Jessica Chloe - Vitoriosa
44 Sem Palavras
Abro meus olhos lentamente. Arrasto-me até ficar sentada na cama. Ninguém está no quarto comigo, e eu espero pacientemente que alguém apareça. Uma enfermeira entra no quarto e se assusta quando me vê acordada.
– Senhora Daves! — Ela se aproxima de mim, conferindo meus sinais vitais. — Já acordou!
Pisco os olhos.
– Faz três dias que aconteceu sua cirurgia. — Ela me explica antes mesmo de perguntar. — Sua família está almoçando aqui na lanchonete do hospital. Vou chamá-los, certo?
Assinto com a cabeça.Ela sai, sorrindo. Deus, três dias! Não era para ser uma anestesia fraca? Por que eu não acordei antes?
Depois de alguns minutos, vejo mamãe e Hector entrarem.
– Filha! — Ela beija minha bochecha. — Como você está?
Eu tento falar um "eu estou bem", mas só consigo articular um som animalesco. Arregalo os olhos, pondo minhas mãos na garganta. Tento mais uma vez, mas nenhum som sai da minha boca, dessa vez. Olho para a enfermeira, que está nervosa.
– Eu vou chamar o doutor Daniels.
Ela sai correndo, e Hector chega mais perto.
– Sica! Fala com a gente! — Ele implora.
Faço um sinal com as mãos, tentando dizer que não consigo controlar minha fala. O que está acontecendo? Olho preocupada para mamãe, que encara Hector, que olha para mim.
– Senhora Daves... — Doutor Flinn chega, pega um daqueles paletas de madeira e me pede para abrir a boca. Com certa dificuldade, consigo.
Ele examina minha garganta.
– Normal... Deus, o que pode ter acontecido?
– Doutor! O que aconteceu com a minha filha?
Ele olha para os lados, e por fim encolhe os ombros.
– Não aconteceu nenhum contratempo na cirurgia, mas a única coisa que me passa na mente é que o tumor pode ter danificado o lobo frontal dela, a área da fala. Era onde o tumor estava.
Tento gritar, mas não consigo. Hector olha para o doutor.
– Ou você fez alguma merda na cirurgia e fez com que a Sica ficasse muda! — Ele se aproxima do doutor, segurando-o pela gola da sua bata.
– Não, Hector! — Mamãe o puxa, e ele solta o médico.
– Se for isso... Eu processo você. Você deixa de ser médico e aindavai preso. — Ele está um pouco mais calmo, mas posso sentir a fúria em seu olhar.
– Eu posso garantir que nem eu nem minha equipe fez nada. Agora, se o tumor é o culpado...
– O senhor acha que é irreversível? — Mamãe pergunta.
– Esperemos três dias. Se a fala dela não voltar... Bem, talvez não voltará mais.
Grito, e o único som que sai é um "é" bem agudo. Deus, isso me assusta. Todos olham para mim, e Hector segura minha mão.
– Calma, Jessica. — Ele beija minha bochecha. — Tudo vai ficar bem, certo?
Desvio o olhar, mas ele insiste.
– Olhe para mim. Eu sei que você me escuta.
Assinto com a cabeça e aponto para minha orelha.
– Você está bem? De certa forma... Bem?
Assinto. Com as mãos, peço algo em que possa escrever.
– Você quer um bloquinho de notas? — Mamãe finalmente me entende.
– Posso providenciar. — O doutor Flinn sai apressado.
Ele volta em dois minutos com um bloco e uma caneta, ecomeço a escrever no bloco.
Eu estou bem, pessoal. Não creio que a culpa seja do doutor, Hector. Onde está papai e Lilian? E, mais importante, como estão os meus bebês?
Deixo-os ler meu recado.
– Os bebês vão bem, mas você precisará ter cuidado. Um aborto espontâneo pode acontecer, mas nada que você precise se preocupar. — O doutor explica.
– Seu pai e sua irmã estão na casa da Missi. Eles passaram a noite aqui, e foram descansar. — Mamãe fala.
Hector deixa uma lágrima cair. Bato palmas e ele me encara, e gesticulo tentando dizer para ele não chorar. Ele sorri e põe as mãos na minha barriga.
– Você vai ser uma mãe maravilhosa. — Ele sorri de lado. — Eu amo você.
Faço um coração com as mãos.
Eu também te amo, escrevo no bloquinho.
– O melhor seria deixá-la descansar. Talvez uma boa soneca recupere a fala dela. — O médico comenta e mamãe assente.
– Vem, Hector. — Ela o chama.
Ele beija minha testa e sai, deixando-me só.
Como eu posso ter perdido minha fala? E se eu ficar assim para sempre, toda vez que tentar falar eu acabar fazendo sons sem sentido? Será que eu voltarei a falar? Deus... E se meus filhos nunca escutarem a minha real voz?
Para, Sica. Tudo vai dar certo, com certeza. Suspiro. Não creio que o tumor tenha feito isso, muito menos os cirurgiões. Talvez tenha sido a anestesia? Quem sabe. Eu tenho tantos pensamentos, que não podê-los expressá-los me deixa raivosa.
Dou um soco no travesseiro.
– Jessica — O doutor entra na sala, se assustando com meu comportamento. — Eu tomei a liberdade de chamar uma fonoaudióloga. Esta é a doutora Hudson.
Uma morena dos olhos castanhos e provavelmente 30 anos entra no quarto, sorrindo. Ela se aproxima de mim.
– Olá. — Ela segura minha mão. — Sou Anna Hudson. Vim te ajudar. Você pode me ouvir, não é?
Assinto.
– Bem. — Ela sorri ainda mais. — Você consegue emitir algum som?
Assinto mais uma vez.
– O que você consegue falar?
Olho para o doutor Flinn, que anota tudo em um bloco de notas. Ele balança a cabeça para cima e para baixo, lentamente.
Tento falar meu nome, mas o que sai mais parece Xechissa. Uau, um avanço!
– É seu nome? Você quis dizer Jessica?
Faço um sinal de positivo com meu polegar. Ela olha para Flinn, que sorri. Dá pra ver que ele está muito aliviado.
– Ela não conseguia articular praticamente nada mais cedo.
– Talvez tenha sido por causa do nervosismo por não conseguir falar. — Ela explica tanto para ele quanto para mim. — Isso é muito bom, Jessica.
Sorrio.
– Quero que você tente falar o máximo que conseguir, mesmo que ninguém te entenda.
– Aham. — Falo, e assim que fecho a boca me espanto. Bem, pelo menos posso concordar!
– Bem, quero que você me fale o básico sobre você. — Ela me pede.
– Xov ge Xiato. — Deus, que merda é essa que eu falei?
– Agora eu quero que você escreva o que disse.
Pego meu bloquinho e anoto Sou de Seattle. Sim, foi isso que eu falei, pelo menos eu quis falar.
– Oh, sim... Washington, certo?
– É. — Monossilábicos eu consigo com perfeição.
– Sim. Fale-me sobre sua família. — Ela realmente quer que eu converse, mesmo nesse estado.
– Tenjo um pai, uma mãe e uma igmã. — Digo lentamente, e ela assente. Graças a Deus ela entendeu. — Tenjo um madigo e vou teg doix bebêz.
– Oh, sim, eu soube.
– Migna cagela eztá com migna tia, em Xiato. — Eu completo.
– Você tem uma cadela? Qual é o nome dela?
– Lo-la. — Silabo. — Uma xivava.
– Chihuahua. Sei. — Deus, ela compreendeu? Nem eu me entendi... — Eu também tenho um, mas é macho.
– Zéguio? — Pergunto. Se você não entendeu, eu disse "sério?". — Que lecau!
– Aham. — Ela diz — Acho que você forçou sua voz demais por hoje. Quero que descanse muito.
– Doutoga, eu vou voltag a falag nogmalmente? — Pergunto, quase chorando.
– Tenho quase certeza. — Ela responde e se volta para o doutor. — Creio que o tumor tenha danificado algumas células, mas não danificou a região toda. Ela é jovem, vai recuperar a fala sim.
– Ainga bem! — Eu digo, e eles me lançam um olhar compreensivo.
– Eu vou avisar à sua mãe que você está tendo avanços. — Ela diz. — E tente descansar.
– Sim. — Por fim digo, deitando-me de lado. Ela sai do quarto, juntamente com doutor Flinn.
Deus... Pelo menos eu consigo falar alguma coisa. Eu realmente espero que volte a falar. Sei que não vai ser logo, mas eu quero. E eu pensando que, depois de todas as coisas que passei, eu teria um descanso. Deus, você está me testando por quê?
Caio no sono.
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