Jeremy & Caleb

2 Capítulo II - Como Me Senti


Notas iniciais
Boa Leitura ^^

Era noite, quase madrugada mas francamente não fazia-lhe diferença. Acostumou-se relativamente rápido a rotina de dormir tarde por conta do trabalho e acordar mais tarde ainda por conta do cansaço.

Ao olhar entediado para o relógio lembrou-se da mania que seu ex-parceiro tinha de, vez ou outra, programar o despertador no meio da noite apenas para dar-lhe bronca afirmando que não é benéfico a saúde trocar o dia pela noite e depois massagear seus ombros e roubar-lhe a atenção do que estava fazendo distribuindo beijinhos meigos pela face, arrancando sorrisinhos do moreno e por fim puxava-o para o quarto com o singelo intuito de tê-lo em seus braços e sentir o calor do outro junto a si. Embora, claro, às vezes tivesse segundas intenções ocultas em suas ações.

Afastou as recordações da mente e forçou-se a concentrar-se na pesquisa que estava fazendo, afinal era sobre um assunto interessante até e a leitura era-lhe agradável. Demorou mais do que de costume para terminar o artigo, mas ao menos o fez. Passou a mão nos cabelos e sentiu com o final da palma da mão algo ligeiramente áspero na sobrancelha e lembrou-se da briga cujo motivo, agora, lhe parecia vago e bobo. Assim como quando tinham seus quatorze anos de idade e usavam qualquer pretexto inconsistente para simular insultos e rivalidade na frente daqueles que os condenariam por seu afeto e que um dia ousaram chamar de amigos. Ambos eram tão inocentes naquele tempo. Tão desprovidos de conhecimento do que iria vir daquele encontro casual no vestiário do colégio após a aula de educação física.

~Flash Back On~

O moreno não reparara que observava em excesso o tórax desnudo do outro que trocava a camisa suada.

— O que foi?

— Você é bonito. — Disse sinceramente e desviou as íris esverdeadas para olhar para o próprio corpo — gostaria de ser assim também.

O loiro observou-o mais atentamente desta vez e disse para tranquilizá-lo:

— Você também é bonito.

— Minha mãe me diz esta mesma frase com o mesmo tom que você usou.

— Ah, desculpe — coçou a cabeça encabulado — Mas não precisa se preocupar tanto com isso agora. As pessoas são diferentes e crescem em tempos diferentes também! Um grande exemplo disso são as meninas que vivem se gabando por "amadurecerem mais rápido".- passou a gola da camisa do uniforme pela cabeça — se quer saber acho que não devia ter tanta pressa. Nessas férias fui visitar minha prima em outra cidade e realmente estava ansioso por revê-la e brincar com ela, mas quando a vi,bem... — o garoto fez gestos desajeitados com as mãos — tinha equipamentos a mais.

O garoto de cabelos castanhos não entendeu então questionou:

— Que tipo de equipamentos?

O loiro pensou um pouco e fechou as mãos em punhos e enfiou-as desse modo por debaixo da própria blusa posicionando-as em cima dos mamilos, simulando seios.

— Oh, acho que entendi.

— Que bom. — riu — Mas foi bem chato ficar lá já que ela raramente brincava comigo e só queria pintar unhas e encher o rosto de maquiagem. — falou entediado mas logo retornou ao tom costumeiro — Então relaxa, porque você não se desenvolveu completamente ainda, mas isso logo vai acontecer.

Ofereceu ao outro um sorriso sincero e foi retribuído a mesma altura.

Era o início de um bela amizade e de fato foi até dois meses e meio depois quando um ato alterou a palavra "amizade" da frase.

Os lábios de um tocavam os do outro delicadamente ainda incertos de como deveriam executar a ação. Pôs as mãos na face lisa e roçou a ponta dos dedos nos fios castanho avelã com a finalidade de obter mais controle sobre o ato, logo em seguida inclinando levemente a cabeça para o lado com havia visto nos filmes e fechou os olhos sendo copiado pelo outro, mas sentia que estava faltando algo.

Era apenas a segunda vez que beijara uma pessoa, isso se contasse com o selinho que trocou com a prima nas férias por ela ter insistido que era legal, então não podia dizer-se experiente. Sentiu algo mole e úmido se insinuar em seus lábios e um pouco surpreso com o ato ousado do outro abriu um pouco a boca deixando sua língua entrar. Não sabia o que fazer com tal músculo intruso em sua cavidade bucal e por impulso chupou-o desajeitadamente tocando-o com a própria língua enquanto sentia o corpo vibrar com a nova sensação. Continuou a explorar o que podia da boca do outro até ser educadamente empurrado pelo garoto de olhos esmeralda que arfava, um pouco sem ar.

Se fitaram por alguns minutos. Ambos corados e receosos de proferir a primeira frase, pois o que deveria ser dito naquele momento afinal? Não estavam certos se beijaram-se da forma correta e nem o que aquilo significava exatamente.

— Diz alguma coisa. — Jeremy disse impaciente, quebrando o silêncio.

— Diria se soubesse o que falar.

— Hum...você gostou? — questionou ansioso, sentindo os cantinhos da sua boca se elevarem ligeiramente quando Caleb assentiu — Então diz que gostou.

Sentindo as bochechas quentes ele disse quase em sussurro:

— Eu gostei. — engoliu um pouco de saliva e repetiu um pouco mais alto — Gostei de beijar você — Pausou pensando se devia ou não dizer-lhe. Decidiu-se por "sim" — e acho que quero te beijar de novo.

Boatos maldosos sobre sua amizade extremamente carinhosa surgiram e alcançaram os ouvidos de seus pais que de maneira sutil, ou nem tanto assim no caso do loiro, que tal afeto era errôneo e deveria ser evitado já que apenas levava por um caminho sinuoso de discriminação, estreito de dignidade e nada ou muito pouco de satisfatório ao fim do percurso. Com tão direto "estimulo" passou-lhes mesmo pela mente ser "bons meninos" e seguir as ordens disfarçadas de recomendações que seus responsáveis deram, porém seus corpos os contrariavam e acabaram por testar que tinham necessidade de estarem em contato, estando de bocas coladas ou mãos dadas ou até mesmo apenas no mesmo ambiente. Gostavam da companhia um do outro e de partilhar seu calor quando se abraçavam por minutos inteiros quando estavam em reservado protegidos do julgamento de seu pequeno mundo.

Por aquele momento, optaram por se distanciarem quando estivessem em público e talvez tal ideia tivesse obtido êxito se a falta de identificação de que o loiro tinha compromisso não causasse ao moreno certa insegurança e que por ciúme, numa monótona tarde, o garoto andara a passos firmes até onde o loiro de íris negras estava a sorrir animadamente para uma garota ruiva de cabelos curtos e bochechas sardentas que lhe retribui-a igualmente e tivesse-lhe agarrado pela gola do uniforme escolar e dito:

— Por que está me encarando?

O rosto antes feliz agora exibia expressão de surpresa e desentendimento pela ação tão abrupta e incoerente do amado que tentara passar-lhe alguma mensagem através do olhar.

— Responde! Não basta espalhar boatos infames sobre sermos supostamente íntimos, agora vai ficar me encarando?

O garoto de pele naturalmente bronzeada ainda estava atônito quando notou que as pupilas do moreno transitavam discretamente dele para a garota e logo chegou a conclusão de que inesperado ato vindo do outro só poderia ter ligação com a presença da ruiva ao seu lado. Então esforçou-se para encenar decentemente.

— Ora, tire as mãos de mim — retirou os dedos alheios de si não sem antes lhe fazer uma singela e breve carícia com o polegar — Não fui eu quem espalhou os boatos! E de qualquer modo a culpa é sua, se não fosse tão pegajoso quanto uma menina ninguém pensaria em inventar nada sobre nós.

— Bom, se me pareço tanto com uma garota você deveria gostar já que é tão macho.

O loiro notara que seu diálogo fictício já começava a atrair olhares dos alunos envolta que aparentavam não se importar em parar suas conversas próprias para apreciar a desgraça de outrem. Os olhos negros observavam as faces voltadas para si a espera de sua resposta, embora em verdade ele próprio não sabia como agir e nem o motivo do outro de querer chamar desnecessária atenção para eles. Fechou a cara em expressão raivosa.

— Seu abusado! — empurrou o outro com mais força do que pretendia fazendo-o desequilibrar-se um pouco, mas logo se estabilizando surpreendido com o ato grosseiro que para si pareceu tão real.

— Parem com isso, não briguem! — A garota de bochechas salpicadas e gloss transparente nos lábios pediu.

— Você viu, ele começou.

— E você vai terminar. — ela tocou o braço bronzeado um pouco abaixo de onde terminava a manga da blusa, encostando sua pele na dele. — Vamos. Não vale apena você levar suspensão. — Puxou-o para trás saindo do ambiente de braços dados a ele enquanto o garoto de cabelos castanho avelã assistia-o partir sem poder reivindicar sua posse.

Por que aquele garoto tinha que ser tão simpático com todos? Não poderia simplesmente ser mais reservado para evitar atiçar o ciúme dele?

Caminhou pelo pátio na direção oposta ao outro forçando-se a ignorar os olhares e murmúrios dos outros estudantes que ou presenciaram tola cena ou recebiam informações atrasadas.

Naquele mesmo dia, tarde da noite o garoto de olhos verdes com pontos marrons ainda permanecia acordado. Divagava sobre sua reação exacerbada diante a cena de seu amado sorrindo para outra pessoa e se era capaz de sustentar a farsa de não possuir sentimentos pelo loiro, afinal desagradava-lhe ter que restringir seu olhar encantado e somente poder dirigir-lhe palavras grosseiras e hostis.

Era cansativo não ser ele mesmo, mas teria de aguentar em favor do garoto de pele bronzeada, pois este recebeu um ultimato quase expresso que caso se envolvesse com o moreno teria de arrumar outro lar onde morar. E no intuito de resguardar o amado o garoto de olhos verdes, por conta própria, aceitava a dolorosa missão de reprimir os desejos de seu coração para não ter que ver o outro ao relento.

~Flash Back Off~

Tão jovens e inexperientes. De certo a idade traria-lhes mais maturidade, pensavam. Mas não atentaram para o fato de que nunca se é sábio o suficiente e na arte dos sentimentos o manual de instruções contém apenas uma regra: não procure razão. Procure o que deseja o coração.

Três anos depois mudaram-se de cidade e ingressaram em profissões distintas e que ambos gostavam embora o loiro tenha tido, inicialmente, dificuldade para encontrar emprego e o moreno optasse por ser seu próprio patrão já que não se encaixara em obedecer ordens que não fossem dele mesmo. Junto a incompatibilidade de horários foi somada a desatenção, falta de comunicação, excesso de "amigos" e assédio vindo do chefe de um certo loiro de olhos negros que alegava que o homem de olhos verdes não tinha motivo para se preocupar.

Não houve traição, pelo menos, não que soubesse, mas deixara de sentir em sua alma a chama abrasadora que o aquecia de dentro para fora e praticamente incinerava-o quando inflamada pela essência do loiro junto a si. Eram explosão que se tornara incêndio, depois fogueira que tornara-se chama de uma vela e por fim transformaram-se em cinzas.

Notas finais
Obrigado por ler até aqui.