoço dele, arrastando-as até seu ombro por debaixo da camisa dele. Sinto o sorriso de Hector em nosso beijo.
Quando a gente precisa respirar, ele percorre uma trilha de beijos pelo meu pescoço, me fazendo suspirar. Também faço isso nele, e toda pele ao redor do local onde beijei se arrepia. Cada beijo mais demorado, mais bem encaixado, mais gostoso. E depois de uns quinze minutos nesse ritmo, percebo que já estou no meu quarto com ele.
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