Jessica Chloe - Vitoriosa
24 Emprego, surpresa e proposta
Acordo às sete da manhã, em ponto. Mas um domingo medíocre... detesto domingos. Depois deles vêm as segundas, que são ainda piores. Eu fico bem depressiva nesses dias. Mas apesar disso, não é o fato de hoje ser domingo que está me fazendo sentir horrível. Sinto meus membros cansados, como se eu tivesse levantado algo muito pesado. Estico-me para conseguir pegar o pequeno espelho que fica no meu criado-mudo, e assim que vejo meu rosto, levo um espanto.
Minhas olheiras já estavam enormes desde a segunda sessão, mas agora parecem que tomaram conta das minhas bochechas. Estou mais pálida que o usual, e minha boca está ressecada. Deus, onde eu estava com minha cabeça para não ter percebido o quanto eu deteriorei durante esse tempo? Solto um suspiro, passando meus dedos por onde seria minhas sobrancelhas. Uns quatro fios ruivos teimavam em continuar lá.
Sento-me na cama e fico olhando Lola se mexer no meu tapete, provavelmente está sonhando. Gentilmente a acordo e pego-a, colocando-a no meu colo. Faço carinho na barriga dela, que ronca baixinho. Sorrio e a deixo na minha cama, enquanto levanto e vou ao banheiro.
Eu tomo um banho rápido, mas que me aquece nesse quase inverno. Decido me livrar do resto das minhas sobrancelhas com uma pinça. Agora estou realmente sem pelo algum no corpo. Dou uma leve risada, tentando achar algum humor na minha condição atual. Coloco uma roupa grossa e desço para comer alguma coisa. Lilian já estava de pé, comendo seu cereal. Ela, com a boca cheia, tenta sorrir para mim.
— Oi, mana. — Ela fala, depois que engole.
— Oi, bebê. — Eu bagunço seu cabelo. Ela odeia ser chamada de bebê. — Acordou cedo, hein?
— Estava sem sono. — Ela come mais uma colherada. — E você, caiu da cama? É quase impossível te acordar no frio.
— Eu sei. — Rio. Sempre que está frio, prefiro ficar soterrada por meus edredons. — Também não entendi. Acho que acordei por causa da fome.
Ela ri e eu pego uma fatia de bolo — uma das maravilhas de leite de soja feitas pela mamãe — e sento-me ao lado de Lil. Ela fica me olhando com uma cara muito engraçada.
— O que foi? — Pergunto.
— Você tá bonita. – Ela quase que sussurra. – Mais do que o costume.
— Hoje não é o melhor dia para me elogiar. – Confesso. – Acabei de perder os últimos pelos faciais.
Levanto e abaixo as sobrancelhas rapidamente, e Lilian começa a rir.
— Mesmo assim, você está diferente. Um diferente para melhor, com certeza. – Ela pega sua tigela vazia e leva até a pia. Assim que volta, ela diz: – Talvez você esteja melhor mentalmente, e isso faz que você pareça melhor, pelo menos pra mim.
— Eu admito que eu estou melhor... – Deixo um sorriso triste ficar estampado nos meus lábios. – Eu não sinto mais dor pela Gwen, e sim saudade. Mas a saudade boa, não a triste.
Ela parece me analisar atentamente.
— E seu coração?
Eu sei exatamente o que ela quer dizer.
— Tenho que continuar, não é? – Dou de ombros. – Eu sou a única que pode fazer minha vida melhor, mesmo com tudo o que está acontecendo. Eu não vou me prender ainda mais a ele. Quero me livrar dessa coleira, e sei que cada dia que passa, estou conseguindo.
— Eu sei. — Ela concorda comigo. — Isso é muito bom. Você está voltando a ser você, aquela Sica de antes disso. E você está, na minha opinião, mais bonita agora do que sempre foi.
— Sério? — Falo, finalmente me rendendo a seus elogios.
— Aham. — Ela fala e beija minha bochecha. — E não é bobagem de irmã.
— Obrigada. — Sorrio docemente para ela. Mamãe desce as escadas, acompanhada de papai. Os dois estão sorrindo, então eles devem ter dormido muito bem, se é que você me entende.
— Bom dia, filhotas. — Mamãe beija minha testa e depois a de Lilian. Papai beija minha bochecha e depois faz cafuné em Lil.
— Oi, mãe, oi pai. — Falamos ao mesmo tempo.
— Já comeram? Que rápidas... — Mamãe fala. — E aí, Sica? Pronta para o primeiro dia no emprego?
— Mais ou menos... eu estou bem ansiosa. — Confesso. — Mas sei que vou me dar bem. Tenho fé.
O sorriso de papai estava mais que visível. Desde que consegui o emprego, ele anda tão orgulhoso de mim... Até parece que consegui algo extraordinário. Bem, acho que depois de tantas tentativas, ele ia ficar desse jeito mesmo.
— Isso mesmo, a confiança é muito importante. — Papai fala. — Eu acho que você vai se dar muito bem nesse emprego.
— Mas você não deve ficar muito ansiosa. – Mamãe se aproxima de mim e começa a apalpar minhas bochechas. – Você está se sentindo bem? Está tão pálida...
— Me sinto relativamente bem. – Afirmo com a cabeça. – Só um pouco enfadada. Acho que domingo não é meu dia da semana favorito.
Eles dão uma leve risadinha, mas consigo ver que mamãe está preocupada.
— Vá para seu quarto. Deite, ou fique sentada confortavelmente. – Ela pede. – Não quero que esteja cansada no primeiro dia de trabalho.
— Nem eu quero. — Falo, indo para meu quarto em silêncio.
Eu me deito na cama e suspiro. Eu não sei explicar, mas eu sinto um vazio em mim. Talvez porque minha vida mudou em um tempo muito, mas muito curto mesmo. Tanta coisa aconteceu... Me apaixonei, descobri que tenho uma doença muito séria, fiz amizades, sendo que uma delas... Deus. Isso é muita coisa para uma pessoa só ter que aguentar. Eu preciso organizar tudo em minha cabeça.
— Posso entrar? — Lil abre gentilmente a porta.
— Claro. — Sorrio, e ela caminha lentamente até a cama.
— Você saiu da mesa tão quieta... O que houve?
— Eu não sei. — Falo, apoiando minha cabeça em seu ombro. – Eu realmente estou me sentindo um lixo hoje. Espero que essa sensação não dure o resto do dia.
Ela não fala nada, o que eu acho incrível. Ela me conhece tão bem, ao ponto de saber quando eu quero desabafar ou não. Ela se senta na cama e dá dois tapinhas nas próprias coxas, convidando-me para deitar minha cabeça nelas. Lil começa a acariciar minha cabeça, desenhando círculos ao redor da minha cicatriz. Ela beija minha cabeça e começa a acariciar meu braço.
— Você sente falta dele, né? – Ela murmura. – Do Hector?
Levanto minha cabeça e olho diretamente nos olhos dela. Acho que não tem como disfarçar, nem para mim mesma.
— Sim. — Assumo. — Percebe o quanto eu sou burra? Tento me convencer de que estou superando, mas...
— Claro que você não é burra. — Ela fala. — Eu tenho certeza de que ele também sente sua falta.
— Não. Veja, ele me mandou um e-mail. — Levanto-me bem rápido e pego o notebook e mostro para ela. — Vê? Ele não tem nem a decência em me deixar em paz depois de tudo... Ele quer que eu o esqueça, ele quer me esquecer, mas continua falando comigo! Eu quero paz!
Ela lê calmamente tanto o e-mail dele quanto minha resposta.
— Você não quer ser deixada em paz, Sica. Não por ele. — Ela fala, e sinto que ela realmente quer dizer isso. — Ele sente sua falta também, eu tenho certeza disso. Eu acho que ele quis fazer com que você sentisse ciúmes, ou coisa do tipo. Sabe, por que ele mandaria isso, se não fosse para ver qual seria sua reação?
— Do que adianta ele querer me fazer ciúmes, se ele está a quilômetros de distância de mim? – Suspiro. – Eu detesto isso, Lil. Ou ele ficava comigo, ou ele ia embora e me esquecia. Ele foi embora, mas continua presente...
— Você sabe muito bem que ele não quis terminar contigo. Ele quis fugir das lembranças da irmã. – Ela olha diretamente nos meus olhos. – Mas ele nunca deixou de gostar de você.
— Eu não acredito mais nisso, Lilian. Se ele gostasse realmente de mim ele continuaria aqui, ao meu lado.
— Desculpa por dizer isso, mas você está sendo muito egoísta, mana. Coloque-se no lugar dele. Deus me livre, mas se fosse eu que tivesse morrido? Se fosse eu que tivesse levado os tiros, como você se sentiria?
Meus olhos enchem de lágrimas.
— Destroçada. Esmagada, estraçalhada...
— Ele está se sentindo do mesmo jeito. — Ela fala. É incrível a capacidade dela de analisar tudo de cima, sem tomar lados. – Ele precisava ir embora.
— Mas eu podia ajudá-lo. Eu podia ajudá-lo a superar isso tudo, do mesmo jeito que ele poderia me ajudar se fosse o contrário.
— Não, Sica. Pode não parecer pra você, mas vocês eram bem parecidas, tanto em comportamento quanto em aparência física. Sem falar que, até que ele se despeça da própria irmã, você só faria que ele repassasse na mente o que aconteceu. Aposto que isso traria muito sofrimento.
Deixo umas lágrimas escaparem, e Lilian trata logo de enxugá-las.
— Dói muito saber que eu faria ele sofrer. Que eu faço ele sofrer. – Engulo em seco. – Eu também me achei bem parecida com a Gwen, depois que vi uma foto dela pequena.
— Eu acharia bem doloroso ver uma pessoa que é um pouco parecida com um ente que eu perdi. — Ela suspira. – Sem falar no que eu já falei.
Fico em silêncio. O que ela fala tem sua razão. Olho para ela, que sorri para mim. Abraço-a forte, querendo dizer para ela não sair de perto de mim.
— Você tem razão. Eu acho que agiria do mesmo jeito.
— Você ia sim, eu te conheço.
— Mas pareceu tão fácil para ele ir para outro estado, em algumas semanas ele já tinha resolvido ir...
— Hector provavelmente estava planejando isso a mais tempo do que você acha. – Ela suspira. – Se ele te falasse o que ele queria fazer, você jamais teria deixado. Iria fazer ele ficar. Acredite, você sabe convencer as pessoas.
— Eu ainda acho isso um argumento fraco. — Confesso.
— Bem... Isso que eu vou falar é uma suposição, tá? — Ela fala logo. — Bem, minha psicóloga disse que quando a gente perde alguém muito próximo de nós, podemos ficar irados. É tanta raiva que as vezes as pessoas não conseguem se segurar.
— E o que isso tem a ver com a escolha dele? — Pergunto.
— Bem, não sei como ele andava na escola, mas ele podia estar tentando te proteger.
— O quê? – Pergunto. Estou muito confusa.
— Acho que ele não queria que você o visse transtornado. Acho também que ele estava com medo de te magoar com as palavras. Bem, só que ele não pensou que os atos dele poderiam te magoar do mesmo jeito.
Fico olhando para ela, com uma cara de surpresa. É incrível como as palavras dela fazem sentido para mim.
— Você devia ser psicóloga quando for adulta.
— Não seria irônico demais uma psicóloga que tinha pensamentos suicidas? Ninguém iria querer se consultar comigo.
— Mas você já está bem. Eles nem iriam imaginar que uma menina linda como você tivesse sofrido tanto... — Brinco, beijo sua bochecha e faço cócegas nela.
— Para, Jessica! — Ela fala, entre risadas. — Se não eu vou fazer em você também.
Ela vem pra cima de mim e logo estamos caídas no chão, rindo como umas bobas. Pegamos umas almofadas e ficamos deitadas bem juntinhas. Mamãe, provando que sempre sabe o melhor para nós, nos traz uma vasilha cheia de pipoca doce. Bem, pipoca doce para a Lil, para mim só a tradicional mesmo. Ficamos conversando por um bom tempo, até que mamãe fala que o almoço está pronto.
— Eu não estou com fome. — Lilian fala, alisando a barriga.
— Eu estou. Sempre há espaço para a comida da mamãe, Lil! — Quando eu falo isso, ela ri e decide almoçar também.
Depois do almoço, resolvo descansar um pouco. Tenho que sair antes do começo do meu expediente, para assinar alguns papéis e outras burocracias do tipo. Mas antes de dormir entro no Google.
Soneto XVII, Pablo Neruda.
Por quê eu fui pesquisar isso? Talvez por que eu precisava ler novamente. Ele, mesmo tendo me decepcionado, queria me proteger. Me proteger dele mesmo. Deus... E eu xingando ele nos pensamentos. Mas isso é só uma suposição da Lilian, não é? Eu queria falar com ele. Não, eu não vou fazer isso. Sim, eu sou orgulhosa, e daí? Desisto de entender a minha mente e caio no sono.
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Mamãe me leva para o shopping, juntamente com papai. Eles dizem que vão ao cinema, então eles me deixam em frente a loja. Eles foram bem claros em relação à trajes: roupas sem estampas espalhafatosas, calças jeans preta e cabelo amarrado em um rabo de cavalo. Bem, no meu caso um lenço que combine com minha roupa.
Entro na loja. Algumas atendentes, que usavam um pequeno crachá, ficam olhando para mim com um sorriso. A maioria é mais velha, mas vejo algumas garotas da minha idade. Elas devem ter ouvido falar de mim — ainda não me acostumei com o fato de que apareci na TV — e então sabem da minha história. Uma delas até tenta perguntar algumas coisas para mim, mas logo digo que a experiência foi dolorosa demais para ficar me lembrando disso o tempo todo. Claro que ela desistiu na hora. Chego perto do balcão.
— Oi, em que posso aju... Jessica?
— Mel? – Falo, espantada. Fazia tanto tempo que não a via ao vivo! – Ai, caramba... há quanto tempo?
— Muito! — Ela me abraça. Deus, eu não vejo Mel desde... minha segunda quimioterapia. — Como você está?
— Bem, e você? — Pergunto. — E como vai seu irmão?
— Eu vou bem, mas meu irmãozinho... Ele não resistiu ao tratamento. — Ela fala, mostrando um pouco de tristeza. – Por isso não te visitei mais vezes. Desculpa por isso.
— Eu sinto muito. — Falo. – Não precisa se desculpar. Eu que devia ter mantido mais contato.
— Não se preocupe, já faz um tempinho... — Ela fala, enxugando uma lágrima. — Bem, mas o que você faz aqui?
— Arranjei um emprego aqui. Vim pegar meu crachá. — Falo, e ela sorri de orelha a orelha. – Nem acredito que encontrei você, Mel...
Ela parecia um pouco desconfortável.
— Por favor, me chama de Missi. – Ela pede. – Não gosto mais do apelido "Mel".
— Ah, claro. – Digo. Sei que ela está escondendo o verdadeiro motivo, mas decido não insistir.
— Mas que maravilha que você tenha conseguido um emprego aqui... Mais uma amiga. — Ela fala, enquanto pega um papelzinho e me pergunta meu nome inteiro. Respondo-a e ela preenche um papel. Ela o coloca dentro de um plástico e me entrega. Ponho o crachá na minha blusa e sorrio.
— Bem, por onde eu começo? — Pergunto.
Ela me mostra a loja, onde fica cada peça e como localizar as roupas no estoque. Logo depois já estou atendendo uma simpática senhora que compra várias peças. Vejo nas etiquetas um pequeno pedaço onde devo assinar meu nome, para comprovar a comissão. Assim que ela compra, assino-as e ela leva as peças, extremamente feliz. Mel, quer dizer, Missi, que ficou me olhando de longe, me parabeniza e logo atendemos mais clientes. Depois de um tempo que eu mal vejo passar, ligo para casa e mamãe diz que vem me buscar daqui a pouco. Nesse meio tempo, converso com Missi.
— E então, por que está trabalhando? — Ela me pergunta.
— Eu quero fazer uma faculdade em Nova Iorque. Bem, eu tenho que arrumar dinheiro desde já.
— Sério? Eu também quero ir para Nova Iorque! Meu pai tem um apartamento lá. É bem grande, comparado com os apartamentos de hoje em dia por lá. Demos sorte.
— Isso é muito legal! Espero dar sorte também quando for pra lá.
Ela fica pensativa por um tempo, e logo depois abre um sorriso tão alegre que parece que uma lâmpada acende em cima de sua cabeça.
— Ei, por que você não vai morar comigo? — Ela fala. — Assim a gente não tem que viver sozinhas naquela cidade enorme, e você não vai ter que pagar nada! E aí, aceita?
— Eu... – Engulo em seco. – Certeza que eu não seria um estorvo?
Ela ri da minha cara.
— Claro que não! Sei que é precipitado, afinal nós nos conhecemos a pouco tempo, mas sei que você é uma garota legal. – Ela sorri. – Meus pais não se importariam.
— Os meus sim. – Balanço a cabeça. – Eu vou falar com minha mãe. Com muito esforço, consigo convencê-la.
— Claro, claro! — Ela fala animadamente. — Nossa, você caiu do céu, Sica! Eu realmente queria que uma amiga fosse morar comigo. Estava com um pouco de receio de ir morar sozinha lá...
— Eu entendo. — Falo, vendo minha mãe chegar em frente à porta. — Já vou indo. Eu prometo que assim que conseguir convencer ela, eu te aviso. Até amanhã!
— Até amanhã! — Ela fala. Depois mamãe me leva para o carro.
— E aí, como foi? — Ela pergunta para mim.
— Ótimo. – Não consigo parar de sorrir. – Minha amiga Mel, quer dizer, Missi, também está trabalhando lá. Isso é ótimo, não?
Ela concorda e logo fica me perguntando mais detalhes, mas fico pensando em como será minha vida em Nova Iorque. Mamãe ainda não aceitou, papai provavelmente não gostará da ideia, mas nada disso me impede de sonhar... Aquela cidade é incrível! Eu espero que minha vida mude quando eu for para lá.
Por que eu vou, de qualquer maneira.
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