Acordo, sem me levantar da cama. Olho para os lados, me acostumando com a claridade do meu quarto, e lentamente me sento e espreguiço. Já são oito, então eu não vou para a escola, de novo. Olho para a minha cama e vejo um papel. Sim, o papel da poesia... Lembro-me de quando o li. Só de pensar nele, procurando sonetos para mim... Me faz ficar tão alegre!

Vou para o banheiro, tomar banho. Passo um bom tempo sonhando acordada, em quando eu vou reencontrá-lo... Me assusto quando escuto alguém me chamar.

— Sica? Jessica, cadê você? — Escuto uma voz masculina. Papai.

— Estou no banheiro, papai.... — O que será que ele faz aqui tão cedo?

— Quando você terminar, desça. Já está na mesa.

Eu termino o banho e me visto, correndo para entender por que ele chegou tão cedo.

— Papai! — Eu o abraço, ele sentado na mesa de jantar. — Aqui tão cedo!

— Cedo? — Ele ri. — Eu dormi aqui.

Eu e Lilian ficamos confusos ao mesmo tempo.

— Como assim? — Olho para ele, confusa. — O senhor estava aqui ontem?

— Eu cheguei tarde, mas vim ontem sim. — Ele olha para mim, corando.

Depois de dois segundos entendo tudo o que aquela frase queria dizer.

— Oh meu Deus! Você e a mamãe... — Eu rio e ele cai na gargalhada, envergonhadíssimo. — Cadê ela, por acaso?

Escuto alguns passos.

— Estou aqui, Sica. — Olho para a escada e mamãe está lá, descendo-a.

Ela está alegre e sorridente, e faz muito tempo que não a vejo assim, ou melhor, que não a vejo tentar esconder sua felicidade. Ela está tão radiante que seu rosto parece ter rejuvenescido uns cinco anos. Ela se encolhe nos próprios braços, o começo do outono parece estar fazendo efeito nela.

— Oi, mãezinha. — Abraço-a e percebo que ela acabou de tomar banho. — Então quer dizer que meu paizinho dormiu aqui, é? Onde?

— Sica... bem... ora... — Ela fica nervosa. — Isso é invasão de privacidade, minha querida.

— Sei. – Dou uma piscadinha para mamãe. – Vou considerar isso como um "ele dormiu coladinho à mim".

Ela fica extremamente vermelha e papai começa a rir. Sento-me na cadeira e me sirvo com café e pão. Eles ficam se olhando com um sorrisinho. Vê-los felizes, um ao lado do outro, me faz bem. Sei que a mãgoa de minha mãe não desapareceu completamente, mas sinto que ela está dando mais uma chance para seu coração, e fico feliz por ela. Continuamos nosso café da manhã e lavamos nosso prato depois que terminamos.

Vou para meu quarto e depois de um tempo papai sobe para falar comigo.

— Jessica, meu bem... — Papai fala. — Eu e sua mãe vamos trabalhar agora. Qualquer coisa você liga pra gente, viu?

— Tudo bem, papai. — Falo, sorrindo. — Eu vou ficar legal.

— De qualquer forma, lá para às onze e meia eu chegarei em casa com o almoço.

Assinto para ele, sorrindo. Ele se aproxima de mim e beija o topo da minha cabeça. Quando ele sai, pego meu livro e leio-o completamente. Quando olho para o relógio, já são quase onze. Meu Deus, como o tempo passa rápido!

Tomo um susto ao ver meu celular tocar. Olho para a tela e vejo: Steven.

— Oi, Jessica. — Ele fala, ainda com uma voz sonolenta. — Tudo bem com você?

— Sim, Steven. — Respondo, alegre. — E você, como vai?

— Vou bem, obrigado. — Ficamos um tempo em silêncio, um silêncio bem constrangedor. — Bom, eu queria perguntar se podia ir te visitar hoje. Desculpa por ligar assim, mas é que preciso conversar com alguém.

— Conversar sobre a morte? – Pergunto. No começo acho que ele me levou a sério, mas assim que escuto sua risada, sinto-me aliviada.

— Provavelmente.

— Bem, por que não? Anota aí. — Espero ele pegar um papel e caneta e falo meu endereço para ele. — E que horas você pretende vir?

— No melhor horário para você, Jessica. — Ele responde, e sinto que ele está sorrindo.

— Se é assim... que tal às seis? — Falo.

— Às seis, então. — Ele responde. — Até mais.

— Até. — Desligo.

Guardo meu livro e desço para a sala. Ligo a TV e tento achar, sem sucesso, um programa que preste. Deus, detesto essa vida de folga... Acho que nunca na minha vida senti vontade de ir à escola, porém aqui estou eu, morrendo de saudades daquele professor com o cabelo esquisito, da professora que se veste escandalosamente, e de tantos outros... Antes que eu perceba, já são onze e quarenta... cadê meu pai?

— Comida! — Vejo-o abrir a porta de casa, segurando umas quentinhas. Ele deve ter adivinhado meus pensamentos. — Jessica? Onde você está?

— Bem aqui, pai! — Falo, e finalmente ele olha para mim.

— Ah, você está aí? Desculpa, eu não te vi. — Ele sorri um pouco forçado. — Trouxe comida.

— Percebi. — Pego as sacolas e coloco-as na mesa. Ele se senta enquanto pego os pratos, coloco-os na mesa e ele se serve. Sento ao seu lado e sirvo-me.

— Pai... — Começo, e ele olha para mim. — Tem um garoto, o Steven, ele vai vir hoje aqui em casa, mais tarde. — Falo. Ele olha um pouco confuso. — Tudo bem?

— Você não está perguntando se ele pode vir. Você só está informando. — Ele fala e come mais uma colherada de arroz. — Sua mãe sabe quem é ele?

— Sim. Eu o conheci na quimioterapia, e ela também estava lá. — Falo, mas a aparência dele ainda parece confusa.

— Mas e o Hector? — Ele pergunta. — Pensei que vocês estivessem namorando.

Paro de comer e encaro meu pai com um pouco de indignação.

— E não estamos? — Olho para ele, incrédula. — Pai, só porque ele vem aqui não significa que eu estou com ele, ou a fim dele, ou qualquer coisa do tipo. Porque vocês presumem tanto isso? — Pego meu prato e vou para a sala.

— Jessica... Não fique brava! — Ele fala, com um tom de desculpas. — Não falei isso por mal. Desculpa.

— Eu... Eu sei que não falou por mal, pai. Mas é que estou farta disso. – Solto meus talheres. – Até a Lil já falou isso que o senhor acabou de falar! Puxa, isso me deixa chateada. Quer dizer que eu não posso ter amigos? Somente amigas?

— Não é isso, filhotinha. — Ele se levanta e me abraça. — Desculpa. Eu realmente não quis dizer isso.

Volto para a mesa, mas não falo nada. Sério, eu detesto isso. Eu tenho o direito de ter amigos do gênero que eu quiser, não? Então por que essa cisma com o Steven? Papai nem chegou a conhecê-lo, ou pelo menos a vê-lo e já cria opiniões... Isso é um saco.

— Tenho que ir, Sica. — Ele fala, depois de terminar seu almoço. — Mais trabalho.

— Tudo bem. — Falo, mas não olho nos olhos dele.

— Que horas ele vem? — Ele pergunta enquanto pega sua pasta.

— Às seis. — Falo, e percebo que ele suspira aliviado.

— Ah, bom! Pelo menos Lilian estará aqui para vigiar. — Olho para ele com uma cara zangada. — Desculpa, desculpa.

Ele sai e me deixa com a louça toda para lavar. Que belo pai, hein? Depois que lavo tudo vou para meu quarto, tomar um banho. Eu me sinto tão canada que depois do banho me deito, quase adormecendo...

—------------------------------------------------------------------------------------

Acordo novamente. Olho para o relógio e vejo que já são cinco horas da tarde — É, eu durmo muito. Levanto-me e pego o meu celular. Ligo para a minha mãe e digo que vou dar uma volta na praça aqui perto. Tá, eu sei que é estranho eu ligar para ela somente para avisar isso, mas sei que ela quereria saber onde eu vou. Ela concorda e desliga.

Saio, trancando a porta e levando somente dinheiro suficiente para um sorvete. Sei que não posso, mas tudo bem só uma vez, não é? Ando em direção à pequena pracinha que fica a poucos metros de casa. É incrível como eu achava que iria me acostumar com os olhares das pessoas. Claro que não. Me sinto totalmente esquisita, praticamente um alien andando pelas ruas. Por favor, que não chamem a NASA!

Vou comprar o sorvete. Pergunto ao sorveteiro se ele tem algum sorvete sem lactose, e ele confirma que tem de chocolate, o que é um alívio para mim. Quando entrego o dinheiro, noto que ele fica me olhando um pouco confuso, mas não fala nada. Quando ele me entrega a casquinha, ele resolve falar.

— Com licença, posso perguntar uma coisa?

— Ah... Claro. — Respondo um pouco confusa. Nunca fui parada por nenhum estranho para nada.

— Por que você raspou o cabelo? — Ele fala, e coça a cabeça. — Já lhe vi algumas vezes aqui com sua mãe, presumo. Você tinha cabelos bonitos.

— Oh. Obrigada, mas não foi porque quis. Eu tive que fazer uma cirurgia.

Percebo que ele quer perguntar mais, mas permanece calado. Eu o pago e saio, de volta para casa. Eu estou tão cansada... Sento-me no sofá e só depois percebo que já era para Lilian estar em casa.

— Lil? — Saio perguntando pela casa. — Você já chegou?

— Acabei de chegar, mana. — Olho para a porta da sala e vejo minha irmã descendo das escadas. — Desculpa se demorei. É que eu estava com o Chris, sabe...

Ela abre um sorriso enorme.

— Ah, então a mocinha aqui estava ocupada demais com o namorado! — Sorrio e a abraço. — E aí, ele gosta mesmo de você?

— Acho que sim. Ele me deu isso. — Ela abre sua mochila e tira um lindo panda de pelúcia. — Não é fofo?

— Que lindinho! — Sorrio enquanto seguro o presente dela.

— Ai, Sica... ele é tão... Perfeito!

— Que bom, minha irmã. — Abraço-a novamente. — Só não quero que, se por acaso não dê certo, você fique triste. Triste, você sabe, daquele jeito. Como você havia ficado...

— Eu sei, maninha. Prometo que não farei aquilo de novo.

Ela beija minha bochecha e sobe para seu quarto. Vou até a cozinha, para preparar alguma coisa para ela comer. Alguns minutos depois ela desce e olha o que eu estou fazendo.

— Biscoitos! — Ela beija minha bochecha de novo. — Para nós?

— Mais para você. Eu não estou com tanta fome assim, e você sabe que não posso ficar comendo essas coisas. Além do mais, daqui a pouco o Steven vem aqui em casa.

— Ele vem? — Ela me olha, um pouco surpresa, ou talvez indignada. — Como assim?

— Ele vem me visitar. – Já fico um pouco com raiva. – Qual é o problema, hein, Lilian?

Não preciso vê-la para saber que ela está dando de ombros.

— Nada. É que você mal conhece ele e já vem o convidando para vir aqui em casa?

— O que é que tem? – Olho para ela. – Por acaso eu conhecia muito bem o Hector quando ele veio aqui?

— Não. Mas ainda assim... — Ela fica calada. — Bem, se ele vem, não posso fazer nada.

Ela sai e vai até a sala, assistir TV. Tiro os biscoitos do fogo e os deixo esfriar antes de enfeitá-los. Já são quase seis. Olho para a porta e espero, um pouco ansiosa? Talvez. Eu não sei bem. Finalmente a campainha toca, e corro para a porta.

— Oi, Jessica. — Steven me abraça e beija minha bochecha. — Posso entrar?

— Claro! — Sorrio e deixo-o entrar. Ele olha para o sofá e vê Lilian olhando para ele. — Steven, essa é a minha irmã, Lilian. Lilian, esse é Steven.

— Oi, Lilian. — Ele s aproxima dela. — É um prazer conhecê-la.

Os olhos dela estão arregalados. Não sei o que deu nela, mas Lil dá uma leve arrumada em suas roupas. Sei que ela está arrependida por estar usando pantufas velhas e rasgadas.

— Oi. — Ela se levanta e ajeita os cabelos. Essa Lil... — O prazer é todo meu.

Ele sorri e ela fica ainda mais corada do que já estava. E pensar que a poucos minutos ela estava falando mal dele...

— Sente-se, Steven. — Faço menção para ele se sentar no sofá. Ele o faz e olha para os lados.

— Bela casa, Jessica. — Ele sorri.

— Pode me chamar de Sica. É meu apelido.

— Está bem, Sica. — Ele parece alegre. — Gosto desse apelido.

— Obrigada. — Sento-me ao lado dele.

— Bem, eu vou ali no meu quarto. Volto já! — Lilian parecia nervosa. Ela se levanta e sai, quase correndo. Lilian...

Olho para Steven e vejo que há um leve sorriso estampado em seu rosto.

— Sua irmã é sempre envergonhada assim? – Ele pergunta.

— Só quando tem garotos por perto. – Respondo-o, e ele assente com a cabeça. – Principalmente quando ela está um pouco desleixada. Ela detesta ficar feia na frente dos outros, sabe?

— Pois diga para ela que ela não precisa se esconder de ninguém. – Ele pisca para mim. – Ela já é bonita mesmo desarrumada.

Arqueio minhas sobrancelhas e ele deixa um riso escapar. Então ele é assim com todas as garotas bonitas que ele conhece?

— Para a sua informação, Steven, Lil também tem namorado.

É a vez dele de corar.

— Não quis deixar essa impressão. Desculpe-me. – Ele me parece sincero. – Mas acho que para alguém que veio falar sobre morte, eu estou muito bem humorado, não?

— Com certeza. – Sorrio. – E então? Falaremos de nossos caixões ou de nossas lápides?

— Falaremos de você. Como está depois da primeira sessão? — Ele pergunta, olhando para mim com ternura.

— Eu estou bem. Um pouco cansada, me sentindo meio mal, mas bem. — Sorrio. – E você?

— Bem, também. Eu estava ansioso para te ver novamente. — Ele fala e olha para o chão, envergonhado.

— Steven... Você sabe que eu tenho...

— Eu só disse que estava com saudades. — Ele fala, um pouco nervoso. — Desculpa. É que eu não consegui parar de pensar em você. Acho que eu... — Ele se aproxima de mim. Oh-oh...

— Para, Steven! — Falo, quase gritando. — Se continuar assim vai embora da minha ca-

— Sica, estou entrando... — Hector repentinamente entra na sala. — A porta estava aberta e... Oi? — Ele olha para mim, confuso. Depois para Steven, e depois para mim de novo.

— Oi, Hector... — Me levanto do sofá e o abraço. — Esse é o Steven. A gente se conheceu na quimioterapia. Falei pra você, sim?

— Falou. Olá, bom te conhecer. — Hector se aproxima dele e estenda a mão. Ele está muito sério.

— Olá. Também é bom te conhecer. — Ele aperta a mão dele. — Então você é o namorado da Jessica. Ela me falou muito de você.

— É? Bom saber. — Ele fala, olhando para mim. Merda... Ele está com raiva.

Escuto um som estranho, e vejo Steven pegar seu celular. Quando ele atende a chamada, noto que ele está falando com sua mãe. Ele desliga depois de alguns minutos, parecendo um pouco chateado.

— Bom, Jessica, já está na minha hora. — Steven se despede. – Acho que deveria ter combinado de vir mais cedo. Assim teríamos mais tempo antes que minha mãe me obrigasse a voltar pra casa.

— Mas você nem comeu dos biscoitos que fiz... – Vou até a cozinha e pego a bandeja de biscoitos. – Esses daqui não tem lactose. E são mais fofos também, não sei se isso lhe ajuda na hora de comer...

— Você fez biscoitos? — Hector olha para mim, incrédulo. — Bem, não há problema. Você pode colocar um pouco em um pote e entregá-lo.

— Mas... — Falo, mas Steven olha para mim meio nervoso.

— Tudo bem, Sica. Outro dia eu provo seus biscoitos. — Ela fala, e Hector se vira para ele, olhando-o com um olhar mortal. Meu Deus...

— Então até outro dia. — Falo, e ele me abraça. Caramba, sei que isso é só para provocar Hector.

Acompanho-o até a porta e Steven se despede mais uma vez de mim e de Hector, além de pedir para que eu me despeça de Lilian por ele. Depois que ele sai, Hector olha para mim, mas não diz nada. Ele vai em direção ao sofá e se senta.

— Hector... — Falo, mas ele não responde. Insisto.

— O quê, Sica? — Ele fala, bravo. — O que é?

— Você está estranho. — Falo, mas não consigo conter o sorriso. — Você está com ciúmes?

— Eu? Claro que não... — Ele olha para os lados. Que fofo!

— Claro que está. — Sorrio e o abraço. — E, apesar de não precisar de tudo isso, achei um pouco fofinho. De verdade.

Aproximo-o dele, sento-me ao lado dele e o beijo. Ele não corresponde no começo, mas logo cede. Separo-me dele e ele olha para mim.

— Desculpa. É que te ver com outro garoto me faz sentir tão... esquisito. Eu não gostei dele.

— Sinto lhe informar, mas ele é meu amigo. – Digo, mas sua expressão ainda é estranha. Sei que é difícil para os outros entenderem que eu preciso de alguém pra conversar que saiba exatamente o que eu estou passando. – Ele vai vir aqui em casa mais vezes, vai ser inevitável que eu o encontre, já que ele também faz quimio. Você não pode fazer nada.

— Eu podia o ensinar uma lição. — Ele fala. — Sobre não se meter com a namorada dos outros.

— HECTOR! — Grito, batendo em seu ombro com um pouco de força.

— AI, SICA! — Ele grita de volta, mas me agarra em um segundo. — Me desculpa. Mesmo.

Eu acaricio seu rosto e ele sorri. Beijo sua testa e ele ajeita meu lenço.

— Não precisa se desculpar. Se fosse eu que entrasse na sua casa e te encontrasse com outra garota, eu surtaria.

— Isso jamais vai acontecer. — Ele beija minha testa e depois minha boca. Ele é tão carinhoso... Eu amo o jeito dele de ser. Amo.

Vejo Lilian descer as escadas e noto que ela está totalmente diferente. Trocou as roupas, arrumou os cabelos, parecia pronta para sair. Quase que eu não conseguia esconder minha risada.

— Oi, Hector! — Ela bagunça o cabelo dele. — Como vai você?

— Vou bem, cunhadinha. — Ele sorri para ela.

Minha irmã olha para os lados, mas não encontra o que procura.

— Ué, cadê o Steven?

— Ele já foi embora, Lil. — Respondo, e ela parece um pouco cabisbaixa. — Ele pediu para eu dizer tchau a você por ele. Ah, ele também disse que você fica bonita até de pantufas rasgadas.

Ela arregala os olhos.

— Ele disse isso mesmo? – Ela pergunta, e realmente não sei se ela está contente ou envergonhada.

— Você me parece tão feliz por isso... – Murmuro. – Pensei que você gostasse do Chris.

— E eu gosto, mas... sei lá... oras! — Ela fica nervosa e volta para seu quarto. Eu e Hector começamos a rir.

Ele me abraça novamente, e sinto sua respiração em meu pescoço. Isso é quase como um analgésico para mim.

— Eu te amo. — De repente ele fala, me deixando surpresa. — Eu te amo, desde o dia em que te conheci.

— Mentiroso. Você só foi me amar depois de duas semanas. — Brinco e ele sorri. — Eu também te amo. Eu te amo mesmo.

Ele me traz para mais perto dele e ficamos assim até que mamãe e papai entram em casa.

— E então a Marlene falou... — Mamãe olha para mim e papai faz o mesmo. — Oi, filhinha! Tudo bem?

— Tudo, mãezinha, paizinho. — Falo e Hector se levanta para cumprimentá-los.

Meu namorado se volta para mim e me dá um beijo na testa.

— Já está tarde. Eu já vou indo. A propósito, Gwen mandou te perguntar se gostaria de ir ao cinema amanhã. Eu, você, ela e o namorado dela. Pode ser?

— Claro! Enfim iremos para um encontro de verdade, não? — Sorrio, e ele concorda com a cabeça. — Amanhã às sete?

— Às sete. — Ele sorri e me beija. — Até amanhã.

— Até.

Ele sai. Mamãe olha para mim e sorri.

— Você está feliz. — Ela olha para mim. — Estou feliz por isso.

— Obrigada. — Abraço os dois.

— Espera aí... Isso é cheiro de biscoito? — Papai pergunta, esfregando as mãos.

Sorrio e todos nós vamos para a cozinha.