Jessica Chloe - Vitoriosa
23 E-mail
— Então, seu nome é Jessica Chloe.
Olho para a mulher velha que está na minha frente. Você não sabe o quanto eu estou cansada. Já é a sexta vez que eu tento um emprego. Sabe, não é difícil arranjar trabalho quando se tem boas notas e já está quase saindo da escola, mas as empresas não costumam contratar pessoas que podem cair duras e mortas no horário de trabalho a qualquer momento, se é que você me entende.
Decidi que era hora de juntar uma grana, e nem mesmo o tumor iria me impedir de fazer isso. Desde que decidi que queria fazer faculdade em Nova Iorque, percebi que não seria tudo uma maravilha. Precisaria, além de ser aceita em uma faculdade de lá, conseguir um local para morar. Talvez eu fique por uns semestres no campus da faculdade, mas realmente gostaria de ter um apartamento próprio lá. E pensar que eu nem cogitava sair de Seattle... De qualquer forma, estou precisando mesmo arranjar um emprego.
— Sim. – Tento sorrir ao máximo. – Jessica Chloe Andersen.
— Quantos anos você tem, srta. Andersen?
— Dezessete. — Respondo rápido.
— Sim. – Ela ajeita a posição dos óculos enquanto anota minhas informações no computador. – E você está cursando o ensino médio, sim?
— Segundo ano. — Eu falo e ela sorri.
— Bem, pelas suas notas aqui em sua ficha, você me parece uma boa estudante. Eu liguei previamente para sua diretora e ela me falou ótimas coisas sobre você. – Ela me encara, sorrindo candidamente. – Bem, não há nada que me impeça em lhe dar o emprego, a não ser...
— Minha saúde. — Eu digo e ela assente. — Bem, há alguns meses atrás eu descobri que tinha câncer cerebral. Eu já fiz cirurgias e não fiquei com nenhuma sequela. Atualmente estou fazendo quimioterapia, então se eu conseguir o emprego, vou ter que me ausentar uma vez por mês. Não posso pegar muito peso, mas sei que isso não vai me atrapalhar. Se eu for contratada, claro.
— Tem razão. Bem, você terá que me trazer exames para comprovar que não está com problemas causados pelo tratamento. Um simples documento assinado por seu médico, contendo informação sobre sua saúde, me servirá
— Claro, mas... Eu consegui o emprego? — Pergunto, ansiosa.
— Sim. Pelo que vejo, você está realmente disposta a trabalahr, e isso é o que importa. – Ela estende a mão para mim. – Quando você pode começar?
Aperto sua mão, sacudindo-a exageradamente. Estou tão feliz!
— Amanhã mesmo! — Falo, extremamente alegre. — Eu posso até trazer o exame também. Fiz alguns há poucos dias.
— Sim. O seu emprego será de meio período, para não atrapalhar seus estudos. Das 18:00 as 21:00, tudo bem?
— Tudo ótimo!
Ela me acompanha até a porta e assim que saio vejo minha mãe fazendo várias compras. Ah, eu não falei; meu emprego é em uma grande loja do roupas, aqui no shopping mesmo. Ela olha para mim e respira fundo.
— E aí? Conseguiu?
— Eu... — Faço um pouquinho de suspense. — Consegui!
Ela abre um sorriso, e vem diretamente para mim, me abraçando.
— Ai, filha... Que felicidade! – Ela aperta minhas bochechas. – E quando você começa?
— Amanhã, no começo da noite. — Sorrio, retribuindo o abraço. — Eu estou contente e aliviada por ter conseguido. Eu cheguei a pensar que nunca ia conseguir.
— Claro que você ia, Sica. Demorou, mas conseguiu. — Ela sorri, me soltando. — Vamos?
Concordo e vamos para o carro. Ela abre a porta para mim e entro. Eu estava tão nervosa... Tinha recebido tantos "nãos" que já estava quase desistindo. Mas ainda bem que não fiz isso! A loja é bem grande, se tiver uma boa comissão posso ganhar muito!
— Eu estou realmente orgulhosa de você.
— Obrigada. – Sorrio. – Eu quero juntar dinheiro para a faculdade logo, e é melhor começar agora.
— Com certeza! E qual faculdade você quer fazer? – Mamãe parecia realmente curiosa. – Até ontem você me dizia que não tinha certeza...
— Fotografia. Sempre gostei da ideia de tornar um momento eterno. – Digo. – Não vou ganhar rios de dinheiro, mas sei que vou ser feliz. Eu quero viajar pelo mundo tirando fotos, fazendo álbuns e, quem sabe, ganhando prêmios pelas minhas melhores imagens. É isso que eu quero.
— Fico feliz que você saiba agora. – Ela parece feliz por eu ter finalmente descoberto o que quero. – Bem, e vai fazer querer fazer numa faculdade daqui mesmo, não é?
Eu nem havia comentado com ela minha vontade de estudar do outro lado do país. Não sei o que ela acharia... Mamãe é de Seattle, nunca se mudou para nenhum outro lugar... Não sei se ela me deixaria ir para Nova Iorque, mas eu realmente quero isso.
— Na verdade, não. – Encolho os ombros. – Quero me aplicar em algumas faculdades de Nova Iorque. Eu quero mesmo estudar lá.
Ela fica de queixo caído. Com certeza a peguei de surpresa.
— Nova Iorque? – Ela quase que sussurra. – E você vai me deixar sozinha, no outro lado do país?
— Deixe de drama, mãezinha... As universidades de lá são maravilhosas, eu realmente aproveitaria muito se for aceita em alguma. Sem falar que a senhora tem a Lil e também o papai, esqueceu? Você não vai ficar só.
— Mas você é a minha filhinha... meu moranguinho. – Ela faz uma voz manhosa.
— Mãe! Ninguém me chama assim desde a segunda série! — Falo, lembrando de meu apelido de criança.
— Você é e sempre será minha moranguinho. — Ela fala, enquanto para o carro em nossa garagem. – Não tem como mudar esse fato.
Descemos e entramos juntas em casa. Vejo Lilian sentada no sofá, entretida com alguma coisa na televisão. Sento-me ao lado dela, que sorri para mim.
— Conseguiu?
— Sim. Começo amanhã. — Respondo e ela me abraça. Afago seus cabelos enquanto mamãe vai para a cozinha preparar o almoço.
— Quero conversar com você. — Ela fala, me levando para seu quarto.
Ela parece uma bonequinha, com seus olhos azuis escuros e seus cachos loiros, pele branca e bochechas rosadas. Se ela usasse mais vestidos, seria confundida com uma princesa, e não é exagero de irmã, não! Ela nunca foi de se arrumar muito, e acho que isso a fazia ainda mais especial. Lil não tentava ficar mais bonita do que já é, e digamos que isso não é muito comum hoje em dia.
E ela é tão frágil... Não que ela seja vulnerável a tudo, mas não é difícil machucar o coração dela. Não quero que Lilian sofra de maneira nenhuma.
Sento-me da ponta da cama dela, e ela se senta ao meu lado.
— O que foi, Lil? — Pergunto, deixando transparecer um pouco da minha preocupação. – Tá tudo bem?
— Tá sim, eu queria conversar com você. – Ela deixa um risinho escapar. – A minha psicóloga disse que eu devia passar mais tempo com minha maninha.
— Isso é muito bom. Eu gostaria de passar mais tempo com a minha caçulinha. – Beijo a testa dela. – Eu te amo, Lilian. Quero que tudo de bom te aconteça.
— Obrigada. — Ela sorri, olhando para o chão. — Bem, como você vai?
— Eu vou indo... Eu não sinto mais todos os sintomas da quimioterapia. O doutor Augustus disse que isso era um bom sinal, de que meu corpo está reagindo bem ao tratamento.
— Isso é ótimo! Eu quero muito que você fique curada.
— Obrigada. E você, como vai na escola? Boas notas como sempre, não é?
— Sim. Eu estou bem mais segura de mim agora. — Ela sorri, deixando seus braços virados de uma maneira que eu consiga ver seus pulsos. Graças a Deus estão perfeitos. Ela percebe que eu estou olhando para os braços dela. — Você me ajudou, Sica. Se você não tivesse vindo me procurar e insistir em saber qual era meu problema, eu nem sei em que estado eu estaria. Muito obrigada.
— Nem fale uma coisa dessa, maninha. — Falo, agarrando-a e puxando-a para perto de mim. — Eu fico muito feliz em saber que lhe ajudei. E não precisa agradecer.
— E muito... — Ela beija minha bochecha. — Mas eu queria contar outra coisa. Sinto que eu precisava te dizer isso.
— Oh, claro... — Eu digo. – O que foi?
— Steven ligou aqui para casa, alguns dias atrás. – Ela fala, e um pequeno sorriso surge no rosto dela. – Ele queria saber como você estava.
— Sério? – Pergunto, surpresa por ela não ter me dito isso antes. Depois de nosso término, só conversei com Steven mais umas duas vezes, sendo uma na quimio. Ele ainda parecia triste, mas com certeza estava seguindo com sua vida, e eu também. – E o que você disse?
— Que você estava bem e que havia saído para arranjar um emprego. Mas essa não é a parte que eu quero confessar.
— Então fala, Lilian! Assim você me deixa curiosa.
— Nós ficamos conversando bastante, trocamos até uns e-mails e tudo mais... Ele é muito engraçado e gentil. – Ela abaixa a cabeça. – Ele me chamou para sair.
Não precisa ser um expert em leitura corporal para ver que Lilian estava, ao mesmo tempo, feliz, confusa e envergonhada.
— Eu... Nossa... Isso é incrível. — Falo, ainda surpresa. Sempre soube que ela tinha chances com ele, mas não sabia que isso aconteceria tão cedo. – Você aceitou?
Ela, num gesto bem rápido, segura minha mão.
— Na verdade, não. – Lil olha nos meus olhos. – Não sei se seria certo. Afinal, só se passaram 3 semanas desde que vocês terminaram... Está recente. Eu não quero ser um consolo para ninguém. Ele disse que entendia, e não insistiu.
As palavras dela me surpreendem mais uma vez. Lilian era tão racional, tão centrada... Ela percebe quando as coisas não estão indo no ritmo que deveriam seguir. Aperto a mão dela com mais força.
— Acho que você fez bem.
Ela dá um leve sorriso, mas percebo que ela está um pouquinho triste.
— Você não me parece feliz. – Comento.
— Você sabe que eu quero muito sair com ele. – Ela diz, ficando totalmente vermelha. – Não me arrependo do que fiz, mas... Não quero pensar que perdi minha única chance.
— Entendo. – Assinto com a cabeça. – Olha, eu acho que você não devia se preocupar com isso. Se daqui a um tempo ele não for atrás de você, acho que você mesma devia chamá-lo pra sair.
— Você... Você acha que eu devo?
— Claro! – Sorrio para ela, que já parece mais alegre. – Mas algo me diz que ele não deixaria uma menina linda como você escapar.
Minha irmã parece ainda mais envergonhada, mas logo diz que deixaria algumas semanas se passarem, na esperança que Steven tentasse novamente. Decidimos descer e sentamos na mesa, e mamãe já havia posto alguns pratos.
— Cadê o pai? – Lilian pergunta. – Ele não vem almoçar com a gente?
— Não. Ele está atolado no escritório e ainda quer escrever mais dois capítulos da sua história nova.
— E sobre o que é essa história? Ele sempre ficava pedindo palpites quando morava aqui, antes de vocês se separarem... — Falo.
— Ele não fala, nem para mim. Por mais que eu pergunte, ele não me diz, falando que é surpresa. Sabe como é seu pai, depois de colocar uma coisa na cabeça, ele não desiste.
— Sabemos. — Lil e eu falamos ao mesmo tempo.
Comemos nosso almoço e logo terminamos. Lilian fica olhando para mamãe.
— Mãe, por que nós não vamos para a praia, hoje a tarde?
— Claro! Seria maravilhoso...
Tá, elas esqueceram totalmente de mim. Como elas podem não lembrar que eu não posso tomar sol, nem que seja um pouquinho? Pigarreio.
— O que foi? Você vai também, boba. — Lil fala.
— Não, eu não vou. — Falo, ficando em silêncio. Elas não entendem, mas logo elas se tocam.
— Oh, Deus... Desculpa, Sica! — Lilian fala, me abraçando. — Eu esqueci completamente.
— Desculpa, meu amor. — Mamãe fala. — Mas é que você nos aparenta tão bem... que a gente se esquece.
— Então eu perdoo. — Falo, abrindo um sorriso.
Eu tiro a mesa e lavo os pratos. Mamãe praticamente me obriga a dormir, então eu a obedeço.
—------------------------------------------------------------------------------------
Acordo com Lola lambendo meu rosto.
— Ai, Lola! Para com isso...
Lilian deve ter me ouvido e vem até meu quarto.
— Como você está, dorminhoca?
— Relaxada. Vou tomar um banho.
Ela sorri e me deixa. Tiro minha roupa e fico me olhando no espelho. Eu não sou a pessoa mais sexy do mundo, longe disso, mas me sinto bem. Claro, eu não sou como aquelas garotas com uns peitões que mais parecem melancias e pele quase laranja de tanto bronzeamento artificial, mas me sino bonita. E é assim que eu não entendo como eu ainda não arranjei ninguém. Eu tinha razão quando previ minha vida com TV a cabo e gatos.
Vou para o banheiro e tomo o banho mais delicioso de mundo. Passo todos os meus cremes e sais de banho, e quando saio me sinto tão suave como uma pluma. Visto uma roupa confortável e ligo meu computador, para entrar no meu e-mail.
O que eu não esperava aconteceu. Um e-mail de Hector bem no começo da caixa de entrada. Clico nele e leio.
Jessica,
Espero que esteja melhor desde aquele dia. Bem, estou mandando esta mensagem somente para manter contato. Mesmo que nós não sejamos mais namorados, eu gostaria de ser seu amigo, pelo menos virtualmente. Gosto de conversar com você, e quero que saiba que eu ainda sinto um pouco de saudade.
Mas queria dizer também que a saudade está diminuindo a cada dia. Eu não sei se fico feliz ou triste com isso, mas é a pura verdade. Bem, queria perguntar como está você e Steven. Espero que estejam felizes, de verdade. Você merece alguém como ele.
Conheci uma garota aqui. Ela é muito gentil e acho que estou começando a gostar dela. Desculpa se essas palavras te machucam, mas eu quero que você continue sua vida. Como você está? Por favor me responda. — Hector.
É claro que eu fico com raiva. Tudo bem que ele queira ser meu amigo, mas esfregar na minha cara que já está apaixonado por outra já é sacanagem demais. Clico em responder.
Hector,
Qual é o seu problema, hein? Me mandar um e-mail dizendo que já está apaixonado por outra? Isso é muita falta de consideração. Como você quer que eu continue minha vida se você continua mantendo contato? Eu não quero mais conversar contigo. Aliás, eu não dou a mínima para sua vida amorosa. Você pode sair até com o Papa que eu não ligo.
Eu não estou com Steven, não deu certo, se você quer saber. E foi culpa sua, indiretamente. Mas isso eu não te digo. Eu estou tão arrependida... podia ter ficado com ele, mas sou uma mané ainda.
Quer saber de uma coisa? Me esquece. Entendeu? ME ESQUECE! Não me mande mais e-mails, eu não vou responder. Só respondi esse por que achei uma afronta para com minha pessoa. Passar bem. — Jessica.
Ah, eu cliquei mesmo em enviar. Quer saber? Não estou mais afim de ficar na internet. Desligo o computador e deito minha cabeça no travesseiro. Como eu posso ainda gostar dele? Eu devia esquecê-lo, tocar minha vida para frente, mas nããããoooo, eu tenho que ficar pensando nele e responder esse desaforado e-mail. Eu devia sair com a Sarah e a Jasmine, conhecer gente nova e quem sabe me envolver com alguém. Devia fazer isso, me concentrar nos estudos e tirar boas notas para orgulhar minha mãe. Mas eu faço isso? Claro que não, eu fico pensando naquele bocó do Hector.
Deus, será que um dia eu serei capaz de esquecer esse canalha de uma vez por todas?
Fale com o autor