Jeremy & Caleb
1 Capítulo I - Acabaremos assim?
Notas iniciais
Ambos se encaravam sentados ao chão cada um com as costas apoiadas em paredes opostas do apertado cômodo. Respiravam ofegantes enquanto estudavam as marcas vermelhas nas faces, as linhas finas de sangue que escorriam dos lábios de um e de um leve corte na sobrancelha esquerda do outro e por fim os arranhões nos braços, resultado do confronto corporal dos dois homens.
— Então é assim que iremos acabar... — Pronunciou-se o de camisa azul suspirando e direcionando o olhar para o teto branco e desinteressante. — Nunca pensei nesse desfecho.
— Quanta falta de criatividade. — Retrucou o de cabelos castanho avelã expondo brevemente um sorriso sem humor. — Terminamos do mesmo modo que começamos: nos estapeando.
— No início nossas brigas eram apenas encenadas, para que assim ninguém desconfiasse de nós. Mas agora...- tocou os próprios lábios para comprovar que o sabor amargo em sua boca não vinha apenas da situação indigesta — você me fez sangrar.
— Não é minha culpa se você é fraco e não aguenta uns soquinhos. — Sorriu divertido.
— Se pudesse se olhar nesse momento tenho certeza que não diria que sou tão fraco assim.
O homem de fios avelã e olhos verdes escuros com pontos em marrom optou por não mais falar. Não relutou em deixar que o ambiente fosse tomado pelo silêncio entediante, porque mesmo que a dor que sentia em suas costas por conta do empurrão que levara o permitisse andar até o espelho para verificar seu estado horrível no espelho ele não o faria. Não era de seu interesse confirmar as marcas negativas que seu amado havia deixado em si e, em verdade, não lhe agradava nem mesmo fitar os hematomas que ele próprio havia causado ao outro e por isso desviou sua íris para o chão de madeira que por vezes o irritava por ranger nos momentos menos esperados.
— Prometo que vou para minha casa assim que me sentir um pouco melhor.
— Não se preocupe com isso, sua presença não me incomoda. — falou sincero ainda fitando o chão. — e não me importo também se precisar utilizar minha caixa de primeiros socorros.
— Você é bem contraditório. Primeiro me enche de socos e depois me oferece curativos.
— Pena que sua ironia não seja novidade para mim. — pausou — mas você está certo, nós não costumamos resolver nossos problemas com agressões físicas eu agi de forma errada.
— Você começou e eu continuei. Agimos como irracionais.
— Nós estamos mesmo fazendo as pazes? Porque juro que voltei para casa hoje com a intenção de terminar nosso relacionamento.
O homem de camisa azul e pele bronzeada ouviu as palavras com o ouvido e sentiu-as no coração magoando-o. Ouvir a confirmação era desconcertante, pois não podia contradize-lo. Não tinha como controlar as ações do outro.
— Não. Nós não estamos fazendo as pazes. Estamos apenas nos despedindo de uma maneira...amigável, porque você e eu sabemos que quando eu sair pela porta seremos duas pessoas que se esbarraram em algum momento da vida e depois seguiram sozinhas.
— Que dramático. Não tem que evaporar do planeta só porque não somos mais namorados.
— Vou sumir para te esquecer mais rápido.
O homem de olhos verdes que tinha um filete de sangue seco na altura da sobrancelha nada disse. Mas por dentro divagava sobre como haviam chegado aquela situação: sentados ao chão, cansados e horríveis pela luta de pouco mais de quatro minutos dando fim melancólico a sua história conjunta de sete anos de carinho, respeito e dificuldades. Eram homens afinal e estarem juntos não era socialmente aceitável, fazendo com que a princípio fingissem rivalidade e hostilidade um para com o outro no intuito de dissipar qualquer suspeita que seus olhares, por ventura descuidados, pudessem causar.
Levara dois anos para que se considerassem prontos a exporem seus sentimentos e lutarem juntos contra aqueles que o julgariam e condenariam e também aqueles que os apoiariam.
Era tão revigorante sentir-se liberto a chamar o outro por nomes afetivos em público, ainda que não pudesse abraçá-lo e tocá-lo em demasiado. Aqueles olhos negros, a pele bronzeada e os cabelos loiros lhe pertenciam assim como seu coração e todos sabiam disso.
— Acho que aceito os curativos agora.
***
Era o último band-aid da pequena caixa e serviria para cobrir o último corte na bochecha bronzeada feito pelo anel que o outro usava no dedo anelar quando lhe desferiu o segundo soco. O homem de cabelos castanhos empenhou-se em manusear o objeto com delicadeza a fim de evitar causar dor ao outro. Desceu o olhar para o lábio inferior alheio que apresentava um corte raso e depositou ali um selinho suave que durou míseros segundos antes que sentisse o outro recuar sob seu toque.
— Não faz isso.
Os olhos verdes se entristeceram e a voz na garganta soou nostálgica.
— Você sempre disse que meus beijos ajudavam a sarar suas dores.
— Isso foi antes. — suspirou chateado — obrigado pelo curativo mas acho que já vou indo. O homem de cabelos castanho avelã reprimiu o impulso de pedir que o outro ficasse mais tempo.
Era o fim afinal de contas e não havia motivos para estender a situação desconcertante do término. Aos olhos de outrem tal decisão poderia parecer exagerada, no entanto a verdade é que pequenas rachaduras foram surgindo, principalmente, ao longo dos últimos meses no cristal belo porém quebrável de sua relação dificultando sua capacidade de manter-se intacto. Talvez não houvessem perdido o afeto mas sim a sincronia. Tornaram-se mais maduros com a idade e por consequência indivíduos diferentes não somente do que eram antes mas um do outro.
O loiro ergueu-se do chão expressando ligeiras caretas pelo corpo dolorido e olhou apenas mais uma vez para o homem a quem amara por tanto tempo, focando em sua face bonita e gravando-a em seu coração antes de sair pela porta branca. Esta que nunca pareceu tão interessante ao moreno que fitava-a fixamente com uma fagulha de esperança no peito de que o outro voltaria e lhe diria que só porque um instrumento parou de funcionar, momentaneamente, isso não torna-o menos fascinante e que, o dono dos olhos verdes não passava de um tolo infantil por querer solucionar seus problemas livrando-se do que apenas "parece" sem concerto. Que o loiro pegaria em sua mão e iria proferir-lhe coisas doces e incentivadoras para fazê-lo mudar de ideia assim como nos filmes de romance.
Mas a porta não foi aberta e nem mesmo ouviram-se batidas na madeira. Caleb também já havia tomado sua decisão: aceitar o fim e criar um novo começo.
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