- E então, doutora? O que diz o exame? — Hector exclama, ao ver a doutora parar na porta.

Ela suspira.

- Está tudo bem com os bebês, papai. — Ela dá um leve sorriso. — Provavelmente era só mesmo o menino, que deve ser mais fraquinho.

- Ah, Deus, muito obrigada! — Mamãe exclama, olhando para o céu, ou melhor o teto do quarto.

- Muito obrigada... — Sussurro, alisando o pouco de barriga que se formou depois que engravidei.

Olho para Hector, que está sorrindo para minha mãe. Ele se volta para mim, com um olhar tão carinhoso e cúmplice que me faz sorrir feito uma boba. Ele começa a rir da minha cara.

- Você fica muito linda assim, feliz. — Ele faz carinho na minha bochecha. — Desculpe-me por ter te feito sofrer tanto.

- Você ainda se culpa por isso? — Olho para ele, contrariada. — Pare com isso. Eu já te perdoei, não?

- Sim. — Ele olha para minha mãe, que fica observando nossa conversa. — Eu preciso ir para casa agora. Você fica bem aqui?

- Fico, bobo. — Eu sussurro, e mamãe diz para ele descansar.

Ele atravessa a porta olhando para mim e vai embora.

- Sica — Mamãe direciona a palavra a mim. — Enquanto você dormia, Hector me contou tudo o que aconteceu a quase quatro meses atrás, aqui em Nova Iorque.

Engulo em seco. Eu sei que ela sabe sobre a Susan, mas será que ele contou exatamente o que aconteceu, como eu descobri? Será que ela acha que eu não devia ter perdoado ele? Claro que não, ela vê o quão ele é importante para mim, ela não pensaria isso. Ou pensaria?

- Ele me falou que tinha tentado se matar. — Sua voz falha. — Logo depois que você descobriu que ele estava quase noivo de outra.

- Por minha causa ele quase se matou. — Meus olhos enchem d'água. — Imagina o quão horrível eu me senti? Por que eu era a culpada. Quando a Lilian... Quando a Lilian estava passando por aqueles problemas, eu me senti péssima, mesmo a culpa não sendo realmente minha. Mas quando ele me falou que tinha tentado... Meu coração se esmigalhou.

- Ele disse que você é a pessoa mais perfeita que conhece. — Ela sorri. — E que você foi digna, sempre foi. Ele ainda se sente muito culpado por tudo que fez, meu anjo.

- Mas o que eu posso fazer? Eu já o perdoei. Não significa que eu esqueci o que ele fez, mas eu não o culpo. Se ele ainda se sente assim, não posso fazer nada.

Ela suspira.

- Tem razão. — Ela afaga o pouco de cabelo que me restou depois da biópsia. — Ele te ama tanto...

- Eu sei. Eu amo muito ele também. — Sorrio para ela.

- Senhora Daves? — O doutor Flinn aparece de repente na porta.

- Sim? — Eu e mamãe falamos.

- Conseguimos antecipar sua cirurgia para amanhã de manhã.

- Já? — Sorrio extremamente feliz. — Como isso aconteceu?

Ele pigarreia.

- Nós tínhamos outro paciente que iria fazer a cirurgia, mas infelizmente ele faleceu antes que pudesse realizá-la.

Encaro-o, sentindo um pouco de tristeza pela pessoa, mas muita alegria por poder fazer minha cirurgia tão rapidamente! Olho para mamãe, que já está dizendo para o doutor confirmar a minha cirurgia.

- Então pronto, será amanhã às seis e meia da manhã. Será que a senhora conseguirá acordar cedo?

Olho melhor para ele, e vejo que ele não é tão velho assim. Deve ter uns trinta e poucos, quase quarenta, e dava para ser meu tio ou algo assim. Mas o que mais me encanta é a leveza com que ele trata os assuntos mais sérios.

- Com certeza! — Sorrio para ele.

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- Bom dia, Jessica. — Mamãe afaga meus cabelos, e noto que todo mundo está aqui. — Já são quase seis horas.

Noto o quão cansada ela está. Deus, suas olheiras dobraram nesses últimos dias! Bem, acho que as olheiras de todo mundo. Até mesmo Hector, a perfeição em pessoa, estava bem abatido, sem seu charme, seu brilho natural.

Brilho natural... Que comentário gay.

- Sua mãe me falou que seria hoje, e vim correndo pra cá. — Ele sorri.

O doutor Flinn aparece em meio a multidão que se formou.

- Será que essas enfermeiras não sabem o que significa "limite de visitantes"... — Ele brinca. — Vamos levar você para fazer os testes pré-operatórios, tudo bem?

- Claro. — Ele, juntamente com papai, me ajudam a sentar na cadeira de rodas.

Ele me leva até uma sala onde faz testes bobos, como o de furar a orelha, para saber a velocidade da cicatrização, e depois me leva diretamente para a sala de cirurgia.

- Doutor... Vai dar tudo certo?

- Tenha fé. Sei que é estranho médicos falarem isso, mas você precisa orar muito, ter fé. É isso.

- Não acho que seja estranho. Na verdade, mostra que vocês médicos não são tão ateístas assim. Nada contra os ateus, claro.

- Acho que todos nós devemos nos agarrar a algo que nos dê forças. — Ele sorri e junto com mais algumas enfermeiras, me ajuda a deitar na maca.

Vejo uns cinco ou seis neurocirurgiões, além do próprio doutor Flinn, entrando na sala de cirurgia. O anestesista se aproxima de mim.

- Agora tente relaxar ao máximo. A anestesia não é a mais forte, então você precisa estar o mais confortável possível.

- Sim, eu não vou desobedecer.

Sinto que ele sorri, e começa a injetar o líquido na minha veia. Pisco lentamente três vezes e adormeço.